Se connecter"Eu te dei três anos da minha vida, o meu sangue e o meu silêncio. Hoje, eu pego o meu império de volta." Durante três anos, Olívia Albuquerque foi a "esposa invisível". Aguentou calada o desprezo de Henrique Bittencourt, o bilionário frio que a via como uma órfã interesseira, colocada dentro da família por causa do testamento do avô. Enquanto Henrique desfilava com a amante e a humilhava em público, era ela quem cuidava, em segredo, dos bastidores da empresa dele. Salvou-o da ruína mais de uma vez, e ele nunca soube. Só que a paciência dela acabou. No dia em que Henrique põe sobre a mesa os papéis do divórcio e um cheque de dez milhões para abrir espaço para a amante, ele acha que está se livrando de um peso. Não faz ideia do que está soltando. Depois de assinar, Olívia revela quem é: a única herdeira do Grupo Albuquerque, a mulher mais poderosa do mercado financeiro e, na prática, dona de quase tudo o que Henrique pensa que é dele. Henrique cai em desgraça e entende, tarde, que a mulher que ele mandou embora era quem mantinha tudo de pé. Mas então um segredo do passado de Olívia vem à tona: um filho escondido. Um menino que nasceu antes de ela conhecer Henrique e cujo pai é o único homem que a família Bittencourt sempre temeu. Agora Henrique vai ter que rastejar pelo perdão da mulher que tentou destruir, enquanto Olívia enfrenta escândalos, traições e um passado que ameaça engolir o futuro dela. Ele queria o divórcio. Ela deu a ele uma guerra.
Voir plusO quadragésimo andar da Torre Bittencourt estava tão quieto que eu ouvia o meu coração bater. Pelas paredes de vidro dava para ver a cidade inteira lá embaixo. Na minha frente, sobre uma mesa de carvalho escuro que devia custar mais do que uma família comum ganha num ano, estava o papel que ia mudar a minha vida.
- Assine, Olívia. - A voz de Henrique saiu seca, sem pressa nenhuma. - E não me faça uma cena. Não quero drama, nem aquelas lágrimas de sempre. Já perdemos tempo demais com esse casamento de fachada. Levantei os olhos para o homem que chamei de marido durante mil e noventa e cinco dias. Estava impecável, como sempre. O terno cinza-escuro, feito sob medida em Londres, caía perfeito nos ombros largos. O rosto dele não mostrava um pingo de remorso. Para Henrique, eu era um erro administrativo. Algo que precisava ser corrigido e arquivado. - Três anos, Henrique. - A minha voz saiu rouca. Tinha um nó na minha garganta, mas não era tristeza. Era cada humilhação acumulada, cada jantar que comi sozinha, cada vez que abaixei a cabeça para a sua família. - Eu larguei a minha juventude para ser a esposa que o seu avô exigia. Cuidei da sua mãe quando ela ficou doente, enquanto você estava "ocupado" em hotéis na Europa. Apaguei a minha própria existência para o conselho continuar achando que você era um homem de família. - E foi muito bem paga por isso, não foi? - Ele sorriu de um jeito que me deu frio. Inclinou-se para a frente, e o perfume amadeirado dele tomou o pouco ar que eu tinha. - Não se esqueça de onde eu te tirei. Você era uma moça sem nome, de um vilarejo qualquer, com um rosto bonito e uma educação fraca. Eu te dei o sobrenome Bittencourt. Te dei acesso a um mundo que gente como você só vê pela televisão. O contrato acabou. A Clara voltou, e ela é a única mulher que merece ser a Sra. Bittencourt de verdade. Ele disse o nome dela com um cuidado que nunca teve comigo. Clara, o "primeiro amor". A herdeira de uma rede de hotéis que o largou para seguir carreira de modelo e que agora, por acaso, reaparecia justo quando a fortuna dos Bittencourt estava no auge. Henrique empurrou uma caneta Montblanc na minha direção. - O acordo é mais do que generoso. Dez milhões de reais, o apartamento na Alameda e uma pensão mensal para o resto da vida. Dá para você voltar para o seu buraco e viver como rainha no meio dos seus. Pense nisso como um bônus pelo seu "bom desempenho" como esposa obediente. Li o documento. Cláusulas frias, pensadas para me fazer sumir da vida dele sem deixar rastro. Henrique não sabia quem eu era. Acreditava na mentira que montei quando o avô dele, o velho Sr. Augusto, me pediu, quase implorando, que eu me casasse com o neto rebelde por causa de uma dívida de honra que o meu pai tinha feito num momento de fraqueza. Para o mundo, eu era Olívia, a órfã pobre. No meu mundo de verdade, eu era a última descendente dos Albuquerque. Foi quando a porta se abriu com força. Clara entrou num vestido de seda vermelha que só podia ser Vivienne Westwood, trazendo aquele cheiro enjoativo de gardênia. Era o mesmo perfume que Henrique começou a comprar para a casa meses antes de ela chegar. - Ai, Henrique, querido, você ainda não terminou com essa... - Ela parou e me olhou de cima a baixo. - ...formalidade? O jatinho para as Maldivas sai em duas horas e eu ainda não escolhi o biquíni da nossa lua de mel antecipada. Clara parou atrás dele e apoiou a mão no ombro de Henrique, exibindo um anel de diamante que, eu tinha certeza, saiu do caixa da empresa. Estava marcando território. E queria que eu visse. - Oi, Olívia. - O sorriso dela não enganava ninguém. - Espero que você não esteja tentando arrancar mais nada do meu Henrique. Depois de três anos, já deve ter joia suficiente para abrir uma casa de penhores. Senti o sangue subir, mas mantive o rosto parado. Anos convivendo com a alta sociedade, a de verdade, não essa versão de novo-rico que Henrique representava, me ensinaram a nunca mostrar as cartas antes da hora. - Pode ficar tranquila, Clara. - Peguei a caneta. O peso do metal na mão me acalmou. - Não tenho interesse em nada que seja do Henrique. Principalmente nas coisas que ele acha valiosas. Assinei. Só que não usei aquela letra miúda e tímida do contrato de casamento. Assinei com o traço largo dos Albuquerque, a mesma assinatura que já tinha autorizado transações de bilhões de dólares mundo afora. - Pronto. - Levantei e deixei o papel na mesa. - Pode ficar com o seu dinheiro, Henrique. Com o apartamento e com a pensão também. Não quero um centavo dos Bittencourt. Aliás, use esse dinheiro para comprar um pouco de classe para a sua noiva. Ela vai precisar, se quiser entrar nos lugares que importam. Henrique se levantou de uma vez e a cadeira de couro rangeu. O rosto dele estava vermelho. - O quê? Agora vai bancar a mártir? Sem o meu dinheiro você vai estar pedindo esmola na esquina antes do fim do mês. Você não tem nada! Não tem família, não tem carreira, não tem ninguém! - Você ficaria surpreso com o que eu tenho, Henrique. - Fui andando até a porta, e cada passo pesava menos que o anterior. - Você tem até o pôr do sol para tirar os seus seguranças da mansão. E não precisa mandar as minhas roupas. Tudo o que comprei com o seu cartão vai para a caridade. Nada daquilo combina comigo. - Combina com quem? - Clara deu uma risada alta. - Você é uma ninguém, Olívia! Uma substituta que foi jogada fora! Parei na porta e olhei por cima do ombro, direto para Henrique. Por um segundo, vi uma dúvida passar pelos olhos azuis dele. Talvez fosse a minha postura, as costas retas pela primeira vez em três anos. Talvez fosse o tom da minha voz. - O divórcio está assinado, Sr. Bittencourt. Agora saia do meu caminho. Eu tenho um império para administrar, e o seu, perto do meu, é um castelo de cartas. Saí antes que ele conseguisse entender o que eu tinha dito. O corredor de mármore parecia não acabar, mas andei por ele de cabeça erguida. Assim que entrei no elevador privativo, o meu celular pessoal, aquele que Henrique nunca soube que existia, vibrou no bolso. Atendi no primeiro toque. - Sim? - Alteza? - Era Ricardo, chefe de segurança da família Albuquerque e a pessoa em quem eu mais confiava. A voz dele era grave e respeitosa como sempre. - O helicóptero já está no heliporto. Os advogados deram entrada no cancelamento de todos os contratos de fornecimento entre o Grupo Albuquerque e a Indústria Bittencourt. Como a senhora mandou, em vinte e quatro horas eles ficam sem ar. Sorri enquanto o elevador descia para a garagem. - Ótimo, Ricardo. Quero que o Henrique entenda que, ao se divorciar da "pobre Olívia", ele declarou guerra à mulher que tem 40% das ações da empresa dele. - E a mansão, senhora? - Deixe que ele pense que estou na rua. Quero que ele aproveite a "vitória" por mais algumas horas. Amanhã, quando acordar e descobrir que as contas estão bloqueadas e que a ex-mulher é a nova presidente do conselho, eu quero estar lá para ver a cara dele. As portas do elevador se abriram. Não havia táxi nenhum me esperando, como Henrique devia imaginar. Havia três SUVs pretos blindados e homens de terno com ponto eletrônico no ouvido, parados em posição de sentido. Entrei no carro do meio. O cheiro de couro novo tomou o lugar da gardênia. - Para o heliporto, Ricardo. - Coloquei os óculos escuros. - A Olívia Bittencourt morreu hoje. A Olívia Albuquerque vai assumir o que é dela.Henrique ainda sentia na palma da mão o calor da mão de Olívia, aquele segundo em que a segurou no hospital, quando entrou no saguão da Torre Albuquerque. Estava decidido. Ia achar as provas contra Marcos, ia limpar o próprio nome e, de algum jeito, ia pedir perdão a Olívia por cada gota de sangue que ela deu pela mãe dele. O arrependimento queimava, mas a esperança de reconstruir alguma coisa, mesmo que a partir do zero, o empurrava para a frente.Mas o saguão não estava normal.Um bando de jornalistas bloqueava as portas giratórias, com microfones e flashes por todo lado. Os telões, que costumavam mostrar cotações e gráficos, exibiam agora uma foto granulada, em tom de sépia. Nela, uma Olívia bem mais jovem segurava um bebê no colo na porta de uma instituição de caridade. O olhar dela na foto não era o da empresária implacável. Era o de uma menina assustada, protegendo o que tinha de mais precioso.A manchete, em letras enormes, dizia:"A FACE OCULTA DE OLÍVIA ALBUQUERQUE: ABANDONO
O corredor do Hospital Albert Einstein cheirava a antisséptico. Eram cinco e quarenta da manhã quando Henrique chegou, com o coração disparado. Tinha dormido menos de três horas. Passou a noite dividido entre a culpa pela saúde da mãe e a humilhação de trabalhar para a mulher que podia, com uma assinatura, desligar os aparelhos.Para a surpresa dele, Olívia já estava lá.Estava sentada na sala de espera VIP, com um conjunto de tricô creme, um copo de café de papel nas mãos e os olhos fixos na porta do centro cirúrgico. Não parecia a "Rainha de Gelo" do escritório. Parecia cansada. Quase frágil, debaixo daquela luz branca.- Sra. Albuquerque... - Henrique se aproximou, com a voz fraca. - A senhora chegou cedo.Olívia levantou os olhos. Não havia deboche, só seriedade.- Eu prometi ao seu avô que ia cuidar da Adelaide, Henrique. Diferente de você, eu não quebro promessa por conveniência nem por prazer.Henrique se sentou a duas cadeiras de distância.- O médico disse que as chances são
Na segunda-feira, o sol batia sem dó nos vidros da torre. No fim de semana, as letras no alto do prédio tinham sido trocadas: onde antes se lia "Bittencourt", agora estava escrito "Albuquerque". Para Henrique, aquele brilho parecia a luz de uma sala de interrogatório. Estava parado na entrada, com um terno azul-marinho que Ricardo lhe entregara de manhã. O corte era bom, mas não tinha a etiqueta personalizada de antes. No peito, preso num cordão de náilon barato, balançava o crachá novo.Não dizia "CEO". Dizia: Henrique B. - Assistente Executivo Júnior.- Você está três minutos atrasado, Henrique. - A voz de Sofia veio de trás dele, e ela não disfarçava o prazer. - A Sra. Albuquerque não tolera atraso. Muito menos de quem está em período de experiência.Henrique respirou fundo. Ele, que chegava quando bem entendia e era recebido com café quente e silêncio respeitoso, só assentiu.- Onde ela está?- Na sala principal. E ela quer um latte de aveia com meia colher de açúcar mascavo. Nem
A garoa que caía sobre São Paulo não lavava a vergonha de Henrique, mas bastou para encharcar o terno de três mil dólares, que agora pesava no corpo como um trapo molhado. Ele andava sem destino, com a caixa de madeira protegida debaixo do braço como se fosse a última coisa que o mantinha vivo. Os hotéis que antes o recebiam com tapete vermelho tinham recebido um recado claro: o crédito de Henrique Bittencourt tinha acabado.Perto da meia-noite, exausto e com a febre começando a embaralhar as ideias, ele viu o letreiro de neon de um abrigo comunitário perto da zona portuária. O cheiro de sopa rala e de mofo agrediu o nariz acostumado a outra vida, mas o corpo não deu opção.- Nome? - perguntou um voluntário de meia-idade, sem tirar os olhos da prancheta.- Henrique... - Ele hesitou. Ali dentro, dizer "Bittencourt" parecia quase um pecado. - Só Henrique.- Muito bem, "Só Henrique". Você tem direito a um colchão e um cobertor. A sopa acabou às nove. Guarde as suas coisas no armário, se






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