INICIAR SESIÓNO menino não respondeu. Ergueu o braço e, sem qualquer aviso, arremessou o avião com toda a força contra ela. Aurora desviou por puro instinto, sentindo o vento do objeto passar perto do seu rosto. O brinquedo bateu na parede atrás dela com um estrondo seco e caiu ao chão, uma das asas quebrada.
— Henrique! — Beatriz deu um passo à frente, a voz repreendendo, mas com um cansaço que dizia que aquela cena já havia se repetido dezenas de vezes.
O menino cruzou os braços no alto da escada, o queixo erguido em desafio.
— Você vai embora também.
— Nem me conhece direito — respondeu Aurora, tentando manter a calma, o coração ainda acelerado. — Como pode ter tanta certeza?
— Todas vão embora.
Havia algo na forma como ele disse aquilo — não raiva, não birra de criança mimada. Havia medo ali. Um medo antigo, ensaiado, como quem já se acostumou a se despedir antes mesmo de conhecer, por trás daquela manhã, havia uma dor.
Aurora deu um passo em direção à escada, devagar, como quem se aproxima de um animal ferido.
— Hummm mas você precisa dar a oportunidade de nós conhecermos, não concorda comigo? Eu quero te conhecer.
Silêncio. O menino a encarava, desconfiado. Mas ele achava estranho aquela mulher agindo de uma forma diferente.
— O meu nome é Aurora — ela continuou, a voz suave. — Prazer em te conhecer, de verdade.
— Eu sei quem você é.
Aurora piscou, fingindo surpresa.
— Sabe?
— Você é a décima segunda.
— A décima segunda o quê? — Aurora pergunta amigavel, sabendo e esperando a resposta.
Mas o menino já havia se virado, as costas pequenas e rígidas desaparecendo pelo corredor do andar de cima, sem mais uma palavra, deixando apenas o eco de passos apressados e o silêncio pesado de sempre. Beatriz soltou um suspiro longo, cansado, o tipo de suspiro que carrega anos de coisas não ditas.
— Ele faz isso com todas as babás que chegam.
— Todas? — Aurora se abaixou para pegar o avião quebrado, sentindo o metal frio entre os dedos. — Onze já passaram por aqui?
— Sim. Em pouco mais de dois anos.
Aurora olhou de novo para o topo da escada vazia, para o lugar onde o menino havia desaparecido. Não era raiva o que ela vira naqueles olhos verdes. Era dor. Uma dor grande demais para um corpo tão pequeno.
Do outro lado da cidade, no último andar envidraçado da Montenegro Holding, Leonardo Montenegro observava a chuva escorrer pela enorme parede de vidro do escritório, os pingos se multiplicando e se dividindo como pequenos rios sem destino certo.
Sobre a mesa de mogno escuro, uma fotografia emoldurada em prata: ele e Helena, sorrindo, durante uma viagem que parecia pertencer a outra vida. Ela usava um vestido azul-claro que dançava ao vento junto com os cabelos soltos. Leonardo passou o polegar devagar sobre o vidro que protegia o rosto da esposa, como se pudesse, de alguma forma impossível, sentir a pele dela sob os dedos. Cinco anos se passaram, e a saudade dela ainda estava tão nítida em seu coração, ele se culpava em silêncio por não ter dado ouvidos a ela quando a mesma com medo lhe compartilhou que estava sendo perseguida.
Cinco anos desde que tudo acabou, e ainda assim, em algumas noites, ele esquecia por um segundo — e então se lembrava de novo, e a dor chegava fresca, como se fosse a primeira vez. Uma batida discreta na porta o trouxe de volta.
— Entre.
Ricardo Montenegro, olhos claros, cabelo bem cortado e elegante, um ar misterioso e carregado de elegancia, entrou com o sorriso fácil de sempre, o terno escuro impecável, a gravata alinhada com uma perfeição quase artificial.
— A nova babá chegou — anunciou, se acomodando na cadeira em frente à mesa do sobrinho sem esperar convite.
Leonardo nem desviou os olhos da fotografia.
— Espero que essa dure mais de uma semana, as outras não duraram muito, ele sente falta dela tio.
— O Henrique está difícil, Leo. Muito difícil, mas entendo ele... as terapias deveriam estar adiantando, não acha?
— Ele sente falta da mãe. — A voz de Leonardo saiu mais dura do que pretendia.
Ricardo se levantou e caminhou até a janela, as mãos nos bolsos, uma forma elegante de mudar de assunto:
— E você também sente. Todo santo dia.
O silêncio que se seguiu foi pesado o suficiente para preencher a sala inteira. Depois de alguns segundos, Leonardo abriu a gaveta de baixo da mesa e retirou uma pasta velha, as bordas gastas de tanto ser aberta e fechada ao longo dos anos. Recortes de jornal amarelados. Laudos periciais. Fotografias do carro destruído, retorcido como papel amassado. Anotações feitas à mão, algumas quase ilegíveis de tanto terem sido reescritas.
Ricardo observou tudo de canto de olho, o rosto mantendo a serenidade de sempre — mas algo nos ombros havia enrijecido. Ele sabia atuar e manter sua postura, mas não lhe agradava que seu sobrinho estivesse investigando aquela situação antiga.
— Você ainda está investigando isso?
— Nunca parei.
— Leo... a polícia encerrou o caso há anos. Foi um acidente. Chuva, pista molhada, curva fechada. Querido sobrinho infelizmente aconteceu — O tom em sua voz era patriarcal e manso, perdendo o misterio que ele exercia.
Leonardo finalmente ergueu os olhos, e neles havia um brilho duro, quase acusatório.
— A polícia disse que foi um acidente.
— E foi.
— Helena me ligou três vezes naquela semana, tio. Três vezes, dizendo que sentia que alguém a seguia. Que um carro preto aparecia sempre no mesmo lugar, na mesma hora. Eu disse que era imaginação, que ela estava cansada, estressada com o trabalho, como você dizia — A voz dele tremeu, pela primeira vez. — E eu estava errado.
Por um instante — breve, quase invisível, mas real — algo cruzou o rosto de Ricardo. Um desconforto rápido, como uma sombra passando por trás dos olhos, ali e desaparecendo antes que se pudesse ter certeza de tê-lo visto, ele percebeu que não poderia tirar isso da mente de seu sobrinho então ele falou:
— Sabe Leo, o que me doi é vê você sofrendo ainda, por alimentar diáriamente esse acidente, desculpe se passei algo errado, Você não pode continuar vivendo preso ao passado, Leonardo. Isso está te destruindo. E está destruindo o Henrique também, você sabe disso, mas se for te ajudar — Ricardo se aproxima com passos suaves como um amigo, um tio, um pai e coloca sua mão sobre o ombro de seu sobrinho, Ricardo não era muito velho, ele tinha apenas oito anos a mais que seu sobrinho — Eu vou ajudá lo, tudo bem?
Aurora respira fundo e não demostra medo ela fala:— São fotos de um desenho de Henrique a morte da mãe dele o traumatizou, tenho que conversar com o senhor Leonardo sobre, acho que ele precisará de consultas psicológicas com alguma profissional.Ricardo sorri como um predador diante da preza que se recusa a ficar acoada sua mão cautelosamente acariacia o rosto de Aurora e fala:— Hummm devo confessar que você é muito linda, e lembra ela. — Ela?— Sim, a mãe de Henrique.— Helena?— Sim , querida — Ele acaricia com delicadeza uma mecha do cabelo loiro de Aurora, se ela fosse ingênua facilmente cairia nos encantos de Ricardo o tio de Leonardo. Mas ela mantem sua postura firme diante de todos os traços de sedução e elegancia que ele transmite, a beleza dele não ajuda a manter a firmeza, seus olhos azuis e cabelos escuros tendem a moldar aquele rosto masculo e lindo, a camisa social fica justa nos braços bem desenhados que ele tem, ela fala:— Você está perto demais de mim, senhor Ricar
Ele havia ido procurar o filho como de costume, já que todas manhãs ele sempre deixava um beijo na testa de seu filho— mas parara ali, paralisado, ao ouvir o som do piano e, logo depois, a conversa. As palavras de Aurora o atingiram de um jeito que ele não esperava, ela também havia perdido a mãe e pela primeira vez viu seu filho sorrir em tanto tempo.A pergunta do próprio filho atravessou seu peito como uma lâmina fria, exata, cirúrgica. Porque toda vez que o nome de Helena escapava dos seus lábios, ele sentia que revivia, por inteiro, a noite em que a perdera. Porque ainda carregava, entalada na garganta como uma pedra, a culpa de não ter acreditado nela quando ela disse que estava sendo seguida. Porque falar sobre Helena significava admitir, em voz alta, que talvez tivesse falhado como marido — e, pior ainda, talvez tivesse falhado como o único protetor que ela tinha.Leonardo fechou os olhos por um segundo, a garganta apertada, e recuou devagar, fechando a porta com o máximo cuid
A primeira semana de Aurora na Mansão Montenegro começou com um desafio que nenhuma das onze babás anteriores conseguira vencer. Henrique, simplesmente, se recusava a aceitar sua presença — ou, pelo menos, fingia se recusar, com toda a teimosia que um menino de seis anos era capaz de reunir. Na manhã seguinte ao encontro na biblioteca, Aurora abriu a porta do quarto de Henrique para acordá-lo e encontrou apenas silêncio. O quarto vazio.A cama desarrumada, os lençóis jogados de qualquer jeito. Brinquedos espalhados pelo chão, como se tivessem sido derrubados às pressas. E, o mais alarmante de tudo: a janela aberta, a cortina balançando levemente com a brisa da manhã. O coração de Aurora disparou "Meu Deus! Não!". — Henrique? — chamou, a voz já traindo o pânico, correndo até a janela e olhando para baixo, aliviada ao ver que não havia altura suficiente para ser perigoso, pois havia uma escada logo abaixo, seria uma escada estratégica para o menino? Mas ainda assim apavorada com a pos
Depois do almoço, com Henrique já adormecido para a soneca da tarde, Aurora recebeu autorização de Beatriz para explorar parte da biblioteca da mansão.O cômodo era gigantesco, quase um andar inteiro dedicado apenas a livros e memórias. Prateleiras de madeira escura, do chão ao teto, cobriam cada parede. Livros antigos com lombadas de couro gasto. Álbuns de fotografia empilhados com cuidado. Caixas de documentos lacradas, algumas cobertas por uma fina camada de poeira que sugeria anos sem serem abertas. Retratos emoldurados da família Montenegro, gerações inteiras observando de cima, em silêncio, fora o ar antigo e clássico do local, estantes cobertas de livros, muitos deles e uma escada caracol ao canto com detalhes em dourados.Aurora caminhava devagar entre as prateleiras, os dedos deslizando pelas lombadas dos livros, os olhos vasculhando cada detalhe, cada moldura, cada pista possível que a ligasse ao passado da própria mãe. Foi então que um quadro específico chamou sua atenção.
Funcionários uniformizados cruzavam os corredores carregando bandejas de prata. Flores recém-colhidas eram distribuídas pelos salões em vasos de cristal, não haveria festa mas tudo deveria estar perfeito sempre. O aroma de café fresco subia pelas escadarias e se misturava ao cheiro de pão quente vindo da cozinha. Tudo ali funcionava como uma engrenagem impecavelmente sincronizada — cada pessoa em seu lugar, cada gesto ensaiado por anos de repetição, Aurora já vestia o uniforme, uma camisa brança com corte social e uma saia tubinho preta com um sapato de salto preto e de seis cm. — Dormiu bem? Aurora se virou ao ouvir a voz de Beatriz, que colocava uma xícara de café fumegante sobre a mesa da copa, os movimentos precisos de quem já fizera aquilo milhares de vezes. — Melhor do que eu imaginava, para ser sincera — respondeu Aurora, puxando a cadeira e se sentando. — Aproveite essa paz. — Beatriz esboçou um meio sorriso, cansado. — Ela costuma durar pouco por aqui. Aurora segurou a
Leonardo fechou a pasta com cuidado, quase com reverência, e voltou a olhar para a fotografia da esposa sobre a mesa.— O passado nunca deixou de viver comigo, tio — disse, a voz agora baixa, cansada, definitiva. — Ele mora aqui, nesta sala, todos os dias. E não vou parar até entender por que ela morreu com tanto medo.— Bom, nesse caso então conte comigo sobrinho.Ricardo colocou sua mão sobre o ombro de Leonardo.Naquela mesma noite, já tarde, Aurora organizava as poucas roupas que trouxera no pequeno quarto reservado aos funcionários — simples, mas limpo, com uma cama de solteiro e um criado-mudo de madeira escura ao lado.Ao fechar a última gaveta, sentiu algo estranho sob os dedos: o fundo da gaveta parecia mais alto do que deveria, como se houvesse um espaço vazio embaixo dele que não fazia sentido, movida pela curiosidade ajoelhou-se no chão frio e passou as mãos pela madeira, apertando de leve em diferentes pontos até sentir uma pequena reentrância, quase invisível a olho nu.







