LOGINEduardo
O salão principal do Hotel Imperial brilhava como uma joia recém-lapidada. Flashes das câmeras, jornalistas e influenciadores disputavam cada detalhe do lançamento da nova marca de roupas voltada para o público jovem do Grupo Braga. Eduardo mantinha o sorriso treinado, cumprimentava investidores, posava para fotos ocasionais e discursava com a firmeza de quem sabia controlar qualquer ambiente.
Ele ainda sentia o peso da pequena caixa de veludo no bolso interno do paletó. O colar de safiras, devolvido por Vivian, ardia contra o peito como um lembrete incômodo.
O evento, no entanto, foi um triunfo. A imprensa aplaudia a ousadia da nova coleção, os acionistas sorriam satisfeitos, e até os ministros presentes elogiavam o arrojo da marca. Eduardo fez o que sempre soube fazer: projetar poder, mesmo com a tempestade se formando por dentro.
Quando desceu do palco após o discurso, Lucas se aproximou discretamente. Diferente dos outros, não trazia no rosto apenas a euforia da ocasião.
- Eduardo, precisamos conversar - disse em voz baixa, segurando-o pelo braço e afastando-o da multidão. - Onde está a Vivian?
Eduardo desviou o olhar, irritado com a pergunta. - Ela teve um imprevisto.
Lucas suspirou, descrente. Havia muito tempo tentando abrir os olhos do amigo. - Você sabe que ela odeia ver você com a Elisa… e a imprensa não fala de outra coisa. Não pensou em como ela pode se sentir com os rumores?
Eduardo estreitou os olhos. - Rumores não me preocupam.
- Mas deviam. - O tom de Lucas ficou mais grave. - Vivian não é como as outras mulheres que você já conheceu. Ela te ama de verdade, Eduardo. Se continuar forçando essa corda, ela vai se romper. E, quando isso acontecer, você não vai conseguir amarrar de volta.
- Cuida da sua vida, que com a minha mulher eu me acerto! - Eduardo riu com escárnio. Desde a faculdade já percebeu que Lucas nutria sentimentos por Vivian. Normalmente, isso não o incomodava. Mas, naquela noite, a provocação ardeu como sal na ferida.
O murmúrio de vozes abriu espaço para o velho patriarca do Grupo Braga. Gilbert Braga, avô de Eduardo e presidente do conselho, avançava com a bengala, o olhar afiado apesar da idade.
- Belo discurso, garoto - disse, com ironia cortante. - Mas um detalhe me desagradou profundamente.
Eduardo sustentou o olhar, já prevendo o ataque. - A que detalhe se refere, avô?
- Aquela atriz vulgar. - Gilbert cuspiu a palavra como se fosse veneno. - Como ousou trazê-la para um evento da família? Isto é um lançamento do Grupo Braga, não a estreia de um cinema barato.
Alguns acionistas próximos fingiram não ouvir, mas a tensão era palpável.
- A presença dela é marketing. O senhor não sabe como a imagem de uma celebridade como ela pode alavancar as vendas com o público jovem - disse Eduardo, tentando manter o tom controlado.
- Não admito esse tipo de gente misturada à nossa imagem. - Gilbert inclinou-se levemente sobre a bengala. - Onde está sua esposa? Nunca vi aquela secretária faltar a um evento.
Eduardo sentiu o golpe no estômago. Forçou um sorriso que não alcançou os olhos. - Vivian teve um contratempo.
- Pois trate de resolver, rapaz - retrucou o avô, já se afastando e deixando no ar a crítica que feria mais do que qualquer tapa.
Quando finalmente se sentou à mesa de honra para o jantar, os amigos já o aguardavam. Gustavo ergueu a taça em um brinde animado, mas logo lançou a pergunta que pairava entre todos:
- E a Vivian? O que foi que aconteceu?
Lucas baixou o olhar, visivelmente desconfortável. Christopher parecia ansioso, aguardando a confissão. Eduardo engoliu a resposta, tentando manter a máscara de controle.
- Teve um imprevisto.
Instintivamente, pegou o celular. Mensagens não lidas piscavam na tela. Muitas, mas nenhuma da pessoa que ele realmente queria ouvir.
Foi então que um garçom se aproximou, educado, curvando-se discretamente:
- Senhor Braga, podemos servir o bolo?
A pergunta simples soou como uma lâmina. O bolo. O aniversário de Vivian.
Eduardo respirou fundo, apoiou os cotovelos na mesa e, por um instante, não respondeu. O silêncio desconfortável pesou até que ele se levantou de súbito, a cadeira arrastando contra o piso com estrondo.
- Cancelado. - A palavra saiu curta, gelada.
Deixou a mesa sem olhar para trás, ignorando os flashes, os amigos e os cochichos imediatos. A cada passo, a farsa da noite parecia desmoronar.
Ele não sabia exatamente por que precisava desesperadamente encontrar Vivian. Talvez fosse raiva por ela ter estragado seus planos; talvez fosse algo mais profundo, uma mistura de frustração e o inesperado sentimento de perda. A mulher que nunca lhe negara nenhum pedido agora o deixava para trás.
- Você o quê?Clara largou a caneta em cima da mesa como se tivesse queimado a mão.- Assistente especial - repetiu Marina, com um sorriso que tentava ser humilde mas saía triunfante. - Do próprio gerente geral.- Não é possível.- É possível, sim. Acabou de acontecer.Clara a encarou por um longo segundo, os olhos estreitados.- Como assim? Você não sabe nem servir água! Por que diabos ele te deu um cargo desses?Marina encolheu os ombros, afetando inocência.- Sei lá. Talvez ele tenha reconhecido meu talento.- Seu talento para o quê? Para bater em paredes?- Para organização. Para eficiência. Para... - Marina fez uma pausa dramática - ...coisas que você não entende.Clara deu um passo à frente, a indignação estampada no rosto.- Você só está trabalhando aqui por minha causa, sua ingrata!- E eu sou muito grata, viu? - Marina colocou a mão no peito, fingindo comoção. - Mas, olha, você trabalha aqui há anos e continua sendo secretária. Eu acabei de chegar e já fui promovida a assiste
Marina estava parada em frente à porta do escritório de Gustavo há pelo menos um minuto.Talvez dois.Talvez cinco.O coração batia tão forte que ela jurava que dava para ouvir do lado de fora. A mão, suspensa no ar, hesitava entre bater e fugir correndo de volta para o banheiro.Ele me chamou. Ele quer falar comigo. Ele vai me demitir. No primeiro dia. Vai me demitir porque eu bati numa parede de vidro na frente de todo mundo.Ela respirou fundo. Três vezes. Quatro.Bateu.- Entre - a voz veio seca, direta.Marina empurrou a porta e entrou.O escritório era amplo, iluminado por uma janela que ocupava a parede inteira. A vista lá de cima era impressionante, todo o complexo da Essência se estendia lá embaixo, os jardins bem cuidados, os caminhões de entrega, os funcionários minúsculos como formigas.Mas Marina não conseguia apreciar a paisagem.Seus olhos estavam fixos nele.Gustavo estava sentado atrás da mesa, o terno escuro impecável, os cabelos castanhos meticulosamente penteados.
Gustavo voltou para o escritório com a mente ainda girando em alta velocidade. Os relatórios, os prazos, o sistema fora do ar, o espião, as campanhas perdidas, as fórmulas roubadas, tudo se misturava em uma névoa densa que parecia apertar cada vez mais seus pensamentos como um torniquete em sua têmpora.A dor de cabeça, sua companheira constante, latejava ali, insistente, como se quisesse lembrá-lo do peso que ele carregava.Ele nem bem sentou na cadeira quando a porta se abriu novamente.Henrique entrou sem bater, como sempre fazia. O sorriso habitual estava ausente. No lugar, uma expressão de irritação mal contida, os lábios apertados, as sobrancelhas franzidas.- Você está pressionando demais os funcionários - disse Henrique, fechando a porta atrás de si com um clique seco. - Esse clima de caça às bruxas não é nada bom. As pessoas estão nervosas. Com medo. Isso afeta a produtividade.Gustavo não se deu ao trabalho de se levantar. Permaneceu na cadeira, os olhos fixos no irmão, aval
O banheiro corporativo da Essência Cosméticos era tão extravagante quanto o resto da empresa, mármore branco, iluminação indireta, torneiras de acabamento fosco. Mas Marina não estava em condições de apreciar o design de interiores.Estava encolhida perto do secador de mãos, tentando desesperadamente secar a jaqueta jeans encharcada.O barulho era ensurdecedor. O ar quente fazia seus cabelos voarem em todas as direções. E a água - a maldita água - parecia se multiplicar a cada segundo que passava.- Você é a pessoa mais desastrada do mundo - Clara disse, encostada na parede de mármore, os braços cruzados. - Primeiro dia de trabalho, e já se meteu em uma cena dessas.- Não foi minha culpa, foi só um pequeno acidente - Marina gemeu, ainda esfregando a jaqueta sob o jato de ar quente.- Não foi sua culpa? Você andou em linha reta em direção a uma parede de vidro!- Eu não vi o vidro!- É tudo transparente! O que você queria ver? Uma placa piscando "cuidado, parede"?Marina calou-se, porq
A sala inteira ria.Gustavo sentiu a irritação subir pela nuca como uma brasa acesa. Não sabia por que, mas vê aquela garota no chão... sua vontade era correr até ela para consolá-la.- Chega - disse ele. A voz não foi alta, mas cortou o ar como uma lâmina.O riso morreu instantaneamente.- Alguém vai ajudar aquela tonta, ou vamos ficar aqui rindo igual crianças no recreio? - Olhando para ela seu pensamento era: Como alguém conseguiu chegar à idade adulta se colocando em perigo a cada dia?Os funcionários se entreolharam, envergonhados. Ninguém se moveu imediatamente.No corredor surgiram os que faltavam para a reunião. Henrique apareceu acompanhado de Clara, que carregava uma pasta de couro, e que a soltou assim que viu a irmã no chão.- O que aconteceu aqui? - Henrique perguntou, ajudando Clara a levantar Marina.A expressão de horror no rosto de Marina foi rapidamente substituída por um misto de alívio e vergonha.- Marina! - Clara a puxou pelo braço, erguendo-a do chão. - O que vo
Gustavo voltou ao próprio escritório, com a mente a mil.O filho da amante tentando sentar na cadeira do herdeiro legítimo.As palavras de Henrique ainda ecoavam em sua mente, não porque doíam - a dor já era antiga, amortecida pelo tempo - mas porque provavam o que ele já sabia: o irmão não mudaria. Nunca mudaria. A empresa poderia pegar fogo, e Henrique estaria mais preocupado em proteger seu trono do que em apagar as chamas.Gustavo caminhou até a mesa. A vista da janela era privilegiada - todo o complexo da Essência se estendia abaixo, os caminhões de entrega entrando e saindo, os funcionários caminhando pelos jardins bem cuidados. Uma máquina bem azeitada. Pelo menos por fora.- Entre - ele disse, sem se virar, ao som da batida na porta.O Engenheiro de Segurança entrou, trazendo um tablet e uma expressão que Gustavo já conhecia bem: a de quem está prestes a entregar más notícias.- Sr. Gustavo, tenho o relatório que o senhor pediu.- E? - Gustavo se virou, encostando-se na borda







