FAZER LOGINEsther Hawthorne
Eu quase não dormi naquela noite.
Na verdade, não dormi.
Passei horas rolando na cama, com o corpo encolhido e o coração quebrado, tentando imaginar algum motivo… qualquer… que explicasse o que meu tio fizera. Mas nada fazia sentido.
Eu chorava.
Me escondia debaixo das cobertas.
Me abraçava, tentando me sentir inteira de novo.
Mas eu estava falhando.
Os dias seguintes não foram melhores.
Eu continuava presa naquele quarto enorme, frio, silencioso demais. A porta é sempre vigiada por dois seguranças. As janelas eram de vidro blindado, impossíveis de quebrar. Os corredores, quando eu os ouvia de longe, pareciam intermináveis, como se a casa toda fosse uma prisão planejada nos mínimos detalhes.
Eu estava viva. Mas não livre.
E isso me destruía um pouco mais a cada dia.
No terceiro dia, quando meu corpo já não tinha forças para chorar, ouvi batidas na porta.
Meu coração disparou.
— Senhora Hawthorne. — A voz era firme, masculina, sem emoção. — Abra a porta.
Eu me levantei devagar. Minha mão tremia enquanto segurava a maçaneta. Quando abri, só um pouco, vi um dos homens do Don parado ali, enorme, sério, usando preto da cabeça aos pés.
— Você precisa se alimentar. — Ele disse, estendendo um prato. — O Don vai querer vê-la em breve.
Meu estômago se revirou só de ouvir aquilo.
Mas eu peguei o prato, murmurando um “obrigada” quase inaudível, e fechei a porta rapidamente.
O prato tinha frutas, pão e uma vitamina. Eu bebi tudo devagar, tentando não enjoar.
Foram os primeiros alimentos decentes desde que cheguei. Eu sobrevivi só com água e algumas frutas. Meu corpo estava fraco, minha cabeça, pesada. Mas eu precisava recuperar alguma força… mesmo sem saber para quê.
Algumas horas se passaram, e eu me aproximei da janela, única coisa que me conectava ao mundo lá fora. Foi aí que o vi.
O Don.
Damian Moretti saiu de um carro importado preto, impecável. Passou a mão nos cabelos, empurrando-os para trás, enquanto dois de seus homens o acompanhavam. Ele tinha aquela presença… aquela forma de caminhar como se nada pudesse atingi-lo.
Meu peito apertou. Em breve, ele viria até meu quarto. E eu estava apavorada.
Foi então que a ideia surgiu. Eu precisava fugir.
Abri a porta devagar, com medo de encontrar alguém ali. Mas os seguranças não estavam na entrada. Talvez tivessem descido para acompanhar Damian. Aquela era com certeza minha única chance.
Meu coração batia tão rápido que parecia sacudir o meu corpo inteiro.
Eu saí para o corredor, respirando fundo, tentando não fazer barulho. Cada passo ecoava nos meus ouvidos, mesmo que não fizesse som algum. Eu precisava ser rápida.
Ouvi vozes. Passos.
Me escondi atrás de um armário no fundo do corredor, apertando o corpo contra a parede, como se pudesse desaparecer ali. As vozes se aproximaram.
— Ela não está no quarto. - disse um dos homens.
— Como assim? Quem estava na porta? - outro disse.
— Abram busca no corredor. Agora! - ordenou um deles.
O pânico subiu pela minha garganta. Eu não podia ser pega. Não ali. Não daquele jeito. Senti minhas mãos suarem enquanto olhava para os lados. Foi quando vi: uma janela do outro lado do corredor. Era alta, mas era minha única saída. Corri até ela. Sem pensar. Sem respirar.
Quando minhas mãos tocaram a janela e eu consegui destravá-la, uma voz cortou o ar atrás de mim.
— Ora, ora… — A voz dele era baixa, grave, iminente. — A coelhinha se cansou de se esconder e resolveu fugir de mim?
Meu coração quase explodiu.
Virei devagar, sentindo meu rosto queimar. Ele estava ali, Damian Moretti, parado no fim do corredor. O sorriso dele era curto, perigoso. Seus olhos escuros estavam fixos em mim como se eu fosse uma brincadeira pessoal.
Ele começou a andar na minha direção. Um passo. Depois, outro. Cada movimento firme, decidido.
Eu não conseguia me mexer.
Quando ele chegou perto o bastante, avançou sem hesitar. Sua mão segurou minha cintura e me prendeu contra a parede com força. A outra segurou meu rosto, guiando meu olhar para o dele, não havia distância entre nós. Eu podia sentir sua respiração quente na minha pele. Seu cheiro masculo, sua colonia, ele era tão quente, tão forte.
— Você realmente achou que podia fugir de mim? — Ele perguntou, a voz baixa, carregada de ironia e irritação mascarada.
Os homens dele apareceram no corredor, mas pararam ao ver a cena. Era claro: quando o Don estava envolvido, ninguém interferia.
Eu respirava rápido demais.
— Eu… eu não quero ficar aqui. — Eu disse, com a voz falhando. — Esse lugar não é meu… eu não pertenço a isso… por favor, me deixe ir embora, você não precisa de mim, eu não valo nada.
Os olhos dele pareciam queimar. Era raiva? Desejo? Eu não entendia.
— Não pertence? — Ele repetiu, inclinando o rosto até quase encostar no meu. — Você pertence a mim, Esther. E nunca vai sair daqui. Você é minha, toda minha, todo seu corpo... é tudo meu. - senti seu halito sobre meu rosto, cheiro de whisky, forte, alcool puro.
Minhas pernas fraquejaram, meu corpo tremia, mas eu não ia desistir, eu queria sair dali, aquele lugar não pertencia a mim, com esforço forcei minha voz a sair.
— Eu não escolhi isso. Eu não sei por que meu tio me vendeu… mas, eu não valo nada para você, nada.
O sorriso dele desapareceu. Foi substituído por algo mais frio.
Damian aproximou ainda mais o rosto do meu, como se estivesse prestes a me beijar, mas parou um segundo antes.
— Seu tio era um homem miserável. — Ele disse. — Se você ainda não sabia disso, creio que vai descobrir agora. Você vai saber em breve o porque dele ter feito isso e vai dar graças a Deus por estar aqui, na minha mansão, sobre minha proteção, Esther. - A voz dele ficou mais baixa, mais ameaçadora.
— E se você ousar fugir de novo… eu não serei gentil, é meu ultimo aviso, eu não sou tão paciente.
Ele se afastou de repente, como se tivesse encerrado o assunto. Olhou para os homens dele.
— Levem-na de volta ao quarto.
Eu fiquei parada, tremendo, enquanto o corredor se enchia de olhares ferozes dos capangas, como se eu fosse uma criminosa que merecia punição.
Meu corpo encolheu sozinho. Não havia saída. Não havia salvação. Então eu voltei para o quarto em silêncio, com a cabeça baixa e as mãos tremendo. Eu não tinha outra opção.
Damian Moretti.— Você vai me contar tudo.Inclinei um pouco mais o rosto.— A não ser… que prefira que eu coloque seus miolos para fora aqui mesmo.Mason ficou alguns segundos me encarando.O sangue escorria pelo rosto dele, manchando a camisa e pingando no chão de mármore. Mesmo machucado, ainda havia alguma coisa naquele olhar.Um sorriso. Pequeno. Sujo.Aquilo fez meu sangue ferver.— Você acha que eu tenho medo de você? — ele perguntou, cuspindo um pouco de sangue no chão.Fiquei em silêncio.A arma continuava encostada na testa dele.— Não. — respondi. — Acho que você já entendeu que deveria ter medo.O sorriso dele aumentou.— Então talvez devesse perguntar quem está por trás disso.Meu maxilar travou.— Estou perguntando.— Você não vai gostar da resposta.Apertei a arma contra a testa dele.— Fale.Mason respirou com dificuldade e soltou uma risada baixa.— Foi alguém que sabe que você está ficando poderoso demais, Damian. Alguém que sabe que seu império está crescendo rápido
Damian Moretti.A fumaça do cigarro subia devagar no meu escritório escuro, se espalhando pelo ar pesado enquanto eu encarava os relatórios sobre a mesa. Papéis, rotas, horários, movimentações.Nada ali parecia aleatório. Nada. O ataque no gramado não tinha sido sorte. O atirador sabia exatamente onde Esther estaria, em que momento, em qual parte da mansão. Ele tinha informação demais. Precisão demais. Isso significava uma coisa. Alguém estava falando. Alguém dentro da minha casa.Meu maxilar travou enquanto eu levava o copo de uísque aos lábios. O líquido desceu queimando, mas não o suficiente para apagar a irritação crescendo dentro de mim. Marcus morto. Esther sendo observada. Um atirador escondido nas colinas com uma foto recente dela.Aquilo não era só um ataque. Era infiltração. Era traição. E eu odiava duas coisas naquele mundo: fraqueza… e traição. Meu telefone tocou sobre a mesa. Peguei no segundo toque.— Fale.A voz do outro lado era de um dos meus homens. Um dos poucos em
Esther Hawthorne.O silêncio dentro do quarto estava me sufocando. Eu andava de um lado para o outro, os passos inquietos, descompassados, como se o movimento pudesse organizar o caos dentro da minha cabeça. Mas não organizava. Nada organizava.Tudo estava uma confusão, primeiro, pensava em Marcus, o que houve naquele dia foi estranho demais, rapido demais, depois, foi o tiro, o tal atirador, que estava escondido, eu não consegui o ver. O medo que ainda estava preso no meu peito como um nó apertado demais. Eu passei a mão pelo cabelo, respirando fundo, tentando me acalmar, mas era impossível. Estava acontecendo tudo rápido demais.Quem matou Marcus? Quem tentou atirar hoje? Era o mesmo inimigo? Era alguém diferente? E por quê? Por que tudo isso estava acontecendo… comigo?— Droga… — murmurei baixo, parando no meio do quarto.Eu não sabia de nada. Nada. E isso… Era o pior de tudo.Fechei os olhos por um segundo, tentando pensar com clareza, mas só vinha mais perguntas. Mais dúvidas. M
Damian Moretti.O som ainda ecoava na minha cabeça. O disparo... e estava próximo demais.Meu corpo reagiu antes da mente terminar de processar, puxando Esther contra mim, rolando com ela pelo gramado, protegendo, cobrindo, impedindo que qualquer outro tiro encontrasse o alvo que queriam atingir.Porque agora estava claro. Aquilo não era um aviso qualquer. Era um ataque direto.Minhas mãos ainda estavam firmes na cintura dela, sentindo o tremor leve do corpo sob o meu. Os olhos dela… estavam diferentes. Assustados. O pânico ali era real, cru, sem máscara. E aquilo… Me deixou furioso.— Respira. — murmurei, firme, autoritário, tentando manter o controle naquele caos que se formava ao nosso redor.Mas meus olhos… já estavam em outro lugar, procurando, calculando, caçando quem fez isso. E quando descobrisse, iria pagar com a vida. — Don! — um dos meus homens gritou, se aproximando com cautela. — Movimento na colina.Meu maxilar travou, claro, era um atirador à distância, covarde. Minha
Esther Hawthorne.O cheiro da grama ainda úmida invadiu meus sentidos assim que pisei no gramado, mas não foi isso que prendeu minha atenção.Foi ele. Damian. Ele estava de pé, no centro, cercado por homens armados, falando com firmeza, dando ordens com aquele tom que não aceitava questionamentos. Os seguranças estavam mais numerosos do que antes. Mais atentos. Mais tensos. Alguns com as mãos próximas às armas, outros analisando cada canto como se esperassem que algo acontecesse a qualquer segundo.E talvez esperassem mesmo. Não podíamos baixar a guarda, sei que Damian e seus olhos estão sempre alertas. Eu dei mais alguns passos, sentindo o peso daquele ambiente diferente. Mais fechado. Mais perigoso. Mais real. Eles estavam em alerta. Todos. Por causa do que tinha acontecido dias atrás.Por causa de Marcus.Meu peito apertou levemente com o pensamento, mas não parei. Continuei andando, firme, até que Damian virou o rosto na minha direção. Ele me viu. Claro que viu.Os olhos dele pas
Esther Hawthorne.O som da escova deslizando pelos meus cabelos era o único ruído dentro do quarto naquela manhã.Mas nem isso era suficiente para acalmar a confusão dentro da minha mente. Dias tinham se passado… e ainda assim, eu não conseguia esquecer.Sobre o Marcus. O jeito que ele falou comigo. O que ele disse… e principalmente… o que ele não disse.Ele iria me contar tanta coisa, estava nítido em seu olhar e agora, não iria saber de nada. Porque... Ele morreu, daquele jeito, tão rápido. Foi tudo tão silencioso, estranho demais. Meu estômago se apertou enquanto eu parava o movimento por um segundo, encarando meu reflexo no espelho.Quem tinha feito aquilo?Por quê?E… o mais importante… Ele morreu por minha causa?A ideia me atingiu com força. Se ele não tivesse falado comigo… Se não tivesse se aproximado…Ele ainda estaria vivo? Respirei fundo, tentando afastar aquele pensamento antes que ele se tornasse insuportável.Não. Aquilo não era coincidência. Era um aviso. E eu estava







