LOGINPov: Marilua
— Minha filha, parabéns! Mamãe se colocou diante de mim com os braços abertos e um sorriso enorme no rosto. Atrás dela, sobre a pequena mesa de madeira da nossa sala, havia um bolo de chocolate feito em casa. Não era grande. Não tinha uma decoração sofisticada. Mas havia uma vela no centro. E, para mamãe, aquilo era suficiente para tornar aquele dia especial. Sorri. Ou, pelo menos, tentei. Forcei os lábios a se curvarem, mas minhas bochechas tremiam pelo esforço. Eu sabia que deveria estar feliz. Afinal, estava completando vinte e quatro anos. Mas havia dias em que até mesmo sorrir parecia uma tarefa difícil. — Feliz aniversário! — alguém gritou. Todos os vizinhos começaram a cantar parabéns. Olhei ao redor. Nossa pequena casa estava cheia. Algumas cadeiras haviam sido colocadas na varanda, outras pessoas permaneciam de pé perto da porta, e as crianças da vizinhança corriam de um lado para o outro. Era uma comemoração simples. Mas era nossa. E eu amava aquele lugar. Mamãe havia feito o possível para tornar meu aniversário especial, mesmo sabendo que não tínhamos dinheiro sobrando. Quando a música terminou, ela me abraçou. — Parabéns, minha filha. — Obrigada, mamãe. Ela se afastou apenas o suficiente para olhar meu rosto. Seu sorriso desapareceu por alguns segundos. — Aconteceu alguma coisa? — Não. — Tem certeza? — Tenho. Não queria estragar aquele momento. Mamãe já carregava preocupações demais sobre os ombros. Ela havia trabalhado durante toda a vida para me dar uma oportunidade que nunca teve. Desde que meu pai nos deixou, anos atrás, éramos apenas nós duas. Eu precisava me formar. Precisava conseguir um bom emprego. Precisava mudar nossa história. — Então sorria de verdade — ela murmurou. Tentei novamente. Dessa vez, consegui um pouco melhor. — Assim? — Muito melhor. Ela beijou minha testa e voltou a cuidar dos convidados. Passei os minutos seguintes conversando com os vizinhos, comendo um pedaço de bolo e tentando parecer tão feliz quanto todos esperavam. Mas minha cabeça estava longe dali. Faltava apenas um semestre para eu me formar. Um único semestre. Depois de tantos anos estudando, sacrificando finais de semana, noites de sono e momentos ao lado da minha mãe, eu estava tão perto de conseguir. Mas as mensalidades da faculdade haviam começado a atrasar. E eu já não sabia como resolver aquilo. Naquela manhã, o diretor havia me chamado para conversar. Ainda conseguia ouvir suas palavras: "Marilua, se você não regularizar os pagamentos, infelizmente não poderemos permitir que continue frequentando as aulas." Aquilo havia acabado com meu dia. Eu não podia perder a faculdade agora. Não depois de chegar tão perto. Por isso, precisava encontrar um emprego. O problema era que estudar e trabalhar ao mesmo tempo não seria fácil. Eu precisava de algo que pudesse conciliar com meus horários. Foi quando ouvi uma voz conhecida. — Você está mais linda do que nunca. Virei-me. Mark estava parado diante de mim. Alto, cabelos negros e olhos castanhos, ele ainda tinha aquele sorriso convencido que, um dia, havia conseguido me fazer perder a cabeça. Dois anos antes, nós havíamos namorado. Naquela época, eu era completamente apaixonada por ele. Mas Mark havia destruído tudo quando decidiu me trair. Não foi um simples erro. Ele manteve outra garota escondida durante semanas, e eu descobri da pior maneira possível. Depois disso, alguma coisa dentro de mim mudou. Cortei o cabelo. Passei a cuidar mais de mim. Aprendi a me vestir de uma maneira que me fazia sentir bonita. E, principalmente, parei de acreditar que precisava de um homem para me sentir suficiente. Agora Mark vivia correndo atrás de mim. Ironia do destino. — Obrigada — respondi secamente. Ele me analisou dos pés à cabeça. — Você mudou muito. — As pessoas mudam. — Eu gosto da mulher em que você se transformou. Cruzei os braços. — Que pena. Ele riu. — Ainda está brava comigo? — Não. — Então podemos conversar? — Não. Seu sorriso desapareceu por um instante. — Marilua... — Mark, já conversamos sobre isso. Ele suspirou. — Eu cometi um erro. — Um erro que durou semanas. — Eu era jovem. — Eu também era. Ele ficou sem resposta. Afastei-me antes que aquela conversa estragasse ainda mais meu aniversário. Eu não queria Mark. Não queria seu arrependimento. Não queria suas desculpas. Muito menos queria voltar a ser a garota insegura que aceitava migalhas de alguém que não sabia valorizá-la. — Minha filha, venha tirar algumas fotos! Era mamãe novamente. Ela segurava o celular. — Afinal, vinte e quatro anos não se fazem todos os dias. — Já estou indo. Posicionei-me ao lado dela. Mamãe tirou uma fotografia. Depois outra. E mais outra. Em algumas, eu estava sozinha. Em outras, aparecia ao lado dela. Depois, começaram as fotos com os vizinhos. É claro que Mark fez questão de aparecer em algumas. Revirei os olhos. — Você poderia sorrir um pouco? — ele pediu. — Estou sorrindo. — Isso não parece um sorriso. — É o que você merece. Ele riu. Quando mamãe terminou as fotos, Mark se aproximou. — Dona Lola, por favor, poderia me mandar aquela foto em que eu apareço com a Marilua? Olhei para ele. — Quero guardá-la com muito cuidado — acrescentou, olhando diretamente para mim. Balancei a cabeça. Ele não desistiria nunca. Meu celular começou a vibrar no bolso da calça jeans. Olhei para a tela. Nina. Sorri imediatamente. Nina morava na casa ao lado da nossa, embora passasse grande parte do tempo trabalhando na mansão Aslan. Ela tinha sessenta e oito anos, era viúva e nunca tivera filhos. Talvez por isso tivesse desenvolvido um carinho especial por mim. Desde pequena, eu a tratava como uma avó. E ela dizia que eu era a neta que a vida havia esquecido de lhe dar. Atendi. — Oi, minha querida! Feliz aniversário! Sua voz doce me fez sorrir de verdade. — Obrigada, Nina. — Como está a festa? Desculpe não ter conseguido ir. — Está bem agitada. Não se preocupe, eu entendo. Ouvi sua risada. — Tenho uma coisa para você. — O quê? — Um emprego. Meu coração disparou. — Está falando sério? — Muito. Afastei-me um pouco dos convidados. — Conte-me. — Meu chefe está procurando uma babá para a filha dele. Falei de você. Fiquei alguns segundos em silêncio. — Nina... Minha voz falhou. — Nem sei o que dizer. — Diga que vai aceitar a entrevista. Sorri. — Claro que vou. — Você precisa pagar a faculdade, não precisa? — Preciso. — Então esteja na mansão amanhã, às oito da manhã. E, por favor, não se atrase. — Não vou me atrasar. Nina baixou a voz. — O senhor Grego é muito rígido com horários. Ele é um homem frio, sério e bastante exigente. Engoli em seco. — Parece assustador. — Não é um homem ruim. Apenas sofreu muito. Fiquei curiosa. — Ele tem uma filha, certo? — Sim. A pequena Felícia. — E é para cuidar dela? — Exatamente. Meu coração se aqueceu. Eu sempre gostei de crianças. — Nina, eu farei o meu melhor. — Eu sei que fará. Por isso falei de você. Agradeci várias vezes antes de desligar. Guardei o celular no bolso traseiro da calça jeans e voltei para perto da minha mãe. Ela percebeu imediatamente a mudança em meu rosto. — O que aconteceu? Aproximei-me e sussurrei em seu ouvido: — Consegui uma entrevista. Seus olhos se arregalaram. — Para um emprego? Assenti. — Amanhã, às oito. Mamãe praticamente saltitou de alegria. — Eu sabia que alguma coisa boa aconteceria! — Ainda é apenas uma entrevista. — Mas é uma oportunidade! Ela me abraçou apertado. — Você vai conseguir, minha filha. Sorri. Dessa vez, sem precisar fingir. — Espero que sim. Depois de algum tempo, comecei a me despedir dos vizinhos. Quando todos foram embora, ajudei mamãe a guardar as coisas da pequena comemoração. O bolo quase havia acabado. As flores que alguns vizinhos trouxeram estavam sobre a mesa. E, apesar de tudo, meu aniversário havia terminado melhor do que começara. Antes de entrar em casa, parei na varanda e olhei para o céu escuro. Amanhã seria um dia importante. Eu precisava daquele emprego. Precisava daquele salário. Precisava terminar minha faculdade. Precisava dar à minha mãe a vida que ela havia sacrificado tanto para me proporcionar. Não sabia nada sobre o homem que me entrevistaria. Não sabia que tipo de pessoa era Grego Aslan. Só sabia que, segundo Nina, ele era frio, exigente e não tolerava atrasos. Respirei fundo. — Tudo bem, Marilua. Você consegue. Eu ainda não fazia ideia de que aquela entrevista mudaria minha vida. Não sabia que, dentro de poucas horas, estaria diante de um homem que havia jurado nunca mais abrir o coração para ninguém. Grego Aslan. E sua pequena filha, Felícia. Eu só precisava daquele emprego.A manhã em Paris havia começado com o céu encoberto, mas, dentro do hotel, a rotina de Grego e Máximo já estava em movimento. A última reunião da viagem havia terminado na noite anterior. Os contratos estavam praticamente fechados, os documentos revisados e os detalhes da nova coleção da Aslan Shoes encaminhados. Restava apenas voltar para casa. Grego fechou a pasta de couro e conferiu novamente o celular. Havia algumas mensagens da empresa, mas nenhuma de Nina. Ele franziu discretamente a testa. — Ainda nada? — Máximo perguntou, enquanto ajeitava o relógio no pulso. — Nada. — Você poderia ligar. Grego ergueu os olhos. — Para quem? — Para Nina. — Ela me avisaria se houvesse algum problema. Máximo segurou um sorriso. — Você acabou de olhar o celular pela quarta vez em menos de dez minutos. Grego ignorou o comentário. Pegou o paletó e vestiu-o. — Vamos. O carro os levou até o aeroporto executivo. Durante o trajeto, Grego permaneceu em silêncio, observando a cidade pel
O dia chegou com uma atmosfera diferente na mansão Montenegro. Felícia acordara cedo, como de costume, mas, ao contrário dos dias anteriores, não havia pressa para se arrumar para a escola. Naquela manhã, ela poderia permanecer de pijama, tomar café tranquilamente e passar o dia ao lado dos avós. Helena observava a neta sentada à mesa enquanto ela tentava escolher entre uma fatia de bolo e algumas frutas. — Vovó, posso comer os dois? Helena ergueu uma sobrancelha. — Se conseguir terminar os dois, pode. Felícia abriu um sorriso satisfeito. Augusto, sentado na outra extremidade da mesa, acompanhava a conversa em silêncio. — Essa menina tem um apetite impressionante. — Ela está crescendo — respondeu Helena. Felícia olhou para o avô. — Vovô, você também come bolo de manhã? Augusto sorriu. — Quando sua avó deixa. Helena lançou-lhe um olhar. — Não coloque a culpa em mim. Felícia começou a rir. A conversa continuou durante alguns minutos, e a menina parecia
A noite havia caído sobre a mansão Aslan. Sem Felícia correndo pelos corredores, a casa parecia diferente. Mais silenciosa, quase grande demais para a quantidade de pessoas que permanecia ali. Marilua havia passado boa parte da tarde organizando algumas coisas no quarto da menina e separando o material que precisaria levar para a mansão Montenegro caso Nina precisasse enviar alguma coisa. Felícia ficaria alguns dias com os avós maternos. Grego havia autorizado a visita, e tudo já estava combinado antes mesmo de sua viagem. Marilua sabia que não deveria se preocupar. Ainda assim, sentia falta da presença da menina. Era estranho. Havia poucos dias que começara a trabalhar naquela casa, mas a rotina com Felícia já começava a fazer parte de seus dias. Depois de conferir algumas roupas da menina, Marilua decidiu descer até a cozinha. Precisava de água. Quando entrou, encontrou Nina sentada à mesa, conferindo uma lista de tarefas. Beth estava perto da pia, terminando d
A tarde avançava tranquilamente na mansão Montenegro. Depois de mostrar a Felícia o antigo quarto de Salomé, Helena decidiu levá-la para a sala de dança. O ambiente permanecia praticamente intocado, preservado ao longo dos anos como uma lembrança de uma época que parecia pertencer a outra vida. Felícia entrou devagar. Seus olhos percorreram o grande espelho que ocupava uma das paredes, o piso de madeira perfeitamente conservado e a barra de apoio instalada próxima à janela. — Mamãe dançava aqui? Helena assentiu. — Dançava. Felícia se aproximou do espelho. — Ela era boa? Um pequeno sorriso apareceu no rosto de Helena. — Era muito dedicada. Helena caminhou até uma das fotografias antigas que permaneciam sobre um aparador. Nela, Salomé aparecia ainda adolescente, usando uma roupa de balé e os cabelos presos em um coque. Felícia observou a fotografia por alguns segundos. — Ela era bonita. Helena ficou em silêncio por um instante. — Era. Não havia exagero em sua voz. Tampou
A tarde em Paris estava agradável, e, pela primeira vez desde que chegamos à França, Máximo conseguiu me convencer a deixar o hotel e as reuniões de lado por algumas horas. Caminhávamos às margens do rio, observando o movimento das pessoas e das embarcações que passavam lentamente pela água. — Você precisa aprender a aproveitar uma viagem de trabalho — Máximo comentou. Lancei um olhar para ele. — Estamos aqui para trabalhar. — Já trabalhamos o dia inteiro. — E ainda temos uma reunião amanhã. — Amanhã é outro dia. Balancei a cabeça. — Você não desiste. — Nunca. Continuamos caminhando. Máximo parecia mais descontraído do que de costume. Algumas mulheres que passavam por nós lançavam olhares discretos, e ele, como sempre, parecia se divertir com a situação. — Está vendo? — O quê? — Aquela mulher acabou de olhar para você. — E daí? — Nada. Só estou dizendo que ainda existe esperança. — Esperança de quê? — De você voltar a viver. Revirei os olhos. — Você deveria falar
O carro atravessou os enormes portões de ferro da propriedade dos Montenegro pouco depois do meio-dia. Felícia estava sentada no banco traseiro, observando tudo pela janela. Havia árvores altas dos dois lados da estrada particular, formando uma espécie de corredor natural até a mansão. O caminho era cercado por jardins cuidadosamente planejados, com roseiras, arbustos perfeitamente aparados e pequenas fontes de pedra espalhadas pela propriedade. A menina apertou o rosto contra o vidro. — Vovó, a casa de vocês é enorme! Helena Montenegro sorriu discretamente. Sentada ao lado da neta, ela segurou sua pequena mão. — É grande mesmo. — Maior que a casa do papai? Helena pensou por um instante. — Talvez. Felícia abriu um sorriso. — Quero conhecer tudo. — Vai conhecer. O carro finalmente parou diante da entrada principal. A mansão Montenegro era imponente. Construída em pedra clara, possuía três andares e grandes janelas arqueadas que refletiam a luz do dia. Uma escadaria larg







