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Capítulo 3

Author: J.V Halk
last update publish date: 2026-03-13 04:19:17

Olivia 

 

Passei a noite quase inteira acordada.

O pequeno relógio ao lado da cama parecia fazer mais barulho do que o normal, cada segundo batendo como um lembrete cruel de que o tempo estava passando… e eu ainda não tinha ideia do que fazer.

Quinze mil dólares.

O número parecia impossível.

Levantei da cama antes mesmo do sol nascer e fui até a cozinha minúscula do apartamento. O silêncio do lugar era pesado, quebrado apenas pelo som do velho encanamento.

Olhei para a porta do quarto da Chloe.

Fechada.

Ela não tinha saído desde a noite anterior.

Suspirei e preparei café, mesmo sabendo que provavelmente ela não beberia.

Minha irmã sempre foi forte. Teimosa. Cheia de vida.

Mas agora parecia… quebrada.

Peguei meu celular e comecei a fazer a única coisa que ainda podia tentar.

Pedir ajuda.

Primeiro mandei mensagem para uma vizinha que sempre foi gentil comigo.

Expliquei que estava em uma situação difícil. Que precisava de um empréstimo. Que pagaria de volta assim que pudesse.

A resposta demorou apenas alguns minutos.

"Sinto muito, Olivia. Eu realmente queria ajudar, mas também estou cheia de contas."

Engoli o nó que se formou na minha garganta.

Tentei outro número.

Um conhecido do antigo trabalho do meu pai.

Depois outro.

E mais outro.

As respostas foram praticamente iguais.

Desculpas educadas. Promessas vazias. Silêncio.

Ninguém queria se envolver com um problema daquele tamanho.

No meio da manhã eu já estava saindo para trabalhar.

Passei na primeira casa onde fazia faxina e terminei tudo em silêncio. Meus pensamentos estavam longe enquanto eu limpava os móveis caros e organizava uma cozinha que parecia maior que todo o nosso apartamento.

Quando terminei, respirei fundo e tomei coragem.

— Senhora Whitaker… posso falar com a senhora um minuto?

A dona da casa estava sentada na sala, olhando algo no tablet.

Ela ergueu os olhos.

— Sim?

Minhas mãos começaram a suar.

— Eu… estou passando por um problema financeiro. Eu queria saber se a senhora poderia… talvez me emprestar algum dinheiro.

Ela franziu a testa imediatamente.

— Emprestar dinheiro?

— Eu pagaria tudo, eu juro. Só preciso de um tempo.

Ela me observou por alguns segundos.

Então suspirou.

— Olivia, você é uma boa funcionária. Mas misturar dinheiro com empregados nunca acaba bem.

Meu coração afundou.

— Eu entendo.

— Espero que consiga resolver sua situação.

Aquilo foi tudo.

Saí da casa tentando manter a cabeça erguida, mas assim que virei a esquina meus olhos começaram a arder.

Eu estava ficando sem opções.

Quando cheguei em casa naquela tarde, Chloe estava exatamente onde eu imaginava.

Deitada na cama.

Encolhida.

— Chloe?

Ela abriu os olhos devagar.

O rosto estava pálido.

— Você precisa comer alguma coisa.

Falei tentando manter a voz firme.

Ela virou o rosto para o outro lado.

— Não estou com fome.

Eu sabia o que aquilo significava.

Abstinência.

Meu peito apertou.

— Eu vou dar um jeito, ok?

Falei tentando soar confiante.

Ela soltou uma risada fraca.

— Liv… são quinze mil dólares.

— Eu sei.

— Você não tem esse dinheiro.

Eu respirei fundo.

— Ainda não.

Saí do quarto antes que ela pudesse ver as lágrimas nos meus olhos.

Passei o resto da tarde enviando currículos para qualquer empresa que encontrasse na internet. Restaurantes. Hotéis. Lojas. Escritórios. Qualquer coisa.

Eu não tinha experiência em quase nada além de faxina e alguns trabalhos simples, mas mesmo assim continuei tentando.

Quando meu e-mail finalmente notificou uma resposta, quase derrubei o celular.

Uma entrevista.

Na Hale Corporation.

Meu coração acelerou. Era uma grande empresa. Talvez fosse apenas para um cargo simples, talvez limpeza ou serviços gerais, mas não importava.

Era uma chance.

No dia seguinte acordei cedo, vesti minha melhor roupa  que ainda assim era simples demais e fui até o prédio da empresa.

O lugar era gigantesco.

Vidros enormes refletindo o céu da cidade, pessoas bem vestidas entrando e saindo com pressa. De repente me senti completamente deslocada ali.

Mesmo assim respirei fundo e entrei. A entrevista durou menos de dez minutos.

O homem que analisava meu currículo parecia cada vez menos interessado a cada linha que lia.

— Você não tem muitas referências, senhorita Parker.

— Eu trabalho como diarista há anos…

Ele assentiu educadamente.

— Entendo. Mas estamos procurando alguém com experiência em ambientes corporativos.

Aquilo já soava como um não.

Mesmo assim tentei.

— Eu aprendo rápido.

Ele sorriu, aquele tipo de sorriso que já encerra a conversa.

— Se surgir algo mais adequado ao seu perfil, entraremos em contato.

Eu sabia o que aquilo significava.

Não havia vaga.

Saí do prédio tentando segurar as lágrimas, mas assim que atravessei as portas de vidro senti tudo desmoronar. Caminhei pela calçada com a visão embaçada.

Minha cabeça girava com pensamentos desesperados.

O que eu ia fazer agora?

Como eu conseguiria aquele dinheiro?

Foi então que quase atravessei a rua sem olhar.

Um carro de luxo freou bruscamente a poucos centímetros de mim.

O som dos pneus gritando no asfalto fez meu coração disparar.

— Meu Deus!

A porta do carro se abriu e um homem saiu rapidamente.

Ele era alto. Muito alto.

O terno perfeitamente ajustado deixava claro que era caro. Assim como o carro.

E ele também era… absurdamente bonito.

Por um segundo fiquei paralisada.

Então o medo tomou conta.

Se eu tivesse estragado aquele carro…

Eu nunca teria dinheiro para pagar.

— Me desculpa!

Falei rapidamente.

— Você está louca!

Só consegui dizer:

— Eu não estava olhando!

Ele me observava de um jeito estranho.

Como se estivesse tentando entender alguma coisa.

Aquilo só me deixou ainda mais nervosa.

— Eu realmente sinto muito.

Repeti.

Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, me virei e comecei a andar o mais rápido possível.

Eu não podia arrumar mais problemas.

...

Quando finalmente cheguei em casa já estava escurecendo.

Chloe continuava na cama.

— Liv…?

— Eu estou aqui.

Ela parecia ainda pior.

Olhei para a tela do celular dela virada para mim e senti meu estômago virar.

Novas mensagens.

Números desconhecidos.

"O tempo está acabando."

"Você sabe o que acontece com quem não paga."

Fechei os olhos por um segundo.

Depois entrei no quarto.

Sentei na cama ao lado dela e segurei sua mão.

— Chloe.

Ela me olhou, os olhos cheios de medo.

Respirei fundo.

— Eu vou conseguir o dinheiro.

— Como?

Eu apertei a mão dela.

Mesmo sem saber a resposta.

— Eu não sei ainda.

Mas eu sabia de uma coisa.

Eu faria qualquer coisa.

Qualquer coisa mesmo.

— Eu prometo.

Sussurrei.

E naquele momento… aquela promessa parecia mais assustadora do que qualquer ameaça no seu celular.

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