FAZER LOGINO jantar foi uma sinfonia de talheres batendo em pratos de porcelana e histórias que Gus e Abby já conheciam de cor. Robert e Daniel discutiam a potência de um novo motor de barco, enquanto Susan e Eliza relembravam passagens da faculdade que faziam as duas rirem até as bochechas ficarem vermelhas. Para os adultos, o tempo parecia não ter passado; para Gus, cada minuto naquela mesa, sob a luz forte do lustre da sala de jantar, parecia um teste de resistência.
Ele buscava o olhar de Abby por cima da travessa de peixe grelhado. Ela estava quieta, apenas sorrindo educadamente para as perguntas de Susan sobre a escola em Salem. Suas tranças maria-chiquinha estavam um pouco mais frouxas agora, e ela brincava com o guardanapo de linho sob a mesa — um sinal de que a inquietação dela era igual à dele.
A salvação veio na forma de um barulho de motor potente estacionando na brita lá fora, seguido pelo som de música alta que diminuía gradualmente.
— Não pode ser... — Susan disse, deixando o garfo de lado com um sorriso surpreso. — Ela disse que só viria no fim de semana!
A porta da frente se abriu com um estrondo alegre e Sarah, a irmã mais velha de Gus, entrou na casa como um furacão de energia de Boston. Ela usava óculos de sol na cabeça, uma jaqueta jeans sobre um vestido curto e trazia consigo o cheiro de perfume caro e liberdade.
— Sentiram saudades da pessoa que realmente anima este lugar? — Sarah exclamou, sendo imediatamente cercada pelos abraços da família.
A chegada de Sarah quebrou o protocolo do jantar. Em meio à confusão de servirem um prato extra, Anthony aproveitou a brecha. Ele deu um chute leve por baixo da mesa na canela de Gus e sussurrou: — Cara, eu não aguento mais ouvir falar de motores. Vamos dar o fora?
Gus olhou para Abby, que assentiu quase imperceptivelmente. — Mãe, a gente vai dar uma volta na vila, tudo bem? — Gus anunciou, levantando-se antes que Susan pudesse protestar sobre a sobremesa.
— Levem a Sarah! — gritou Eliza.
— Nem pensar! — Sarah respondeu, já roubando um pedaço de pão do prato do pai. — Acabei de dirigir três horas. Vão vocês, crianças. Só não se metam em confusão.
Gus, Abby e Anthony saíram pela porta dos fundos como se fugissem de um cativeiro. O ar da noite estava mais gelado agora, mas a sensação de estarem longe dos olhos vigilantes dos pais era como um combustível.
— E aí, o que vamos fazer agora? — Anthony perguntou, esticando os braços e chutando uma pedrinha no caminho. — O píer é legal, mas eu preciso de movimento. Tem uma fogueira rolando na Praia das Dunas. O pessoal do time de futebol de verão disse que estaria lá.
Gus olhou para Abby. Ele sabia que ela não era muito fã de multidões barulhentas, mas viu nela o mesmo desejo de explorar aquela nova versão de si mesmos que o verão estava despertando.
— Por mim, tudo bem — Abby disse, ajeitando os óculos. — Desde que o Anthony não tente entrar no mar às onze da noite.
— Não prometo nada! — Anthony riu, já começando a correr em direção à trilha que cortava as dunas.
Caminharam pela trilha estreita, onde a areia entrava nos sapatos e o som do mar ficava cada vez mais alto. Gus e Abby ficaram um pouco para trás, deixando Anthony liderar o caminho com a lanterna do celular.
— Você está bem? — Gus perguntou em voz baixa, sua mão roçando levemente no braço dela enquanto saltavam um tronco caído. — Estou. Só... é estranho como tudo parece igual e completamente diferente ao mesmo tempo — Abby confessou. — Dois anos atrás, a gente estaria jogando tabuleiro na sala. Agora, estamos indo para uma fogueira com desconhecidos.
— O que você quer fazer, Abby? De verdade? — Gus parou por um momento, forçando-a a parar também.
O brilho da lua refletia nas lentes dela. Abby olhou para a trilha à frente, onde a luz de Anthony já estava distante, e depois voltou para Gus. — Eu quero descobrir quem somos nós quando não estamos sendo observados pelos nossos pais. Quero ver se as histórias que a gente contava ainda fazem sentido.
Gus sentiu um impulso de segurar a mão dela, mas o grito de Anthony lá na frente o interrompeu: — EI! CASALZINHO! DÁ PRA APRESSAR O PASSO? EU JÁ CONSIGO VER A FOGUEIRA!
Eles riram, a tensão se dissipando no ar salgado. Quando chegaram à Praia das Dunas, a cena era típica de Cape Cod: uma fogueira imensa estalava no centro, cercada por cerca de vinte adolescentes. Música saía de uma caixa de som portátil, misturando-se ao som das ondas.
— O que vamos fazer agora? — Gus repetiu a pergunta de Anthony, mas desta vez, olhando nos olhos de Abby.
— Vamos viver, Gus — ela respondeu, com uma coragem que ele ainda não tinha visto. — Pelo menos por esta noite.
Ela deu o primeiro passo em direção à luz do fogo, e Gus a seguiu, sabendo que aquele era o ponto de não retorno. O verão de quatorze anos tinha ficado definitivamente para trás.
As semanas passaram como um borrão cinzento para Gus Beaumont — um intervalo em que ele funcionou no modo automático, deixando-se arrastar pela correnteza das expectativas alheias. O Colégio de Boston fervilhava. O evento mais aguardado do ano finalmente chegara: o Baile de Formatura. Os corredores ecoavam conversas sobre limusines alugadas, cores de vestidos e apostas sobre quem levaria as coroas da noite.Josh transbordava uma empolgação que Gus já não conseguia imitar.— Cara, vai ser épico. Chantal e eu já combinamos tudo. O grupo vai estar completo, Gus. Nossa última grande noite antes de irmos para a universidade.Gus apenas assentiu. Observava o amigo e via ali o reflexo de quem costumava ser — alguém que acreditava, sem questionar, que sucesso social era o oxigênio da vida.Allysson, por sua vez, vivia seu momento de glória antecipada. Radiante, controlava cada detalhe da própria imagem, movida pela convicção de que aquela seria a noite em que ela e Gus seriam oficialmente cor
Duas semanas haviam se passado desde que o convite de Liam ficara suspenso no ar do corredor de Salem como uma promessa de leveza. Nesse intervalo, Abby Miller sentira o mundo mudar de compasso. Enquanto as notícias vindas de Boston falavam de um Gus ausente e de uma elite inquieta, Abby se permitira algo novo: prestar atenção apenas nas cores das tintas, no peso dos tecidos, no que realmente lhe pertencia.O dia do Baile de Formatura de Salem chegou sob um céu tingido de âmbar e o frenesi típico de quem está prestes a fechar um ciclo. No quarto de Abby, o caos era criativo. Pincéis se misturavam a estojos de maquiagem, e o cheiro de fixador de cabelo disputava espaço com a lavanda que vinha do jardim.Abby estava diante do espelho de corpo inteiro, os pés descalços afundados no tapete felpudo. Sobre a cama, dois caminhos distintos se apresentavam, materializados em cetim e tule.O primeiro era um vestido azul royal, profundo como as águas do Lago Blackwood à noite. Tinha uma fenda au
O quarto de Gus estava mergulhado numa penumbra azulada, cortada apenas pelo brilho pálido da lua que atravessava a fresta da cortina. O silêncio era tão espesso que ele conseguia ouvir o tique taque do relógio de pulso sobre a escrivaninha — um som que antes passava despercebido, mas que agora parecia martelar por dentro. Gus estava deitado de barriga para cima, os olhos presos a uma rachadura quase invisível no teto, as mãos entrelaçadas atrás da cabeça.Havia semanas que não abria as redes sociais. O celular, largado em algum canto do tapete, estava descarregado e morto. A ideia de encarar fragmentos de vidas editadas e ruídos digitais lhe parecia ofensiva. O mundo lá fora era barulhento demais para quem tentava sobreviver ao caos silencioso da própria casa.A visita da mãe à escola naquela tarde ainda ecoava. Ele revia o cansaço nos olhos dela enquanto falava com a diretora, na tentativa de sustentar uma postura firme enquanto os dedos tremiam na alça da bolsa. Um nó se formava em
A sala da diretoria do colégio de elite de Boston era revestida de carvalho escuro e silencioso o suficiente para que se ouvisse o tique-taque rítmico do relógio de parede. Gus Beaumont estava sentado na poltrona de couro, mas seu corpo parecia não pertencer àquele móvel. Usava um casaco de moletom preto, o capuz puxado sobre a cabeça como uma barreira erguida contra o mundo. Seus olhos azuis, antes vibrantes, agora lembravam vidro fosco, fixos em algum ponto indefinido do carpete.A porta se abriu com um estalo seco. Susan Beaumont entrou, a bolsa de grife pendurada no antebraço e a postura impecável. Seus olhos percorreram o filho, reconhecendo o “menino de ouro” escondido sob o capuz escuro. Uma sombra de angústia atravessou seu rosto antes de ela vestir, outra vez, a máscara da formalidade.— Está tudo bem? — perguntou, num tom de preocupação cuidadosamente ensaiado.Gus não respondeu. Não levantou a cabeça. Seu silêncio não era um protesto; era uma deserção.A diretora Holloway a
A residência dos Beaumont em Boston era uma obra-prima da arquitetura neoclássica, onde cada moldura de gesso e cada tapete persa exalavam herança, poder e permanência. Ainda assim, depois do retorno de Cape Cod, o apartamento parecera se transformar em um mausoléu de mármore. A rotina — esse mecanismo supostamente infalível — voltara a operar com precisão suíça: café servido às sete, compromissos de Robert revisados às oito, eventos beneficentes de Susan agendados com semanas de antecedência. Tudo funcionava. Tudo estava em ordem. E nada parecia vivo.Gus atravessava aquela normalidade como alguém que não deixava pegadas. Sentou-se à mesa, vestiu as camisas escolhidas pela mãe, mantinha a postura exigida pelo pai. Estava ali. Mas não estava presente. Seus olhos passavam pelas conversas sem fixar nada, e o silêncio que carregava não era distração — era escolha. Sentir havia se tornado caro demais.Susan o observava por trás do jornal aberto. Notava a rigidez nos ombros do filho, o c
A manhã na Floresta de Blackwood tinha um tom de despedida dourada. O sol filtrava-se entre os pinheiros, iluminando a clareira onde, dez dias antes, Abby Miller chegara como uma garota em busca de um esconderijo. Agora, enquanto dobrava a barraca com movimentos precisos e tranquilos, percebia que não encontrará um refúgio — encontrará uma versão de si mesma que já não precisava se desculpar por existir.— Você leva jeito para isso agora — disse a voz tranquila de Liam às suas costas.Abby ergueu o olhar e sorriu. Liam estava encostado em uma árvore, observando-a. Ele não carregava a urgência de Gus, nem a necessidade constante de ocupar o centro de tudo. Apenas estava ali, leve, inteiro.— Aprendi com o melhor monitor do acampamento — brincou Abby, fechando o zíper da bolsa da lona.— Foi o melhor verão da minha vida, Abby — disse Liam, sem drama, apenas com uma honestidade limpa. — E olha que já passei muitos verões nessas trilhas. Mas este... teve algo diferente.Ele se aproximou q







