FAZER LOGINAos 50 anos, Dra. Selene é linda, fria e temida. O que ninguém sabe é que ela É a Deusa da Lua. Cansada de ver seus filhos lobos rejeitando companheiras por preconceito, ela desceu à Terra para viver como humana e sentir a dor que ela mesma criou. Na Noite da União, o destino prega uma peça cruel: ela, a Deusa, é ligada ao Alfa mais jovem e arrogante do Norte - Ragnar. Um homem que odeia humanos e despreza os fracos. Diante de toda a alcateia, ele rosna: "Eu, Ragnar, te REJEITO." Pela primeira vez em milênios, a Deusa sangrou por rejeição. Ela foi embora. Voltou a ser Deusa. E amaldiçoou a alcateia dele: nenhum herdeiro nascerá. Agora ele reza todas as noites por perdão para a Deusa da Lua... sem saber que a Deusa que ele implora é a mesma humana de 50 anos que ele humilhou no altar
Ver maisCAPÍTULO 1 - A Médica Humana
Eu já estava morta há 500 anos. Não literalmente. Deuses não morrem. A gente só fica de saco cheio. E eu estava de saco cheio de ficar sentada no meu trono de pedra no Templo da Lua, no plano astral, assistindo meus filhos lobos fazerem a mesma merda geração após geração. Eu os criei. Eu dei a eles a dádiva de sentir o cheiro da alma gêmea. Eu criei o fio prateado que une duas almas para a eternidade. Foi a coisa mais linda que eu já fiz. Era pra ser amor puro. Virou moeda de troca. Virou preconceito. Virou "essa é fraca", "essa é humana", "essa não tem loba". Eles começaram a rejeitar o presente que eu dava. Começaram a quebrar corações em nome de "sangue forte". Começaram a tratar humanos como se fossem lixo, esquecendo que sem humanos, lobos nem existiriam. "Selene, você precisa descer", minha Sacerdotisa-Mor disse há 50 anos. "Você não entende mais seus filhos. Você precisa viver como eles." Foi a decisão mais idiota e mais brilhante da minha existência imortal. Descer à Terra. Selar 99% do meu poder divino. Nascer como humana. Envelhecer como humana. Sentir dor como humana. Para entender, de verdade, o que era ser rejeitada. E agora, aos 50 anos humanos, eu era a Dra. Selene Moreau. Não era a mocinha de 20 anos com peito grande e cinturinha que os livros de lobisomem amam. Eu tinha 1,70m, 68 quilos muito bem distribuídos, coxas grossas de quem já andou muito, seios fartos que não precisavam de sutiã de bojo, bunda de mulher feita. Meu cabelo era preto, longo até a cintura, com mechas prateadas grossas nas laterais que eu me recusava a pintar. Diziam que me deixava mais sexy. Meu rosto tinha rugas finas ao redor dos olhos azuis claros - rugas de quem já riu e já chorou muito. Eu usava um jaleco branco impecável, sempre aberto, por cima de um vestido preto de renda justo que marcava tudo. Batom vermelho. Salto alto mesmo no hospital. Os humanos do Hospital da Alcateia do Norte me amavam. Eu salvei a filha do padeiro, o filho do Alfa, o avô do Ômega. Os lobos me temiam. Porque eu não tinha cheiro. "Ela não tem cheiro de humana nem de loba", eles cochichavam quando eu passava nos corredores. "Ela tem cheiro de... nada. De gelo." Claro que não, idiotas. Eu tinha cheiro de Deusa adormecida. Nenhum nariz de filhote de 200 anos conseguiria sentir. Hoje era a Noite da União. A noite mais importante do ano. Onde eu, como médica e como testemunha neutra, tinha que estar presente. O salão principal do hospital foi esvaziado e decorado. Luzes baixas, imitando a lua cheia que brilhava lá fora, enorme, no céu de inverno. O chão foi coberto com pétalas brancas. No centro, a Roda de Luz - um círculo onde os pares recém-unidos pelo destino deveriam se apresentar. Eu odiava essa parte. Porque há 50 anos eu ficava num canto, com uma prancheta, testemunhando a felicidade alheia. Eu unia todo mundo. Menos a mim. Eu era a única sem par. Porque quem seria par da Deusa da Lua? Eu estava encostada no balcão de remédios, tomando um café frio, vendo as jovens lobas de 18, 20 anos passarem com vestidos curtos, cheirando a medo e excitação, esperando o cheiro do companheiro. — Dra. Moreau, você não vai pra roda? Vai que hoje é seu dia? — Minha enfermeira, a jovem Clara, uma humana de 23 anos, riu. — Querida, se meu par aparecer hoje, eu me aposento. Já estou velha pra esse drama de "ai, meu lobo". Eu ri, mas por dentro, uma pontinha de esperança idiota ainda existia. Mesmo selada, mesmo humana, uma parte minha ainda era mulher. E toda mulher, mesmo Deusa, quer ser escolhida. Foi quando a porta dupla do salão foi arrombada. Não foi aberta. Foi arrombada. A maçaneta de metal voou e bateu na parede. O cheiro entrou primeiro. Alfa. Macho. Sangue. Raiva. E testosterona barata. Ragnar Thorsson. O Alfa Supremo do Norte. 26 anos. Herdou o título quando o pai dele, o velho Kael Thorsson, foi dado como morto numa emboscada na fronteira com os Lycans há dois anos. Desde então, esse menino de 1,95m, ombros de touro, cabelo castanho escuro bagunçado, maxilar quadrado e olhos azuis gelados, achava que era dono do mundo. Ele usava um terno preto amassado, gravata torta, e carregava nos braços o Beta dele, Lucas, com um buraco fumegante no peito. Prata. Alguém tentou matar o Beta. — MÉDICA! — Ele berrou no meio do salão silencioso, onde 100 lobos solteiros pararam de dançar e olharam. — Atende ele! AGORA! O desrespeito. O tom. Como se eu fosse empregada dele. Eu larguei meu café frio com calma. Caminhei até ele, de salto alto estalando no piso frio. Cada passo meu fazia meus quadris balançarem. Eu vi os olhos de alguns lobos mais jovens me seguirem. Ragnar também olhou, por um segundo, para o meu decote de renda. Depois fez cara de nojo, como se odiasse ter olhado. — Põe ele na maca ali, no centro — eu disse, apontando para a maca que já estava preparada na Roda de Luz. Minha voz saiu fria, médica. — É prata! Ele vai morrer! — E eu sou médica há 30 anos, menino. Se você não colocar ele na maca em 3 segundos, ele vai morrer mesmo, mas por causa da sua burrice. Um. Dois. Ele me obedeceu. Rosnando. Colocou o Beta na maca. Minha equipe já veio com pinças. Era só um arranhão de raspão, nada que uma loba de verdade não curasse em horas, mas para humanos era feio. Enquanto minha equipe trabalhava, ele ficou ao meu lado. Perto demais. Eu sentia o calor dele. O cheiro de alfa jovem, de pinho e raiva. Ele me olhou de cima a baixo. — Você... — ele começou, baixo, só pra mim. — Você não tem cheiro de loba. Você é humana. Humana velha. Velha. A palavra bateu como um tapa. — Eu tenho 50 anos — eu respondi, sorrindo, mas meus olhos estavam gelados. — E você tem 26 e age como se tivesse 16. Qual de nós dois é mais velho de verdade? Ele ficou vermelho. De raiva. A aura de Alfa Supremo dele explodiu, tentando me fazer baixar a cabeça, chorar, pedir desculpas. Era assim que ele controlava todas as fêmeas da alcateia. Todo mundo baixava a cabeça. Eu bocejei de novo. Literalmente. Porque a aura de um Supremo não funciona na Deusa que criou os Supremos. E foi quando aconteceu. O cheiro dele mudou. De raiva para... pinho queimado e chuva. Meu cheiro favorito. O meu cheiro também mudou. O selo que me prendia como humana rachou por um segundo. O puxão. O estalo. O fio prateado, invisível para todos, mas que EU criei há milênios, apareceu entre meu peito e o dele. Brilhante. Pulsando. Gritando. Companheiros. O destino, aquele filho da puta com senso de humor cruel, tinha acabado de me unir, a Deusa da Lua que desceu pra entender a rejeição, ao único lobo do mundo que odiava tudo que eu era em forma humana: humana, madura, sem loba aparente, forte demais pra baixar a cabeça. O terror nos olhos azuis dele foi instantâneo. Ele sentiu. Ele recuou um passo, como se eu tivesse lepra. Como se eu fosse a coisa mais nojenta do mundo. — Não — ele sussurrou, a voz falhando. Pela primeira vez, o grande Alfa Supremo parecia um menino assustado. — Não, não, não. Não pode ser você. Qualquer uma menos você. QUALQUER UMA! Uma humana velha? Uma médica fria? Eu não vou me unir a uma humana velha! Cada "velha" era uma facada no meu coração humano. Eu, que criei a lua, senti o peito quebrar. O Ancião da alcateia, que estava no centro da Roda de Luz para abençoar os pares, viu o fio prateado. Mesmo velho, ele conseguia ver. Ele gritou, extasiado: — Que a Deusa da Lua testemunhe! Um novo par foi unido pelo destino! Dra. Selene Moreau e Alfa Supremo Ragnar Thorsson! O salão inteiro, que estava em silêncio por causa do Beta ferido, explodiu em murmúrios. 100 pares de olhos em mim. Na humana de 50 anos. No Alfa Supremo de 26. Ragnar olhou para o salão. Para as jovens lobas lindas de 20 anos que o queriam. Para os alfas que o invejavam. E para mim, de jaleco branco, vestido preto justo, cabelo com prata, 50 anos. O orgulho dele foi maior que o vínculo. Ele me agarrou pelo pulso. Com força. Me arrastou para o centro exato da Roda de Luz, onde a luz da lua cheia entrava pela claraboia e me iluminava inteira. E fez o que todo alfa babaca que eu criei faz quando tem medo. Ele sorriu cruel. E gritou, para que até os humanos no estacionamento ouvissem, para que a Deusa no céu ouvisse: — EU, RAGNAR THORSSON, ALFA SUPREMO DO NORTE, REJEITO VOCÊ, SELENE MOREAU, COMO MINHA COMPANHEIRA E LUNA! PORQUE EU NÃO ME UNO A HUMANAS FRACAS, FRIAS E VELHAS! VOCÊ NUNCA SERÁ MINHA LUNA! O fio prateado no meu peito não só quebrou. Ele explodiu. Uma dor que eu nunca senti em milênios de existência me atravessou. Uma dor humana. De rejeição. De humilhação pública. Eu caí de joelhos no centro da roda. O jaleco branco ficou sujo de pétalas. E pela primeira vez em milênios, a Deusa da Lua chorou. E o céu lá fora, que estava de lua cheia, ficou preto. A maldição tinha começado.CAPÍTULO 90 - PONTO DE VISTA RAGNAR Um ano após o julgamento sob as estrelas na praça alta, a primavera finalmente quebrou a espinha das geleiras antigas que cercavam Ashfall. O degelo das montanhas do Norte não descia mais como torrentes barrentas de cinzas e desespero. Pelas gargantas rochosas onde antes ecoava o ribombar das catapultas rebeldes de Valdor e o trote desesperado de batedores feridos, agora serpenteavam caravanas comerciais carregadas de linho do Sul, grãos dourados das Planícies Ocidentais e especiarias trazidas pelos navios mercantes do Leste. As velhas trincheiras cavadas no permafrost haviam sido aterradas com terra fértil trazida dos vales baixos; as cercas de estacas pontiagudas deram lugar a postos de pedágio organizados, onde guerreiros com armaduras limpas conferiam selos de trânsito em vez de desembainharem espadas ao menor sinal de movimento na neblina. Sobre as ameias de ferro da fortaleza, não tremulavam mais estandartes divididos pela desconfiança de v
CAPÍTULO 89 - PONTO DE VISTA SELENE O ranger das ferragens e o murmúrio disperso dos soldados que abandonavam a praça alta de Ashfall foram engolidos pela vastidão gélida das montanhas. O Grande Conclave recolhera os seus homens, as suas dúvidas, os seus elmos de ouro e as suas pretensões tolas de tutela. Nas lajes frias onde o sangue quase fora derramado pela insolência de um herdeiro mimado, restara apenas a serenidade límpida de uma lua cheia que brilhava no centro exato do céu de inverno. Não havia vento cortante. A brisa que descia das geleiras perdera a aspereza da tempestade, transformando-se em um sopro fresco que roçava a barra do meu vestido de seda cinzenta enquanto deixávamos o círculo de pedra para trás. Ragnar caminhava ao meu lado. Subíamos a escadaria espiral em um silêncio denso, quase sagrado. Seus passos largos e pesados adaptavam-se com precisão militar ao ritmo dos meus pés descalços sobre o granito. Ele não soltara a minha mão esquerda desde o instante em que
CAPÍTULO 88 - PONTO DE VISTA RAGNAR A mão de Selene desceu da lateral do meu pescoço, mas a eletricidade suave que seus dedos deixaram na minha pele continuava a correr por todas as minhas veias, apaziguando o rosnado do meu lobo interior. Nossos dedos permaneciam entrelaçados no centro da praça alta. Diante de mais de trezentos guerreiros embasbacados, a maior força deste continente testemunhava o Alfa do Norte segurando a mão de sua fêmea com a reverência de quem protege o sopro da própria vida. Nenhum dos três embaixadores se mexia. O velho Dorian engoliu em seco, a mão pesada congelada sobre a coronha de osso de seu machado de guerra. O patriarca Vane, do Leste, desviava o olhar entre a marca estelar no meu peito nu sob o couro e o fulgor celestial que brotava dos cabelos de Selene. Mas era no jovem Cassian que a vergonha ardia como ácido puro. O herdeiro do Oeste tremia sob as placas de ouro polido. O queixo erguera-se com o desespero de um garoto mimado que nunca tivera uma
CAPÍTULO 87 - PONTO DE VISTA SELENE A noite desceu sobre os picos de Ashfall com a clareza cortante do gelo eterno. No centro da praça alta da fortaleza, cercada por ameias de granito e vigiada pelas sombras colossais das torres, dezenas de tocheiros de ferro ardiam com chamas altas, tingindo a pedra escura de cobre e fuligem. O vento que uivava do Desfiladeiro dos Dentes fora amansado por uma barreira quase imperceptível de energia estelar, deixando o ar dentro do recinto imóvel, tenso e rarefeito. O Conclave aguardava reunido. Trezentos cavaleiros de elite formavam uma muralha de aço polido nas laterais da praça, com os estandartes do Leste, Oeste e das Cordilheiras Centrais tremulando sob o céu coalhado de constelações. À frente deles, dispostos em um semicírculo que tentava impor autoridade territorial, estavam os três lordes: Dorian, com sua couraça de placas pesadas e barba trançada; Vane, envolto em veludo carmesim bordado com fios de ouro; e o jovem Cassian, que tentara re












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