FAZER LOGINRenata
Entramos na sala. Era enorme, com cadeiras fixas em formato de auditório e um telão ligado com o título da disciplina no fundo:
Bases da Anatomia e Fisiologia Humana Prof. Daniel Moretti
Ana Júlia soltou um assobio baixo.
— Jesus amado… dizem que esse professor é uma lenda. Exigente pra caramba.
Sentei na terceira fileira, mais por reflexo do que por escolha. Nunca fui do tipo que se esconde no fundo. Sempre aprendi melhor quando conseguia olhar nos olhos de quem ensinava.
A maioria dos alunos continuava conversando, rindo, parecendo despreocupada alguns nem escondiam o tédio. Até que a porta lateral se abriu.
E o silêncio caiu como um peso.
Um homem entrou, alto, postura impecável, jaleco branco e um olhar sério que parecia atravessar as pessoas. Tinha cabelo escuro, barba muito bem cuidada e segurava uma prancheta com a firmeza de quem não tolera erros.
Ele nem se apresentou. Apenas caminhou até a mesa e bateu a prancheta uma vez seca, direta.
— Bom dia. Sejam bem-vindos ao primeiro semestre. O olhar dele percorreu a sala como um scanner. Antes de começarmos, quero fazer uma avaliação rápida.
Alguém atrás de mim murmurou:
— Avaliação? No primeiro dia? Tá de sacanagem.
O professor continuou como se não tivesse ouvido:
— Quero saber se vocês realmente merecem estar aqui.
Alguns alunos ajeitaram a postura. Outros tentaram parecer confiantes. Eu senti o coração acelerar.
— Vamos começar com algo simples. Ele apontou para o telão, onde surgiu a imagem de um crânio. Quem pode me dizer quais são os principais ossos que compõem a calota craniana?
Silêncio.
O professor cruzou os braços.
— Ninguém? Ele arqueou uma sobrancelha. Mas todos tiraram nota alta no vestibular, não é?
O rapaz chamado Bernardo, sentado duas fileiras atrás, tentou arriscar:
— Frontal… parietal… e… maxilar?
O professor virou lentamente o rosto para ele.
— Maxilar? Na calota craniana? A voz dele era fria. Interessante. Espero que nunca opere ninguém.
Todos riram baixinho. Bernardo abaixou a cabeça.
Eu senti Ana Júlia me cutucar com o cotovelo.
— Renata… você sabe isso, não sabe?
E eu sabia. Minha mãe me ensinava anatomia quando eu era criança, apontando partes do corpo e me fazendo repetir nomes. Não porque esperava que eu fosse médica mas porque ela achava bonito entender o mundo.
Respirei fundo e ergui a mão.
O professor me observou por um instante.
— Nome?
— Renata.
— Pode responder, Renata.
— Os ossos da calota craniana são: frontal, parietais, occipital, temporais, esfenóide e etmoide.
A sala ficou muda.
O professor segurou a prancheta com mais força, estudando meu rosto como se estivesse tentando decifrar algo.
— Correto. Ele andou alguns passos, sem desviar o olhar. E já que começou bem… me diga então qual sutura separa os ossos parietais do frontal.
Alguns alunos riram, achando que agora ele me pegaria.
Mas eu respirei novamente.
— Sutura coronal.
O silêncio que veio depois foi diferente. Um silêncio respeitoso.
Ana Júlia arregalou os olhos, maravilhada.
— Mulher… você é um gênio escondido.
O professor apoiou as mãos na mesa e falou, ainda olhando diretamente para mim:
— Excelente. E então, pela primeira vez, um leve sinal de aprovação surgiu em sua expressão. Espero que mantenha esse nível durante o semestre.
Eu assenti, tentando segurar o sorriso.
Mas por dentro…
Por dentro eu estava brilhando.Porque naquele instante, ninguém viu minha roupa simples.
Ninguém viu a menina que chegou de ônibus. Ninguém viu a noiva traída, a filha esquecida.Eles viram a Renata.
E eu, pela primeira vez, também.O resto do dia passou mais rápido do que deveria.
Depois da aula do professor Moretti, tivemos apresentações básicas, explicações sobre o cronograma, orientações de laboratório. Mas, para mim, nada se comparava ao que tinha acontecido naquela primeira aula. Era como se, pela primeira vez em muito tempo, alguém tivesse enxergado o que eu realmente carregava dentro de mim.
Ana Júlia ficou ao meu lado o tempo todo, repetindo:
— Renata, pelo amor de Deus, você destruiu metade da sala! Eu nunca vi o Moretti elogiar alguém… nunca!
Eu só ria, sentindo um orgulho tímido, quase infantil.
Quando as aulas terminaram, o movimento de carros de luxo na porta da universidade voltou com força. Gente chamando motoristas pelo nome, meninas tirando fotos com carros esportivos ao fundo, garotos falando alto sobre viagens para fora do país.
E eu ali, caminhando até o ponto de ônibus com a minha mochila velha, do mesmo jeito que cheguei.
Mas pela primeira vez isso não me incomodou.
Porque naquele dia… eu tinha vencido.
O ônibus veio cheio, barulhento, mas eu estava tão leve que parecia nem sentir o balanço nos buracos da rua. Fiquei olhando pela janela, vendo Lavras passar ao meu lado, e senti algo que há muito tempo eu não sentia:
Esperança.
Quando desci no ponto perto da lanchonete, o cheiro de pão fresco e café me abraçou antes mesmo de eu entrar. Minha madrinha estava no balcão, servindo uma cliente. Assim que me viu, abriu um sorriso que quase iluminou o lugar inteiro.
— Minha filha! ela chamou. Vem cá, me conta! Como foi?
Entrei atrás do balcão e ela me puxou para um abraço apertado, daquele que só ela sabia dar.
— Foi… foi incrível, madrinha falei, sem conseguir segurar o sorriso. Eu estava nervosa, mas… eu consegui. Respondi perguntas difíceis. O professor elogiou. E fiz uma amiga também.
Ela segurou meu rosto entre as mãos, emocionada.
— Eu sabia. Eu sabia que você ia brilhar.
— Madrinha… minha voz tremeu um pouco eu me senti… capaz. Pela primeira vez depois de tudo aquilo que aconteceu… eu senti como se a vida estivesse começando de verdade.
Ela respirou fundo, os olhos marejando.
— Renata, minha filha… você passou por muita coisa. Mas Deus vê tudo. Ele não ia deixar você cair. Você merece cada passo desse caminho. Sua mãe tá orgulhosa lá de cima, e eu tô orgulhosa aqui.
Eu encostei a cabeça no ombro dela, deixando a emoção vir.
— Obrigada por tudo. Se não fosse a senhora…
— Eu sempre estaria aqui ela interrompeu, beijando minha testa. Você é minha menina também.
Ficamos ali por alguns segundos, abraçadas, até a campainha da porta tocar, anunciando um cliente.
Minha madrinha secou as lágrimas rapidamente, com aquele jeitinho forte dela.
— Vamos trabalhar, doutora disse com um sorriso brincalhão. Porque o mundo não gira sozinho.
Eu ri, meu coração tão cheio que parecia até maior dentro do peito.
Rosângela Acordamos bem cedo no dia seguinte, antes mesmo que o sol terminasse de subir no céu da chácara. Como a Maria já estava de pé na cozinha, o Anthony aproveitou para me puxar para um cantinho logo depois que levantamos da cama. Estávamos os dois rindo feito bobos, com as mãos bobas, trocando beijos escondidos no corredor, quando decidimos contar a novidade para ela. A reação da Maria foi um show à parte. Ela soltou a colher de pau na pia, levou as mãos às bochechas e começou a dar pulinhos de alegria. — Ai, meu Deus! Eu sabia! Eu não disse que essa casa precisava de mais vida? — ela exclamou, com os olhos brilhando. Depois, olhou para a minha barriga e cruzou os braços, com aquele ar de quem sabe de tudo. — Vocês vão povoar essa chácara, estou avisando. Com o gênio de vocês dois, eu tenho certeza de que agora vêm uns três meninos seguidos para correr atrás dessas pimentinhas! Eu e o Anthony caímos na risada na hora. — Calma, Maria! Três meninos? Aí você quer me enlouq
Rosângela O silêncio tomou conta da sala, quebrado apenas pelo estalar da madeira na lareira. Vi o momento exato em que a mente dele de médico começou a fazer as conexões e os olhos dele se arregalaram. Ele olhou para a garrafa na mão dele, depois para a minha barriga, e por fim fixou o olhar diretamente no meu rosto, com o queixo quase caindo.— Rosângela... — a voz dele saiu quase num sussurro, trêmula, misturando o choque com uma ponta de esperança desacreditada. — Você... não pode beber?coloquei a mão no bolso do meu short de pijama e puxei o teste de farmácia que eu vinha escondendo o dia todo. Estendi o bastão de plástico na direção dele, revelando as duas linhas rosas bem marcadas.— Eu fiz hoje, antes de virmos para cá... — falei, com a voz já meio embargada e um sorriso enorme teimando em se abrir. — Eu estou grávida, meu homem.O Anthony paralisou por completo. A garrafa de vinho continuou suspensa na mão dele por alguns segundos, até que ele a colocou no chão devagar,
Anthony Entramos em casa rindo da nossa habitual disputa para ver quem a Zoe tinha puxado. O Anthony insistia que a teimosia era minha, mas a verdade é que eu adorava ver o homem forte e sério que ele era no hospital se derreter por completo e virar um bobão perto das duas pimentinhas dele.Assim que passamos pela porta, o cheirinho do bolo da Maria já dominava o ambiente. Enquanto eu corria para a cozinha para organizar as coisas e colocar o lanche da Zoe na mesa, o Anthony subiu com a nossa princesa no colo para a missão do banho. Lá de baixo, eu conseguia ouvir os passos pesados dele no andar de cima, misturados com os gritinhos e as risadas dela na banheira. O Anthony cuidava dela com uma delicadeza que sempre fazia meu coração transbordar.Não demorou muito para os dois descerem. A Zoe já estava de pijaminha, com os cachinhos limpos e cheirosos, exalando aquele cheirinho de bebê que dá vontade de morder. Ela estava radiante, mas os olhinhos miúdos entregavam que a tarde no lag
Anthony O tempo voa de um jeito que a gente só consegue mensurar de verdade quando olha para os filhos. Parece que foi ontem que eu estava travado no meio de um quarto de bebê, com os olhos cheios de água, ouvindo um "papa" gaguejado e doce mudar a minha vida para sempre.Agora, dois anos se passaram. Duas voltas inteiras ao redor do sol que transformaram a nossa pimentinha em uma garotinha tagarela, cheia de passos firmes, cachinhos balançando e uma energia que às vezes me fazia questionar de onde vinha tanto vigor. Zoe estava completando dois aninhos.Para comemorar o aniversário da nossa princesa, decidimos que o melhor lugar do mundo não seria um salão de festas barulhento ou cheio de formalidades. Nós precisávamos do nosso refúgio. A nossa chácara sempre foi o lugar para onde corríamos quando o hospital parecia pesado demais, quando a rotina pedia um respiro ou quando queríamos apenas ser nós três, longe dos relógios e das obrigações.O caminho até lá foi embalado pelas músi
Anthony O plantão no hospital tinha sido um daqueles testes de resistência. Entre uma emergência e outra, evoluções de pacientes e a correria dos corredores, meu corpo clamava por um café forte e algumas horas de sono. Mas, na verdade, a única coisa que realmente me mantinha firme era a pressa de voltar para casa. Voltar para as minhas meninas.Passava das três da madrugada quando finalmente consegui me sentar por cinco minutos no descanso dos médicos. Peguei o celular e vi a mensagem da minha pimentinha:"Amor sentindo tanto sua falta... Vem logo."Sorri sozinho, sentindo um aperto gostoso no peito. O quarto podia parecer grande demais para ela lá, mas aqui, o mundo inteiro parecia vazio sem o calor do corpo dela e o cheirinho da nossa filha. Respondi com um "Estou chegando logo, meu amor", sabendo que ela já devia estar dormindo, e guardei o aparelho, contando os minutos para o sol nascer.Assim que passei pela catraca da saída do hospital pela manhã, a exaustão parecia ter fic
Rosângela Depois de tomar aquele café da manhã maravilhoso e recuperar todas as energias, tomei um banho rápido, vesti uma roupa bem confortável e desci as escadas com o coração leve.Encontrei a Maria na cozinha, que me deu um sorriso cúmplice ao me ver com a cara ótima. A Zoe estava no cercadinho da sala, cercada por seus brinquedos, com aqueles olhinhos atentos do Anthony focados direto na porta assim que ouviu meus passos.— Olha quem acordou! — falei, correndo até ela e a enchendo de beijos na bochecha, ouvindo aquela risadinha gostosa que curava qualquer cansaço.Aproveitei que o dia estava lindo e que a casa era nossa para espantar qualquer preguiça. Fui até o som, escolhi uma música bem animada e botei o volume alto, deixando o ritmo tomar conta da sala.Olhei para a Zoe, dei uma piscadela e comecei a dançar no meio do tapete. Eu rodava, requebrava, fazia passos engraçados e jogava as mãos para o alto, cantando junto com a música.A Zoe, de apenas 6 meses, ficou fascinad







