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A Pergunta Que Eu Não Podia Responder

مؤلف: Rena Belle
last update تاريخ النشر: 2026-09-02 06:28:47

Sofia não conseguiu respirar.

A pergunta de Rafael permaneceu entre os dois, silenciosa e pesada, muito mais perigosa do que qualquer acusação poderia ter sido.

Por que você está mentindo para mim?

Ela sentiu o celular escondido atrás do corpo pesar como uma prova de crime. O número desconhecido continuava gravado na tela apagada, mas naquele instante parecia que Rafael conseguia enxergá-lo através de sua mão.

Ele não se movia.

Apenas a observava.

Sofia conhecia aquele olhar havia pouco mais de um dia, mas já sabia que não era um olhar que pudesse ser facilmente enganado. Rafael tinha uma maneira desconcertante de permanecer em silêncio até que a própria pessoa começasse a revelar aquilo que tentava esconder.

Ela precisava dizer alguma coisa.

Qualquer coisa.

— Eu não estou mentindo.

Rafael inclinou levemente a cabeça.

— Não?

A voz dele estava tranquila.

Tranquila demais.

Sofia engoliu em seco.

— Eu só estou assustada.

Ele deu um passo na direção dela.

— Comigo?

— Com tudo isso.

— O casamento?

— Sim.

Rafael continuou avançando até ficar diante dela.

Sofia precisou erguer o rosto para encará-lo.

— Você sabia exatamente o que estava fazendo quando entrou naquela igreja — disse ele.

Ela sentiu uma pontada de culpa.

— Eu sei.

— Então por que parece que só agora percebeu que está casada comigo?

Sofia desviou os olhos.

Não podia responder.

Porque a verdade era muito mais complicada.

Ela não tinha entrado naquela igreja como Beatriz.

Tinha entrado como uma mulher desesperada tentando salvar a própria família.

Tinha acreditado que seria apenas uma substituição temporária, uma mentira que terminaria assim que encontrassem sua irmã.

Mas então Rafael a beijara.

E ela havia gostado.

Mais do que deveria.

Muito mais.

— Eu preciso de tempo — murmurou.

Rafael ficou em silêncio.

Sofia esperou uma reação.

Uma cobrança.

Uma ameaça.

Qualquer coisa.

Em vez disso, ele ergueu a mão e tocou delicadamente seu rosto.

O gesto inesperado fez seu coração disparar.

— Você pode ter tempo.

Ela finalmente o encarou.

— Mesmo depois de eu ter mentido?

— Eu ainda não sei exatamente sobre o que você mentiu.

Sofia ficou imóvel.

Rafael passou o polegar lentamente pela maçã de seu rosto.

— E isso é o que mais me incomoda.

O toque era suave.

A voz, baixa.

Mas havia uma intensidade escondida em cada palavra.

— Você não confia em mim.

Sofia respirou fundo.

— Não sei se consigo.

— Por quê?

Ela quase respondeu.

Porque você é perigoso.

Porque eu não sei quem você é.

Porque estou usando o lugar da sua esposa.

Porque tenho medo do que vai acontecer quando descobrir.

Mas nenhuma dessas respostas poderia sair de seus lábios.

Então escolheu a única verdade que conseguia oferecer.

— Porque eu não conheço você.

Rafael permaneceu olhando para ela.

Depois sorriu de maneira quase imperceptível.

— Então estamos na mesma situação.

— Como assim?

— Eu também não conheço você.

Sofia sentiu um arrepio.

— Você acha que não conhece sua própria esposa?

Ele aproximou o rosto.

— Não.

A distância entre eles desapareceu quase completamente.

— E quero descobrir.

O coração de Sofia bateu com força.

Rafael não a beijou.

Talvez aquela espera fosse pior.

Seus olhos permaneceram presos aos dela enquanto o polegar deslizava lentamente pela linha de sua mandíbula.

— Você sempre fica assim quando está nervosa?

— Assim como?

— Sem conseguir olhar para mim.

Sofia sustentou o olhar dele por alguns segundos.

— Estou olhando agora.

— Está.

O sorriso dele aumentou.

— Melhor.

Ela deveria se afastar.

Em vez disso, permaneceu exatamente onde estava.

O corpo dela parecia ter desenvolvido uma vontade própria quando Rafael estava próximo.

Era como se cada aproximação dele despertasse uma parte de Sofia que ela passara anos mantendo adormecida.

Rafael percebeu.

Claro que percebeu.

— Se eu estiver perto demais, diga.

Ela respirou fundo.

— E se eu não disser?

Os olhos dele escureceram.

— Então eu vou entender que posso continuar.

A resposta fez o estômago dela se contrair.

Rafael aproximou os lábios.

O beijo foi lento.

Muito diferente daquele que haviam trocado na biblioteca.

Dessa vez, não havia surpresa.

Havia escolha.

Sofia fechou os olhos no instante em que sentiu a boca dele sobre a sua.

A mão de Rafael deslizou até sua cintura e a trouxe para mais perto. O contato fez o corpo dela se aquecer imediatamente.

Ela segurou a camisa dele.

Por alguns segundos, esqueceu completamente o telefone.

A mensagem.

Beatriz.

A mentira.

Tudo.

Só existia aquela proximidade.

O beijo ganhou intensidade aos poucos, sem pressa, como se Rafael estivesse tentando descobrir até onde Sofia permitiria que ele fosse.

Quando se afastou, ela demorou alguns segundos para abrir os olhos.

Ele ainda estava perto.

A respiração de ambos havia mudado.

— Isso também foi diferente — murmurou Rafael.

Sofia tentou recuperar o controle.

— Você está sempre comparando?

— Não.

Ele acariciou sua cintura.

— Estou observando.

— Você observa demais.

— É uma característica minha.

Ela sorriu.

— Deve ser irritante.

— Para algumas pessoas.

— E para mim?

Rafael olhou diretamente para seus lábios.

— Ainda estou decidindo.

Sofia sentiu um sorriso escapar.

Pela primeira vez desde que chegara àquela casa, percebeu que talvez houvesse algo perigoso na maneira como os dois estavam se aproximando.

Não era apenas desejo.

Era curiosidade.

Era aquela vontade insistente de descobrir o outro.

E isso era muito mais difícil de controlar.

⸻

Na manhã seguinte, Sofia acordou antes de Rafael.

Durante alguns segundos, ficou olhando para o teto.

Depois virou o rosto.

Ele estava ali.

Dormindo.

A imagem a surpreendeu.

Rafael parecia diferente quando não estava consciente de si mesmo. O rosto normalmente controlado estava relaxado, os cabelos ligeiramente desalinhados e uma das mãos repousava sobre o travesseiro entre os dois.

Sofia ficou observando-o.

Não deveria.

Sabia disso.

Mesmo assim, não conseguiu evitar.

Havia alguma coisa fascinante naquele homem.

Talvez fosse a segurança.

Talvez fossem os olhos.

Talvez fosse a forma como conseguia ser intimidador e delicado quase ao mesmo tempo.

Ou talvez fosse simplesmente o fato de que, pela primeira vez na vida, alguém olhava para ela como se realmente quisesse conhecê-la.

Sofia levantou devagar.

Não queria acordá-lo.

Quando estava quase chegando à porta, ouviu a voz rouca atrás de si.

— Vai fugir?

Ela parou.

Virou-se.

Rafael ainda estava deitado, os olhos semicerrados.

— Não.

— Então volte.

— Você estava dormindo.

— Estava.

Ele abriu os olhos.

— Agora não estou mais.

Sofia voltou alguns passos.

— Você sempre dá ordens?

— Só quando acho que serão obedecidas.

— Convencido.

— Você voltou.

Ela cruzou os braços.

— Só porque fiquei com pena de você.

Rafael sorriu.

— Claro.

Sofia tentou esconder o próprio sorriso.

Não conseguiu.

Ele estendeu a mão.

— Venha.

Ela hesitou.

Depois aproximou-se.

Rafael segurou sua mão e a puxou delicadamente até que ela se sentasse na beirada da cama.

— Bom dia.

A simplicidade daquelas palavras fez alguma coisa dentro dela.

— Bom dia.

Ele levou a mão dela aos lábios e beijou seus dedos.

Sofia sentiu o rosto aquecer.

— Você faz isso com todas as mulheres?

— Não.

— Tem certeza?

— Absoluta.

Ele soltou sua mão.

— Só tenho uma esposa.

A palavra provocou um aperto estranho no peito dela.

Porque era uma verdade e uma mentira ao mesmo tempo.

Ela era sua esposa.

Mas não era a mulher que ele acreditava ter escolhido.

E, quanto mais gentil Rafael era, mais pesada aquela mentira se tornava.

⸻

Durante o café, Sofia quase não tocou na comida.

A mensagem da noite anterior continuava em sua cabeça.

Ele ainda não descobriu?

Você precisa ter cuidado.

Rafael Vasconcelos não é o único homem que está procurando por Beatriz.

Ela precisava descobrir quem havia enviado aquilo.

Mas não poderia fazer isso com Rafael por perto.

— Você está distraída.

Ela levantou os olhos.

— Estou?

— Desde que sentou.

— Dormi pouco.

Rafael observou-a.

— Algum problema?

Sofia balançou a cabeça.

— Não.

Ele ficou em silêncio.

Ela já começava a reconhecer aquele silêncio.

⸻

Naquela tarde, Rafael saiu para uma reunião.

Sofia esperou alguns minutos depois que o carro desapareceu pelo portão.

Então correu para o quarto.

Pegou o celular.

A mensagem ainda estava lá.

Ela havia pensado em responder durante horas.

Finalmente digitou:

“Quem é você?”

A resposta chegou quase imediatamente.

“Alguém que sabe a verdade.”

Sofia sentiu o coração acelerar.

Digitou:

“Que verdade?”

Dessa vez, demorou.

Um minuto.

Dois.

Então:

“A verdade sobre o casamento.”

Ela ficou imóvel.

Outra mensagem apareceu.

“E sobre o motivo pelo qual Beatriz desapareceu.”

Sofia sentou-se na cama.

A mão começou a tremer.

Então veio a última mensagem.

“Se Rafael descobrir antes de você descobrir quem eu sou, será tarde demais.”

Sofia encarou a tela.

O medo voltou.

Mas, junto dele, veio uma certeza.

Ela não podia continuar apenas reagindo aos acontecimentos.

Precisava descobrir o que Beatriz havia escondido.

Precisava descobrir quem estava ameaçando sua família.

E precisava descobrir por que Rafael parecia saber muito mais do que dizia.

Ela guardou o celular.

Foi até o closet.

Entre as roupas deixadas para ela havia uma pequena bolsa que pertencera a Beatriz.

Sofia não havia prestado atenção nela antes.

Abriu.

Dentro havia maquiagem, documentos, um perfume e alguns papéis.

Nada parecia importante.

Até que encontrou um envelope.

Sem remetente.

Sem nome.

Apenas uma data escrita à mão.

“Depois do casamento.”

Sofia sentiu um arrepio.

Abriu o envelope.

Havia apenas uma fotografia.

Rafael.

Beatriz.

E um terceiro homem ao fundo.

Sofia não o conhecia.

Mas reconheceu imediatamente o lugar onde a fotografia havia sido tirada.

Era a mesma propriedade onde o casamento acontecera.

No verso, havia uma frase.

“Ele não é quem você pensa.”

Sofia ficou olhando para aquelas palavras.

Nesse instante, ouviu o som de um carro entrando na propriedade.

Rafael havia voltado.

Ela rapidamente guardou a fotografia.

Mas, antes que pudesse fechar a bolsa, ouviu passos no corredor.

A porta se abriu.

Rafael apareceu.

Os olhos dele encontraram os dela.

Depois desceram para a bolsa aberta sobre a cama.

— O que você está procurando?

Sofia ficou sem resposta.

Ele entrou no quarto e fechou a porta atrás de si.

— Beatriz.

Foi a primeira vez que ele falou daquela maneira.

Baixo.

Íntimo.

Quase uma advertência.

Ela sentiu o coração disparar.

Rafael aproximou-se.

— Eu fiz uma pergunta.

Sofia segurou a bolsa contra o corpo.

— Algumas respostas podem mudar tudo.

Ele parou diante dela.

— Eu sei.

Os olhos cinzentos permaneceram presos aos seus.

— É exatamente por isso que estou perguntando.

Sofia sentiu a respiração falhar.

Porque, pela primeira vez, teve a sensação de que Rafael não estava apenas desconfiando.

Talvez ele também estivesse escondendo alguma coisa.

E talvez o casamento dos dois tivesse começado com duas mentiras diferentes.

Rafael ergueu a mão e tocou seu rosto.

— Olhe para mim.

Ela obedeceu.

— Seja qual for a verdade — disse ele —, eu quero ouvi-la de você.

Sofia sentiu os olhos arderem.

— E se você não conseguir me perdoar?

Ele ficou em silêncio por alguns segundos.

Então aproximou o rosto do dela.

— Eu decido isso depois.

Os lábios dele tocaram os dela em um beijo breve, mas carregado de uma promessa que a deixou ainda mais confusa.

Quando se afastou, Rafael sussurrou:

— Mas não me faça descobrir sozinho.

Ele saiu do quarto.

Sofia permaneceu imóvel.

A mão ainda estava sobre a própria boca.

Na outra, escondida dentro da bolsa, estava a fotografia que poderia mudar tudo.

E, pela primeira vez, ela entendeu que não estava apenas tentando esconder uma mentira.

Estava entrando no meio de um segredo que havia começado muito antes de ela chegar àquela casa.

Um segredo envolvendo Beatriz.

Rafael.

E um homem que Sofia ainda não conhecia.

E, se a mensagem estivesse certa, talvez o maior perigo não fosse Rafael descobrir quem ela realmente era.

Talvez fosse descobrir por que Beatriz havia fugido dele.

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