Se connecterHAGENAs quarenta e oito horas terminaram.E Evelyn não apareceu.Não ligou.Não mandou mensagem.Não tentou falar comigo.Nada.Absolutamente nada.Eu estava parado diante da enorme janela do escritório quando Marcus encerrou a ligação.Seu silêncio foi resposta suficiente.— Ela precisa de mais tempo.Foi tudo o que disse.Fechei os olhos.Tentando controlar a frustração.Sem sucesso.— Mais tempo.Repeti.— Sim.— Ela teve três anos.Marcus suspirou.— Hagen...— Não.Virei-me para ele.— Eu já esperei o suficiente.Meu tom saiu mais duro do que pretendia.Mas eu estava cansado.Cansado de fotografias.De respostas incompletas.De esperar.Eu queria conhecer meus filhos.Queria olhar para eles.Ouvir suas vozes.Saber quem eram.E toda vez que eu tentava chegar perto deles...Parecia que existia uma muralha chamada Evelyn.Marcus passou a mão pelos cabelos.Claramente exausto.— Só toma cuidado.— Com o quê?— Com a forma como você vai fazer isso.Porque ela está apavorada.O silên
EVELYNEu estava colocando Sophia para dormir quando o telefone tocou.Bastou olhar para a tela para meu coração apertar.Marcus.Atendi imediatamente.Porque no fundo eu já sabia.Sabia que aquela ligação não trazia boas notícias.— Oi.Minha voz saiu baixa.Cansada.Marcus permaneceu alguns segundos em silêncio.Tempo suficiente para eu sentir o medo crescer dentro de mim.— Evelyn...Fechei os olhos.— O que aconteceu?Ouvi ele suspirar do outro lado da linha.— Eu conversei com Hagen.Meu coração acelerou.— E?Mais silêncio.— Ele não reagiu bem.Senti minhas pernas enfraquecerem.Sentei na beira da cama de Sophia.Observando meus filhos dormindo.Protegidos.Seguros.Sem imaginar a tempestade que se aproximava.— O que ele disse?Perguntei.Quase num sussurro.Marcus demorou alguns segundos para responder.— Ele quer conhecer as crianças.Fechei os olhos.Uma lágrima escorreu.Porque eu nunca duvidei disso.Nunca.— Eu sei.— E está desesperado.Apertei o telefone contra o ouvid
MARCUS Eu estava perdendo o controle da situação. E sabia disso. A reunião havia começado como uma conversa. Terminou como uma guerra. Hagen andava de um lado para o outro no escritório. Inquieto. Nervoso. Parecendo um animal enjaulado. Eu nunca o tinha visto assim. Nem antes do acidente. Nem depois. — Ela precisa de tempo. Repeti pela terceira vez. Tentando manter a calma. — Evelyn está assustada. Hagen passou a mão pelos cabelos. Visivelmente irritado. — Assustada? Ele soltou uma risada sem humor. — Quanto tempo mais ela precisa? Seu olhar encontrou o meu. Cheio de frustração. — Quando meus filhos tiverem dezoito anos? É isso, Marcus? O silêncio tomou conta da sala. Porque eu entendia os dois lados. Entendia a dor de Evelyn. Mas também entendia a angústia daquele homem. Um pai que tinha acabado de descobrir que possuía filhos. Um pai que perdeu três anos da vida deles. Um pai desesperado para recuperar o tempo perdido. — Hagen... — Não. Ele interrom
EVELYN Eu estava guardando os contratos recém-assinados quando meu celular tocou. Nem precisei olhar para saber quem era. Marcus. Atendi imediatamente. — Oi. Do outro lado da linha houve um pequeno silêncio. Um silêncio que fez meu coração acelerar. — Evelyn... A forma como ele pronunciou meu nome já me preparou para o que viria. Fechei os olhos. Respirei fundo. — Ele quer falar comigo? Marcus demorou alguns segundos para responder. — Sim. Meu coração disparou. Depois afundou. Porque havia uma pergunta mais importante. Uma única pergunta. A pergunta que eu tinha medo de fazer. — Ele perguntou por mim? O silêncio do outro lado foi resposta suficiente. Mesmo assim Marcus respondeu. Com honestidade. Como sempre. — Ele ainda não lembra de você. Fechei os olhos. A dor veio. Mas dessa vez não me destruiu. Talvez porque eu já esperasse. Talvez porque estivesse me preparando para isso desde o dia em que soube que Hagen estava vivo. — Entendi. Minha voz saiu cal
EVELYN Quando a última assinatura foi colocada no contrato, fiquei alguns segundos em silêncio. O representante do ateliê de Nova York apertou minha mão. — Parabéns, senhora Moore. Sorri. Mas mal consegui responder. Porque naquele momento eu não estava pensando nos números. Nem nos lucros. Nem na expansão da empresa. Estava olhando para o documento diante de mim. Um contrato que mudaria o futuro do meu ateliê. Um contrato que garantiria trabalho pelos próximos anos. Um contrato que a Evelyn de três anos atrás jamais imaginaria assinar. Assim que os clientes foram embora, a sala explodiu em comemoração. Palmas. Abraços. Risadas. Algumas costureiras choravam. Outras comemoravam como se tivessem ganhado na loteria. E talvez tivessem. Porque aquele contrato significava estabilidade. Crescimento. Novas oportunidades. Olhei ao redor. Para cada rosto. Cada pessoa que construiu aquele sonho comigo. E meus olhos começaram a arder. Passei o
EVELYN Chorei por alguns minutos. Talvez muitos. Talvez poucos. Não importava. Porque a reunião começaria em menos de vinte minutos. E o mundo não parava porque meu coração estava quebrado. Novamente. Respirei fundo. Fechei o notebook. Levantei da cadeira. E caminhei até o banheiro privativo do meu escritório. A mulher refletida no espelho parecia cansada. Os olhos vermelhos. A maquiagem borrada. O rosto molhado pelas lágrimas. Por um segundo vi a Evelyn de anos atrás. A menina assustada. Grávida. Sozinha. Abandonada em um país estrangeiro. A garota que acreditava que amor era suficiente para vencer qualquer coisa. Aquela garota que chorava todas as noites sentindo falta do marido. Que se perguntava o que tinha de errado consigo. Que acreditava em contos de fadas. Mas aquela garota não existia mais. Abri a torneira. A água fria escorreu sobre meu rosto. Lavando as lágrimas. Lavando a dor. Ou pelo menos escondendo-a por algumas horas. Depois peguei a toalh







