تسجيل الدخولMeu pai morreu quando eu tinha vinte e cinco anos.
Não foi a primeira morte que presenciei, mas foi a primeira que mudou tudo. Lembro-me do cheiro de pólvora, do sangue espalhado pelo mármore e da voz da minha mãe gritando meu nome. Lembro de alguém segurando meu braço, tentando me afastar, enquanto eu permanecia imóvel, olhando para o corpo do homem que havia me ensinado tudo o que eu sabia. Meu pai ainda usava o relógio que eu lhe dera alguns anos antes. Foi a última coisa em que reparei naquela noite. O relógio. Não o sangue, não os homens armados, tampouco o caos que havia tomado conta da propriedade. O relógio. Talvez minha mente precisasse se agarrar a alguma coisa pequena para suportar o que estava acontecendo. Nove anos se passaram desde aquela noite, e eu ainda não sei quem ordenou sua morte. Tenho nomes, suspeitos, informações incompletas e uma lista considerável de homens que já não estão vivos para responder às minhas perguntas. O que não tenho é uma resposta. E detesto não ter respostas. — Temos um problema. A voz de Riccardo interrompeu meus pensamentos. Ergui os olhos dos documentos que analisava e o encontrei parado diante da minha mesa, com uma pasta preta debaixo do braço. Meu primo tinha o hábito irritante de entrar no meu escritório sem bater. Eu já havia reclamado inúmeras vezes, sem qualquer resultado. — Isso não é novidade — respondi, voltando a ler. — Um problema diferente. Pousei a caneta. — Estou ouvindo. Riccardo aproximou-se e colocou a pasta sobre a mesa. — O acordo com os Bellini foi aprovado. Abri o documento. — E Matteo? — Aceitou os termos. Passei os olhos pelas primeiras páginas. O contrato estava organizado, com cláusulas bem definidas, compromissos financeiros e garantias que envolviam os interesses das duas famílias. — Quando será o casamento? — Dentro de três meses. — Rápido. — Foi o prazo solicitado pelos Bellini. Levantei os olhos. — Por quê? — Não sei. Mas posso descobrir. Fechei a pasta. — Descubra. Riccardo apoiou as mãos na mesa. — Você não parece muito satisfeito. — Existe algum motivo para eu estar? — Estamos falando de uma aliança que pode fortalecer nossa posição em determinados setores. — Estou ciente disso. — Então? — Então, se Matteo quer se casar, que se case. Não vejo motivo para transformar a vida pessoal do meu irmão em uma reunião interminável. Riccardo soltou uma risada discreta. — Você realmente não quer se envolver. — Tenho coisas mais importantes para resolver. — Como encontrar o assassino do seu pai? Meu olhar se ergueu lentamente. Riccardo não desviou. Era uma das razões pelas quais eu confiava nele. Conhecia meus limites e, ainda assim, não tinha medo de ultrapassá-los quando acreditava que precisava. — Entre outras coisas — respondi. Ele assentiu. — Vou levantar as informações sobre o acordo e verificar a situação financeira dos Bellini. — Quero saber se existe alguma coisa que possa comprometer os Moretti. — Entendido. Riccardo recolheu a pasta, mas permaneceu no mesmo lugar. — Há mais uma coisa. — Diga. — Matteo está bastante empolgado com o casamento. Soltei o ar pelo nariz. — Isso deveria me preocupar? — Considerando o histórico dele, talvez. — Matteo sabe muito bem o que está fazendo. Riccardo inclinou a cabeça, sem demonstrar estar convencido. Meu irmão sempre teve dificuldade em aceitar que existiam coisas que não poderia ter. Desde pequeno, cresceu ao meu lado, submetido às mesmas regras, aos mesmos treinamentos e às mesmas expectativas. A diferença era que, enquanto eu havia aceitado meu destino, Matteo sempre pareceu ressentir-se dele. Nosso pai nunca escondeu que eu seria seu sucessor. Desde a infância, fui preparado para assumir a liderança da família, enquanto Matteo tinha mais liberdade para escolher o próprio caminho. Na teoria, isso deveria ter sido uma vantagem. Na prática, meu irmão passou boa parte da vida tentando provar que merecia o mesmo reconhecimento que eu. — Não quero que ele confunda essa aliança com uma oportunidade de fazer o que bem entender — falei. — Vou conversar com ele. — Não. Deixe que aproveite o próprio entusiasmo. Apenas certifique-se de que os negócios estejam protegidos. Riccardo assentiu e finalmente deixou o escritório.Escutei em silêncio, cada detalhe reforçando a impressão de que minha presença naquela mesa era apenas uma formalidade.Quando o café chegou, ele tomou um gole e voltou a me olhar.— Minha família espera conhecê-la melhor.— Já nos conhecemos.— Não dessa maneira. Minha mãe gostaria de recebê-la para jantar. Podemos organizar algo ainda esta semana.— Vou verificar minha agenda.— Valentina.O modo como pronunciou meu nome me fez erguer os olhos.— Não precisa transformar tudo em uma negociação.Quase sorri diante da ironia.— Foi você quem me chamou para conversar sobre um casamento negociado.Matteo não achou graça.— Quero que isso funcione.— Então comece me tratando como alguém que tem o direito de escolher.Ele permaneceu em silêncio, e aproveitei para me levantar.— Preciso ir.Matteo também se levantou.— Espero que tenha entendido o que conversamos.Peguei minha bolsa e ajeitei o vestido.— Entendi perfeitamente.— E?Olhei diretamente para ele.— Ainda não concordei em me ca
Matteo me observou por alguns segundos.— Podemos construir uma relação depois do casamento.— E até lá?— Até lá, precisamos fazer o que é necessário.Desviei o olhar para a janela. Do lado de fora, algumas pessoas atravessavam a rua, apressadas para chegar a seus destinos. Por um momento, invejei a simplicidade daquela rotina.— Eu não aceitei me casar com você — falei.A expressão de Matteo mudou.— Seu pai me garantiu que você compreendia a importância do acordo.— Compreender não é aceitar.Ele apoiou as mãos na mesa, aproximando-se um pouco.— Valentina, não estou aqui para discutir a origem das palavras.— Então seja claro.— O casamento acontecerá dentro de três meses. As famílias já começaram a organizar tudo.Senti meu peito apertar.— Sem a minha confirmação?— Seu pai está cuidando dos preparativos.— Meu pai não vai subir ao altar no meu lugar.Matteo respirou fundo, claramente perdendo a paciência.— Você está tornando tudo mais difícil do que precisa ser.— E você está
O relógio sobre a mesa marcava pouco mais de seis da tarde quando meu celular vibrou.Matteo Moretti.Fiquei alguns segundos encarando o nome na tela antes de atender.— Matteo.— Valentina. Precisamos conversar.A voz dele era firme, sem qualquer vestígio de cordialidade.— Meu pai disse que você gostaria de falar comigo.— Prefiro que seja pessoalmente.Olhei pela janela do meu escritório. O céu começava a adquirir tons alaranjados, e o movimento dos carros se acumulava nas ruas.— Sobre o quê?— Sobre o nosso casamento.A palavra provocou uma sensação desagradável no meu estômago.— Estou ocupada.— Não vai demorar.Fechei os olhos por um instante, respirando fundo.— Onde?— Estou no restaurante do hotel Bellini. Podemos conversar aqui.A escolha do lugar não me passou despercebida. Um dos nossos hotéis, um ambiente onde eu conhecia os funcionários e onde Matteo, teoricamente, não teria qualquer vantagem sobre mim.— Estarei aí em vinte minutos.Encerrei a ligação antes que ele pu
Por alguns segundos, não respondi. A confiança não era algo que eu distribuía para aliviar o orgulho de alguém. Era construída, testada e, quando necessário, retirada.— Não confundo confiança com negligência — falei. — E não vou deixar de proteger esta família porque você se sente ofendido.— Esta família também é minha.— Nunca disse o contrário.Matteo apertou os lábios, como se procurasse uma resposta que pudesse me atingir. Quando finalmente falou, sua voz estava mais baixa.— Você sempre precisa ter a última palavra.— Quando a conversa envolve a segurança dos Moretti, sim.Ele soltou uma risada amarga e pegou o paletó que havia deixado sobre a poltrona.— Um dia, Alessandro, você vai perceber que não pode controlar tudo.— Nunca precisei controlar tudo. Apenas o que pode nos destruir.Matteo parou junto à porta.— Não se preocupe com os Bellini. Cuide dos seus próprios assuntos.— É exatamente o que estou fazendo.Ele saiu, fechando a porta com força suficiente para deixar clar
O silêncio no escritório era interrompido apenas pelo movimento das páginas que Riccardo folheava diante de mim.Havia documentos espalhados sobre a mesa, relatórios financeiros, registros de empresas e uma pasta com informações preliminares sobre os Bellini. Nada que justificasse, por enquanto, a preocupação que minha mãe havia demonstrado.Mas eu aprendera há muito tempo que as famílias não escondiam informações sem um motivo.— Os negócios dos Bellini parecem sólidos — Riccardo comentou, fechando uma das pastas. — Pelo menos, aqueles que estão à vista.Ergui os olhos.— E os que não estão?— Ainda estamos verificando. Existem movimentações que não fazem muito sentido, mas preciso de mais tempo antes de afirmar qualquer coisa.Recostei-me na cadeira, observando-o.— Continue procurando.Riccardo assentiu e empurrou outra pasta na minha direção.— Há mais uma coisa. Matteo pediu para falar com você.Soltei uma respiração curta.— Ele sabe onde me encontrar.— Disse que é importante.
Aquele silêncio começou a me incomodar de verdade.— Pai, o que está acontecendo?Ele voltou para a mesa.— Nada que você precise resolver.— Eu sou a herdeira desta família. Se existe alguma coisa que ameaça os Bellini, eu preciso saber.— Você saberá o que for necessário.Apertei os lábios.Eu odiava aquela resposta.Era a mesma que recebia quando era adolescente e fazia perguntas sobre os negócios da família que meu pai não queria explicar.A diferença era que, naquela época, eu ainda acreditava que ele sempre sabia o que estava fazendo.— Quando vou conhecer os termos definitivos do acordo? — perguntei.— Matteo virá jantar conosco no próximo fim de semana. Vocês terão oportunidade de conversar.— Que gentil da parte dele.Meu pai ignorou o sarcasmo.— Espero que seja cordial.— Sou sempre cordial.Ele ergueu uma sobrancelha.— Valentina.— O quê? Eu sou.— Não confunda sinceridade com falta de educação.Sorri.— Nunca confundo.Levantei-me.— Posso voltar ao trabalho?Vittorio as







