São 22:40 e eu ainda estou de salto. O jantar de gala da Fundação acabou há uma hora. Foram fotos, discursos, apertos de mãos. "Dona Sofia, a senhora é um exemplo". Sorrisos. Taças de espumante que eu fiz questão de não beber. E eu vim direto pra cá. Porque neto doente não espera agenda. Porque filho destruído precisa de mãe, mesmo que ele ache que não.O hospital está mais silencioso. Só o som das bombas de infusão e os sapatos das poucas enfermeiras no corredor. Eu sigo até o quarto onde ele está. A porta está entreaberta e a luz acesa.Eu entro sem bater. E paro.Cena: O quarto está escuro, só o abajur aceso. O Miguel está deitado, encolhido no meio da cama, com a camisola hospitalar do Flash. Pálido. O rosto vermelho e suado. O suporte do soro do lado.E ao lado, deitada com ele, está ela. Júlia. De moletom. Cabelo preso de qualquer jeito. Sem maquiagem. Lendo um livro infantil em voz baixa. "O Pequeno Príncipe". — "Foi então que apareceu a raposa" — ela lê, e faz voz difer
Última atualização : 2026-08-09 Ler mais