Mag-log inA primeira batida veio às vinte e uma horas e dezessete minutos.Vicente estava no escritório de casa, de pé diante da janela, com o celular encostado ao ouvido. A cidade se espalhava diante dele em milhares de pontos luminosos, mas sua atenção estava concentrada na voz de Marcelo, que falava do outro lado da linha.— A publicação ainda não foi ao ar — informou Marcelo. — O jurídico conseguiu contato com o editor. Eles estão verificando a documentação que receberam.— E a origem?— Ainda não temos confirmação. Mas há um detalhe.Vicente fechou os olhos por um instante.— Fale.— O material chegou por intermédio de uma pessoa que não se identificou. Entretanto, o arquivo foi encaminhado a partir de um endereço associado a uma empresa que já prestou serviços ao grupo de Rafael.Vicente se afastou da janela.— Associado não é prova.— Eu sei.— Então não quero que ninguém saia fazendo acusações. Descubra quem enviou, quem recebeu e quem teve acesso aos documentos. Quero a sequência compl
O problema de Vicente nunca havia sido demonstrar sentimentos.Era permitir que alguém percebesse que os tinha.Durante boa parte da vida, aprendera a manter distância. Não oferecia explicações desnecessárias, não dividia preocupações e muito menos permitia que assuntos pessoais interferissem em suas decisões. Havia construído uma reputação baseada no controle, na discrição e em uma frieza que, para muitos, beirava a arrogância.Naquela noite, entretanto, estava disposto a fazer algo que jamais imaginara.Falaria sobre seu casamento diante de centenas de pessoas.E não seria um anúncio protocolar.Queria que todos soubessem o que Kiraz representava para ele.Mesmo que, nos últimos dias, algumas lembranças tivessem começado a pesar sobre os dois.18h12 — A preparaçãoA suíte estava iluminada por uma combinação de luzes indiretas e luminárias próximas ao espelho. Sobre a cama, havia uma capa de tecido claro protegendo o vestido escolhido por Kiraz. Ao lado, uma caixa de joias aberta exi
Rafael sabia que existiam duas maneiras de destruir a reputação de um homem.A primeira era apresentar provas de que ele havia cometido um erro.A segunda era fazer com que as pessoas começassem a questionar tudo o que acreditavam saber sobre ele.A segunda era muito mais eficiente.Principalmente quando o homem em questão era Vicente.Durante anos, Vicente havia construído uma imagem praticamente inabalável. Era respeitado no mundo empresarial, temido por concorrentes e conhecido por sua personalidade inflexível. Não era um homem que frequentava ambientes sociais para fazer amizades, tampouco alguém que se preocupava em ser querido.Sua palavra tinha peso.Sua presença impunha respeito.E sua vida particular era tão protegida que poucas pessoas conseguiam dizer alguma coisa sobre ela sem recorrer a especulações.Até se casar com Kiraz.O casamento havia alterado a maneira como as pessoas o enxergavam. Não porque Vicente tivesse se tornado um homem diferente diante de todos, mas porqu
Rafael descobriu que uma mentira bem construída não precisava nascer de uma invenção.Às vezes, bastava escolher cuidadosamente quais verdades seriam mostradas.Naquela manhã, ele estava sentado diante de uma mesa de madeira escura, em uma sala reservada de um restaurante discreto. O notebook permanecia aberto, exibindo uma sequência de documentos, fotografias e registros que havia conseguido reunir nos últimos dias.Aurora estava sentada à sua frente.Ela não tinha tocado no café.— Você conseguiu? — perguntou, observando a tela.Rafael girou o computador na direção dela.— Consegui alguma coisa.Aurora aproximou a cadeira.Na tela havia uma planilha com datas, registros de consultas e nomes de empresas que, em algum momento, haviam prestado serviços de segurança e investigação para pessoas ligadas a Vicente.— Isso é tudo?— É o que consegui confirmar até agora.Ela percorreu as informações com os olhos.— Não prova que ele estava perseguindo você.— Não precisa provar isso.Rafael
Rafael não gostava de descobrir que havia sido o último a compreender uma história.Durante muito tempo, acreditara que conhecia os movimentos de Vicente. Sabia como o empresário conduzia os negócios, quais pessoas costumavam frequentar seu círculo e até que tipo de reação esperar quando alguém ameaçava algo que considerava seu.Mas havia uma parte da vida de Vicente que Rafael nunca conseguira enxergar.E, agora que começava a juntar as peças, percebia que talvez tivesse subestimado o tamanho daquela história.O escritório estava quase escuro quando recebeu a primeira informação.Era tarde. A chuva batia contra as janelas, e a iluminação da mesa deixava o restante do ambiente mergulhado em sombras. Rafael tinha passado boa parte da noite revisando documentos antigos, conversando com pessoas que haviam trabalhado para Vicente e tentando reconstruir acontecimentos que, na época, pareceram isolados.Uma mensagem apareceu na tela do celular.Ele leu uma vez.Depois, novamente.A informaç
### Capítulo 2 — O lugar que ele escolheuKiraz acordou com a sensação de que havia algo diferente na casa.Não era um barulho específico. A residência ainda estava silenciosa, e a claridade da manhã entrava pelas cortinas em faixas suaves. O que a despertou foi uma movimentação distante no corredor, acompanhada pelo som de passos e de alguma coisa sendo colocada no chão.Abriu os olhos lentamente.Por alguns segundos, permaneceu imóvel, tentando afastar o restante do sono. A mão deslizou para o lado vazio da cama antes que se lembrasse de onde estava.O espaço ao lado continuava vazio.A lembrança da noite anterior voltou com uma nitidez incômoda. Vicente a havia acompanhado até a porta, beijado sua testa e seguido para o próprio quarto. Não havia acontecido nada de errado, mas ela sentira falta de uma coisa que, durante a viagem, começara a considerar natural.A presença dele.Kiraz se sentou e afastou o cabelo do rosto.O som no corredor se repetiu.Dessa vez, ouviu uma voz baixa,







