Sofia acordou sem saber onde estava.
Durante alguns segundos, permaneceu imóvel, olhando para o teto desconhecido.
O quarto era grande demais.
Silencioso demais.
Elegante demais.
Então as lembranças voltaram.
O vestido.
A igreja.
O beijo.
Rafael.
Ela fechou os olhos.
Meu Deus.
Ela tinha se casado.
Não apenas se casado.
Tinha se casado com um homem que acreditava estar levando Beatriz Alencar para casa.
Sofia virou o rosto lentamente sobre o travesseiro.
A cama era enorme.
E estava vazia.
Ela soltou o ar que nem sabia estar prendendo.
Por algum motivo, a ausência dele provocou duas sensações completamente diferentes.
Alívio.
E uma pequena decepção.
Sofia imediatamente se irritou consigo mesma.
Não deveria sentir falta de Rafael.
Não depois de apenas algumas horas.
Não quando cada segundo ao lado daquele homem aumentava o risco de sua mentira ser descoberta.
Ela se sentou.
A camisola que alguém havia deixado sobre a poltrona era de seda clara e fina demais para que se sentisse confortável usando aquilo.
Olhou para o próprio corpo.
Depois para a porta.
Rafael poderia entrar a qualquer momento.
O pensamento fez seu coração acelerar.
Ela levantou-se rapidamente e caminhou até o banheiro.
Precisava de água.
Precisava pensar.
Precisava lembrar quem era.
Sofia.
Não Beatriz.
Sofia.
Repetiu o nome mentalmente enquanto lavava o rosto.
Quando ergueu a cabeça, encontrou o próprio reflexo no espelho.
Os cabelos ruivos estavam soltos sobre os ombros.
A maquiagem do casamento havia desaparecido parcialmente.
Os olhos cor de mel pareciam maiores sem o delineador.
Aquela mulher não parecia com a noiva das fotografias.
Não parecia com Beatriz.
Pela primeira vez naquela noite, Sofia percebeu o tamanho do risco que correra.
Rafael havia passado poucas horas ao lado dela.
Ainda assim, já havia percebido que alguma coisa estava diferente.
Ele havia dito.
Você está diferente.
Sofia apoiou as mãos sobre a pia.
— Preciso ter cuidado.
A porta do banheiro se abriu.
Ela congelou.
Rafael estava encostado no batente.
Sofia não o ouvira entrar.
Ele já havia trocado de roupa.
Vestia uma calça escura e uma camisa branca com as mangas dobradas até os antebraços. Os primeiros botões estavam abertos.
A imagem era completamente diferente daquela do homem impecável que ela conhecera no altar.
E, de alguma maneira, muito mais perigosa.
Os olhos cinzentos percorreram seu rosto.
Depois seus cabelos.
Depois voltaram aos seus olhos.
— Você fala sozinha?
Sofia sentiu o rosto aquecer.
— Às vezes.
— Percebi.
Ela tentou sorrir.
— Há quanto tempo está aí?
— O suficiente.
Rafael entrou no banheiro.
Sofia deu um pequeno passo para trás.
Não queria demonstrar nervosismo.
Mas ele parecia perceber cada reação sua.
— Dormiu bem?
— Sim.
— Mentira.
Ela franziu a testa.
— Como sabe?
Rafael se aproximou.
— Porque você acordou assustada.
Sofia ficou em silêncio.
Ele parou diante dela.
Não tão perto quanto na noite anterior.
Mas perto o suficiente.
— Esta casa não é uma prisão — disse.
— Eu sei.
— Então por que parece que está procurando uma saída?
A pergunta acertou em cheio.
Sofia desviou os olhos.
— Eu ainda estou me acostumando.
Rafael inclinou a cabeça.
— Comigo?
Ela respirou fundo.
— Com tudo.
Ele permaneceu observando-a.
Depois estendeu a mão e afastou delicadamente uma mecha de seus cabelos.
O toque foi inesperadamente suave.
Sofia ficou imóvel.
— Você mudou o cabelo? — perguntou ele.
Seu coração falhou uma batida.
— O quê?
— Está diferente.
Ela levou a mão aos fios.
— Eu costumo usar assim.
Rafael continuou olhando.
— Interessante.
Sofia tentou rir.
— O que há de interessante?
— Ontem você parecia querer desaparecer atrás daquele véu.
Ele aproximou o rosto.
— Hoje parece outra mulher.
Sofia não conseguiu responder.
Rafael passou o polegar suavemente pela lateral de seu rosto.
A respiração dela ficou presa.
— E eu ainda não decidi se gosto mais de uma ou de outra.
O calor subiu pelo pescoço de Sofia.
Ela sabia que deveria se afastar.
Sabia que aquele toque era perigoso.
Mas não se moveu.
Rafael percebeu.
O olhar dele desceu lentamente até seus lábios.
Por um instante, Sofia teve certeza de que ele a beijaria.
E, para sua própria surpresa, desejou que beijasse.
Então ele recuou.
— Vista-se.
Ela piscou.
— Por quê?
— Vamos tomar café.
— Só isso?
O canto da boca dele se curvou.
— Você esperava outra coisa?
Sofia sentiu o rosto queimar.
— Não.
— Ótimo.
Ele saiu.
Sofia permaneceu imóvel.
Então fechou os olhos.
— Idiota.
Não sabia se estava falando dele.
Ou dela mesma.
⸻
O café da manhã foi servido em uma sala cercada por janelas.
A luz da manhã entrava pelos vidros e iluminava a mesa comprida, cuidadosamente organizada.
Sofia sentou-se em uma das extremidades.
Rafael ocupou a cadeira ao lado.
Não à frente.
Ao lado.
A proximidade fez com que ela se sentisse estranhamente consciente dele.
— Você sempre toma café assim? — perguntou.
— Assim como?
— Cercado por funcionários.
Rafael olhou ao redor.
— Eles não ficam aqui.
— Mas estavam aqui.
— Porque é nossa primeira manhã.
Nossa.
Sofia abaixou os olhos.
— Entendi.
Rafael colocou café na própria xícara.
— Você gosta?
— De quê?
— De café.
— Sim.
— Preto?
— Com pouco açúcar.
Ele fez um gesto para o funcionário.
Pouco depois, a xícara dela foi colocada diante de si exatamente como havia pedido.
Sofia ficou olhando.
— Você prestou atenção.
— Eu costumo prestar.
Ela sorriu discretamente.
— Em tudo?
Rafael levantou os olhos.
— Principalmente nas pessoas que me interessam.
O sorriso desapareceu do rosto dela.
Rafael continuou tomando café como se não tivesse acabado de dizer nada.
Sofia sentiu o coração acelerar.
Ele estava flertando com ela?
Não.
Talvez fosse apenas o jeito dele.
Ou talvez…
Ela não queria pensar.
Pegou a xícara.
— Sua família sabe que estamos aqui?
— Minha mãe virá amanhã.
Sofia quase engasgou.
— Sua mãe?
— Sim.
— Por quê?
— Para conhecer minha esposa.
Sofia sentiu o sangue desaparecer do rosto.
A mãe de Rafael.
Uma mulher que conhecia Beatriz.
Que poderia perceber qualquer diferença.
Rafael a observou.
— Você ficou pálida.
— Estou cansada.
— De novo?
— O casamento foi ontem.
— Eu sei.
Ele se inclinou ligeiramente.
— E parece que você está mais preocupada com o que vem depois do que com o casamento que acabou de acontecer.
Sofia segurou a xícara com força.
— Talvez eu esteja.
— Por quê?
Ela olhou para ele.
Por um instante, pensou em contar.
Pensou em acabar com tudo.
Dizer a verdade.
Explicar que Beatriz havia fugido.
Que ela não era a mulher com quem ele pensava ter se casado.
Mas então imaginou a família.
Os contratos.
A reação dele.
E principalmente aquele olhar.
Ela não queria perdê-lo.
A constatação foi tão inesperada que Sofia ficou assustada.
— Eu preciso de tempo — respondeu.
Rafael ficou em silêncio.
Depois assentiu.
— Você terá.
⸻
Depois do café, Rafael mostrou a casa.
Sofia caminhava ao lado dele enquanto tentava memorizar os corredores.
A biblioteca ocupava quase todo um dos lados da mansão.
Ela parou imediatamente.
Centenas de livros preenchiam estantes de madeira escura.
Rafael percebeu seu interesse.
— Você gosta de ler?
Os olhos dela percorreram as prateleiras.
— Muito.
— Que tipo?
— Romance.
Ele sorriu.
— Não esperava.
— Por quê?
— Você parece mais séria.
Sofia riu.
— Talvez você não me conheça.
Rafael ficou parado.
— Talvez não.
Aquela resposta pareceu simples.
Mas havia alguma coisa por trás dela.
Ele continuou:
— Esse é o problema.
Sofia virou-se.
— Que problema?
— Casei com uma mulher que ainda não conheço.
Ela sentiu o coração acelerar.
Rafael aproximou-se.
— E quero conhecê-la.
Sofia não conseguiu desviar.
— Você pode se arrepender.
— Talvez.
Ele ficou diante dela.
— Mas prefiro descobrir sozinho.
A mão dele tocou sua cintura.
Sofia sentiu o corpo reagir imediatamente.
O toque não era invasivo.
Era apenas firme.
Quente.
Seguro.
Rafael baixou o rosto.
— Você fica nervosa quando eu chego perto.
— Não fico.
— Fica.
— Talvez seja você.
O sorriso dele apareceu.
Dessa vez, inteiro.
E Sofia percebeu que nunca tinha visto Rafael sorrir daquela maneira.
— Finalmente.
— Finalmente o quê?
— Você admitiu.
Ela percebeu o que havia feito.
— Eu não admiti nada.
Rafael riu baixo.
Aquele som fez algo estranho dentro dela.
Ele se aproximou.
Sofia levantou o rosto.
Os dois ficaram a poucos centímetros.
O coração dela batia tão forte que parecia impossível que ele não ouvisse.
Rafael tocou seu queixo.
— Posso?
Sofia sabia exatamente o que ele estava perguntando.
E aquilo tornou tudo ainda mais intenso.
Ela assentiu.
O beijo começou devagar.
Sem pressa.
Sem a formalidade do altar.
Dessa vez, não havia convidados.
Não havia câmeras.
Não havia padre.
Não havia ninguém para observar.
Apenas os dois.
Os lábios de Rafael tocaram os dela com cuidado, como se estivesse descobrindo algo.
Sofia fechou os olhos.
A mão dele permaneceu em sua cintura.
Ela segurou discretamente a camisa dele.
Quando Rafael aprofundou o beijo, Sofia sentiu uma onda de calor atravessar seu corpo.
Por alguns segundos, esqueceu completamente a mentira.
Esqueceu Beatriz.
Esqueceu seus pais.
Esqueceu o casamento.
Havia apenas Rafael.
Quando se afastou, ele permaneceu próximo.
A testa quase encostada à dela.
Parecia confuso.
Curioso.
Perigosamente interessado.
— Você está diferente — murmurou.
Sofia tentou sorrir.
— Talvez eu tenha mudado.
Rafael acariciou sua cintura.
— Talvez.
Mas seus olhos diziam que ele não acreditava completamente.
⸻
Naquela noite, Sofia ficou sozinha no quarto.
Sentou-se diante do espelho e tirou lentamente os brincos.
A casa estava silenciosa.
O casamento havia terminado.
A lua iluminava parte da janela.
Ela tocou os próprios lábios.
Ainda conseguia sentir Rafael.
O beijo.
O toque.
A maneira como ele a olhava.
Ela deveria estar arrependida.
Deveria estar aterrorizada.
Mas o sentimento que mais a perturbava era outro.
Queria mais.
Queria conhecer aquele homem.
Queria descobrir como seria quando ele deixasse de controlar cada gesto.
Queria saber como seria acordar ao lado dele sem precisar fingir.
E esse último pensamento foi o mais doloroso.
Porque jamais poderia acontecer enquanto ela continuasse mentindo.
Sofia se levantou.
Caminhou até a janela.
Lá fora, São Paulo brilhava ao longe.
Ela pensou em Beatriz.
Onde quer que estivesse, sua irmã havia deixado aquela confusão para trás.
Sofia era quem teria de enfrentar Rafael.
E quanto mais tempo passava ao lado dele, mais difícil parecia imaginar o momento em que precisaria dizer a verdade.
O celular vibrou.
Ela olhou.
Uma mensagem de um número desconhecido.
Seu coração acelerou.
“Ele ainda não descobriu?”
Sofia ficou imóvel.
Outra mensagem apareceu.
“Você precisa ter cuidado.”
Ela não respondeu.
Uma terceira mensagem chegou.
“Rafael Vasconcelos não é o único homem que está procurando por Beatriz.”
Sofia sentiu um arrepio.
Leu novamente.
Depois outra vez.
Quem havia enviado aquilo?
E como sabia que ela estava no lugar de Beatriz?
Antes que pudesse pensar em uma resposta, ouviu passos no corredor.
Rafael.
Ela rapidamente bloqueou o telefone.
A maçaneta se moveu.
A porta abriu.
Ele entrou.
E, naquele instante, Sofia percebeu que seu maior problema já não era apenas esconder a identidade.
Era que, quanto mais Rafael se aproximava, mais ela começava a desejar que ele conhecesse a verdadeira mulher por trás do rosto de Beatriz.
Mesmo que essa verdade pudesse destruir tudo.
Rafael parou diante dela.
— Está tudo bem?
Sofia guardou o telefone atrás das costas.
— Está.
Ele a observou.
— Tem certeza?
Ela assentiu.
Rafael se aproximou.
Parou diante dela.
E, antes de beijá-la novamente, murmurou:
— Então por que você está mentindo para mim?
Sofia perdeu o ar.
O beijo não aconteceu.
Rafael apenas continuou olhando para ela.
E, naquele momento, Sofia entendeu que a mentira que deveria durar apenas alguns dias talvez já estivesse começando a escapar de suas mãos.
Porque Rafael ainda não sabia quem ela era.
Mas já havia começado a desconfiar.