FAZER LOGINEm seguida, sigo correndo para o quarto. Minhas mãos tremem enquanto arranco do meu corpo o que sobrou do vestido preto que usei no enterro da minha mãe. Visto uma calça jeans, uma blusa qualquer, um par de tênis e jogo algumas roupas numa sacola.
Antes de sair, ligo para a emergência sem dizer meu nome. Passo por Gino e dou uma última olhada; não sei se está vivo ou morto.
Saio pelo quintal e dou a volta pelo portão lateral da casa, enquanto sinto a chuva me encharcando. Não sei para onde vou. Tudo o que sei é que não posso ficar.
Chego à rodoviária com as roupas úmidas da chuva, o cabelo grudando na testa e a boca ardendo no lugar onde recebi o tapa. Compro uma passagem no guichê vazio para o próximo ônibus que estiver saindo, sem perguntar o destino. A moça do guichê fala alguma coisa, mas eu apenas concordo com a cabeça. Não quero saber para onde vou. Só preciso ir.
O ônibus já está ligado quando subo. Escolho o lugar perto da janela, encosto a testa no vidro frio e abraço a sacola lembrando que nela está tudo o que me resta. O motor ronca, as portas se fecham, e quando o veículo começa a se mover sinto uma estranha sensação de liberdade.
As luzes da cidade passam rápidas, borradas pela chuva. É nesse movimento que a minha mente decide viajar no passado.
Meu pai morreu quando eu tinha sete anos.
Lembro da sensação antes de lembrar dos detalhes. Eu estava brincando no tapete da sala, quando minha mãe recebeu a notícia. O telefone caiu da mão dela e quebrou, mas o som do impacto pareceu distante. O que ficou perto demais foi o choro dela. Um som cru, animal, que eu nunca tinha ouvido sair da boca da minha mãe.
Depois disso, eu parei de falar. Não foi decisão. A voz simplesmente não saía. As palavras ficaram presas em algum lugar profundo, onde o medo e a tristeza se confundiam. Isso deixou minha mãe desesperada. Ela me levou a médicos, psicólogos, fonoaudiólogos.
Voltei a falar aos poucos. Primeiro, palavras soltas. Depois frases curtas. Nunca como antes. Nunca com naturalidade. E mesmo depois, continuei me isolando. Não fazia amigos porque não sabia como. Manter uma conversa parecia natural e fácil para os outros, enquanto que para mim era pesado e difícil.
Sempre me achei diferente demais para caber em grupos de amigos. A terapia me ajudou muito, mas ainda hoje tenho algumas dificuldades; ainda me sinto desconfortável quando encaro as pessoas por muito tempo ou quando mudanças bruscas acontecem na minha vida.
Uma vez — foi antes de Jana chegar na escola — durante a aula de história meu pensamento viajou. Quando despertei estavam todos rindo de mim, porque o professor havia perguntado algo e eu continuava “viajando no mundo da lua”. Depois disso passaram a me rotular de esquisita, de lerda...
O cansaço me vence e eu cochilo. Acordo assustada; percebo que ainda estou em viagem e que o dia já está claro. Logo em seguida, sinto o ônibus diminuir a velocidade. Olho pela janela e vejo uma placa enferrujada com o nome da cidade que não significa absolutamente nada para mim. É um lugar de terra batida nas margens da estrada, poucas casas e um céu aberto demais. Meu corpo entende antes da mente: é aqui que vou ficar. Aperto a sacola contra o peito, levanto antes que eu pense melhor e desço.
Passa um pouco do meio-dia. O sol está exatamente acima da minha cabeça, impiedoso. O calor sobe do chão como se a terra respirasse fogo. Sinto a blusa colar nas costas, o rosto arder, o lábio ainda sensível latejar. Não sei onde estou, mas, não sei porque, isso me dá uma estranha sensação de alívio.
Caminho sem destino até encontrar uma praça pequena, simples, com bancos de cimento descascados e árvores que oferecem uma sombra tímida.
Do outro lado da praça, há uma lanchonete. Atravesso a passos largos e sigo até lá. Não é mais do que um espaço simples com portas abertas, duas mesas de plástico e um balcão de fórmica desbotada.
Não encaro as poucas pessoas que estão no estabelecimento. Só me aproximo do balcão e peço um salgado e um copo de suco. Como rápido, quase sem sentir o gosto. Enquanto mastigo, depois de algum tempo, é que observo a mulher atrás do balcão.
Respiro fundo antes de perguntar:
— A senhora… está precisando de alguém para trabalhar?
Ela me olha com cuidado, da cabeça aos pés.
— Aqui, não — responde, sincera, sem grosseria. — O movimento é pouco.
— Sabe se aqui por perto, alguém está precisando? — arrisco mais uma vez.
— Não, moça. Como vê, aqui é cidade pequena e cada dono toma conta do seu próprio negócio.
. Pego a sacola, pronta para sair, quando uma voz masculina surge do fundo do estabelecimento.
— Ei, moça! Lá na fazenda tá precisando.
Viro-me e vejo um homem caboclo, queimado de sol, com olhos atentos. Ele usa um chapéu de palha gasto na cabeça e deve ter uns quarenta e poucos anos. Ele se aproxima devagar.
— Meu nome é Mundico — diz, tirando o chapéu. — Trabalho numa fazenda aqui perto. Sempre falta gente lá para trabalhar.
Seguro a alça da sacola com mais força.
— Que tipo de trabalho?
Ele dá de ombros.
— Depende. Limpeza, cozinha, serviço geral. Se não tiver medo de trabalho, você sempre encontra o que fazer.
Não penso muito e respondo:
— Não tenho medo de trabalho.
Ele me observa por mais um instante, e então pergunta:
— A moça já trabalhou com criança?
Serena e Pedro-93Um ano depois...Um ano havia passado desde o dia em que ouvi o primeiro choro do nosso filho. E naquele momento, eu estava na varanda da casa da ilha, olhando para o mar, e ainda parecia difícil acreditar em tudo que havia acontecido. Aquela mesma casa que um dia tinha sido o esconderijo de Pedro, o lugar onde ele precisou se afastar do mundo para sobreviver, agora estava cheia de vida.Havia flores espalhadas pela varanda, balões discretos presos às colunas e uma grande mesa preparada para o aniversário. Sobre ela estavam os doces, frutas, salgados e, no centro, o bolo do nosso filho Alessandro.Meu pequeno Alessandro estava completando um ano. Ele era lindo. Tinha a pele clara e os olhos verde-azeitona do pai. Mas os cabelos eram negros como os meus. A natureza em sua perfeição, misturou nós dois em uma única criança. E eu não conseguia olhar para ele sem sentir meu coração transbordar. Alessandro já caminhava; ainda com dificuldade, é verdade. Dava dois ou três
Serena e Pedro-92PEDROQuando Serena e eu voltamos para a mansão no dia seguinte, senti a paz do recomeço da nossa vida.A casa, que durante meses havia sido tomada por intrigas, discussões, mentiras e ameaças, agora parecia outra. Carlota não estava mais ali, Betina e Francisco também não. Mayneth, Alicia e Joaquim haviam desaparecido de nossas vidas. Carlos, meu primo, também foi preso. E a polícia conseguiu prender o médico da família, Samuel Barroso, no aeroporto se preparando para fugir do país.Entrei na sala segurando a mão de Serena, parei e olhei ao redor. Eu ainda não sabia explicar como aquela mulher conseguia transformar tudo dentro de mim apenas com um olhar. Passei os dedos pelo cabelo dela. Negros, longos, lisos. Gostava de vê-lo solto caindo até a cintura, acompanhando cada movimento dela, como uma cortina de seda negra. Gostava ainda mais quando Serena acordava pela manhã e os fios estavam espalhados pelo travesseiro.Toquei de leve o rosto dela, sentindo a maciez d
Serena e Pedro-91Betina e Francisco deixaram a sala algemados. Então a porta se fechou atrás deles.Olhei ao meu redor. Pouco antes, aquela sala estava cheia. Agora, restavam apenas Mayneth, Alicia e Joaquim e nenhum dos três parecia saber o que fazer.Então Mayneth foi a primeira a se mexer. Ela respirou fundo e ergueu o queixo. E depois de recuperar a compostura, caminhou até a porta com um requebrado ensaiado. Em seguida saiu sem olhar para trás.Depois foi a vez de Alicia. Não havia mais aquele sorriso desconfortável que tantas vezes me incomodara. E sem dizer uma palavra, também saiu. Joaquim foi o último. Ele olhou para Pedro e os dois ficaram se encarando durante alguns segundos. Depois ele se virou e saiu. E a porta se fechou atrás dele.Pedro e eu ficamos sozinhos na sala. Ele também não disse nada. Permaneceu de pé por alguns instantes, olhando para a porta por onde todos haviam saído. Eu fiquei observando-o e percebi que não havia mais aquela expressão firme de minutos atr
Serena e Pedro-90— Agora vou falar sobre a pessoa que tentou me matar.Naquele momento até mesmo o silêncio pareceu mudar. Os rostos ao nosso redor ficaram tensos imediatamente. Pedro soltou minha mão e começou a caminhar pela sala. Seus passos eram firmes, calmos e controlados.Ele parou diante de Betina e os dois se encararam em silêncio por alguns instantes. Então ele disse:— Foi você, Betina. Você quis me matar.Eu senti um arrepio percorrer meu corpo e olhei para Betina esperando uma reação. Esperava que ela gritasse. Que dissesse que Pedro estava mentindo. Que negasse. Mas ela simplesmente permaneceu sentada, com expressão rígida e seus olhos não demonstravam arrependimento. Ela não teve a mesma reação desesperada de Carlota quando foi confrontada e não tentou escapar, nem inventar uma história, nem se defender.Depois de alguns segundos, Betina se levantou e olhou para Pedro. E então, com um cinismo que me fez sentir um frio no estômago, disse:— Bom... mas você não morreu, n
Serena e Pedro-89A voz de Pedro saiu fria quando disse:— Família, por favor, me acompanhe.Descemos do palco e enquanto passávamos por eles fui observando a expressão de cada um. Seguimos na frente. Eu permaneci ao lado de Pedro. Ele não soltou minha mão em momento algum. Na verdade, parecia fazer questão de que ninguém tivesse qualquer dúvida sobre o nosso relacionamento. Naquele momento o salão inteiro acompanhou nossos movimentos. Eu sentia os olhares sobre mim. Mas dessa vez eles não me incomodavam.Nós continuamos andando. Atrás de nós, a família nos acompanhava. Eu, por outro lado, sentia algo me dizer que Pedro não faria aquilo sem motivo. Ele não teria interrompido uma noite tão importante para chamar toda a família se não tivesse algo muito sério para dizer.Finalmente chegamos ao final do corredor e entramos numa sala ampla. Havia um sofá grande e algumas cadeiras acolchoadas. E perto da janela tinha uma grande mesa de madeira e vidro com cadeiras altas ao redor. Pedro e
Serena e Pedro-88Pedro e eu caminhamos de mãos dadas em direção ao salão da festa.Depois do acidente, depois dos dias de medo, das mentiras, da distância e do segredo que precisávamos manter, ele estava caminhando ao meu lado como se quisesse deixar claro para o mundo inteiro que não havia mais nada a esconder.Ele entrelaçou os dedos nos meus e apertou com firmeza. Abriu a porta da sala privativa e nós saímos. Passamos pelo corredor e de repente estávamos no grande salão da festa.Durante alguns segundos, ninguém percebeu. A música continuava tocando no salão. As pessoas conversavam, riam, seguravam taças de champanhe e circulavam entre as mesas.Então alguém olhou para a nossa direção e parou. Foi como se aquele primeiro olhar tivesse provocado uma reação em cadeia. Uma pessoa cutucou a outra. Uma mulher levou a mão à boca. Um homem abaixou o celular. A música continuou por mais alguns segundos, mas a atenção de praticamente todos começou a se deslocar para nós. E então o salão i







