LOGINELLA | PRESENTE — DIA 2
Acordei com o som da chuva.
Ainda caía.
Fina, persistente, como se tivesse decidido ficar.
Olhei o relógio: 6h30.
Me levantei, tomei banho rápido, vesti calça jeans e blusa cinza. Prendi o cabelo num rabo de cavalo.
Desci para a cozinha.
Maggie já estava lá, preparando café.
— Bom dia — cumprimentei.
— Bom dia, querida. Dormiu bem?
— Sim. E Luisa?
— Dormiu a noite toda. — Maggie sorriu. — Primeira vez em semanas que ela não acorda no meio da madrugada chorando.
Meu peito aqueceu.
Primeira vez.
Por minha causa?
Ou só coincidência?
— Ela costuma acordar?
— Toda noite. — Maggie suspirou, colocando café na xícara. — Pesadelos. Ela acorda gritando. É... de partir o coração.
Engoli seco.
— E o Sr. Harrington... ele...
— Ele nunca vai. — A voz de Maggie endureceu. — Fica no quarto, trancado. Como se não ouvisse.
Ou como se ouvir doesse demais.
Não julguei.
Eu conhecia dor assim.
A que paralisa.
A que faz você fingir que não existe.
— Luisa desce às sete — Maggie disse. — Sempre pontual. Toma café, come pouco. Você pode ficar com ela depois.
Assenti.
Ajudei a preparar a mesa. Frutas. Torradas. Suco de laranja. Leite morno.
Às sete em ponto, ouvi passos pequenos nas escadas.
Luisa apareceu na porta da cozinha.
Cabelos loiros bagunçados de sono. Vestido azul já vestido — ela mesma se trocava, Maggie havia me dito. Sr. Nuvem debaixo do braço.
Ela me viu.
Parou.
Me olhou.
E então... caminhou até a mesa e sentou.
Como se fosse natural.
Como se eu já fizesse parte da rotina.
Meu coração deu um pulo.
— Bom dia, Luisa — disse suavemente.
Ela olhou para mim.
Não falou.
Mas acenou com a cabeça.
Pequeno. Quase invisível.
Mas estava lá.
Segundo dia. Segunda vitória.
Servi o café dela. Coloquei uma torrada no prato. Cortei morangos.
Ela comeu devagar, olhando para o prato.
Eu comi também, em silêncio.
Não forcei conversa.
Apenas... estava ali.
E ela permitiu.
Depois do café, levei Luisa para o quarto dela.
— Quer brincar de alguma coisa? — perguntei.
Ela foi até uma caixa no canto. Puxou lápis de cor e papel.
Sentou no chão.
Começou a desenhar.
Sentei ao lado dela, observando.
Ela desenhava uma casa. Grande. Bonita.
E três pessoas.
Uma mulher loira.
Uma menina loira.
Um homem moreno.
A mulher estava longe dos outros dois.
Do outro lado do papel.
Separada.
Meu peito apertou.
— É sua família? — perguntei baixinho.
Ela assentiu.
— Você, seu pai e... sua mãe?
Outro aceno.
— Você sente falta dela.
Os olhos de Luisa encheram de lágrimas.
Não caíram.
Mas estavam lá.
Puxei-a para meu colo devagar.
Ela não resistiu.
Encostou a cabeça no meu ombro.
Segurou o Sr. Nuvem com uma mão.
E com a outra... segurou meu dedo.
Pequeno gesto.
Mas devastador.
— Está tudo bem sentir falta — sussurrei. — Está tudo bem chorar. Está tudo bem ficar triste.
Ela não chorou.
Mas ficou ali.
Quieta.
Segura.
E eu segurei também.
Porque talvez...
Talvez ela precisasse disso.
Alguém que apenas segurasse.
Sem perguntar.
Sem exigir.
Apenas... segurar.
NATE | PRESENTE — DIA 2
Saí de casa às 5h30.
Antes do sol.
Antes de Luisa acordar.
Antes de ter que enfrentar.
Dirigi até o escritório, ruas vazias, cidade ainda dormindo.
Entrei na sala, liguei as luzes, sentei na cadeira.
Abri o laptop.
Trabalho.
Sempre trabalho.
Números. Contratos. E-mails.
Coisas que faziam sentido.
Coisas que eu conseguia controlar.
Mas a mente vagava.
Ella Moreau.
A babá nova.
Que eu ainda não tinha conhecido.
Que fez Luisa rir ontem.
Luisa riu.
Depois de dois anos.
Por causa de uma estranha.
Deveria me fazer feliz.
Deveria me trazer alívio.
Mas só trouxe mais culpa.
Por que ela consegue e eu não?
Por que uma desconhecida em um dia faz o que eu não faço em dois anos?
O que está errado comigo?
Encostei na cadeira, passei as mãos pelo rosto.
Não dormira. De novo.
Passara a noite acordado, olhando o teto, pensando.
Em Isabelle.
No incêndio.
Nas últimas palavras que trocamos.
"Você nunca está aqui, Nate!"
"Eu trabalho para nós, Isabelle!"
"Não. Você trabalha para fugir de nós."
Ela tinha razão.
Mesmo antes do incêndio, eu já estava fugindo.
Do casamento que esfriava.
Da intimidade que dava medo.
Da vulnerabilidade que me expunha.
E agora?
Agora eu continuava fugindo.
De Luisa.
Das memórias.
De sentir qualquer coisa.
Meu celular tocou.
James.
Atendi.
— Alô.
— Você está no escritório às seis da manhã de novo? — Voz cansada, preocupada.
— Trabalho acumulado.
— Mentira. — Pausa. — Quando foi a última vez que você dormiu direito?
— Não sei.
— Quando foi a última vez que você viu Luisa acordada?
Silêncio.
— Nate...
— Não comece, James.
— Alguém precisa começar. — Voz firme agora. — Você está se matando. E pior, está matando a relação com sua filha.
— Eu sei.
— Então faz algo!
— Como? — A palavra saiu mais alta que pretendia. — Como eu faço, James? Como eu olho para ela e não vejo Isabelle? Como eu fico perto sem lembrar?
Silêncio do outro lado.
Depois:
— Você vai à terapia?
— Não.
— Nate...
— Não funciona.
— Você foi duas vezes.
— Suficiente para saber.
James suspirou.
— A nova babá chegou?
— Sim.
— Você conheceu?
— Não.
— Por que não?
— Porque... — não consegui terminar.
Porque ela se chama Moreau.
Porque toda vez que ouço o sobrenome, Isabelle volta.
Porque eu não consigo enfrentar mais uma coisa que dói.
— Nate, você precisa estar presente. Não pela babá. Por Luisa.
— Eu sei.
— Então vai em casa hoje. Almoça com ela. Conhece a menina que está cuidando da sua filha. Seja pai, mesmo que doa.
Desliguei.
Joguei o celular na mesa.
Ele tinha razão.
Todos tinham razão.
Maggie, James, provavelmente até Sutton se importasse.
Mas saber não tornava mais fácil.
Fiquei ali, na sala vazia, olhando para a tela do computador.
Pensei em voltar.
Em descer do carro.
Em entrar na cozinha.
Em ver Luisa tomando café.
Em conhecer Ella.
Ella Moreau.
Fechei os olhos.
Respirei fundo.
Amanhã.
Amanhã eu vou.
Mas sabia que era mentira.
Como sempre era.
ELLA --- Junho. Três anos depois. Jardim. Carvalho. Balanço. Lugar com significados. Família agora: cinco. Nate, eu, Luisa, Isabella, e... Oliver Bebê, nosso filho. Família grande. Barulhenta. Caótica. Perfeita. --- Oliver nasceu um ano e meio atrás. Gravidez planejada. Tranquila. Sem traumas. Parto lindo. Menino saudável. Alegria pura. Nome escolhido em conjunto. Oliver Nathaniel Harrington. Honrando o pai. Marcando novo começo. Luisa e Isabella adoraram imediato. Irmão. Bebê. Família completa. Agora: dezoito meses. Andando. Balbuciando. Explorando. Rindo. Amor concentrado. --- Sentada no balanço. Oliver no colo. Isabella empurrando gentil. Luisa lendo na sombra. Nate trabalho. Mas chegando logo. Jantar em família. Rotina amada. Momento quieto. Raro três filhos. Mas precioso. Olhei ao redor. Jardim. Casa. Família. Vida. Jornada mente revisitando. Automático. Reflexiva. --- Anos atrás: orfanato. Solidão. Violência Marcus. Fuga. Desespero. Babá de Luisa. Conhecendo
ELLA --- Sábado. Dia do casamento. Meu casamento. Nosso casamento. Real. Acontecendo. Hoje. Acordei seis da manhã. Coração disparado. Nervosismo. Empolgação. Tudo junto. Avassalador. Hoje me tornaria esposa. Sra. Harrington. Oficial. Eterno. Depois de tudo. Aqui estava. --- Maggie entrou às sete com café. Torrada. Frutas. — Bom dia, noiva! — disse radiante. — Bom dia — respondi voz trêmula. — Nervosa? — Muito. Mas feliz. Muito feliz também. — Normal. Ambos normais. Dia grande. Mudança grande. Mas uma boa mudança. Melhor mudança. Comemos juntas. Conversa leve. Tentando acalmar os nervos. Isabella acordou oito. Alegre. Sem noção do significado do dia. Apenas feliz mamãe perto. Brinquei com ela. Normalidade. Rotina. Acalmando. Luisa acordou nove. Empolgada. "Hoje! Hoje! Casamento!" Energia dela era contagiante. Ajudou o nervosismo a diminuir. --- Dez da manhã. Preparação. Banho longo. Cabelo lavado. Pele hidratada. Unhas pintadas nude suave. Maggie ajudou. Dra. Sant
NATE ________________________________________ Sexta-feira. Véspera casamento. Último dia solteiro. Tecnicamente. Embora no coração já estamos casados há meses. Mas amanhã... amanhã o papel confirmaria. Legal. Oficial. Permanente. Eterno. Mal podia esperar. James organizou uma despedida de solteiro. Insistiu. "Tradição necessária. Rito passagem. Celebração." Simples ele prometeu. Nada exagerado. Sem strippers. Sem excessos. Apenas jantar. Bebidas. Conversa. Homens. Confiei. James conhecia limites. Respeitava relacionamento. Família. ________________________________________ Restaurante italiano. Pequeno. Íntimo. Reservado salão privado. Chegamos sete da noite. Oito homens total. James obviamente. Rick investigador leal. Três colegas trabalho próximos. Dois amigos faculdade reencontrados recentemente. Nada grande. Nada ostentoso. Perfeito. Mesa longa. Vinho tinto. Pães frescos. Azeite. Simplicidade italiana autêntica. Sentamos. Conversas começando. Leves. Descontraídas.
ELLAMaio. Planejamento casamento intenso.Simples prometido. Íntimo. Mas ainda... ainda detalhes infinitos.Jardim de casa.Lista de convidados: vinte pessoas no máximo. Família. James, Maggie, Dra Santos, Rick. Amigos próximos apenas. Íntimo. Significativo.Vestido: branco simples. Elegante. Confortável. Amamentando ainda então prático era necessário. Decote discreto. Acesso fácil. Lindo também.Flores: selvagens jardim. Margaridas. Lavanda. Rosas silvestres. Naturais. Lindas.Comida: Maggie cozinhando tudo. Lasanha. Saladas. Sobremesas. Caseiro. Amor em cada prato.Música: playlist criada, nossas músicas favoritas. Dançando. Rindo. Celebrando. Vivendo plenamente.Cerimônia: jardim. Sob carvalho. Próximo ao balanço. Memórias lá. Ella empurrando Luisa. Conversas profundas. Significado enorme. Perfeito escolha.Tudo planejado meticuloso. Três semanas faltando apenas. Empolgação crescendo diariamente. Nervosismo também. Mas um nervosismo bom. Ansiedade feliz.Isabella três meses compl
NATEAbril. Dois meses Isabella.Vida transformada. Nova rotina. Isabella dormindo melhor. Quatro horas seguidas algumas noites. Milagre comparado início.Ella recuperada. Corpo voltando. Energia retornando. Sorriso constante.Luisa na escola. Feliz. Contando para todos sobre a irmã. Orgulho transbordante.Trabalho ajustado. Home office três dias. Escritório dois. Prioridades claras. Família primeiro. Sempre.Manhã típica agora:Seis da manhã: Isabella acordando com fome. Ella amamentando.Sete: Luisa acordando. Café. Preparação para a escola.Oito e meia: Trabalho começando. Laptop. Calls. Emails. Produtividade.Meio-dia: Almoço família. Ella. Isabella. Conversa. Pausa.Uma: Trabalho retomando.Cinco: Luisa voltando. Lanche. Lição. Brincar com a Isabella.Seis: Jantar. Todos juntos. Histórias dia. Risos.Sete: Banho Isabella. Ritual. Pai-filha. Precioso.Oito: Luisa indo dormir. Histórias. Músicas. Beijos.Nove: Isabella última mamada. Sono.Dez: Nós. Tempo casal. Raro. Valioso. N
ELLAPrimeira semana em casa com Isabella.Sete dias. Cento sessenta e oito horas. Eternidade e instante simultaneamente.Noites sem dormir. Amamentação constante. Fraldas intermináveis. Choro inexplicável.Maternidade real. Crua. Exaustiva. Linda. Aterrorizante. Perfeita.Tudo junto. Tudo ao mesmo tempo.Três da manhã. Isabella chorava. De novo. Terceira vez desde meia-noite.Levantei zonza. Corpo dolorido. Seios pesados. Olhos ardendo.Peguei berço. Pequena. Vermelha. Furiosa.— Shh, amor. Mamãe aqui. Sempre aqui.Sentei cadeira balanço. Posicionei. Ofereci seio.Ela agarrou faminta. Sugou forte. Dor







