LOGIN. Foi como se as comportas de um tsunami de sentimentos reprimidos e de pura dor rompessem dentro de mim de uma vez só. Minha voz sumiu no peito; eu só conseguia soluçar, encolhendo-me na cama.Vendo o meu desespero, Christian deu um passo à frente, estendendo os braços para tentar me abraçar. Mas, antes mesmo que seus dedos me tocassem, meu corpo reagiu por puro instinto de sobrevivência. Recuei abruptamente até bater as costas contra a cabeceira, tremendo da cabeça aos pés. Eu não queria ninguém me tocando. Nem ele, nem ninguém. Nunca mais.Christian congelou no lugar. Seus braços caíram ao lado do corpo enquanto ele olhava fixamente nos meus olhos. Naquele silêncio sufocante, a ficha dele começou a cair e ele finalmente entendeu o horror do que realmente havia acontecido. O olhar dele desceu, analítico, para o hematoma que manchava o meu rosto e, em seguida, focou nas marcas roxas e mordidas violentas que escapavam da gola da minha camiseta larga, marcando o meu pescoço.
— Eliza... o que eles fizeram com você? — a voz dele saiu como um sopro, carregada de horror.Eu não queria verbalizar o pesadelo que vivi. Destrancar aquelas memórias e transformá-las em palavras doía demais. Era mais fácil mostrar. Com as mãos trêmulas, deixei o cobertor escorregar pelos meus ombros e puxei a gola da camiseta larga, revelando meu colo. Fiquei ali, exposta e vulnerável, permitindo que ele visse a extensão da minha destruição.Christian me encarou com um misto de sentimentos que eu não sabia decifrar — talvez fosse pena, talvez culpa —, mas, à medida que seus olhos absorviam cada marca, corte e hematoma, a humanidade sumiu dele. Suas pupilas foram ficando vermelhas, brilhando com a pura raiva da sua natureza lupina.— Eles te obrigaram...? — perguntou, os punhos cerrados ao lado do corpo.Eu apenas balancei a cabeça, confirmando em um silêncio doloroso.— Eu deveria ter te trazido para casa! — Christian começou a andar de um lado para o outro no quarto de forma frenética, puxando os próprios cabelos, completamente desesperado. — Aquela maldita me enganou... O Alpha nunca me chamou! A Kelly queria que eu fizesse um pedido formal de casamento para o pai dela na frente de todos. Quando eu recusei, dizendo que estávamos saindo há apenas duas semanas, ela começou a surtar. Disse que eu não queria ficar com ela por sua causa. Eu deveria ter voltado para te procurar na fonte... Me perdoa, Eliza! Eu... eu vou atrás do Alpha! Vou contar o que os filhos dele fizeram, eu vou... — Não, Christian! Você não vai fazer nada — interrompi, reunindo uma calma gélida que eu nem sabia que possuía. — O Alpha não vai acreditar em você, muito menos em mim. Ele vai te punir, ou até te matar. Nesta alcateia, o Alpha nunca permite que ninguém fale mal dos filhos dele. Além disso... os gêmeos me ameaçaram. Eles disseram que têm imagens minhas daquela tarde.Abracei o meu próprio corpo com mais força, tentando conter as lágrimas que voltavam a queimar meus olhos.— Mas e o seu pai? — Christian insistiu, caindo de joelhos perto da beirada da cama para buscar meu olhar. — Ele pode falar com o Alpha, exigir uma investigação real. Se apontarem as provas contra os gêmeos, talvez a gente tenha uma chance...— Meu pai sabe de tudo — cortei-o, minha voz saindo completamente opaca, sem vida. — O Beta está fingindo que investiga, mas já avisou que não vai encontrar nada. Os gêmeos disseram que me "resgataram" na floresta, e usaram essa mentira como desculpa para o cheiro deles estar impregnado em mim. Eles tomaram cuidado para não deixar vestígios. Mesmo que o Beta e o médico saibam a verdade, eles vão acobertar tudo para proteger a elite. Meu pai simplesmente mandou eu esquecer o assunto... como se apagar o pior dia da minha vida fosse a coisa mais fácil do mundo. Encolhi-me na cama, colando os joelhos no peito e olhando para o chão. Eu simplesmente não sabia mais o que fazer.Christian estava desolado, perturbado e irado. A ficha caía para nós dois com o peso de uma bigorna: estávamos de mãos atadas, sem poder pedir socorro a ninguém. Como o nosso mundo pôde virar de cabeça para baixo em uma única tarde? O que era para ser apenas o início de um romance ou um sonho bobo de adolescente havia se transformado no pior dos meus pesadelos. E o pior de tudo: sem qualquer rastro de justiça.Quanto mais pensávamos, mais cruel a realidade se desenhava. Naquela alcateia corrupta, nós estávamos entregues à nossa própria sorte. Em um movimento brusco, Christian se levantou, os punhos cerrados e o peito subindo e descendo com força.— Eu tenho que fazer alguma coisa! — ele esbravejou, a voz embargada de fúria. — Mesmo que eu morra tentando, eu vou fazer! Isso não é justo! O que fizeram com você é repugnante... está tudo errado! Você não fez nada de errado, Eliza! E aqueles monstros se acharam no direito de te tomar à força, de forjar um ataque de renegados e ainda saírem desfilando como os heróis que te salvaram!— Christian, não... Você não pode fazer nada. Eu já desisti — murmurei, sentindo o peso esmagador da derrota me afundar no colchão. — Talvez se outro Alpha liderasse a alcateia, um líder verdadeiramente justo, nós tivéssemos uma chance. Mas do jeito que as coisas estão hoje, ninguém do Conselho vai acreditar em dois adolescentes acusando os futuros herdeiros da região.Christian apenas balançava a cabeça negativamente, recusando-se a aceitar a derrota. No fundo dos seus olhos, eu conseguia ver que ele ainda procurava desesperadamente por uma saída. Ele acreditava que deveria haver uma maneira, por menor que fosse, de fazê-los pagar pelo que fizeram.Eles se entregaram àquela proximidade secreta e doce no escuro do quarto, esquecendo-se dos pais, das responsabilidades da matilha e do fato de terem apenas quinze anos. Naquela noite, sob o edredom quentinho e unidos pelo aço nos pulsos, ambos sabiam que o "treino" já havia se transformado em algo real e inevitável. No exato momento em que seus lábios se uniram pela segunda vez, algo extraordinário e avassalador aconteceu dentro do quarto. O beijo, que deveria ser apenas um novo "treino", tornou-se o gatilho para algo muito maior. Uma onda de poder indescritível correu pelo corpo de Esmond. Não era apenas a adrenalina de um jovem de quinze anos; era uma energia antiga, densa e avassaladora que fez o ar do ambiente vibrar. A força de seu lobo ancestral pulsava em suas veias pela primeira vez, emanando diretamente de seu peito. Liv arregalou os olhos contra a boca dele, sentindo o choque térmico daquela energia crua atravessar a sua própria pele. A temperatura do corpo de Esmon
Liv engoliu em seco, sentindo o peito subir e descer rapidamente. Os olhos de Esmond pareciam ler cada um de seus pensamentos na penumbra do quarto. — Eu não tenho certeza... — ela confessou em um fio de voz, o coração martelando contra as costelas. — Eu estou curiosa, eu acho. Esmond fixou o olhar nos lábios dela. O polegar dele, que ainda roçava delicadamente na bochecha corada de Liv, subiu de leve, traçando o contorno da mandíbula dela com uma suavidade que nem parecia vir do futuro Alfa marrento da matilha. Ele umedeceu os próprios lábios, sentindo o perfume doce dela invadir completamente seus sentidos. — A gente pode treinar... se você quiser — sugeriu, a voz descendo para um tom rouco, quase um sussurro confidencial. Liv arregalou os olhos de leve, a respiração travando na garganta. Treinar? A proposta era tão ousada quanto ingênua, típica de dois jovens de quinze anos descobrindo o primeiro amor. Ela olhou para a mão dele, depois para a corrente metálica das algemas q
O silêncio voltou a reinar no quarto aquecido, mas o sono, que parecia tão próximo para Liv, simplesmente evaporou. O efeito do remédio tinha acalmado a dor aguda da cólica, deixando apenas um formigamento confortável. No entanto, sua mente continuava acelerada, repassando cada segundo daquele dia. Ela conseguia sentir o peito de Esmond subindo e descendo devagar contra as suas costas, a respiração dele longa e ritmada. Ele parecia estar pegando no sono, relaxado pelo calor do edredom. Liv mordeu o lábio inferior, encarando a penumbra. A curiosidade adolescente bateu mais forte que o bom senso. — Esmond? — ela chamou baixinho, quase em um sopro, mexendo o pulso de leve para fazer a corrente das algemas tilintar de propósito. — Hum? — ele murmurou com a voz rouca, o som vibrando diretamente contra as costas dela. O braço dele continuava firme ao redor da cintura de Liv. — A dor voltou? — Não, o remédio funcionou — Liv respondeu, virando a cabeça de leve no travesseiro para te
Liv engoliu o remédio com dificuldade, sentindo o peito arfar enquanto a dor persistia em pontadas agudas. Esmond colocou o copo d’água de volta no criado-mudo com cuidado, mas seus olhos continuavam fixos nela, cheios de uma preocupação que ele não conseguia disfarçar. — É sempre assim? — ele perguntou baixinho, a voz rouca cortando o silêncio do quarto. Liv piscou, tentando focar o rosto dele na penumbra. — O quê? — ela sussurrou, a voz enfraquecida. — A dor... — Esmond completou, inclinando-se um pouco mais perto. — Às vezes piora no primeiro e no segundo dia — Liv respondeu, encolhendo-se um pouco mais sob o edredom, sentindo um calafrio percorrer sua espinha. Esmond franziu a testa, sentindo o peito apertar de empatia. Naquele momento, ele realmente desejou já ter o seu lobo desperto, apenas para ter a capacidade de puxar a dor dela para si. — Deve ser horrível — ele murmurou. — É pior no inverno... Parece que dói mais — ela confessou, com os dentes quase batendo
— Não é mentira — Eliza sibilou, cada palavra carregada de certeza. — Eu mesma entreguei uma cartela de remédio e os absorventes para eles. Eu vi o estado da garota e senti a mudança nela. Como Luna e como mãe, decidi que eles vão descansar. E a minha palavra está dada, Liam. Liam engoliu em seco, percebendo que não adiantaria discutir. Quando Eliza assumia aquela posição, nem mesmo o Alfa ousava passar por cima de sua decisão. O silêncio pesado que se seguiu à declaração firme de Eliza foi quebrado por um suspiro audível de alívio. Clara deu um passo à frente, deixando de lado a rigidez defensiva de minutos atrás. Seus olhos encontraram os da Luna, e um sorriso grato e sincero surgiu em seus lábios. — Obrigada, Eliza... de verdade — Clara disse, com a voz suave, mas carregada de emoção materna. — Obrigada pelo cuidado com a minha filha. Eu sei como esse primeiro ano de ciclos pode ser difícil e doloroso, ainda mais no meio de toda essa confusão. Fico mais tranquila sabendo qu
Assim que a porta do quarto se fechou, isolando os dois adolescentes do resto da matilha, Esmond assumiu o controle da situação. Sem que Liv precisasse pedir nada, ele foi direto para a cama. Arrumou os travesseiros, esticou o edredom pesado e ligou o aquecedor, deixando o ambiente perfeitamente quentinho e aconchegante. — Pronto — ele disse, virando-se para ela. — O lugar já está aquecido. Agora você precisa de um banho quente para aliviar essa cólica. Liv olhou para a porta do banheiro e sentiu uma onda de puro nervosismo travar seus passos. As bochechas dela queimaram. — Esmond... eu... eu tenho vergonha — ela confessou em um sussurro, encarando os próprios pés. — Nós estamos algemados. Como eu vou tomar banho com você ali do lado? É constrangedor demais. Esmond deu um passo curto na direção dela, fazendo a corrente metálica tilintar de forma suave. Ele olhou nos olhos de Liv, com uma expressão incrivelmente madura e calma: — Ei, olha para mim — pediu, com a voz baixa e a







