ログインHelena Albuquerque construiu uma carreira dizendo exatamente o que pensa, mesmo quando suas palavras transformam jogadores em inimigos. Filha de uma lenda do futebol e uma das jornalistas esportivas mais influentes do país, ela sabe que um único erro pode confirmar o que todos sempre disseram: que só chegou tão longe por causa do sobrenome. Miguel Duarte tem vinte e três anos, a camisa 23 nas costas e apenas uma chance de provar que merece jogar pelo maior clube do Rio de Janeiro. Quando Helena o chama de produto de marketing diante de milhões de pessoas, ele responde da única maneira que conhece: marcando três gols em sua estreia e desafiando-a diante das câmeras. A rivalidade viraliza. Então uma noite desastrosa termina com Helena saindo do apartamento dele usando sua camisa, e o país inteiro passa a acreditar que os dois estão juntos. Para salvar a audiência, o canal obriga Helena a entrevistá-lo semanalmente. Para proteger seu contrato, o clube exige que Miguel fique longe de novos escândalos. A regra deveria ser simples: provocar diante das câmeras e manter distância quando elas fossem desligadas. Mas cada entrevista parece uma preliminar. Cada discussão termina perto demais. E alguém está disposto a transformar o desejo entre eles no escândalo capaz de destruir as duas carreiras. No campo, Miguel sabe exatamente como marcar. Com Helena, ele pode perder tudo antes de conseguir conquistá-la.
もっと見る“O Maracanã comprou um craque ou só mais um produto de marketing?”
A pergunta saiu da televisão pela terceira vez porque eu tinha recuado o vídeo pela terceira vez. Eu chamava aquilo de estudo do adversário. Na terceira repetição, já era teimosia com Wi-Fi.
Helena Albuquerque ocupava a tela inteira da sala, sentada diante de um microfone preto, com a camisa do EsporteFoco e um sorriso que não chegava aos olhos. Atrás dela, congelada numa tela azul, estava uma foto minha comemorando um gol pelo Auriverde. Boca aberta, punho erguido, barro até no joelho.
Não era exatamente a imagem que eu escolheria para ser apresentado ao país.
— Dez gols em oito jogos no estadual — ela continuou. — É uma média excelente. A pergunta é contra quem. Sair de uma divisão pequena para o atual campeão brasileiro exige mais do que velocidade e uma boa história de superação.
Parei o vídeo antes que ela repetisse a parte do produto de marketing.
O apartamento ficou silencioso de novo.
Eu ainda não tinha me acostumado com aquele silêncio. Na casa número 23, onde cresci, sempre havia uma televisão ligada, minha mãe batendo panela, meu pai discutindo escalação com alguém que nem estava presente. Ali, na Gávea, até o barulho do ar-condicionado parecia caro.
Na mesa havia uma pizza esfriando, três contratos que eu fingia ter entendido e a camisa entregue pelo clube naquela manhã.
DUARTE.
23.
O número que escolhi antes de saber quanto receberia, onde moraria ou se teria espaço no time. Nasci num dia 23. Cresci na casa 23. Aos vinte e três anos, tinha assinado com o Esporte Clube Maracanã.
Ou Deus gostava de repetir sinais ou eu era muito bom em procurar coincidências.
Meu celular vibrou sobre o sofá.
Mãe: Não fica vendo essa moça falando mal de você.
Olhei para a televisão desligada e depois para o celular.
Eu: Como sabe que estou vendo?
Mãe: Porque você puxou seu pai. Quando alguém diz pra não ir, vocês param só pra perguntar o caminho.
Ri sozinho.
Logo abaixo havia uma mensagem de Armani, meu novo empresário.
Armani: Amanhã, coletiva às 11h. Terno azul. Nada de responder a provocações. Sua função é sorrir e agradecer.
Mandei um joinha que significava “entendi” e não “vou obedecer”.
Abri o vídeo mais uma vez.
Helena era bonita daquele jeito perigoso que a câmera não inventava. Cabelos castanhos caindo em ondas sobre os ombros, olhos verdes atentos, boca pronta para transformar qualquer hesitação em corte de quinze segundos. O rosto parecia calmo. As palavras não.
Eu deveria odiá-la.
Quanto mais ela duvidava de mim, mais eu queria que continuasse olhando.
Na manhã seguinte, cheguei ao Covil da Onça quarenta minutos antes da coletiva. O centro de treinamento do Maracanã tinha mais gente cuidando do gramado do que o Auriverde tinha na folha de pagamento. Homens de uniforme atravessavam os corredores com rádios presos à cintura. Telas repetiam gols históricos do clube. Em todas as paredes havia alguma lembrança de que eu acabara de entrar num lugar onde já tinham vencido tudo.
Armani me esperava diante da sala de imprensa. O terno dele parecia não conhecer suor.
— Postura — disse, alisando a frente do meu paletó. — Você não precisa provar nada hoje.
— Esse é literalmente o motivo da coletiva.
— Não inventa de ser engraçado diante das câmeras.
— Eu sou naturalmente engraçado.
— Esse é o meu medo.
O assessor do clube abriu a porta. O clarão dos flashes me atingiu antes do barulho. Havia pelo menos cinquenta pessoas na sala, além das câmeras montadas no fundo e de uma fileira de celulares erguidos.
Sentei entre o presidente e Otávio Dutra, o treinador que tinha pedido minha contratação. Em cima da mesa, dobrada com o número voltado para a imprensa, estava a camisa 23.
As primeiras perguntas eram fáceis. Como eu me sentia. O que esperava da temporada. Se a torcida podia esperar gols. Respondi como Armani havia ensaiado comigo no carro: honra, trabalho, oportunidade, grupo forte.
Então uma mulher se levantou na terceira fileira.
Eu a reconheci antes que dissesse o nome.
Helena usava uma camisa branca sem estampa, calça preta e o cabelo preso pela metade. Ao vivo, os olhos eram de um verde menos bonito e mais inconveniente. Não passavam por uma pessoa. Paravam nela.
— Helena Albuquerque, EsporteFoco.
Armani se mexeu junto à parede. Otávio Dutra fechou a tampa da garrafa de água com força demais.
Ela sabia o efeito que causava. Esperou a sala silenciar e ergueu o microfone.
— Miguel, você saiu de um clube com pouca expressão nacional e chega ao atual campeão usando um número que já virou parte da sua campanha de apresentação. Você se sente preparado para carregar uma camisa desse tamanho ou teme descobrir que foi contratado mais pela história do que pelo futebol?
Algumas cabeças se viraram na minha direção. Outras pessoas abaixaram os olhos para os celulares, prontas para publicar qualquer tropeço.
Eu podia dar a resposta treinada.
Podia sorrir, agradecer e dizer que falaria dentro de campo.
Em vez disso, olhei diretamente para ela.
— Quantos gols eu preciso fazer para você admitir que errou?
HelenaA mão de Miguel permaneceu na minha cintura por dois segundos.Talvez três.Tempo suficiente para eu registrar o calor dos dedos através da blusa, o cheiro limpo de banho recente e o fato de que o peito dele estava perto demais do meu rosto. Quando recuperei o equilíbrio, afastei-me como se nada tivesse acontecido.— Reflexo bom — comentei.— Sou pago para isso.— Você é pago para chutar bola.— O resto eu faço de graça.Ele disse sem baixar a voz, mas a frase encontrou um espaço particular entre nós. Peguei meu copo sobre a mesa e bebi para não responder.O jantar coletivo funcionou por aproximadamente vinte minutos. Lucas contava histórias do vestiário, Juninho discutia com Alice sobre quem tinha escolhido o pior jogador da rodada e Miguel, sentado à minha frente, participava de todas as conversas sem parar de me observar.O olhar não percorreu meu corpo nem tentou me despir. Ficou no meu rosto, esperando.Eu estava acostumada com homens que tentavam ocupar meu espaço antes q
MiguelTrês gols, uma assistência e um tornozelo latejando.Ainda assim, a primeira coisa que procurei ao deixar o campo foi o rosto de Helena.Não encontrei.A cabine do EsporteFoco estava vazia, e por um segundo absurdo pensei que ela tivesse fugido. Depois Lucas me acertou pelas costas com uma toalha molhada e o vestiário inteiro começou a gritar “jantar” como se aquela fosse a música oficial do clube.— Vocês são muito infantis — reclamei, sem conseguir parar de sorrir.— Três gols na estreia e o homem está preocupado com sobremesa — Juninho disse.— Prioridades.Otávio Dutra entrou antes que respondessem. O barulho morreu aos poucos.Ele esperou o silêncio completo, olhou para o placar desenhado no quadro e depois para mim.— Boa estreia, Duarte.Duas palavras. Vindas dele, pareceram uma convocação para a seleção.— Obrigado, professor.— Agora esquece. Quarta-feira tem treino e domingo tem outro jogo. Quem vive de estreia morre no segundo tempo da temporada.Assenti. A frase era
HelenaCinco minutos depois do início da partida, Miguel recebeu a bola no meio-campo e transformou minha paz num corredor aberto.O Maracanã jogava de branco e azul-claro. Da cabine do EsporteFoco, eu enxergava o número 23 avançando entre dois marcadores do Carioca. Ele tinha um jeito estranho de correr: o tronco um pouco inclinado, os braços soltos, como se chegasse atrasado a algum lugar que só ele sabia onde ficava.O primeiro zagueiro tentou fechar o lado direito.Miguel cortou para dentro.O segundo veio no corpo. Ele protegeu a bola, esperou o goleiro sair e tocou por cima.A rede se mexeu.O estádio explodiu.— O menino é bom — Zeca gritou ao meu lado.Zeca havia jogado com meu pai na seleção e se considerava autorizado a comentar qualquer coisa, inclusive meu silêncio.— Foi um gol — respondi, ajeitando o fone. — Até atacante ruim faz de vez em quando.— Você vai sofrer nesse jantar.— Não haverá jantar.No gramado, Miguel correu em direção à arquibancada, beijou o escudo e s
MiguelNo meu primeiro treino como possível titular do Maracanã, errei um gol que minha mãe faria de chinelo.A bola veio limpa da direita. Eu estava sozinho na pequena área, com tempo suficiente para escolher o canto, agradecer a Deus e talvez responder mais uma provocação da Helena. Chutei por cima.Otávio Dutra apitou tão forte que o som pareceu atravessar meu crânio.— Duarte! Aqui!Corri até a lateral. O treinador esperou que eu chegasse antes de apontar para o campo.— Sabe o que tem ali?— Um gol.— Engraçadinho. Tem dez jogadores tentando entender como você se move. Se você correr para a câmera em vez de correr para o espaço, vai assistir à estreia do banco.Assenti. Não havia resposta boa.Desde a coletiva, meu nome tinha virado brincadeira nacional. A aposta aparecia no celular de todo mundo. O perfil do clube ganhou seguidores. O meu quase dobrou. Armani dizia que era excelente. Otávio tratava cada notificação como se fosse um quilo a mais amarrado nas minhas pernas.— Esqu
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