Alya demorou a se acostumar com a visão. O pai dos seus filhos, o homem que ela amou, odiou e enterrou vivo dentro da própria memória, dormindo num colchão improvisado num cômodo estreito, que ele insistia em chamar de quarto. Um espaço que mal cabia o corpo dele esticado, com uma pequena cômoda velha e uma cadeira que servia de cabide.De vez em quando, no meio da noite, ela ouvia. Um xingamento em italiano, baixo, cortando o silêncio. Um “basta”, um “cazzo”, um “no”.Ela sabia que eram sonhos que ele não contava. Tiros que só ele ouvia, memórias misturadas, ruas escuras, a estrada onde tudo começou. Paolo acordava sempre rápido, como se o sono fosse inimigo. A respiração acelerada, o olhar perdido por alguns segundos, até lembrar onde estava.Naquela madrugada, a chuva chegou pesada. Um trovão fez a casa tremer de leve. Alya acordou com o coração disparado, como acontecia desde criança. Ela odiava o trovão, aquela explosão inesperada, o corte brusco do silêncio. Ao mesmo tempo, a
Última actualización : 2026-03-17 Leer más