O sol do fim de tarde doura as paredes de pedra da área externa, mas a luz que tudo clareia só me traz uma incômoda sensação de nitidez. Estou sentada na varanda gourmet, protegida pela sombra do pergolado de madeira, segurando uma xícara de chá que já esfriou há muito tempo. Meus olhos, semicerrados por trás dos óculos escuros, não perdem um único movimento do que acontece no gramado. Há dias vivo assim: trancada dentro de uma armadura de silêncio e sorrisos ensaiados, engolindo meu orgulho a cada refeição, operando uma pacificação forçada que me custa cada gota de autocontrole. Eu me recolhi. Vesti a pele de cordeiro que precisava, pedi desculpas e recuei. Mas recuei para observar.No jardim, a cena que se desenrola diante de mim é de uma perfeição irritante. Mário está sem paletó, com as mangas da camisa social dobradas até os cotovelos, correndo atrás do Miguel. O menino gargalha, um som limpo e alto que ecoa por todo o terreno, segurando um avião de brinquedo. E logo atrás deles
Última actualización : 2026-08-15 Leer más