RAFAELEu não dormi direito.A imagem não saía: Sara rindo, o corpo leve, a cabeça inclinada para o lado dele. Allan fechando a porta do carro com uma naturalidade que eu não conseguia imitar. E, por cima disso, as duas brigas. O grito. O braço dela tremendo quando eu a tirei dali. O silêncio no carro depois.Eu tinha sido o homem que a tirou do meio do caos. Agora eu era o homem que assistia o caos voltar andando de lado, rindo, como se nunca tivesse existido.No escritório, no dia seguinte, mantive a distância combinada. Ou o que restava dela. Entreguei prazos. Assinei papéis. Evitei o corredor na hora do café.Até ela aparecer na porta da minha sala com uma pasta.— O parecer do caso Almeida — disse, a voz profissional, o olhar firme demais para quem tinha passado a tarde anterior rindo na calçada.— Deixa na mesa.Ela deixou. Hesitou meio segundo. Eu não levantei os olhos do computador.— Alguma coisa mais, doutor?— Não.A porta se fechou. O clique soou mais alto do que deveria
Última atualização : 2026-10-10 Ler mais