Clarice A casa acordou diferente. Não em alerta máximo, não tensa como nos dias em que cada ruído parecia um aviso. Era uma vigília calma, quase serena — o tipo de estado em que o corpo ainda sabe que o perigo existe, mas já não permite que ele dite a respiração, o passo, o pensamento. Era como se a casa tivesse aprendido, junto comigo, a ficar de pé sem se encolher. John estava na cozinha quando entrei. Camisa clara, mangas dobradas até os antebraços, o café esquecido esfriando na xícara. O rosto trazia marcas de cansaço que não eram fraqueza — eram prova de quem permaneceu acordado quando precisava. Ele parecia exausto. E, ainda assim, inteiro. Presente. Ali. — Dormiu melhor? — perguntou, a voz baixa, cuidadosa, como se não quisesse quebrar nada. — Um pouco — respondi. E dessa vez era verdade de um jeito novo. Não porque o medo tivesse desaparecido, mas porque ele não venceu a noite. Porque, mesmo quando acordei assustada, eu não estava sozinha. E meu corpo sabia disso agora.
Última actualización : 2026-01-10 Leer más