LOGINPOV ISADORA Cinco anos depois, a vida tinha ganhado um brilho novo. E agora, ele estava todinho refletido em luzes penduradas num jardim enorme, onde Olívia ia casar, finalmente, com Caio, o homem que olhava pra ela como se ela fosse o último pôr do sol da Terra. Eu cheguei mais cedo. A música suave, o cheiro de flores, as mesas com arranjos absurdamente lindos... tudo parecia saído de um sonho cuidadosamente coreografado. O tipo de sonho que Olívia merecia, caos zero, drama zero, só amor, risadas e um vestido que ela só aceitou depois que eu e Raul enchemos a paciência dela por duas horas. A vida muda. Mas algumas pessoas continuam sendo nossas âncoras. Hoje, eu vim celebrar uma âncora. Sofia corre até mim ou melhor, tropeça até mim — Mamãe! — ela gritou, com a miniatura de vestido de noiva balançando até o chão. Sim, porque Olívia decidiu que sua daminha seria “uma noivinha mirim”. E Sofia amou cada segundo. — Você tá igualzinha a uma princesa — eu disse, levantando ela no co
POV ISADORACINCO ANOS DEPOISCinco anos passam como uma maré que parece preguiçosa, mas quando você olha de novo… o mundo inteiro mudou de lugar.E, de algum jeito meio milagroso, eu também.Acordo com o som de pequenos passos apressados correndo pelo corredor, passos que conheço como a batida do meu próprio coração e um grito de guerra infantil que já anuncia o impacto iminente:— MAMÃÃÃÃE!!!Me preparo psicologicamente. Não dá tempo.Sofia voa na cama como um míssil de cinco anos de energia pura. O colchão afunda, Dante resmunga do meu lado, meio afogado no travesseiro, e eu só consigo rir enquanto meu pequeno furacão se joga no meu colo como se não me visse há semanas, não há… tipo… sete horas.— Mamãe, mamãe, mamãe, olha! — ela mostra um pedacinho de papel colorido amassado. — Eu fiz um desenho da gente três!— Três? — pergunto, fingindo surpresa. — Eu, você e quem?Ela revira os olhos como se eu fosse a pessoa mais lenta do planeta.— O papai, né! — e puxa o braço de Dante, que
POV IsadoraEra uma tarde clara, a luz entrando preguiçosa pela janela da nossa sala. Sofia dormia no berço, com a boquinha meio aberta, e Dante estava no outro cômodo, resolvendo detalhes bobo-administrativos do lançamento do livro. Eu tinha acabado de revisar uma prova final do capítulo quando o telefone tocou.O número era do escritório da advogada que cuidava de algumas coisas minhas, a mesma mulher que, por generosidade e ironia do destino, havia me ajudado a construir uma rede de proteção quando eu ainda vivia com Heitor e não sabia como virar a maré da minha própria vida.— Isadora? — a voz dela, sempre contida, soou mais firme do que eu esperava. — Eu tenho uma informação que você precisa ouvir pessoalmente. Você pode me encontrar?Pedi para Dante ficar com Sofia e peguei minha bolsa com uma calma estranha. Era como se, desde que as coisas desabaram, eu tivesse aprendido a medir meus movimentos com outra paciência: cada passo, cada palavra, com propósitos. No carro, a cidade f
POV ISADORAA manhã estava calma demais e isso já devia ter sido pista suficiente de que alguma merda cósmica estava prestes a cair na minha cabeça.Eu estava na Vertigem, sentada na salinha de vidro onde Dante gostava de roubar meus cafés, revisando um trecho do livro novo. A bebê dormia no andador portátil, com aquela respiração baixinha que sempre me desmontava por dentro. E Dante, claro, estava no telefone, resolvendo alguma pendência com advogados da Harris– quer dizer, ex-Harrison.Tudo tão normal que até dava medo.Foi aí que meu celular vibrou. Primeiro uma notificação. Depois outra. E mais outra. Meu estômago afundou antes mesmo de ver o que era.Quando cliquei, a tela abriu em manchetes, todas iguais, todas gritadas:“HEITOR MONTENEGRO É CONDENADO A 35 ANOS DE PRISÃO POR DUAS MORTES.”A foto vinha logo abaixo. Ele sendo escoltado para fora do tribunal. Cabelos desgrenhados. Olheiras profundas. O rosto…— Deus do céu — o rosto estava sem vida.Como se ele já tivesse morrido p
POV HEITORA sala do tribunal parece menor do que eu lembrava. Talvez seja eu que encolhi, diminuí tanto por dentro que qualquer espaço parece grande demais pra mim.O ar está seco, tenso, pesado… e ninguém me olha como ser humano. Só como um monstro prestes a ser enjaulado. E, honestamente… quem sou eu pra discordar?Sento. O banco de madeira reclama sob meu peso. A madeira range como se também me julgasse.Os fotógrafos estão na porta, tentando capturar cada ângulo da minha destruição. E pela primeira vez na vida, não tento parecer forte. Nem digno. Nem homem.Eu só existo.O juiz entra. A plateia se cala. E eu sinto meu coração parar um segundo, como se tentasse fugir.— Iniciamos o julgamento do réu Heitor Montenegro, acusado de duplo homicídio qualificado…A frase me atravessa. Nada dói mais que ouvir o nome da minha esposa e da minha mãe citado no laudo como vítimas. Vítimas minhas.O procurador começa a falar, mas meu cérebro zune. Só escuto fragmentos.“sabotagem”“adulteração
POV DANTEUma semana desde a prisão de Heitor. Sete dias desde que o caos finalmente pareceu desacelerar.Mas eu ainda não confiava na calmaria.A Vertigem estava estranhamente silenciosa naquela manhã. Não o silêncio mórbido dos últimos meses, era um silêncio focado, de trabalho pesado, de progresso. Um silêncio que parecia prenunciar que algo grande estava prestes a acontecer.Eu estava na sala de reuniões com Isa, Raul e Beatriz. A mesa estava cheia de versões impressas, rascunhos, planilhas de marketing e contratos. O livro da Isa com o Raul, aquele projeto que parecia impossível meses atrás, agora era o trunfo da editora.E estava lindo. Impecável. Poderoso.— O engajamento pré-lançamento está absurdo — Raul dizia, mexendo no tablet. — O book teaser bateu um milhão de visualizações em menos de vinte e quatro horas. É surreal.— E isso é orgânico — completou Beatriz, orgulhosa. — A gente não impulsionou nada.Isa sorriu, aquele sorriso que sempre valia o meu dia inteiro. Mesmo c







