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O Dia Em Que Ele Aprendeu a Não Chorar

Author: Rena Belle
last update publish date: 2026-10-26 22:38:46

Rafael chegou depois das onze.

Eu ainda estava acordada, embora tivesse prometido a mim mesma que não esperaria. A casa permanecia silenciosa, iluminada apenas pelas luzes discretas do corredor e pelo abajur da sala. Eu tentara ler, desenhar e até organizar alguns documentos que não precisavam de organização alguma. Nada conseguira afastar meus pensamentos da conversa com Otília.

Cuide bem dele. Ele nunca teve ninguém que ficasse.

A frase me acompanhara durante todo o dia.

Quando ouvi a chave n
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    Eu sempre imaginei que existissem portas que, uma vez abertas, não pudessem mais ser fechadas.Não me refiro às portas de uma casa, nem àquelas que separam um cômodo do outro. Refiro-me às que as pessoas constroem dentro de si, tijolo por tijolo, até que ninguém consiga enxergar o que existe do outro lado. Durante muito tempo, acreditei que Rafael Vasconcelos fosse feito dessas portas. Um homem de limites bem definidos, respostas calculadas e sentimentos cuidadosamente guardados atrás de uma expressão que raramente denunciava alguma coisa.Na noite anterior, porém, ele me permitira enxergar uma fresta.E, naquela manhã, eu começava a compreender que uma fresta podia ser muito mais perigosa do que uma porta completamente aberta.Rafael ainda dormia quando acordei. Estava deitado de lado, voltado para mim, com uma das mãos repousando sobre o lençol entre nós. A luz pálida que atravessava as cortinas desenhava uma linha delicada sobre seu rosto, suavizando a severidade da mandíbula e as

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    Rafael chegou depois das onze.Eu ainda estava acordada, embora tivesse prometido a mim mesma que não esperaria. A casa permanecia silenciosa, iluminada apenas pelas luzes discretas do corredor e pelo abajur da sala. Eu tentara ler, desenhar e até organizar alguns documentos que não precisavam de organização alguma. Nada conseguira afastar meus pensamentos da conversa com Otília.Cuide bem dele. Ele nunca teve ninguém que ficasse.A frase me acompanhara durante todo o dia.Quando ouvi a chave na fechadura, levantei-me do sofá. Rafael entrou com o paletó sobre o braço e a gravata solta, exibindo no rosto o cansaço de quem passara horas tentando resolver problemas que continuavam existindo mesmo depois de todas as reuniões.Ele parou ao me ver.— Você ainda está acordada?— Eu disse que estaria aqui.Rafael olhou para o relógio.— Eu disse que não precisava esperar.— E eu decidi esperar mesmo assim.Por um instante, algo suavizou sua expressão. Ele deixou o paletó sobre uma poltrona e

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    Otília permaneceu em silêncio por tanto tempo que comecei a ouvir o ruído discreto do relógio sobre a lareira.A fotografia repousava entre seus dedos. Nela, Rafael sorria ao lado dos pais, com uma expressão que eu jamais vira pessoalmente. Não era o sorriso calculado que ele oferecia aos fotógrafos nem aquele meio sorriso irônico que surgia quando eu conseguia provocá-lo. Era uma alegria desarmada, quase infantil, de alguém que ainda acreditava que o mundo era um lugar onde as coisas boas podiam permanecer.Eu queria perguntar o que ela escondera durante tantos anos.Mas havia algo no rosto daquela mulher que me impedia de apressá-la. Otília não parecia estar escolhendo as palavras apenas por receio de revelar um segredo. Parecia estar revivendo uma época da qual nunca conseguira se afastar completamente.— Eu não era parente deles — come&cc

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    Eu ainda estava com o diário de Beatriz aberto sobre a cama quando Otília telefonou.A voz dela soou tranquila, mas havia uma formalidade incomum na maneira como perguntou se eu estaria em casa naquela tarde. Não explicou o motivo da visita, apenas disse que precisava conversar comigo sobre Rafael e que preferia fazê-lo pessoalmente.Aquelas palavras foram suficientes para despertar minha curiosidade.Desde que me casara com Rafael, Otília sempre me tratara com uma mistura de afeto e observação cuidadosa. Havia nela uma elegância que não dependia de roupas caras ou de gestos calculados. Era o tipo de mulher que conseguia perceber uma mudança no ambiente antes mesmo que alguém abrisse a boca para explicar o que estava acontecendo.Eu sabia que ela desconfiava de mim.A marca na minha nuca, que Beatriz não possuía, não passara despercebida. Em mais de uma ocasião, percebera Otília me observando por tempo demais, como se tentasse conciliar a mulher que conhecera no passado com aquela que

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