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Capítulo 4 — Perfume de Oud e Jasmim

last update Fecha de publicación: 2026-05-17 21:50:58

— Eu quero ir embora — disse ela.

Zayn pousou a xícara intacta.

— Seu pagamento será dobrado.

Layla piscou.

— Perdão?

— Pelo incômodo desta noite.

— Incômodo?

— Pela porta trancada. Pela espera. Pela grosseria de meus funcionários.

— Seus funcionários seguem ordens.

— Então pela minha grosseria.

Ela não esperava isso.

E odiou não esperar.

— Dinheiro não compra tudo.

— Não tentei comprar tudo. Apenas pagar o que é devido.

— O combinado já é suficiente.

— Não para mim.

Layla respirou fundo.

— Sheikh Al-Mansour, deixe-me ser clara. Eu não aceito presentes de homens casados.

A frase mudou o ambiente.

Zayn ficou imóvel demais.

Lá estava. O ponto proibido. As quatro esposas. A realidade que todos no palácio tratavam como normal, mas que Layla não conseguiria fingir não ver.

— Não ofereci um presente — ele disse.

— Homens como o senhor sempre dizem isso.

— Homens como eu?

— Poderosos. Casados. Acostumados a confundir atenção com direito.

A sombra nos olhos dele se adensou.

— Cuidado, Layla.

Dessa vez, o aviso veio mais frio.

Mas ela já havia ido longe demais para voltar.

— Não sou uma de suas esposas.

A frase ficou suspensa no ar.

Zayn se aproximou.

Devagar.

Layla se obrigou a ficar parada, embora cada instinto gritasse para ela sair dali. Ele parou a menos de um metro. Perto o bastante para ela notar uma cicatriz pequena perto da sobrancelha dele. Perto o bastante para sentir sua presença como calor, embora a voz fosse gelo.

— Não — ele disse. — Não é.

O modo como falou deveria tranquilizá-la.

Não tranquilizou.

Porque parecia menos uma concordância e mais uma constatação perigosa.

Como se a diferença dela fosse exatamente o problema.

— Então me deixe ir — ela sussurrou.

Os olhos dele desceram para sua boca outra vez.

Dessa vez, ela não conseguiu fingir que não percebeu.

O coração de Layla bateu mais forte. A tensão no peito se misturou a algo lento e quente, algo que ela não queria sentir. Um desejo absurdo, nascido não de carinho, não de confiança, mas de confronto. Zayn Al-Mansour era o tipo de homem de quem ela deveria fugir.

E talvez fosse por isso que seu corpo parecia preso ao lugar.

Ele ergueu a mão.

Layla endureceu.

Mas Zayn apenas tocou uma das pequenas moedas douradas presas ao véu em seu ombro. O contato foi mínimo. Quase nada. Ainda assim, o tecido puxou de leve, e Layla sentiu como se os dedos dele tivessem tocado sua pele.

— Você dança como se escondesse uma lâmina — ele disse.

A voz estava mais baixa.

— Talvez eu esconda.

— Onde?

— Perto o bastante para usar se precisar.

Ele olhou para ela com uma intensidade que a fez esquecer a resposta seguinte.

— Eu acreditaria.

Layla deveria odiá-lo.

Era o mais sensato.

Mas sensatez e desejo raramente frequentavam o mesmo salão.

Ela recuou um passo, quebrando o momento.

— Minha amiga está esperando.

Zayn deixou a mão cair.

— O carro a levará para casa.

— O carro que me trouxe já faria isso.

— Agora irá escoltada.

— Não preciso de escolta.

— Precisa depois de ter chamado a atenção neste palácio.

Layla entendeu o que ele não disse.

As esposas.

Os convidados.

Os inimigos.

— A culpa é sua — ela disse.

— Minha?

— Eu era apenas a dançarina até o senhor atravessar o salão.

Algo duro passou pelo rosto dele. Talvez arrependimento. Talvez irritação consigo mesmo.

— Tem razão.

Layla não esperava essa resposta.

Ele caminhou até a porta e a abriu.

Samira estava do lado de fora, fingindo não ter tentado escutar. Falhou miseravelmente.

— O pagamento da senhorita Haddad será entregue agora — Zayn disse ao funcionário no corredor. — Dobrado.

Layla abriu a boca para protestar.

Ele olhou para ela.

— Não é presente. É compensação.

— Eu não aceitei.

— Aceitou quando entrou neste palácio.

— O senhor é impossível.

— E você é inconveniente.

Samira soltou um som sufocado, algo entre pânico e riso.

Layla apertou os olhos.

— Boa noite, Sheikh Al-Mansour.

— Zayn.

Ela congelou.

— Perdão?

— Meu nome é Zayn.

Aquilo era íntimo demais. Inadequado demais. Principalmente ali, no corredor do palácio, com criados e guardas fingindo não ouvir. Principalmente com quatro esposas em algum lugar atrás deles.

Layla sustentou o olhar dele.

— Boa noite, Sheikh Al-Mansour.

E saiu antes que ele visse o quanto sua voz quase falhou.

O caminho de volta pelo salão pareceu diferente. Os convidados ainda conversavam, mas agora Layla sentia olhares sobre ela. Curiosos. Julgadores. Invejosos. Perigosos.

Ao passar pela área reservada, não conseguiu evitar olhar.

A primeira esposa de Zayn a encarava.

Não havia raiva aberta em seu rosto. Isso seria fácil demais. Havia algo pior: avaliação. Como se Layla tivesse deixado de ser entretenimento e se tornado problema.

A segunda esposa sussurrou algo para uma mulher ao lado.

A terceira sorriu como quem assiste ao início de uma tragédia interessante.

A quarta baixou os olhos.

Layla sentiu um arrepio.

Samira a puxou pelo braço.

— Não olhe para elas.

— Tarde demais.

— Você quer morrer hoje?

— Estou começando a achar que você faz essa pergunta com frequência demais.

— Porque você me dá motivo.

Ao chegarem ao hall principal, um homem de meia-idade, vestido com terno escuro e expressão severa, aproximou-se com um envelope.

— Senhorita Haddad.

Layla pegou o envelope, sentindo o peso do dinheiro dentro.

— Obrigada.

— O sheikh pediu que este cartão também fosse entregue.

Ela franziu a testa.

— Cartão?

O homem estendeu um pequeno cartão branco, sem logotipo, sem ornamentação. Apenas um número escrito à mão em tinta preta.

Layla não tocou nele.

— Não.

O homem pareceu confuso.

— Senhorita?

— Diga ao sheikh que não aceito cartões de homens casados.

Samira fechou os olhos, provavelmente rezando.

O funcionário, sem saber como reagir, manteve o cartão suspenso por um momento. Depois recolheu-o com rigidez.

— Como desejar.

Layla desceu as escadas do palácio com passos firmes, embora as pernas tremessem sob a saia.

Só quando entrou no carro e as portas se fecharam, ela permitiu que o ar escapasse de seus pulmões.

Samira virou-se para ela.

— Você tem noção do que fez?

Layla olhou pela janela.

No topo da escadaria, entre colunas iluminadas, Zayn Al-Mansour havia reaparecido.

Ele não se aproximou.

Não mandou detê-la.

Não sorriu.

Apenas ficou ali, observando o carro se afastar.

Como se aquela não fosse uma despedida.

Como se fosse o início de alguma coisa.

— Tenho — Layla respondeu, embora não tivesse certeza nenhuma.

O carro cruzou os portões dourados e entrou na estrada escura que cortava o deserto. O palácio ficou para trás, brilhando como uma joia proibida sob o céu sem lua.

Samira falava sem parar ao seu lado. Algo sobre irresponsabilidade, orgulho, homens perigosos e a necessidade urgente de nunca mais aceitar convites vindos dos Al-Mansour.

Layla não respondeu.

Seu coração ainda batia rápido demais.

Ela deveria estar aliviada por ter ido embora.

Mas a verdade, vergonhosa e silenciosa, era outra.

Uma parte dela ainda sentia o olhar de Zayn em sua pele.

Uma parte dela ainda ouvia sua voz dizendo seu nome.

Layla.

Ela apertou o envelope de dinheiro contra o colo, como se isso pudesse lembrá-la do motivo pelo qual fora até ali. Trabalho. Apenas trabalho. Uma noite. Uma dança. Um homem poderoso demais, casado demais, perigoso demais.

Nunca mais.

Essa foi a promessa que fez a si mesma enquanto o carro se afastava do palácio.

Nunca mais veria Sheikh Zayn Al-Mansour.

Nunca mais dançaria diante dele.

Nunca mais permitiria que um homem como aquele chegasse perto o suficiente para fazê-la esquecer o próprio bom senso.

No palácio, porém, Zayn continuava parado no alto da escadaria.

Um conselheiro se aproximou com cautela.

— Senhor, os convidados aguardam.

Zayn não respondeu de imediato.

Seus olhos estavam fixos na estrada por onde o carro desaparecera.

— Descubra tudo sobre ela — disse, enfim.

O conselheiro hesitou.

— Sobre a dançarina?

Zayn virou o rosto lentamente.

O homem baixou a cabeça.

— Sim, senhor.

Zayn voltou a olhar para a noite.

O perfume de jasmim ainda parecia preso ao ar.

A música já havia recomeçado dentro do salão. Suas esposas o aguardavam. Sua família o observava. Seus convidados esperavam que ele voltasse a ser o homem de sempre: frio, controlado, intocável.

Mas algo havia mudado.

Uma mulher tinha dançado diante dele como fogo.

Depois o olhara nos olhos e dissera não.

Zayn Al-Mansour possuía palácios, empresas, terras, alianças e quatro esposas escolhidas por dever.

Mas naquela noite, pela primeira vez em muitos anos, desejou algo que não estava em suas mãos.

E isso era inaceitável.

O palácio Al-Mansour acordava antes do sol.

Mesmo depois de uma noite de recepção, música e convidados até tarde, nada naquele lugar parecia se permitir descansar por completo. Antes que a primeira luz tingisse de dourado as cúpulas claras, os corredores já estavam vivos com passos silenciosos de criados, o tilintar de porcelanas, o murmúrio baixo de guardas trocando turnos e o som distante da água correndo nas fontes internas.

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