LOGINHá cinco anos, a morte de Helena Montenegro foi tratada como um trágico acidente. A polícia encerrou o caso, a imprensa esqueceu a história e a poderosa família Montenegro seguiu em frente. Mas Leonardo Montenegro nunca conseguiu ignorar as últimas palavras da esposa. Dias antes de morrer, Helena jurava estar sendo perseguida e insistia que alguém dentro da empresa escondia crimes capazes de destruir um império. Leonardo não acreditou. Até hoje, essa culpa o acompanha. Enquanto isso, Aurora Almeida cresce vendo sua mãe ser chamada de ladra após ser demitida da Montenegro Holding. Antes de morrer, Clara lhe entrega uma antiga chave e um único pedido: encontrar a verdade escondida dentro da mansão dos Montenegro. Disposta a limpar o nome da mãe, Aurora assume o cargo de babá do pequeno Henrique, filho de Leonardo. Seu verdadeiro objetivo, porém, é encontrar o misterioso Arquivo Zero, um conjunto de documentos que pode revelar décadas de corrupção e provar que sua mãe foi vítima de uma conspiração. O que ela não esperava era descobrir que o homem que mais odiava talvez fosse apenas mais uma vítima. Enquanto Leonardo busca respostas para a morte da esposa, Aurora se aproxima dele contra a própria vontade. Ao mesmo tempo, Ricardo Montenegro, o carismático tio de Leonardo, percebe que a nova babá esconde segredos e inicia um perigoso jogo de manipulação. Aurora decide corresponder ao interesse dele para conseguir acesso às informações da família, sem imaginar que Ricardo acabará se apaixonando de verdade por ela. Entre mentiras, paixões proibidas e segredos enterrados há décadas, Aurora precisará decidir até onde está disposta a ir por justiça... e se o amor será forte o bastante para sobreviver quando toda a verdade vier à tona.
View MoreA chuva caía fina e insistente sobre Santa Aurora, como se o próprio céu não conseguisse decidir entre chorar ou apenas suspirar. Aurora Almeida estava parada diante da lápide simples, o guarda-chuva esquecido em algum lugar do carro, os cabelos grudados no rosto pela umidade. As flores brancas que ela mesma deixara ali na semana anterior já murchavam, as pétalas curvando-se para dentro como se tentassem se proteger de algo.
Ela não sentia frio. Sentia apenas o peso frio da chave de bronze que apertava entre os dedos, tão forte que as unhas deixavam marcas na palma da mão.
— A senhora devia ter me contado tudo antes mãe — sussurrou, a voz embargada. — Por que guardou segredo até o fim?
O vento respondeu apenas com o farfalhar das árvores. Fechou os olhos e deixou que a memória a arrastasse de volta para aquele quarto de hospital que cheirava a álcool e a despedida.
— Não confie em nenhum Montenegro...
A frase ainda ecoava, nítida, cortante, como se sua mãe a tivesse dito minutos atrás e não semanas. Dona Clara Almeida passara os últimos anos de vida carregando rótulos que não escolhera: ladra, desonesta, oportunista. Depois de ser demitida da poderosa Montenegro Holding sob acusações que jamais foram provadas, mas devido ao fato de ser mal vista na maior empresa da cidade, então nenhuma porta se abriu para ela outra vez pelo menos não das grandes corporações. A cidade inteira parecia ter decidido, em silêncio e ao mesmo tempo, que Clara Almeida era culpada — e a vergonha fez o que a doença completou depois: destruiu, aos poucos, sua vontade de viver.
Aurora crescera ouvindo apenas fragmentos, sua mãe antes uma grande contadora, números era a afinidade dela, hoje uma diárista, empregada.
— Eu tinha tudo, mas confiei nas pessoas erradas, não cometa esse erro minha fiha — a mãe dizia, sempre que Aurora perguntava sobre— Mas eu acredito que a justiça vem e que um dia a verdade virá.
Sua mãe nunca lhe contou tudo, o nome, a explicação dessa dor, dessa desconfiança cada trabalho que Aurora arrumava, sua mãe perguntava "e são pessoas confiaveis?" Até que uma semana antes da morte de Clara, tudo foi revelado a Aurora, o medo profundo de sua mãe.
Na última noite, Clara segurou a mão da filha com o resto de força que ainda lhe restava. Os aparelhos ao redor apitavam baixinho, quase indiferentes.
— Mãe, não se canse, por favor...
— Preciso... — Clara respirou fundo, um som áspero, raspado. — Seu pai... escondeu a verdade...Mas eu espero querida que não busque vingança, isso não levará a nada, nada...
Aurora sentiu o chão sumir sob os pés, tudo que ela mais queria era se vingar, ela passou a semana toda pesquisando sobre a grande empresa, sobre o dono, sobre os socios, sobre uma forma de adentrar a armadura desse mundo. Mas era algo que sua mãe passou, porém quando sua mãe falou de seu pai, Aurora a encarou por um momento perplexa, o que mais teria a ser revelado, além da forte e dolorosa verdade de sua mãe uma das fundadoras da Montenegro Holding ser usada e deixada depois acusada de ladra.
— Meu pai? Mãe, o que ele tem a ver com isso? Ele foi embora quando eu tinha quatro anos, ele nunca...
— Escute... — Clara apertou a mão da filha com mais força do que Aurora imaginava ser possível naquele estado. — Dentro daquela casa, a mansão... existe um lugar...um segredo, isso você deve ir atrás , converse com eles...diga quem você é...
— Não quero ser amiga dessa gente mãe.
Aurora queria se vingar deles , não ser amiga. Clara tentou falar mais uma vez. Os lábios se moveram, mas nenhum som saiu. Com as mãos trêmulas, puxou de baixo do travesseiro uma pequena chave de bronze, antiga, escurecida pelo tempo, e a colocou na palma da filha, fechando os dedos de Aurora ao redor dela como se selasse um pacto.
— Você ... é filha de ....
Mas os olhos de Clara já se fechavam, devagar, como uma vela que se apaga sem pressa. O monitor cardíaco emitiu um som contínuo e agudo que Aurora sabia, mesmo sem entender de medicina, que significava o fim de tudo. Mas o segredo permanecia, então Aurora em meio a dor e ao choro percebe que pela primeira vez sua mãe falaria de fato sobre seu pai.
Aurora respira fundo e não demostra medo ela fala:— São fotos de um desenho de Henrique a morte da mãe dele o traumatizou, tenho que conversar com o senhor Leonardo sobre, acho que ele precisará de consultas psicológicas com alguma profissional.Ricardo sorri como um predador diante da preza que se recusa a ficar acoada sua mão cautelosamente acariacia o rosto de Aurora e fala:— Hummm devo confessar que você é muito linda, e lembra ela. — Ela?— Sim, a mãe de Henrique.— Helena?— Sim , querida — Ele acaricia com delicadeza uma mecha do cabelo loiro de Aurora, se ela fosse ingênua facilmente cairia nos encantos de Ricardo o tio de Leonardo. Mas ela mantem sua postura firme diante de todos os traços de sedução e elegancia que ele transmite, a beleza dele não ajuda a manter a firmeza, seus olhos azuis e cabelos escuros tendem a moldar aquele rosto masculo e lindo, a camisa social fica justa nos braços bem desenhados que ele tem, ela fala:— Você está perto demais de mim, senhor Ricar
Ele havia ido procurar o filho como de costume, já que todas manhãs ele sempre deixava um beijo na testa de seu filho— mas parara ali, paralisado, ao ouvir o som do piano e, logo depois, a conversa. As palavras de Aurora o atingiram de um jeito que ele não esperava, ela também havia perdido a mãe e pela primeira vez viu seu filho sorrir em tanto tempo.A pergunta do próprio filho atravessou seu peito como uma lâmina fria, exata, cirúrgica. Porque toda vez que o nome de Helena escapava dos seus lábios, ele sentia que revivia, por inteiro, a noite em que a perdera. Porque ainda carregava, entalada na garganta como uma pedra, a culpa de não ter acreditado nela quando ela disse que estava sendo seguida. Porque falar sobre Helena significava admitir, em voz alta, que talvez tivesse falhado como marido — e, pior ainda, talvez tivesse falhado como o único protetor que ela tinha.Leonardo fechou os olhos por um segundo, a garganta apertada, e recuou devagar, fechando a porta com o máximo cuid
A primeira semana de Aurora na Mansão Montenegro começou com um desafio que nenhuma das onze babás anteriores conseguira vencer. Henrique, simplesmente, se recusava a aceitar sua presença — ou, pelo menos, fingia se recusar, com toda a teimosia que um menino de seis anos era capaz de reunir. Na manhã seguinte ao encontro na biblioteca, Aurora abriu a porta do quarto de Henrique para acordá-lo e encontrou apenas silêncio. O quarto vazio.A cama desarrumada, os lençóis jogados de qualquer jeito. Brinquedos espalhados pelo chão, como se tivessem sido derrubados às pressas. E, o mais alarmante de tudo: a janela aberta, a cortina balançando levemente com a brisa da manhã. O coração de Aurora disparou "Meu Deus! Não!". — Henrique? — chamou, a voz já traindo o pânico, correndo até a janela e olhando para baixo, aliviada ao ver que não havia altura suficiente para ser perigoso, pois havia uma escada logo abaixo, seria uma escada estratégica para o menino? Mas ainda assim apavorada com a pos
Depois do almoço, com Henrique já adormecido para a soneca da tarde, Aurora recebeu autorização de Beatriz para explorar parte da biblioteca da mansão.O cômodo era gigantesco, quase um andar inteiro dedicado apenas a livros e memórias. Prateleiras de madeira escura, do chão ao teto, cobriam cada parede. Livros antigos com lombadas de couro gasto. Álbuns de fotografia empilhados com cuidado. Caixas de documentos lacradas, algumas cobertas por uma fina camada de poeira que sugeria anos sem serem abertas. Retratos emoldurados da família Montenegro, gerações inteiras observando de cima, em silêncio, fora o ar antigo e clássico do local, estantes cobertas de livros, muitos deles e uma escada caracol ao canto com detalhes em dourados.Aurora caminhava devagar entre as prateleiras, os dedos deslizando pelas lombadas dos livros, os olhos vasculhando cada detalhe, cada moldura, cada pista possível que a ligasse ao passado da própria mãe. Foi então que um quadro específico chamou sua atenção.






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