LOGINPOV: Grego
Saí do escritório pouco depois das oito da noite. O andar executivo da empresa já estava quase vazio. Durante o dia, aquele lugar era tomado pelo som dos telefones, das reuniões, dos passos apressados dos funcionários e das conversas sobre contratos e investimentos. Naquela hora, porém, restavam apenas algumas luzes acesas nos corredores e o som distante da equipe de limpeza. Antes de sair, parei diante das enormes janelas do meu escritório. A cidade brilhava lá embaixo, cheia de pessoas que continuavam vivendo suas próprias histórias. Algumas voltavam para casa depois de um longo dia de trabalho, enquanto outras encontravam amigos, jantavam em restaurantes ou simplesmente aproveitavam a noite. Eu, como sempre, havia passado horas trabalhando. Talvez porque fosse mais fácil ocupar a cabeça com números, contratos e decisões do que lidar com os pensamentos que surgiam quando eu ficava sozinho. Peguei o paletó e deixei o escritório. Minha secretária já havia ido embora, então atravessei o corredor sozinho até os elevadores. Assim que pressionei o botão, senti o celular vibrar no bolso. Era Máximo. — Alô? — Finalmente! — reclamou meu irmão. — Onde você está? — Na empresa. — Grego, nós marcamos às oito. Olhei para o relógio. 20h07. — Estou indo. — Você sempre faz isso. — Tive algumas pendências para resolver. — Algumas? Você passou o dia inteiro trabalhando. — E você passou o dia inteiro me ligando. Ele riu. — Só estou tentando garantir que você apareça. — Eu disse que iria. — Então venha logo. — Estou chegando. Desliguei no momento em que as portas do elevador se abriram. Atravessei o saguão da empresa e cumprimentei o segurança da recepção. — Boa noite, senhor Grego. — Boa noite. Assim que saí, senti o ar frio da noite bater contra meu rosto. Uma garoa começava a cair, fazendo as luzes dos prédios se refletirem no asfalto molhado. O bar onde Máximo estava me esperando ficava praticamente em frente à empresa. Era um dos lugares que costumávamos frequentar. Luxuoso, discreto e conhecido por receber empresários, executivos e pessoas da alta sociedade. As grandes janelas de vidro deixavam escapar uma iluminação quente, enquanto a música baixa e as conversas dos clientes criavam um ambiente agradável. Atravessei a rua e entrei. As paredes revestidas de madeira escura, as luminárias pendentes e o balcão repleto de garrafas davam ao lugar uma aparência sofisticada. Encontrei Máximo no fundo do salão. Ele estava acompanhado de duas mulheres. Quando me viu, levantou o copo e abriu um sorriso divertido. — Boa noite — falei, aproximando-me. — Meu Deus, Grego! — exclamou. — Achei que você fosse dormir no escritório. — Estava resolvendo algumas pendências. — Claro. Ele me analisou de cima a baixo. — Você está com essa cara porque está cansado ou porque se arrependeu de ter vindo? — Ainda estou decidindo. As duas mulheres riram. Máximo balançou a cabeça. — Deixe-me apresentar vocês. Esta é Alissa. A mulher ao lado dele tinha pele negra, cabelos escuros e uma aparência elegante. Usava um vestido sofisticado e demonstrava uma confiança que chamava atenção. Em seguida, ele apontou para a mulher sentada ao meu lado. — E esta é Ana. — Prazer — ela disse. — Prazer. Ana sorriu e logo percebi seu interesse. Não era difícil notar. Ela mantinha o corpo voltado para mim e sustentava meu olhar sempre que conversávamos. Fazia anos que eu não me encontrava naquela situação. Desde o divórcio, havia desistido de relacionamentos. Meu trabalho e minha filha ocupavam praticamente todo o meu tempo e, até então, eu não sentia necessidade de mudar aquilo. — Você parece nervoso — Ana comentou, divertindo-se. — É apenas impressão sua. O garçom se aproximou e colocou meu uísque sobre a mesa. Peguei o copo e tomei um gole antes de olhar para Máximo. Ele continuava sorrindo. — Está satisfeito? — perguntei. — Muito. Você precisava sair um pouco. — Eu saio. — Para trabalhar não conta. Alissa riu. — Seu irmão realmente é difícil. — Você não faz ideia — respondi. Ana apoiou o cotovelo sobre a mesa. — Minha presença é tão ruim assim? Olhei para ela. — Não. Você parece uma mulher incrível. — Mas? Suspirei. — Mas isso tudo é novo para mim. Ela me observou por alguns segundos. — Por causa do divórcio? Permaneci em silêncio por um instante. Máximo lançou um olhar discreto para ela, mas eu não me incomodei com a pergunta. — Sim. Ana assentiu. — Eu entendo. — Não quero criar expectativas. — Então não crie — respondeu tranquilamente. — Podemos apenas conversar. Pensei por alguns segundos antes de concordar. — Acho uma boa ideia. Ergui meu copo e toquei no dela. — Então me diga: o que você faz da vida? Ana sorriu. — Acabei de me formar em Stanford. Ergui as sobrancelhas. — Stanford? — Sim. Também passei em uma entrevista de emprego há poucos dias. Vou começar no próximo mês. — Parabéns. Ela agradeceu. — Isso merece um brinde. Ana ergueu o copo. — Ao meu novo emprego. — Ao seu novo emprego. Brindamos. — Mas me diga uma coisa — ela continuou. — Por que ficou tão surpreso quando falei de Stanford? — Talvez eu tenha cometido o erro de presumir que uma mulher bonita não poderia ser igualmente inteligente. Ana arqueou uma sobrancelha. — Então você admite que foi preconceituoso? — Admito. Ela riu. — Podemos ser tudo isso e muito mais. — Estou começando a perceber. A conversa continuou de maneira agradável. Falamos sobre trabalho, viagens, faculdade e outros assuntos mais leves. Ana era inteligente, interessante e bonita. Não havia nada de errado com ela, mas, ainda assim, eu não sentia a ansiedade que imaginava que deveria surgir ao conhecer uma mulher depois de tantos anos. Talvez ainda fosse cedo demais. Ou talvez eu simplesmente não estivesse interessado. Depois de algumas horas, decidimos ir embora. Ana chamou um carro para voltar ao apartamento e, antes de entrar, despediu-se. — Foi um prazer conhecer você, Grego. — Igualmente. Ela sorriu. — Talvez possamos repetir algum dia. Demorei alguns segundos para responder, até que Máximo me deu uma cotovelada discreta. — Certamente. Ela entrou no carro e partiu. Máximo chamou um táxi para nós. Alissa entrou primeiro e se acomodou no banco de trás, enquanto eu me sentei na frente e meu irmão ficou ao lado dela. Alissa era uma espécie de amizade colorida de Máximo. Modelo bem-sucedida, passava boa parte do tempo viajando a trabalho e, sempre que estava na cidade, os dois aproveitavam para se encontrar. Era uma relação sem cobranças, e ambos pareciam satisfeitos daquela maneira. Durante o trajeto, eles conversaram no banco de trás enquanto eu observava a cidade pela janela. A chuva havia aumentado, deixando o asfalto brilhante sob as luzes dos postes. Encostei a cabeça no banco e pensei naquela noite. Depois de cinco anos, eu finalmente havia aceitado sair para conhecer alguém. A experiência tinha sido agradável, mas eu ainda não sabia se estava preparado para abrir espaço para outra pessoa na minha vida. Quando chegamos à mansão, já era tarde. Paguei o motorista enquanto Máximo e Alissa desciam do carro. Assim que entramos, os dois seguiram pelo corredor, ainda conversando. — Boa noite, irmão — Máximo disse antes de desaparecer pelas escadas. — Boa noite. Subi sozinho. A mansão estava silenciosa. Entrei no meu quarto, tirei o paletó, afrouxei a gravata e deixei o relógio sobre a mesa de cabeceira. Estava exausto. Deitei-me sem sequer trocar de roupa e fiquei alguns instantes olhando para o teto. Ana era uma mulher interessante. Talvez Máximo tivesse razão ao dizer que eu precisava seguir em frente. No entanto, quando fechei os olhos, não foi ela quem apareceu em meus pensamentos. Foi Felícia. Minha filha havia crescido rápido demais, e eu não queria perder nenhum momento da infância dela. Lembrei-me da conversa daquela manhã. — Papai, ela poderá pintar minhas unhas, pentear meu cabelo e fazer muitas tranças. Sorri ao recordar sua empolgação. Era justamente por ela que eu precisava encontrar alguém de confiança. Eu não procurava uma mulher para ocupar o lugar de Salomé. Esse lugar não existia mais. Precisava apenas de alguém responsável, carinhosa e capaz de cuidar da minha filha enquanto eu estivesse viajando. Amanhã, Nina traria uma candidata. Uma jovem que, segundo ela, seria perfeita para o trabalho. Eu não sabia seu nome, sua história ou sequer se conseguiria confiar nela. Mas confiava em Nina. E isso era suficiente para que eu estivesse disposto a conhecê-la. Fechei os olhos. O sono veio pouco depois. Eu não fazia ideia de que, algumas horas mais tarde, uma jovem atravessaria pela primeira vez os portões da mansão Aslan. Também não imaginava que ela mudaria a rotina da minha filha, conquistaria a confiança de Felícia e, principalmente, despertaria em mim sentimentos que eu julgava ter enterrado cinco anos atrás. Naquela noite, porém, tudo o que eu queria era dormir. Sem saber que o dia seguinte mudaria a minha vida para sempre.A manhã em Paris havia começado com o céu encoberto, mas, dentro do hotel, a rotina de Grego e Máximo já estava em movimento. A última reunião da viagem havia terminado na noite anterior. Os contratos estavam praticamente fechados, os documentos revisados e os detalhes da nova coleção da Aslan Shoes encaminhados. Restava apenas voltar para casa. Grego fechou a pasta de couro e conferiu novamente o celular. Havia algumas mensagens da empresa, mas nenhuma de Nina. Ele franziu discretamente a testa. — Ainda nada? — Máximo perguntou, enquanto ajeitava o relógio no pulso. — Nada. — Você poderia ligar. Grego ergueu os olhos. — Para quem? — Para Nina. — Ela me avisaria se houvesse algum problema. Máximo segurou um sorriso. — Você acabou de olhar o celular pela quarta vez em menos de dez minutos. Grego ignorou o comentário. Pegou o paletó e vestiu-o. — Vamos. O carro os levou até o aeroporto executivo. Durante o trajeto, Grego permaneceu em silêncio, observando a cidade pel
O dia chegou com uma atmosfera diferente na mansão Montenegro. Felícia acordara cedo, como de costume, mas, ao contrário dos dias anteriores, não havia pressa para se arrumar para a escola. Naquela manhã, ela poderia permanecer de pijama, tomar café tranquilamente e passar o dia ao lado dos avós. Helena observava a neta sentada à mesa enquanto ela tentava escolher entre uma fatia de bolo e algumas frutas. — Vovó, posso comer os dois? Helena ergueu uma sobrancelha. — Se conseguir terminar os dois, pode. Felícia abriu um sorriso satisfeito. Augusto, sentado na outra extremidade da mesa, acompanhava a conversa em silêncio. — Essa menina tem um apetite impressionante. — Ela está crescendo — respondeu Helena. Felícia olhou para o avô. — Vovô, você também come bolo de manhã? Augusto sorriu. — Quando sua avó deixa. Helena lançou-lhe um olhar. — Não coloque a culpa em mim. Felícia começou a rir. A conversa continuou durante alguns minutos, e a menina parecia
A noite havia caído sobre a mansão Aslan. Sem Felícia correndo pelos corredores, a casa parecia diferente. Mais silenciosa, quase grande demais para a quantidade de pessoas que permanecia ali. Marilua havia passado boa parte da tarde organizando algumas coisas no quarto da menina e separando o material que precisaria levar para a mansão Montenegro caso Nina precisasse enviar alguma coisa. Felícia ficaria alguns dias com os avós maternos. Grego havia autorizado a visita, e tudo já estava combinado antes mesmo de sua viagem. Marilua sabia que não deveria se preocupar. Ainda assim, sentia falta da presença da menina. Era estranho. Havia poucos dias que começara a trabalhar naquela casa, mas a rotina com Felícia já começava a fazer parte de seus dias. Depois de conferir algumas roupas da menina, Marilua decidiu descer até a cozinha. Precisava de água. Quando entrou, encontrou Nina sentada à mesa, conferindo uma lista de tarefas. Beth estava perto da pia, terminando d
A tarde avançava tranquilamente na mansão Montenegro. Depois de mostrar a Felícia o antigo quarto de Salomé, Helena decidiu levá-la para a sala de dança. O ambiente permanecia praticamente intocado, preservado ao longo dos anos como uma lembrança de uma época que parecia pertencer a outra vida. Felícia entrou devagar. Seus olhos percorreram o grande espelho que ocupava uma das paredes, o piso de madeira perfeitamente conservado e a barra de apoio instalada próxima à janela. — Mamãe dançava aqui? Helena assentiu. — Dançava. Felícia se aproximou do espelho. — Ela era boa? Um pequeno sorriso apareceu no rosto de Helena. — Era muito dedicada. Helena caminhou até uma das fotografias antigas que permaneciam sobre um aparador. Nela, Salomé aparecia ainda adolescente, usando uma roupa de balé e os cabelos presos em um coque. Felícia observou a fotografia por alguns segundos. — Ela era bonita. Helena ficou em silêncio por um instante. — Era. Não havia exagero em sua voz. Tampou
A tarde em Paris estava agradável, e, pela primeira vez desde que chegamos à França, Máximo conseguiu me convencer a deixar o hotel e as reuniões de lado por algumas horas. Caminhávamos às margens do rio, observando o movimento das pessoas e das embarcações que passavam lentamente pela água. — Você precisa aprender a aproveitar uma viagem de trabalho — Máximo comentou. Lancei um olhar para ele. — Estamos aqui para trabalhar. — Já trabalhamos o dia inteiro. — E ainda temos uma reunião amanhã. — Amanhã é outro dia. Balancei a cabeça. — Você não desiste. — Nunca. Continuamos caminhando. Máximo parecia mais descontraído do que de costume. Algumas mulheres que passavam por nós lançavam olhares discretos, e ele, como sempre, parecia se divertir com a situação. — Está vendo? — O quê? — Aquela mulher acabou de olhar para você. — E daí? — Nada. Só estou dizendo que ainda existe esperança. — Esperança de quê? — De você voltar a viver. Revirei os olhos. — Você deveria falar
O carro atravessou os enormes portões de ferro da propriedade dos Montenegro pouco depois do meio-dia. Felícia estava sentada no banco traseiro, observando tudo pela janela. Havia árvores altas dos dois lados da estrada particular, formando uma espécie de corredor natural até a mansão. O caminho era cercado por jardins cuidadosamente planejados, com roseiras, arbustos perfeitamente aparados e pequenas fontes de pedra espalhadas pela propriedade. A menina apertou o rosto contra o vidro. — Vovó, a casa de vocês é enorme! Helena Montenegro sorriu discretamente. Sentada ao lado da neta, ela segurou sua pequena mão. — É grande mesmo. — Maior que a casa do papai? Helena pensou por um instante. — Talvez. Felícia abriu um sorriso. — Quero conhecer tudo. — Vai conhecer. O carro finalmente parou diante da entrada principal. A mansão Montenegro era imponente. Construída em pedra clara, possuía três andares e grandes janelas arqueadas que refletiam a luz do dia. Uma escadaria larg







