INICIAR SESIÓNO crepúsculo em Cape Cod tinha uma tonalidade que Gus não conseguia encontrar em nenhum outro lugar do mundo. Não era apenas o modo como o sol se escondia atrás das dunas, mas a forma como o céu se transformava em um degradê de lavanda e azul-marinho, fundindo-se com o oceano até que a linha do horizonte se tornasse uma sugestão subjetiva.
Dentro da casa, o caos organizado do primeiro jantar de verão estava em pleno vigor. Na cozinha, o som de facas batendo ritmadas contra tábuas de madeira misturava-se ao tilintar de taças de vinho. Susan e Eliza comandavam o fogão como se nunca tivessem passado um dia separadas, compartilhando segredos culinários e atualizações sobre a vida em Boston e Salem. Robert e Daniel, por sua vez, estavam na varanda dos fundos, o cheiro de carvão aceso e carne grelhada subindo em direção às janelas do andar de cima.
No corredor, a porta do quarto de hóspedes estava entreaberta. O som da voz de Anthony escapava de lá, animado e veloz. Ele estava jogado na cama, com o celular apoiado em um travesseiro, gesticulando para a tela enquanto explicava para um amigo de Salem as dimensões da casa e a promessa de ondas boas para o dia seguinte.
— Cara, eu tô te falando, a garagem aqui é do tamanho da nossa sala! — Anthony ria, a voz vibrando de excitação. — E o Gus tá aqui, ele cresceu pra caramba, parece que tá tomando adubo no café da manhã.
Gus, que passava pelo corredor em direção às escadas, sorriu de canto ao ouvir o comentário. Ele sentia uma estranha inquietação. A casa, antes silenciosa e organizada sob o comando de sua mãe, agora pulsava com uma energia que ele não sabia se conseguia conter dentro de quatro paredes. Ele desceu os degraus lentamente, tentando não ser notado pelos pais, e encontrou Abby na sala de estar.
Ela estava parada diante da grande vidraça que dava para o píer privativo da propriedade. O vestido leve de algodão ainda estava lá, mas ela jogara um cardigã fino por cima dos ombros para se proteger da brisa que começava a esfriar. Suas duas tranças maria-chiquinha, agora um pouco mais desfeitas após a agitação da chegada, repousavam sobre seu peito. Os óculos de armação preta, milagrosamente, permaneciam retos no nariz.
— É muita gente falando ao mesmo tempo, não é? — Gus perguntou, parando a alguns passos dela.
Abby se virou, e o brilho das luzes da sala refletiu em suas lentes. — Parece que o silêncio de dois anos foi cancelado em dez minutos — ela respondeu, com um meio sorriso que fez as sardas de suas bochechas se amontoarem.
— Minha mãe e a Susan já estão discutindo se o molho leva manjericão ou orégano. Acho que o jantar vai demorar.
Gus olhou para a porta de vidro que levava ao deque. — Quer fugir um pouco? O píer está calmo.
Abby hesitou por apenas um segundo antes de assentir. Eles saíram em silêncio, o som das vozes dos pais tornando-se abafado conforme a porta de correr se fechava. O ar noturno de Cape Cod os atingiu — úmido, salgado e carregado com aquele frescor característico que parecia limpar os pulmões.
Caminharam sobre a grama baixa até alcançarem o início da estrutura de madeira. O píer estendia-se por cerca de vinte metros sobre a água escura, iluminado apenas por pequenos lampiões solares que Robert instalara ao longo do corrimão. Cada passo fazia a madeira velha ranger de um modo familiar, um som que, para ambos, era a trilha sonora oficial das férias.
Eles caminharam até a ponta extrema, onde o corrimão terminava e havia um banco de madeira voltado para o mar aberto. Sentaram-se lado a lado, mantendo uma distância pequena, mas consciente. O som das ondas batendo suavemente contra os pilares de sustentação era a única coisa que preenchia o espaço entre eles.
— Boston mudou você, Gus — Abby disse finalmente, quebrando o transe. Ela não olhava para ele, mas para as luzes distantes de um barco de pesca no horizonte. — Você parece... mais distante. Ou talvez seja só o tamanho.
Gus soltou um suspiro, observando o vapor fino de sua respiração no ar frio. — Boston é cinza, Abby. As pessoas lá andam como se estivessem sempre atrasadas para algo que elas nem querem fazer. Às vezes, acho que acabo entrando no mesmo ritmo. É difícil manter a cor quando tudo ao redor é asfalto.
Ele virou o rosto para observá-la. Sob a luz pálida da lua que começava a subir, a pele dela parecia quase porcelana, e o ruivo do cabelo tornara-se um tom de cobre profundo. — E você? Salem ainda é a cidade das bruxas e do mar calmo?
Abby riu, um som suave que pareceu dançar sobre a água. — Salem é a mesma de sempre. Mas às vezes eu me sinto como uma daquelas casas históricas. Por fora tudo igual, mas por dentro... as fundações estão mudando. Eu comecei a desenhar mais. Coisas reais, não apenas constelações inventadas.
— Senti falta dos seus desenhos — Gus confessou, a voz baixando um tom. — E das histórias que você criava para cada estrela.
Abby finalmente o encarou. O olhar castanho era intenso, carregado de uma curiosidade que o fazia se sentir exposto, mas de um jeito que ele não queria evitar. — Você lembra do "Grande Peixe"? — ela perguntou, com um brilho nostálgico.
— Como eu poderia esquecer? Você jurava que ele nadava para o sul durante o inverno e que, se olhássemos bem, poderíamos ver as bolhas de água no céu.
Eles riram juntos, e por um momento, o peso dos dois anos de ausência pareceu evaporar. A intimidade que fora construída durante verões inteiros de infância estava ali, escondida sob as novas camadas de suas personalidades adolescentes, esperando apenas um pretexto para ressurgir.
Gus percebeu que a brisa estava ficando mais forte. Ele notou Abby encolhendo os ombros dentro do cardigã. — Você está com frio?
— Um pouco. Mas não quero entrar agora. Se entrarmos, o verão vira apenas o jantar e os adultos falando de faculdade e política. Aqui fora... parece que ainda temos quatorze anos.
Gus sentiu um impulso. Ele se aproximou um pouco mais, o suficiente para que seus ombros se tocassem. O contato enviou uma onda de calor que ele não sentia há muito tempo. — A gente não precisa ter quatorze anos para que isso seja bom, Abby.
Ela ficou em silêncio, absorvendo as palavras dele. O vento desarrumou um pouco mais as suas tranças, e um fio ruivo ficou preso nos seus óculos. Sem pensar muito, Gus levou a mão ao rosto dela. Com uma delicadeza que surpreendeu a si mesmo, ele afastou o fio rebelde e, em seguida, ajustou a armação preta que, mais uma vez, pendia levemente para a esquerda.
— Você realmente precisa de um oftalmologista novo — ele brincou, mas seus dedos permaneceram por um segundo extra na têmpora dela.
Abby não se afastou. Ela fechou os olhos por um breve instante, aproveitando o calor da mão dele contra sua pele fria. — Talvez eu deixe eles tortos de propósito — ela sussurrou. — Só para ver se você ainda presta atenção.
O coração de Gus deu um solavanco. A confissão dela, embora dita em tom de brincadeira, carregava uma verdade que ele não estava preparado para processar no balanço daquele píer. Ele retirou a mão lentamente, sentindo a falta imediata do contato.
Lá em cima, na janela do quarto, a luz de Anthony ainda estava acesa. Eles podiam ver a silhueta dele se movendo, ainda imerso no mundo digital, alheio ao que acontecia ali embaixo. No andar inferior, o som de uma gargalhada alta de Robert indicava que as histórias de pescador haviam começado.
— Sabe o que é engraçado? — Abby começou, olhando para as próprias mãos. — Eu passei os últimos dois anos imaginando como seria esse momento. O que eu diria, o que você diria. Eu tinha roteiros inteiros na minha cabeça.
— E algum deles batia com a realidade? — Gus perguntou, curioso.
— Nenhum. No meu roteiro, você não era tão alto e eu não ficava tão sem graça — ela confessou, rindo de si mesma. — Mas a realidade é melhor. O silêncio com você não é vazio, Gus. Nunca foi.
Gus sentiu uma paz profunda se instalar em seu peito. Em Boston, o silêncio era algo a ser preenchido por música, trabalho ou ruído urbano. Ali, com Abby no píer de Cape Cod, o silêncio era um diálogo por si só.
— Abby... — ele começou, mas foi interrompido pelo som da porta de correr se abrindo na varanda principal.
— GUS! ABBY! O JANTAR ESTÁ NA MESA! — a voz de Susan ecoou pela propriedade, carregada de autoridade materna.
Eles se entreolharam, um sorriso cúmplice unindo-os mais uma vez. Levantaram-se do banco, mas antes de começarem a caminhada de volta, Gus parou e olhou para o céu. A lua estava cheia, uma esfera de prata que iluminava o caminho de volta sobre a madeira do píer.
— O verão realmente começou — ele disse, mais para si mesmo do que para ela.
Abby tocou levemente o braço dele, incentivando-o a andar. — Começou. E desta vez, Gus, não vamos precisar inventar constelações para que a noite seja interessante.
Enquanto caminhavam de volta para a luz quente da casa, onde o cheiro de peixe grelhado e risadas os esperava, Gus soube que aquela caminhada noturna era apenas o prólogo de algo muito maior. Anthony continuava em sua chamada, os pais continuavam na cozinha, mas entre ele e a garota de tranças e óculos tortos, o mundo havia mudado de forma irreversível.
Eles entraram na casa, o calor do interior abraçando-os, e Gus sentiu que, pela primeira vez em dois anos, ele estava exatamente onde deveria estar.
As semanas passaram como um borrão cinzento para Gus Beaumont — um intervalo em que ele funcionou no modo automático, deixando-se arrastar pela correnteza das expectativas alheias. O Colégio de Boston fervilhava. O evento mais aguardado do ano finalmente chegara: o Baile de Formatura. Os corredores ecoavam conversas sobre limusines alugadas, cores de vestidos e apostas sobre quem levaria as coroas da noite.Josh transbordava uma empolgação que Gus já não conseguia imitar.— Cara, vai ser épico. Chantal e eu já combinamos tudo. O grupo vai estar completo, Gus. Nossa última grande noite antes de irmos para a universidade.Gus apenas assentiu. Observava o amigo e via ali o reflexo de quem costumava ser — alguém que acreditava, sem questionar, que sucesso social era o oxigênio da vida.Allysson, por sua vez, vivia seu momento de glória antecipada. Radiante, controlava cada detalhe da própria imagem, movida pela convicção de que aquela seria a noite em que ela e Gus seriam oficialmente cor
Duas semanas haviam se passado desde que o convite de Liam ficara suspenso no ar do corredor de Salem como uma promessa de leveza. Nesse intervalo, Abby Miller sentira o mundo mudar de compasso. Enquanto as notícias vindas de Boston falavam de um Gus ausente e de uma elite inquieta, Abby se permitira algo novo: prestar atenção apenas nas cores das tintas, no peso dos tecidos, no que realmente lhe pertencia.O dia do Baile de Formatura de Salem chegou sob um céu tingido de âmbar e o frenesi típico de quem está prestes a fechar um ciclo. No quarto de Abby, o caos era criativo. Pincéis se misturavam a estojos de maquiagem, e o cheiro de fixador de cabelo disputava espaço com a lavanda que vinha do jardim.Abby estava diante do espelho de corpo inteiro, os pés descalços afundados no tapete felpudo. Sobre a cama, dois caminhos distintos se apresentavam, materializados em cetim e tule.O primeiro era um vestido azul royal, profundo como as águas do Lago Blackwood à noite. Tinha uma fenda au
O quarto de Gus estava mergulhado numa penumbra azulada, cortada apenas pelo brilho pálido da lua que atravessava a fresta da cortina. O silêncio era tão espesso que ele conseguia ouvir o tique taque do relógio de pulso sobre a escrivaninha — um som que antes passava despercebido, mas que agora parecia martelar por dentro. Gus estava deitado de barriga para cima, os olhos presos a uma rachadura quase invisível no teto, as mãos entrelaçadas atrás da cabeça.Havia semanas que não abria as redes sociais. O celular, largado em algum canto do tapete, estava descarregado e morto. A ideia de encarar fragmentos de vidas editadas e ruídos digitais lhe parecia ofensiva. O mundo lá fora era barulhento demais para quem tentava sobreviver ao caos silencioso da própria casa.A visita da mãe à escola naquela tarde ainda ecoava. Ele revia o cansaço nos olhos dela enquanto falava com a diretora, na tentativa de sustentar uma postura firme enquanto os dedos tremiam na alça da bolsa. Um nó se formava em
A sala da diretoria do colégio de elite de Boston era revestida de carvalho escuro e silencioso o suficiente para que se ouvisse o tique-taque rítmico do relógio de parede. Gus Beaumont estava sentado na poltrona de couro, mas seu corpo parecia não pertencer àquele móvel. Usava um casaco de moletom preto, o capuz puxado sobre a cabeça como uma barreira erguida contra o mundo. Seus olhos azuis, antes vibrantes, agora lembravam vidro fosco, fixos em algum ponto indefinido do carpete.A porta se abriu com um estalo seco. Susan Beaumont entrou, a bolsa de grife pendurada no antebraço e a postura impecável. Seus olhos percorreram o filho, reconhecendo o “menino de ouro” escondido sob o capuz escuro. Uma sombra de angústia atravessou seu rosto antes de ela vestir, outra vez, a máscara da formalidade.— Está tudo bem? — perguntou, num tom de preocupação cuidadosamente ensaiado.Gus não respondeu. Não levantou a cabeça. Seu silêncio não era um protesto; era uma deserção.A diretora Holloway a
A residência dos Beaumont em Boston era uma obra-prima da arquitetura neoclássica, onde cada moldura de gesso e cada tapete persa exalavam herança, poder e permanência. Ainda assim, depois do retorno de Cape Cod, o apartamento parecera se transformar em um mausoléu de mármore. A rotina — esse mecanismo supostamente infalível — voltara a operar com precisão suíça: café servido às sete, compromissos de Robert revisados às oito, eventos beneficentes de Susan agendados com semanas de antecedência. Tudo funcionava. Tudo estava em ordem. E nada parecia vivo.Gus atravessava aquela normalidade como alguém que não deixava pegadas. Sentou-se à mesa, vestiu as camisas escolhidas pela mãe, mantinha a postura exigida pelo pai. Estava ali. Mas não estava presente. Seus olhos passavam pelas conversas sem fixar nada, e o silêncio que carregava não era distração — era escolha. Sentir havia se tornado caro demais.Susan o observava por trás do jornal aberto. Notava a rigidez nos ombros do filho, o c
A manhã na Floresta de Blackwood tinha um tom de despedida dourada. O sol filtrava-se entre os pinheiros, iluminando a clareira onde, dez dias antes, Abby Miller chegara como uma garota em busca de um esconderijo. Agora, enquanto dobrava a barraca com movimentos precisos e tranquilos, percebia que não encontrará um refúgio — encontrará uma versão de si mesma que já não precisava se desculpar por existir.— Você leva jeito para isso agora — disse a voz tranquila de Liam às suas costas.Abby ergueu o olhar e sorriu. Liam estava encostado em uma árvore, observando-a. Ele não carregava a urgência de Gus, nem a necessidade constante de ocupar o centro de tudo. Apenas estava ali, leve, inteiro.— Aprendi com o melhor monitor do acampamento — brincou Abby, fechando o zíper da bolsa da lona.— Foi o melhor verão da minha vida, Abby — disse Liam, sem drama, apenas com uma honestidade limpa. — E olha que já passei muitos verões nessas trilhas. Mas este... teve algo diferente.Ele se aproximou q







