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O Homem Que Estava Me Observando

Autor: Rena Belle
last update Data de publicação: 2026-09-02 06:27:53

Sofia percebeu que havia cometido um erro no instante em que Rafael segurou sua mão.

Não porque tivesse aceitado se casar com ele.

Esse erro já estava cometido.

O problema era o que acontecia dentro dela quando aquele homem a tocava.

Os dedos de Rafael envolveram os seus com firmeza enquanto os convidados se levantavam e começavam a aplaudir. Sofia tentou sorrir, mas a sensação que percorria seu corpo não tinha absolutamente nada a ver com felicidade.

Era calor.

Um calor lento, inesperado, que começava exatamente onde os dedos dele tocavam sua pele e parecia subir pelo braço.

Ela desviou os olhos.

— Você está tremendo.

A voz dele chegou baixa, apenas para ela.

Sofia voltou a encará-lo.

Rafael continuava sorrindo para os convidados, como se nada tivesse acontecido.

— Estou nervosa.

Ele finalmente virou o rosto.

Os olhos cinzentos encontraram os dela.

— Eu percebi.

Havia alguma coisa naquela resposta.

Uma segurança tranquila.

Quase provocante.

Sofia tentou puxar a mão, mas Rafael não soltou imediatamente. Seus dedos permaneceram sobre os dela por mais alguns segundos antes de finalmente afrouxarem.

Foi um gesto simples.

Mas Sofia sentiu falta do contato assim que desapareceu.

Aquilo a assustou mais do que deveria.

Ela tinha acabado de se casar com um desconhecido.

Um homem que acreditava estar se casando com sua irmã.

Um homem que provavelmente descobriria a verdade assim que passasse tempo suficiente ao lado dela.

E, ainda assim, seu corpo parecia ter esquecido todas aquelas razões.

Rafael se inclinou discretamente.

— Não precisa ter medo de mim.

Sofia sentiu o coração bater mais forte.

Ele havia percebido.

Talvez não a mentira.

Mas o medo.

— Eu não tenho medo de você.

O canto da boca dele se levantou.

— Ainda não.

Sofia ficou sem resposta.

Antes que pudesse perguntar o que aquilo significava, Rafael ofereceu o braço.

— Vamos.

Ela olhou para o braço dele.

Depois para seu rosto.

— Para onde?

— Para a recepção.

— Claro.

Sofia segurou o braço do marido.

A palavra ainda parecia estranha.

Marido.

Ela tentou caminhar normalmente, mas estava consciente de cada movimento dele ao seu lado. Do perfume amadeirado. Da largura de seus ombros. Da maneira como Rafael cumprimentava os convidados sem perder a atenção sobre ela.

Havia alguma coisa desconcertante naquele homem.

Ele parecia controlar tudo ao redor.

As pessoas abriam espaço para ele.

Os funcionários se apressavam quando ele fazia um simples gesto.

Os convidados sorriam antes mesmo que ele dissesse qualquer coisa.

E, ainda assim, quando Rafael olhava para Sofia, era como se todo o resto deixasse de importar.

Ela não estava acostumada a ser observada.

Muito menos daquela maneira.

A recepção aconteceu no salão principal da propriedade.

Luzes douradas refletiam nos cristais dos lustres, mesas cobertas por toalhas brancas ocupavam o espaço e arranjos de flores decoravam cada canto. Música suave preenchia o ambiente enquanto garçons circulavam oferecendo taças de champanhe.

Sofia reconhecia poucas pessoas.

E todas pareciam conhecê-la.

Ou, pelo menos, acreditavam conhecer Beatriz.

Ela sorriu quando alguém se aproximava.

Agradeceu os cumprimentos.

Aceitou abraços.

Ouviu comentários sobre como estavam felizes por finalmente verem o casal junto.

Mas a cada nova pessoa que dizia o nome de Beatriz, uma pequena parte dela se contraía.

Até que uma mulher mais velha segurou suas mãos.

— Minha querida, você está exatamente como imaginei.

Sofia sorriu sem saber o que responder.

— Obrigada.

A mulher olhou para Rafael.

— Cuide bem dela.

Rafael respondeu sem hesitar:

— Pretendo.

A mulher sorriu e se afastou.

Sofia ficou imóvel.

— Você não precisava dizer isso.

Rafael olhou para ela.

— O quê?

— Que pretende cuidar de mim.

— Por que não?

Ela abriu a boca, mas não encontrou uma resposta.

Porque ninguém nunca havia dito aquilo com tanta naturalidade.

Rafael aproximou-se um pouco.

— Você parece surpresa.

— Não estou acostumada.

— Com o quê?

Sofia hesitou.

— Com pessoas cumprindo o que prometem.

O olhar dele mudou.

Foi apenas um instante.

Mas ela percebeu.

— Beatriz — disse ele lentamente —, você está diferente.

O coração de Sofia parou.

Ela segurou a taça com mais força.

— Diferente como?

Rafael observou seu rosto.

— Mais silenciosa.

Ela tentou rir.

— Talvez eu esteja cansada.

— Talvez.

Ele tomou um gole de sua bebida.

Sofia respirou novamente.

Tinha conseguido.

Por enquanto.

Mas alguma coisa dizia que Rafael não era homem de aceitar respostas fáceis.

Pouco depois, um fotógrafo pediu que os dois posassem.

Sofia ficou ao lado dele.

— Mais perto — pediu o fotógrafo.

Ela hesitou.

Rafael colocou a mão em sua cintura.

O contato foi imediato.

Quente.

Firme.

Sofia sentiu os dedos dele através do tecido do vestido e precisou lutar contra a vontade de se afastar.

Não porque não gostasse.

Esse era exatamente o problema.

Ela gostava.

O corpo de Rafael estava próximo o suficiente para que ela sentisse o calor dele. O perfume masculino se misturava ao cheiro suave das flores e ao próprio perfume que alguém havia escolhido para ela.

— Sorria — pediu o fotógrafo.

Sofia tentou.

Rafael abaixou o rosto discretamente.

— Está tão tensa que parece que vai fugir.

Ela manteve o sorriso.

— Talvez eu queira.

— Não recomendo.

— Por quê?

Ele aproximou os lábios de seu ouvido.

— Porque eu encontraria você.

Um arrepio percorreu sua nuca.

Sofia virou o rosto.

Os dois ficaram próximos demais.

Por um segundo, seus olhos se encontraram.

O sorriso desapareceu do rosto de Rafael.

O dela também.

A câmera disparou.

Uma vez.

Duas.

Três.

Nenhum dos dois se moveu.

Então Rafael se afastou.

— Perfeito — disse o fotógrafo.

Sofia respirou fundo.

Não tinha sido perfeito.

Tinha sido perigoso.

Quando a recepção terminou, Sofia entrou no carro ao lado dele.

Pela primeira vez desde que colocara o vestido, ficaram completamente sozinhos.

Ela olhou pela janela.

As luzes da propriedade ficaram para trás enquanto o carro avançava pela estrada.

— Para onde estamos indo?

— Minha casa.

Sofia virou-se.

— Sua casa?

— Agora é nossa.

Aquelas duas palavras provocaram uma sensação estranha.

Nossa.

Ela não tinha mais uma casa.

Não naquela noite.

Não depois daquele casamento.

— Quanto tempo vai durar essa mentira? — perguntou.

Rafael olhou para ela.

— Que mentira?

Sofia sentiu o sangue gelar.

— O casamento.

Ele continuou olhando.

— Espero que dure.

— Você fala como se fosse fácil.

— Não disse que seria fácil.

O carro entrou em uma estrada cercada por árvores.

Sofia sentiu o nervosismo voltar.

— Rafael.

— Sim?

— Você realmente queria se casar?

Ele demorou alguns segundos para responder.

— Eu aceitei o casamento por razões que não têm nada a ver com romance.

Ela soltou uma pequena risada.

— Isso é reconfortante.

— Mas agora que estou casado, pretendo descobrir se foi uma boa decisão.

Sofia o encarou.

— E como pretende descobrir?

Rafael sustentou seu olhar.

— Conhecendo minha esposa.

A palavra pareceu ficar entre os dois.

Sofia desviou os olhos.

Se ele soubesse.

Se soubesse que a mulher ao seu lado não era Beatriz, talvez nunca mais olhasse para ela daquela maneira.

Talvez a desprezasse.

Talvez a expulsasse.

Talvez destruísse sua família.

Ela apertou as mãos sobre o colo.

— Você acha que conhece a Beatriz?

Rafael ficou alguns segundos em silêncio.

— Não.

Sofia voltou a olhá-lo.

— Não?

— Nós nos conhecemos pouco.

Ela franziu a testa.

— Então por que se casou com ela?

Ele virou o rosto para a janela.

— Porque algumas escolhas são feitas antes que tenhamos a oportunidade de decidir se queremos fazê-las.

Sofia sentiu um aperto no peito.

Aquela resposta parecia familiar demais.

A mansão de Rafael ficava afastada da cidade.

Era enorme, mas não tinha a ostentação que Sofia esperava.

A arquitetura era moderna, elegante, marcada por grandes paredes de vidro, madeira escura e iluminação discreta. O interior parecia silencioso demais para uma casa daquele tamanho.

Assim que entrou, Sofia percebeu que aquele lugar combinava com ele.

Frio.

Organizado.

Controlado.

Bonito de uma maneira quase intimidante.

Rafael tirou o paletó e entregou-o a um funcionário.

Depois olhou para ela.

— Você quer alguma coisa?

— Água.

Ele fez um gesto para que o funcionário trouxesse.

Sofia ficou parada no centro da sala.

O vestido parecia pesado.

O véu incomodava.

E, principalmente, ela estava começando a perceber que não havia mais ninguém entre ela e aquele homem.

Quando o funcionário saiu, Rafael se aproximou.

Sofia não recuou.

Ele parou diante dela.

Perto.

Muito perto.

— Está cansada?

— Um pouco.

— Nervosa?

Ela respirou fundo.

— Muito.

Rafael ergueu uma das mãos.

Sofia ficou imóvel quando ele tocou delicadamente uma mecha de cabelo que havia escapado do penteado.

Seus dedos roçaram sua têmpora.

Depois desceram lentamente até a lateral do rosto.

O toque era suave.

Nada parecido com a imagem fria que Sofia havia criado dele.

Ela fechou os olhos por um instante.

Foi um erro.

Porque, de olhos fechados, percebeu ainda mais claramente a proximidade dele.

O perfume.

O calor.

A respiração.

Quando abriu os olhos, Rafael estava observando-a.

— Você realmente está diferente.

O coração dela disparou.

— Diferente como?

— Não sei ainda.

A resposta não a tranquilizou.

— Talvez você esteja conhecendo uma versão de mim que não conhecia.

— Talvez.

Ele retirou a mão.

Sofia sentiu imediatamente a ausência.

Rafael deu um passo para trás.

— Seu quarto fica no segundo andar.

Ela piscou.

— Meu quarto?

— Sim.

Sofia esperava que ele dissesse que os dois dividiriam o mesmo quarto.

Talvez por isso tenha sentido uma pequena decepção quando ouviu o contrário.

E ficou ainda mais irritada consigo mesma por sentir aquilo.

— Nós não vamos dormir juntos?

A pergunta escapou antes que pudesse impedir.

Rafael levantou uma sobrancelha.

Sofia sentiu o rosto aquecer.

— Eu quis dizer…

— Eu sei o que você quis dizer.

O olhar dele percorreu seu rosto.

Depois desceu por um instante até o decote do vestido.

Foi rápido.

Mas Sofia percebeu.

Quando voltou a encará-la, havia algo diferente em seus olhos.

Uma intensidade silenciosa.

— Você quer que eu durma com você?

Ela engoliu em seco.

— Não foi isso que eu disse.

— Não.

Ele sorriu discretamente.

— Mas foi o que eu ouvi.

Sofia ficou sem saber onde colocar as mãos.

Rafael se aproximou outra vez.

Não a tocou.

Não precisou.

A distância entre os dois já parecia pequena demais.

— Não vou fazer nada que você não queira — disse ele.

A voz era baixa.

Séria.

— Mas não espere que eu não perceba quando você me deseja.

Sofia sentiu o coração disparar.

— Eu não…

Rafael sorriu.

— Não precisa responder.

Ele se afastou.

— Boa noite, Beatriz.

Sofia ficou observando enquanto ele subia as escadas.

Quando desapareceu no corredor, ela soltou o ar que nem percebera estar prendendo.

Então levou os dedos aos próprios lábios.

Ainda conseguia sentir o beijo do altar.

E percebeu, com uma mistura de culpa e desejo, que queria sentir novamente.

No quarto, Sofia fechou a porta.

Encostou as costas nela.

Só então permitiu que o medo voltasse.

A mentira continuava intacta.

Mas estava ficando mais difícil sustentá-la.

Rafael não era o homem que ela imaginara.

Era mais atento.

Mais perigoso.

E muito mais atraente.

Ela caminhou até o espelho e começou a retirar os grampos do cabelo.

Um por um.

Quando o último caiu, seus cabelos ruivos deslizaram pelos ombros.

Sofia encarou o próprio reflexo.

Não parecia Beatriz.

Não mais.

Talvez nunca tivesse parecido.

Ela levou a mão à nuca e tocou a pequena cicatriz que escondia desde a infância.

Foi então que ouviu uma batida na porta.

Seu coração acelerou.

— Quem é?

— Rafael.

Sofia congelou.

— Sim?

— Esqueci de lhe entregar uma coisa.

Ela abriu a porta apenas alguns centímetros.

Rafael estava do outro lado.

Sem o paletó.

Sem a gravata.

A camisa branca tinha os primeiros botões abertos, revelando parte do peito.

Sofia desviou os olhos imediatamente.

Ele percebeu.

Claro que percebeu.

Rafael estendeu uma pequena caixa.

— Para você.

Ela pegou.

— O que é?

— Abra.

Sofia abriu.

Dentro havia um colar delicado, com uma pedra pequena no centro.

Ela ficou surpresa.

— Eu não posso aceitar.

— É seu.

— Você comprou para Beatriz?

Rafael ficou em silêncio.

Depois respondeu:

— Não.

Sofia ergueu os olhos.

— Então para quem?

Ele a encarou.

— Para minha esposa.

O coração dela bateu forte.

Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.

Rafael deu um passo para trás.

— Durma bem.

Sofia fechou a porta lentamente.

Encostou-se nela e abriu novamente a pequena caixa.

Passou o dedo pela joia.

Não sabia por que aquele presente a emocionava tanto.

Talvez porque, pela primeira vez, alguém tivesse escolhido alguma coisa pensando nela.

Mesmo sem saber quem ela realmente era.

Do outro lado da porta, Rafael permaneceu parado por alguns segundos.

E, quando finalmente voltou para o próprio quarto, levou consigo uma certeza que não conseguia explicar.

A mulher que acabara de se casar com ele não estava apenas nervosa.

Havia alguma coisa escondida atrás daqueles olhos.

Alguma coisa que Beatriz jamais tivera.

E Rafael Vasconcelos tinha passado a vida inteira aprendendo a reconhecer mentiras.

Ele ainda não sabia qual era a verdade.

Mas pretendia descobrir.

E, enquanto Sofia se deitava naquela primeira noite como sua esposa, sem imaginar o que o futuro lhe reservava, Rafael tomou uma decisão silenciosa.

Não iria pressioná-la.

Não ainda.

Primeiro, queria descobrir quem era a mulher que havia entrado em sua vida usando o rosto de outra pessoa.

E por que, contra toda a lógica, ele já estava começando a desejar que ela nunca fosse embora.

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