FAZER LOGINSebastian
Meu dia começou cedo.
Como todos os outros.Mas, diferente da maioria das manhãs, eu não consegui manter a mente onde deveria estar.A sala de reunião estava cheia. Executivos falando, gráficos sendo projetados na tela, números sendo discutidos com aquela seriedade corporativa que normalmente me mantinha focado.Hoje não.— Sebastian?Levantei os olhos.Richard Whitmore, meu padrinho e braço direito na empresa, me observava do outro lado da mesa.
— O que acha da proposta de expansão?Perguntou.
Alguns executivos me encararam, esperando uma resposta. Olhei para o gráfico na tela por alguns segundos, organizando meus pensamentos.— Precisamos revisar os custos logísticos antes de fechar qualquer coisa.Respondi finalmente.
— Mas o plano parece sólido.
Richard assentiu, satisfeito.A reunião continuou.Mas minha cabeça… não. Porque, de vez em quando, a imagem surgia de novo.Aquela garota.Os olhos vermelhos. O jeito nervoso. E principalmente…O rosto.Suspirei discretamente e encostei na cadeira.Era ridículo. Eu não pensava em Cassandra daquela forma havia anos. Mas aquela semelhança maldita tinha aberto uma porta que eu preferia manter fechada.Flashes de memória me invadiram.Eu tinha dezoito anos.Cassandra estava sentada no banco do meu carro, rindo enquanto segurava uma bolsa absurda de cara que tinha acabado de comprar com o cartão do meu pai.— Você nem olhou o preço.Eu disse na época, rindo.
Ela deu de ombros.
— Seu pai é rico, Sebastian. Relaxa.Naquela época eu não via problema.Eu era jovem.E estava completamente apaixonado.Cassandra Beaumont.Linda.Popular.Sempre perfeitamente vestida.Ela amava restaurantes caros, festas luxuosas, viagens improvisadas para lugares absurdamente caros.E eu adorava dar tudo aquilo para ela.Até o dia em que meu pai me chamou para conversar.— Está na hora de começar a se preparar para assumir a empresa um dia.
Foi quando ele pediu para Richard começar a me treinar.Estudos mais sérios.Reuniões.
Responsabilidades.Cassandra odiou.— Você nunca tem tempo agora!
Ela reclamou jogando a bolsa no sofá do meu apartamento.
— Eu estou trabalhando, Cassie.
— Você tem vinte anos! Era para estarmos nos divertindo!Eu tentei explicar.
Tentei fazer ela entender.
Mas Cassandra nunca quis entender.Ela queria festas.Luxo.Atenção.E quando percebeu que eu estava mais ocupado… ela simplesmente encontrou alguém que não estivesse.
Lembro perfeitamente do dia em que descobri.
Ela estava saindo de um restaurante caro… com outro cara.Um cara que eu conhecia.
Mais velho.Mais rico.
Mais influente.— Sebastian…Ela disse quando me viu.
Como se fosse apenas um inconveniente.— Você terminou comigo ontem.Eu falei.
Ela suspirou.
— Eu precisava de alguém com mais… visão de futuro.A frase ainda ecoava na minha cabeça anos depois.
Visão de futuro.Ela trocou nosso relacionamento por dinheiro.
E não foi a última vez.
Cassandra passou anos pulando de um homem rico para outro.
Empresários.Herdeiros.Investidores.
Qualquer um que pudesse manter o estilo de vida que ela adorava.E eu?Eu nunca mais quis nada sério com ninguém.Porque aquela sensação…De ser trocado.De não ser suficiente.Ela não desaparecia....
A reunião terminou e as pessoas começaram a sair da sala.Richard ficou para trás.— Você parece distraído hoje.
Comentou.
— Só cansado.Ele me estudou por alguns segundos, mas não insistiu.Quando finalmente voltei para o meu escritório, tentei mergulhar no trabalho.
Mas aquela garota continuava aparecendo na minha mente.Não apenas pela semelhança.Mas porque…Por um segundo, quando olhei para ela…Eu vi uma versão de Cassandra que não existia mais.Antes das cirurgias.Antes do luxo excessivo.Antes de tudo aquilo.A garota que eu realmente amei quando era adolescente.A ideia me irritou.
Ridículo.
Passei o resto do dia tentando ignorar o pensamento.
Sem sucesso.À noite, quando finalmente cheguei em casa, servi um copo de uísque e fui até a varanda do apartamento.A cidade brilhava lá embaixo.Bebi um gole lento.Se Cassandra quisesse voltar hoje…Eu sabia que poderia tê-la.Ela sempre gostou de homens ricos.E eu tinha me tornado mais rico do que qualquer um que ela já teve.Parte de mim tinha trabalhado duro exatamente por isso.Para provar que ela estava errada.Que me trocar tinha sido o maior erro da vida dela.E eu consegui.Mesmo assim…Aquela dor antiga ainda existia em algum lugar dentro de mim.Terminei o uísque e peguei o celular.Rolei a lista de contatos até encontrar um nome específico.Daniel Carter.
Um velho amigo.Hoje policial.
Mas também fazia alguns trabalhos como detetive particular quando precisava de dinheiro extra.A ligação foi atendida depois de dois toques.— Sebastian?Ele disse.
— Faz tempo.
— Preciso de um favor.— Que tipo de favor?Olhei para a cidade mais uma vez.
— Preciso que investigue uma pessoa para mim.— Nome?— Olivia Parker.
Houve um pequeno silêncio do outro lado da linha.— Certo… isso já ajuda bastante.Daniel respondeu.
— O que você quer saber sobre ela?
Encostei no parapeito da varanda, observando as luzes da cidade.— Tudo.
— Tudo… tipo?
— Família, trabalho, histórico… qualquer coisa.
Daniel soltou uma pequena risada.— Você está me pedindo uma investigação completa.— Exatamente.
Peguei o celular e abri o e-mail corporativo que ainda estava salvo no meu telefone.
O currículo dela.
Olivia Parker.22 anos.Endereço simples.Experiência principalmente em serviços de limpeza.Nada impressionante.
Ainda assim…— Eu consigo isso para você.
Daniel disse.
— Mas vai custar.
— Não é um problema.Mais alguns segundos de silêncio passaram antes que ele perguntasse:
— Quem é ela?Olhei para o reflexo da cidade no vidro da varanda.
Pensei na garota chorando na rua.No rosto que parecia um fantasma do meu passado.
— Alguém que chamou minha atenção hoje.Daniel riu.
— Mulheres,Isso é a sua cara.Desliguei a chamada e coloquei o celular sobre a mesa.
Talvez fosse mesmo.
Mas, por algum motivo estranho…Eu precisava saber mais sobre Olivia Parker.
Eu mal consegui dormir.Passei a noite acordando, olhando para a Chloe naquela cama de hospital. Conferindo se ela ainda estava ali. Se ainda estava respirando. Eu sentia que ainda tinha tempo... mas que ele estava acabando.Na manhã seguinte, o médico deu a alta. Repouso absoluto. Voltamos para casa e ela apagou na mesma hora. Exausta. Frágil.E eu fiquei ali. Sentada ao lado dela, com o celular na mão. Esperando. Como se aquilo fosse mudar o mundo.E então, ele atendeu.A voz dele ainda me causava aquele efeito estranho. Calma, firme, sob controle.— Senhor Hale… você ainda tem interesse nos meus serviços?Houve um silêncio. Um segundo que durou uma eternidade.— Tenho, sim.Meu coração disparou. Prendi a respiração sem notar.— Ótimo — ele continuou. — Podemos conversar hoje à tarde. Às quatro. Não se preocupe com transporte, vou mandar um motorista buscar você. Me mande o endereço.— Certo.Passei o endereço, anotei o horário e a ligação caiu. Simples assim. Mas nada dentro de mim
OliviaO ar aqui fora estava extremamente pesado. Ou talvez fosse apenas eu, sentindo o peso de cada degrau enquanto descia. Cada passo parecia carregar o peso da decisão que eu havia acabado de tomar.Aquela chance. Aquela oportunidade.Fechei os olhos por um instante, sentindo a cabeça latejar.— Idiota…Murmurei para mim mesma.Mas eu sabia que não era falta de inteligência. Eu não podia simplesmente virar as costas e deixar Chloe enfrentar tudo sozinha. Não depois de tudo o que vivemos. Não depois das promessas que fiz. Ainda assim… doía profundamente dizer não.Coloquei a mão na bolsa e senti o papel entre os dedos. O cartão. Parei no meio da calçada e o retirei. Sebastian Hale. O nome parecia imponente, impresso em letras elegantes. Fiquei observando por alguns instantes, refletindo.“Excelente salário.” A voz dele ainda ecoava na minha mente.Apertei o cartão na mão, guardei-o novamente na bolsa e continuei andando. Eu não tinha escolha. No meu mundo, nunca temos.O restante do
OliviaEu estava nervosa. Muito mais do que na primeira entrevista. E isso não fazia sentido… porque, dessa vez, eu tinha uma chance real. Ou pelo menos… era o que eu achava. Assim que entrei naquela sala enorme, senti como se estivesse em outro mundo.Tudo ali era grande demais. Elegante demais. Caro demais. E eu…Pequena demais.— Sente-se.A voz dele me fez estremecer por dentro. Grave. Firme. Difícil de ignorar.— S-sim, senhor.Sentei-me rapidamente, com cuidado, tentando não fazer nenhum movimento errado. Minhas mãos estavam frias. Eu as entrelacei sobre o colo para esconder o leve tremor.— Eu disse que tinha uma proposta para você.Meu coração acelerou. Era isso. Era o momento. Respirei fundo e me adiantei antes que o silêncio me engolisse.— Eu estou disposta a dar o meu melhor, senhor.Falei rápido demais.— Sempre trabalhei com limpeza, sei me adaptar, posso aprender o que for necessário…Meu Deus, eu estava falando demais. Mas eu precisava daquele trabalho. Precisava mesmo.
SebastianEla parecia nervosa. Dava para ver em cada pequeno gesto. Nos dedos entrelaçados. Na forma como evitava olhar diretamente para mim por muito tempo. Na respiração levemente irregular. Eu observei tudo em silêncio por alguns segundos… apenas absorvendo.— Sente-se.Pedi, apontando para a cadeira à minha frente.Ela obedeceu imediatamente. Claro que obedeceu. A forma como se acomodou, com cuidado, como se tivesse medo de errar até no jeito de sentar… me fez prestar ainda mais atenção. Interessante. Apoiei os braços na mesa, mantendo o olhar fixo nela.— Eu disse que tinha uma proposta para você.Deixei o silêncio se alongar. Propositalmente. Eu gostava de ver o que as pessoas faziam quando não sabiam o que esperar. E Olivia…Ela tentou preencher aquele espaço.— Eu… eu estou disposta a dar o meu melhor, senhor ...Disse rapidamente.— Sempre trabalhei com limpeza, sei me adaptar, posso aprender o que for necessário…Quase interrompi. Quase. Mas deixei que ela terminasse. E, por
OliviaEu ainda estava sorrindo quando terminei o trabalho naquele dia. Era estranho. Fazia tanto tempo que eu não me sentia assim… leve.Enquanto passava o pano na última superfície da casa enorme, minha mente só conseguia voltar para a mensagem.A empresa.A nova chance.A possibilidade de finalmente sair daquele buraco. Respirei fundo, tentando conter a ansiedade que crescia dentro de mim.— Amanhã…Murmurei baixinho.A dona da casa nem percebeu quando me despedi. Saí dali com passos mais rápidos do que o normal, quase como se meu corpo não conseguisse acompanhar a velocidade dos meus pensamentos. No caminho de volta, parei em um mercadinho simples.Comprei algumas coisas diferentes.Nada caro.Mas melhor do que o de sempre.Hoje merecia. Nós merecíamos. Quando cheguei em casa, Chloe estava sentada no sofá, mexendo no celular. Ela levantou o olhar assim que me viu.— Demorou…Fechei a porta atrás de mim, já sentindo o sorriso voltar.— Eu tenho uma coisa pra te contar.Ela franziu
SebastianEu já tinha tomado decisões importantes em poucos segundos antes.Mas aquilo…Aquilo não era apenas uma decisão. Era um impulso calculado. Desde o momento em que Daniel Carter me enviou o relatório, algo tinha mudado.Eu li uma vez. Depois outra. E mais uma.Como se cada detalhe fosse necessário para montar um quebra-cabeça que eu ainda não entendia completamente.Olivia Parker.22 anos.Diarista.Endereço simples.Irmã viciada.Dívida: quinze mil dólares.Passei o dedo pela tela do celular, ampliando a foto dela. A mesma expressão. Os mesmos olhos. A mesma sensação estranha que tive quando a vi pela primeira vez na rua.Encostei na cadeira do escritório, soltando um suspiro lento. Eu poderia ter qualquer mulher. Sempre pude. Dinheiro resolvia tudo. Status resolvia o resto. Mas nenhuma daquelas mulheres… Nenhuma delas tinha me feito parar.Pensar. Voltar. Mas ela tinha.E isso me incomodava mais do que deveria. Fechei o arquivo por um momento e passei a mão pelo queixo.— Int







