Compartir

Capítulo-2

last update Fecha de publicación: 2026-01-28 07:09:05

Prefiro ir no banco de trás com Jana. Vejo o rosto do meu padrasto se contrair de raiva pela minha atitude inesperada e sei que isso vai ter um preço.

Eu queria ter sido enterrada junto com minha mãe para não ter que ficar sozinha com ele dentro de casa.

 Mas é justamente para casa que estamos indo. Ele e eu.

Quando entro em casa sinto um vazio no peito tão desesperador, que me dá vontade de voltar correndo pela mesma porta por onde tinha acabado de entrar.

Gino segue na frente e desaparece dentro de casa. Jana entra comigo, deixando a bolsa no sofá, e me envolve num abraço longo.

— Eu fico um pouco — ela diz.

No sofá eu me deito no colo de Jana enquanto ela faz um cafuné na minha cabeça. O som da chuva começando lá fora me deixa ainda mais melancólica.

Quando Jana olha para o celular pela terceira vez, sei que o momento chegou. Ela se levanta, hesitante, me abraça de novo, mais forte.

— Qualquer coisa, me liga. A qualquer hora. Promete? — ela fala enquanto enrola uma mecha do meu cabelo no dedo.

— Prometo — respondo automaticamente.

Jana olha para os lados e abaixa a voz, falando no meu ouvido:

— Por favor, por favor, se cuida, tá?

— Vou me cuidar. — Falo sem nenhuma convicção na voz.

— Tenho que ir agora. O Uber está me esperando.

Vejo-a sair pelo portão correndo porque a chuva está engrossando. Respiro fundo. Agora estou sozinha mesmo.

Gino aparece no corredor como uma sombra.

— Vou fazer alguma coisa para a gente comer — digo, buscando um pretexto, qualquer coisa que me mantenha em movimento.

Eu me afasto e vou para a cozinha. Com mãos trêmulas, começo a preparar o jantar. Então sinto o contato indesejado: o corpo dele roçando no meu de propósito, lento, provocador. Dou um passo à frente, quase derrubando a panela.

— Por favor, fica longe! — digo baixo, a voz falhando.

Ele ri. Um riso curto, sem humor.

— Relaxa. Não fique tão tensa!

 Faço tudo muito rápido e ponho a mesa. Jantamos em silêncio e eu mal consigo engolir.

Sigo para o quarto buscando abrigo e distância. Vou até o espelho grande que fica na parede. Posso me ver, mas é como se não fosse eu mesma. Meu cabelo ondulado castanho-claro está preso em um coque frouxo, com as mechas loiras caindo ao redor do meu rosto e meus olhos amendoados estão sem brilho, sem vida. Não me reconheço mais. Tenho 21 anos, mas me sinto velha, cansada, sem esperança.

Tiro os sapatos e me jogo na cama ainda vestida. Não percebo que a porta ficou entreaberta. Não sei quanto tempo passa, mas de repente, sinto a presença dele. Abro os olhos e o vejo.

A mão pesada me pressiona contra o colchão. Ele rasga meu vestido preto, quebra a alça do sutiã com um puxão violento, enquanto agarra meu seio com força, espremendo-o dolorosamente.

— Agora somos eu e você, Marja. E você vai ser minha.

— Não! Me solta, por favor! — imploro.

— Não seja fingida, menina. Deixou a porta aberta para que eu viesse. Você é tão safada! E eu gosto disso.

— Me larga! Me solta! — a minha voz sai tremida.

Eu grito, luto, empurro ele com todas as forças que tenho.

Sinto sua mão subindo na minha coxa. Ele tenta arrancar minha calcinha. Eu luto, acerto o rosto dele com um chute, consigo me soltar num movimento desesperado e corro.

Saio do quarto quase tropeçando, o coração na garganta. Vou direto para a cozinha. A faca está ali, sobre a pia, ainda suja do jantar. Seguro com as duas mãos, os dedos escorregadios de suor.

— Fica longe de mim! —  grito com a voz falhando.

Ele avança; não parece ter medo. Mas eu resisto.

— Fica longe! — Respiro fundo, buscando ar, mas sem sucesso. As mãos trêmulas.

Num movimento rápido, ele segura meu pulso e torce com força, fazendo a faca cair. Com a outra mão livre, eu passo as unhas no rosto dele fazendo um corte enorme. Antes que eu consiga perceber, sinto o impacto: o tapa com as costas da mão é seco, violento e minha cabeça gira. Caio no chão, sentindo o gosto de sangue na boca e tudo fica borrado por um segundo.

Me levanto como posso e corro, com a visão turva pelas lágrimas. Vou em direção à escada que dá acesso ao quintal, ouvindo os passos dele atrás de mim. Meus pés escorregam, mas eu me seguro no corrimão.

E naquele momento ouço um som abrupto — um grito sufocado, o corpo dele perdendo o equilíbrio e logo em seguida, um impacto pesado. E por fim, surge um silêncio assustador, quebrado apenas pela chuva que martela forte no telhado.

Viro devagar e vejo Gino estendido no final da escada, imóvel, braços e pernas abertos. Por alguns segundos também fico imóvel, sem reação, esperando ele levantar e me atacar novamente, mas o tempo passa e ele não se move.

Continúa leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la App

Último capítulo

  • A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO   Capítulo-335 (Epílogo)

    Serena e Pedro-93Um ano depois...Um ano havia passado desde o dia em que ouvi o primeiro choro do nosso filho. E naquele momento, eu estava na varanda da casa da ilha, olhando para o mar, e ainda parecia difícil acreditar em tudo que havia acontecido. Aquela mesma casa que um dia tinha sido o esconderijo de Pedro, o lugar onde ele precisou se afastar do mundo para sobreviver, agora estava cheia de vida.Havia flores espalhadas pela varanda, balões discretos presos às colunas e uma grande mesa preparada para o aniversário. Sobre ela estavam os doces, frutas, salgados e, no centro, o bolo do nosso filho Alessandro.Meu pequeno Alessandro estava completando um ano. Ele era lindo. Tinha a pele clara e os olhos verde-azeitona do pai. Mas os cabelos eram negros como os meus. A natureza em sua perfeição, misturou nós dois em uma única criança. E eu não conseguia olhar para ele sem sentir meu coração transbordar. Alessandro já caminhava; ainda com dificuldade, é verdade. Dava dois ou três

  • A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO   Capítulo-334

    Serena e Pedro-92PEDROQuando Serena e eu voltamos para a mansão no dia seguinte, senti a paz do recomeço da nossa vida.A casa, que durante meses havia sido tomada por intrigas, discussões, mentiras e ameaças, agora parecia outra. Carlota não estava mais ali, Betina e Francisco também não. Mayneth, Alicia e Joaquim haviam desaparecido de nossas vidas. Carlos, meu primo, também foi preso. E a polícia conseguiu prender o médico da família, Samuel Barroso, no aeroporto se preparando para fugir do país.Entrei na sala segurando a mão de Serena, parei e olhei ao redor. Eu ainda não sabia explicar como aquela mulher conseguia transformar tudo dentro de mim apenas com um olhar. Passei os dedos pelo cabelo dela. Negros, longos, lisos. Gostava de vê-lo solto caindo até a cintura, acompanhando cada movimento dela, como uma cortina de seda negra. Gostava ainda mais quando Serena acordava pela manhã e os fios estavam espalhados pelo travesseiro.Toquei de leve o rosto dela, sentindo a maciez d

  • A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO   Capítulo-333

    Serena e Pedro-91Betina e Francisco deixaram a sala algemados. Então a porta se fechou atrás deles.Olhei ao meu redor. Pouco antes, aquela sala estava cheia. Agora, restavam apenas Mayneth, Alicia e Joaquim e nenhum dos três parecia saber o que fazer.Então Mayneth foi a primeira a se mexer. Ela respirou fundo e ergueu o queixo. E depois de recuperar a compostura, caminhou até a porta com um requebrado ensaiado. Em seguida saiu sem olhar para trás.Depois foi a vez de Alicia. Não havia mais aquele sorriso desconfortável que tantas vezes me incomodara. E sem dizer uma palavra, também saiu. Joaquim foi o último. Ele olhou para Pedro e os dois ficaram se encarando durante alguns segundos. Depois ele se virou e saiu. E a porta se fechou atrás dele.Pedro e eu ficamos sozinhos na sala. Ele também não disse nada. Permaneceu de pé por alguns instantes, olhando para a porta por onde todos haviam saído. Eu fiquei observando-o e percebi que não havia mais aquela expressão firme de minutos atr

  • A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO   Capítulo-332

    Serena e Pedro-90— Agora vou falar sobre a pessoa que tentou me matar.Naquele momento até mesmo o silêncio pareceu mudar. Os rostos ao nosso redor ficaram tensos imediatamente. Pedro soltou minha mão e começou a caminhar pela sala. Seus passos eram firmes, calmos e controlados.Ele parou diante de Betina e os dois se encararam em silêncio por alguns instantes. Então ele disse:— Foi você, Betina. Você quis me matar.Eu senti um arrepio percorrer meu corpo e olhei para Betina esperando uma reação. Esperava que ela gritasse. Que dissesse que Pedro estava mentindo. Que negasse. Mas ela simplesmente permaneceu sentada, com expressão rígida e seus olhos não demonstravam arrependimento. Ela não teve a mesma reação desesperada de Carlota quando foi confrontada e não tentou escapar, nem inventar uma história, nem se defender.Depois de alguns segundos, Betina se levantou e olhou para Pedro. E então, com um cinismo que me fez sentir um frio no estômago, disse:— Bom... mas você não morreu, n

  • A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO   Capítulo-331

    Serena e Pedro-89A voz de Pedro saiu fria quando disse:— Família, por favor, me acompanhe.Descemos do palco e enquanto passávamos por eles fui observando a expressão de cada um. Seguimos na frente. Eu permaneci ao lado de Pedro. Ele não soltou minha mão em momento algum. Na verdade, parecia fazer questão de que ninguém tivesse qualquer dúvida sobre o nosso relacionamento. Naquele momento o salão inteiro acompanhou nossos movimentos. Eu sentia os olhares sobre mim. Mas dessa vez eles não me incomodavam.Nós continuamos andando. Atrás de nós, a família nos acompanhava. Eu, por outro lado, sentia algo me dizer que Pedro não faria aquilo sem motivo. Ele não teria interrompido uma noite tão importante para chamar toda a família se não tivesse algo muito sério para dizer.Finalmente chegamos ao final do corredor e entramos numa sala ampla. Havia um sofá grande e algumas cadeiras acolchoadas. E perto da janela tinha uma grande mesa de madeira e vidro com cadeiras altas ao redor. Pedro e

  • A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO   Capítulo-330

    Serena e Pedro-88Pedro e eu caminhamos de mãos dadas em direção ao salão da festa.Depois do acidente, depois dos dias de medo, das mentiras, da distância e do segredo que precisávamos manter, ele estava caminhando ao meu lado como se quisesse deixar claro para o mundo inteiro que não havia mais nada a esconder.Ele entrelaçou os dedos nos meus e apertou com firmeza. Abriu a porta da sala privativa e nós saímos. Passamos pelo corredor e de repente estávamos no grande salão da festa.Durante alguns segundos, ninguém percebeu. A música continuava tocando no salão. As pessoas conversavam, riam, seguravam taças de champanhe e circulavam entre as mesas.Então alguém olhou para a nossa direção e parou. Foi como se aquele primeiro olhar tivesse provocado uma reação em cadeia. Uma pessoa cutucou a outra. Uma mulher levou a mão à boca. Um homem abaixou o celular. A música continuou por mais alguns segundos, mas a atenção de praticamente todos começou a se deslocar para nós. E então o salão i

Más capítulos
Explora y lee buenas novelas gratis
Acceso gratuito a una gran cantidad de buenas novelas en la app GoodNovel. Descarga los libros que te gusten y léelos donde y cuando quieras.
Lee libros gratis en la app
ESCANEA EL CÓDIGO PARA LEER EN LA APP
DMCA.com Protection Status