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Capítulo 3: O Trunfo do Coringa

Autor: Ane Santos
last update Fecha de publicación: 2026-02-01 09:58:08

A NOITE..

As luzes da quadra do morro podiam ser vistas de longe. O som do grave do funk tremia o chão, anunciando que aquela não era uma noite qualquer. Era a noite em que o comando mudava de mãos.

Eu encarei meu reflexo no espelho uma última vez. Estava usando um vestido justo preto e um batom vermelho que eu raramente tinha coragem de usar. Se eu ia entrar na cova dos leões, que fosse de cabeça erguida.

— Helena? Você vai mesmo? — minha mãe perguntou, encostada na porta.

— Vou, mãe. Só para marcar presença. Não quero que pensem que a "herdeira" está se escondendo só porque o Arthur assumiu.

Ao chegar na quadra, o cheiro de perfume caro misturado com o de fumaça era sufocante. O camarote estava lotado. Assim que entrei, os olhares se voltaram para mim. Eu era a filha do patrão, mas também era a "estudante" que muitos ali mal viam.

— Olha ela! — Laura veio ao meu encontro, radiante em um conjunto brilhante. — Achei que ia ficar em casa estudando o Código Penal!

— Vim ver se você não ia se meter em confusão, Laura. — Tentei sorrir, mas meus olhos buscavam o centro do evento.

Lá estava ele. Arthur — o Coringa — estava sentado em uma poltrona no centro do camarote. Ele não estava bebendo, apenas observava o movimento com uma calma que dava medo.

Vanessa estava ao lado dele, as mãos possessivas em seus ombros, mas o olhar de Arthur estava em outro lugar.

Em mim.

Eu tentei desviar, mas o magnetismo era pesado.

Atravessei a pista, mas antes que eu pudesse chegar ao bar, meu celular vibrou. Rafael.

— Oi, Rafa. — Me afastei para um canto menos barulhento.

— Helena? Onde você está? Que barulho é esse?

— Estou em uma festa aqui no morro... — comecei a dizer, mas parei ao sentir uma presença atrás de mim.

— Festa? Helena, eu te disse que não queria você envolvida nessas coisas! Meu pai está estranho hoje, ele está... — A ligação de Rafael ficou instável, chiando muito.

— O que tem o seu pai, Rafael?

Senti uma mão fria tirar o celular do meu ouvido. Me virei bruscamente. Era Arthur. Ele segurava meu aparelho com uma expressão de tédio, enquanto Vanessa nos observava de longe com puro ódio.

— Devolve, Arthur! — exigi, tentando pegar o telefone.

— O seu namorado é muito barulhento, Helena — ele disse, com a voz rouca, ignorando meu protesto. Ele olhou para a tela, viu o nome de Rafael e desligou a ligação. — E ele não deveria estar te ligando a essa hora. Hoje a noite é sobre o morro. É sobre nós.

— Não existe "nós", Coringa. Existe a minha família e o comando que meu pai te deu. Eu não faço parte disso.

Ele deu um passo à frente, me encurralando contra a grade do camarote. O cheiro dele — amadeirado e perigoso — invadiu meus sentidos.

— Você é a herdeira, queira ou não. Pode tentar se esconder atrás daqueles livros de Direito, mas o sangue que corre em você é o mesmo que o meu. — Ele se inclinou, o rosto a milímetros do meu. — Enquanto você janta com o seu "almofadinha" lá embaixo, ele sabe quem você realmente é? Ele sabe que você é a dona desse lugar?

— Ele me ama pelo que eu sou, não pelo que eu herdei.

Arthur deu uma risada curta, sem humor nenhum.

— Amor não protege ninguém aqui em cima, Helena. Só o poder protege. E hoje... hoje você vai ver o que acontece com quem tenta brincar de mocinho no meu território.

Antes que eu pudesse responder, o som da música parou abruptamente. Um estrondo de granada de luz explodiu na entrada da quadra. O pânico foi instantâneo. Gritos, correria e o som de fuzis disparando para o alto.

— É O CHOQUE! OPERAÇÃO! — Alguém gritou no rádio.

No meio da confusão, vi homens de preto descendo de rapel pelo teto da quadra. Um deles, com o porte físico idêntico ao do pai de Rafael, apontou o fuzil diretamente para o camarote. Ele não estava ali para prender traficantes comuns. Ele estava ali por mim.

Arthur me puxou pelo braço com uma força bruta, me jogando para trás de uma pilastra enquanto as balas começavam a estraçalhar o vidro do camarote.

— Fica embaixo de mim e não se mexe! — ele rugiu, sacando a pistola.

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