A luz cinzenta da alvorada invadiu o meu quarto pelas frestas da persiana sem pedir licença, denunciando que eu não havia pregado os olhos por um minuto sequer. A noite fora um deserto de angústia e insônia, pontuado pelo silêncio opressor do apartamento e pelo remorso que devorava o meu peito. Eu continuava encarando o teto, presa ao emaranhado dos meus próprios pensamentos, quando o som estridente e insistente da campainha cortou a penumbra do imóvel. Sentei-me na cama num sobressalto, o coração disparando instantaneamente contra as costelas. Olhei para o relógio na mesa de cabeceira: ainda não passava das cinco da manhã. A campainha tocou novamente, três, quatro vezes seguidas, com uma urgência que não deixava margem para dúvidas sobre quem estava do outro lado. Levantei-me devagar, ajustando o roupão ao redor do corpo com as mãos trêmulas. Caminhei a passos lentos pelo corredor frio e, ao me aproximar da porta social, espiei pelo olho mágico. Era Henrique. Ele vestia uma camis
Última actualización : 2026-08-28 Leer más