MasukMia Collins
Sete semanas.
Esse era o tempo exato que havia se passado desde a noite no The Velvet Room. Quarenta e nove dias desde que eu deixei para trás um quarto silencioso na cobertura de Manhattan, calcei meus sapatos na ponta dos pés e fugi como uma ladra antes que os primeiros raios de sol tocassem o rosto do homem adormecido ao meu lado.
Eu ainda lembrava do calor da pele dele. Da sensação absurda de paz que experimentei nos minutos que antecederam minha fuga. Mas aquilo tinha ficado no passado, trancado em uma gaveta mental que eu me esforçava para não abrir. O que eu não esperava era que o passado cobrasse a conta tão cedo, de maneira tão irrevogável.
No banheiro minúsculo do meu apartamento alugado, minhas mãos tremiam tanto que o pequeno pedaço de plástico quase escorregou entre os meus dedos.
Duas listras vermelhas.
Nítidas. Sem margem para dúvida.
Apoiei as costas contra a porta de madeira desgastada e escorreguei até o chão frio, puxando os joelhos contra o peito. Minha respiração saía curta, entrecortada pelo pânico que subia pela garganta como ácido.
— Não, não, não... — sussurrei para o silêncio do cômodo, cobrindo o rosto com as mãos.
Eu estava grávida.
Grávida de um homem cujo nome eu sequer sabia. Um homem do qual eu guardava apenas a lembrança de um barítono rouco, um par de olhos escuros e a força protetora de braços que me seguraram no escuro.
Um teste de farmácia positivo já seria desesperador o bastante para qualquer jovem recém-formada que tentava entrar no mercado de design de interiores. Mas, na minha realidade, aquilo era uma sentença de morte social. Se a minha família descobrisse...
O som estridente de batidas pesadas na porta da frente cortou a linha dos meus pensamentos. Não eram toques gentis. Era uma pancada autoritária, daquelas que não pedem licença.
— Mia! Abra essa porta agora! — a voz estridente da Helena ecoou pelo corredor do prédio.
Meu coração saltou na boca. Me levantei em um pulo desajeitado, limpei as lágrimas que nem havia percebido que escorriam e joguei o teste dentro do fundo da lixeira do banheiro, cobrindo-o com papel higiênico. Lavei o rosto na pia com água gelada, respirei fundo três vezes e caminhei até a sala, destravando a tranca.
Assim que a porta cedeu alguns centímetros, Helena empurrou a madeira com o ombro e invadiu o espaço sem a menor cerimônia. Ela usava um casaco de pele sintética exagerado e óculos escuros que tirou com um gesto dramático. Logo atrás dela vinha Cecília, mascando chiclete com uma expressão de desdém puro, e, por último, meu pai, Robert, com as mãos enfiadas nos bolsos e a postura curvada de sempre.
— O que vocês estão fazendo aqui? — perguntei, mantendo o tom o mais firme que consegui, bloqueando a passagem para o corredor.
— Viemos acertar os detalhes que você tão covardemente vem ignorando nas últimas semanas — Helena disparou, cruzando os braços e examinando a sala simples com nojo evidente. — Gregory Stone ligou para o seu pai ontem à noite. Ele está impaciente, Mia. O noivado precisa ser anunciado neste fim de semana durante o jantar beneficente do clube.
Um embrulho violento revirou meu estômago. O nome daquele homem causava repulsa física em cada célula do meu corpo.
— Eu já disse que não vou me casar com ele — respondi, articulando cada sílaba com clareza. — Vocês não têm o direito de barganhar a minha vida para pagar as dívidas que o papai fez. Trabalhem. Vendam a casa. Façam o que quiserem, mas eu estou fora dessa equação.
Cecília soltou uma risadinha nasalada, dando um passo à frente com um sorriso venenoso.
— Sempre a filhinha moralista, não é? Acha que é boa demais para um milionário que bancaria todo o luxo que você nunca teve? Pois saiba que você não tem muita escolha, irmãzinha. Se o papai não fechar essa aliança, ele vai ser processado por fraude fiscal e vai apodrecer na cadeia. É isso que você quer?
Olhei diretamente para Robert. Ele continuava ali, perto da porta, sem coragem de me encarar nos olhos.
— É verdade, pai? — perguntei, sentindo uma mágoa antiga arder no peito. — Você realmente prefere me entregar para um abusador conhecido a assumir os erros dos seus negócios imbecis?
Robert engoliu em seco, passando a mão trêmula pela boca.
— Mia... por favor, entenda o meu lado. Stone prometeu perdoar toda a dívida da empresa. Ele vai colocar a família de volta nos trilhos. Você só precisa ser uma boa esposa, comparecer aos eventos ao lado dele... não é tão ruim quanto você pensa.
— Não é tão ruim? Ele bateu na última mulher, Robert! — gritei, perdendo o controle pela primeira vez. — O divórcio dela saiu há seis meses debaixo de medidas protetivas e processos sob sigilo! E você quer me colocar dentro daquela casa?
— Chega de histeria! — Helena interveio aos berros, avançando na minha direção e apontando o indicador com unha esmaltada de vermelho a centímetros do meu nariz. — Você vai se casar e ponto final! Stone é a salvação dessa família e você não vai arruinar tudo por causa do seu egoísmo nojento!
Eu estava pronta para mandá-los para o inferno e expulsá-los à força do meu apartamento quando uma pontada aguda me atingiu o ventre, seguida por uma náusea incontrolável.
O ar pareceu sumir dos meus pulmões. O cheiro do perfume enjoativo da Helena e o aroma forte de menta do chiclete de Cecília agrediram o meu olfato com uma violência brutal. Levei a mão à boca, empurrei o ombro da Helena para o lado e corri em desespero para o banheiro.
Caí de joelhos diante do vaso sanitário, vomitando com tanta força que meu peito doeu. A bile amarga queimava minha garganta enquanto espasmos involuntários sacudiam meus ombros.
— Mas o que é isso agora? — ouvi a voz de Helena vindo da porta do banheiro, com desconfiança afiada no tom. — Que teatro ridículo é esse?
Tentei puxar a descarga, mas Cecília foi mais rápida. Ela se abaixou ao lado da pia, o olhar curioso vasculhando o ambiente como o de um abutre farejando carniça. Seus olhos caíram sobre a lixeira perto do cesto de toalhas. O papel higiênico havia se deslocado com a pressa dos meus passos.
— Espera aí... — Cecília murmurou, enfiando a mão na lixeira antes que eu pudesse levantar.
— Larga isso, Cecília! — gritei, com a voz rouca, tentando agarrar o pulso dela.
Mas ela recuou um passo, erguendo o teste plástico contra a luz fluorescente do teto. Os olhos dela se arregalaram em uma mistura perversa de choque e triunfo doentio.
— Mãe... olha isso aqui.
Helena arrancou o teste das mãos da filha. Os olhos da minha madrasta percorreram as duas listras escarlates e depois pousaram sobre mim com uma fúria tão gélida que o sangue pareceu congelar nas minhas artérias.
— O que significa isso, Mia? — a voz dela soou baixa, quase sibilante como a de uma serpente pronta para o bote.
Apoiei a mão na bancada da pia e me levantei devagar, as pernas tremendo sob o meu próprio peso. Limpei o canto da boca com as costas da mão e mantive a cabeça erguida. O segredo estava exposto. Não havia mais para onde correr.
— Significa exatamente o que você está vendo — respondi, encarando-a sem piscar. — Estou grávida.
Um silêncio sepulcral caiu sobre o apartamento por alguns segundos. Robert se aproximou da porta do banheiro, empalidecendo ao ver o teste nas mãos da esposa.
— De quem é essa desgraça? — Helena avançou outro passo, a voz subindo de tom até se transformar em um rugido estridente. — De quem é esse bastardo, sua vagabunda?! Você está transando por aí enquanto a gente tenta salvar a sua vida? Quem é o pai?!
— Não é da sua conta — cuspi as palavras com todo o veneno que consegui reunir. — A única coisa que você precisa saber é que não vai haver casamento nenhum. Gregory Stone jamais aceitaria uma mulher grávida de outro homem. O plano de vocês acabou.
Cecília soltou uma gargalhada histérica.
— Ela acha que venceu, mãe! Ela realmente acha que nos deu um xeque-mate!
O rosto de Helena se transformou em uma máscara de pura crueldade calculista. Ela olhou para o teste, depois para Robert e, por fim, para mim. Não havia pânico nos olhos dela. Apenas uma determinação fria e nojenta que fez um arrepio de terror puro descer pela minha coluna vertebral.
— O plano não acabou, Mia. Ele só precisa de um ajuste rápido — Helena disse, a voz assustadoramente calma agora. — Você tem razão em uma coisa: Gregory Stone não pode saber disso. E não vai saber.
— Do que você está falando? — perguntei, dando um passo involuntário para trás, até bater as costas contra os azulejos do boxe.
— Você vai se livrar dessa coisa — Helena declarou, sem hesitar um segundo sequer. — Hoje mesmo. Conheço um médico no Bronx que resolve esse tipo de problema em meia hora, sem perguntas e sem registro médico. Amanhã você vai estar limpa e pronta para cumprir o seu papel.
— Ficou maluca?! — gritei, o desespero rompendo qualquer barreira de controle. Olhei para o meu pai, suplicando com os olhos. — Pai! Pelo amor de Deus, ouça o que essa mulher está dizendo! É o seu neto! É o meu corpo! Você vai permitir isso?!
Robert desviou o olhar para o chão de novo, incapaz de sustentar o meu desespero. A voz dele saiu fraca, patética:
— Mia... a Helena tem razão. Um bebê agora arruinaria tudo. Você é jovem, vai ter outros filhos quando estiver casada com uma vida estável. É o melhor para todo mundo.
Aquilo foi o golpe de misericórdia. O homem que deveria me proteger de qualquer perigo no mundo acabava de me entregar de bandeja para o abatedouro.
— Eu nunca vou fazer isso — declarei, as lágrimas escorrendo quentes pelo meu rosto, mas a mão pousada firmemente sobre o meu ventre plano em um gesto instintivo de proteção. — Eu vou ter esse bebê. E vocês nunca mais vão encostar um dedo em mim. Saiam daqui agora ou eu ligo para a polícia!
Helena trocou um olhar rápido e sombrio com Cecília. Havia algo conspiratório e terrivelmente calculado naquele silêncio que se seguiu.
— Não precisa se alterar tanto, querida — Helena disse, sua voz mudando de tom de forma tão abrupta que pareceu bizarra. Ela guardou o teste na bolsa e ajeitou o casaco. — Você está nervosa, com os hormônios alterados. Vamos conversar com calma mais tarde. Robert, Cecília, vamos embora. Deixem a Mia descansar.
Eles se viraram e saíram pelo corredor, batendo a porta da frente ao sair.
Fiquei parada no meio do banheiro, respirando com dificuldade enquanto o silêncio pesado tomava conta da casa. Meu corpo inteiro tremia em choque. Mas, sob o medo e a repulsa pela minha família, uma certeza inegociável nasceu dentro de mim: aquele bebê que começava a crescer no meu ventre não pagaria pelos pecados de ninguém.
Eu ainda não sabia o que o futuro reservava, mas sabia que lutaria até o meu último suspiro para mantê-lo a salvo.
Capítulo 20 — O Rastro e o ConcretoEthan VanceQuando o aparelho vibrou contra a minha coxa, puxei a tela com uma curiosidade quase cínica. No visor, o identificador de chamadas não exibia nenhum dos nomes salvos. Em vez de um número de Manhattan, brilhava o código de discagem internacional: mais quatro quatro, seguido pelo prefixo metropolitano de Londres.Um meio sorriso involuntário puxou o canto da minha boca antes mesmo de eu deslizar o botão verde.Londres.A pequena estrategista de casaco amarelo não tinha perdido tempo. Ela não apenas gravou os dez dígitos na cabeça com a facilidade de quem pisca os olhos, como havia pegado o telefone da mãe e colocado a audácia em prática antes que o carro dobrasse a terceira esquina.Atendi rindo, preparando uma provocação à altura da insolência daquela garota. Mas o que recebi do outro lado não foi a dicção cantada da Chloe.Foi o pânico puro, doce e aveludado de uma mulher.— M-me... me perdoe, senhor! Foi... foi um engano terrível!A li
Capítulo 19 — EcoMia CollinsEu fiquei presa naquela voz mais do que deveria. Aquele timbre áspero, encorpado, com uma modulação arrastada de quem comanda o mundo com uma tranquilidade insolente... provocou uma vibração tão visceral e profunda no meu peito que minhas costelas pareceram comprimir meu coração. Não era apenas a voz de um executivo arrogante acostumado a flertar com a sorte. Havia algo de magnético, um peso invisível e perturbador naquela cadência que fez o sangue queimar sob a pele do meu pescoço, despertando uma memória corporal violenta, um eco adormecido no escuro que eu não conseguia identificar.Minha visão periférica oscilou. Minha boca secou instantaneamente.Ao meu lado na cama, Chloe apoiava as duas mãozinhas no queixo, com um sorriso de pura vitória rasgando seu rostinho corado. Ela me cutucava com o joelho sob o lençol, os olhinhos faiscando em êxtase.— Viu, mamãe? Eu disse que ele atendia! Fala com ele, fala!Do outro lado da linha, o homem percebeu o vác
Capítulo 18 — A voz… Mia CollinsA pasta de couro com as garantias financeiras internacionais pesava contra a lateral do meu corpo, mas o peso no meu peito havia diminuído pela metade.Depois de quase quarenta minutos na tesouraria do térreo assinando formulários em três vias, apresentando comprovantes bancários do Reino Unido e validando a apólice especial de transporte com o auditor do hospital, a estadia de Chloe estava formalmente blindada. Nenhum procedimento seria interrompido por burocracia.Comprei o copo de suco de maçã verde na cafeteria do saguão e subi pelo elevador privativo com passos rápidos, ansiosa para reencontrar minha garotinha.Ao cruzar a porta do quarto da semi-intensiva, no entanto, a cena que encontrei me fez parar no batente com um sorriso involuntário nos lábios.Chloe já estava de volta à cama, devidamente acomodada sob o lençol macio de nuvens, com a mantinha azul esticada sobre as pernas e a prancheta de acrílico apoiada no colo. Mas o que me chamou a a
Capítulo 17 — O Segredo na TelaEthan VanceDesbloqueei o aparelho com o leitor biométrico e abri a tela de informações do meu cartão de contato, onde o meu próprio número aparecia no topo: o código de área de Manhattan seguido por sete dígitos. Estendi o visor na direção dela, mantendo a distância exata de um braço.— Três segundos, senhorita Chloe — desafiei, arqueando uma sobrancelha com um ceticismo divertido. — Valendo.Chloe nem piscou.Seus olhos escuros fixaram-se no vidro iluminado com uma precisão que beirava o cirúrgico. As pupilas dela se dilataram ligeiramente, varrendo a sequência numérica de ponta a ponta em um movimento ágil da esquerda para a direita. Não houve murmúrio, nenhuma repetição labial dos algarismos para tentar decorar pelo som. Era como se a lente de uma máquina de altíssima resolução tivesse acabado de registrar o visor por dentro da mente daquela garota.— Um... dois... — contei em voz baixa, puxando o braço de volta e bloqueando a tela com o polegar. —
Capítulo 16 — O Encontro no Jardim de VidroEthan VanceA burocracia médica conseguia ser mais irritante do que uma assembleia de acionistas minoritários em dia de balanço negativo.Eu estava no mezanino do New York-Presbyterian há quase quarenta minutos, esperando que a secretária do doutor Henderson carimbasse e liberasse o laudo impresso do ecocardiograma de estresse e do Doppler carotídeo do meu avô. Arthur havia feito os exames na primeira hora da manhã e já estava de volta à mansão em Long Island, sob os cuidados do enfermeiro particular, reclamando por mensagem de texto que o chá de camomila tinha gosto de grama cortada.— Senhor Vance, o sistema da central de laudos caiu para uma atualização de segurança — a recepcionista da cardiologia explicou pela terceira vez, com um sorriso contido e constrangido. — O técnico garantiu que os arquivos serão impressos e assinados pelo doutor Henderson em cerca de quinze a vinte minutos. Se o senhor preferir aguardar no saguão...— O saguão
Capítulo 15 — O Fôlego e a FrestaMia CollinsQuarenta e oito horas.Dois giros completos do relógio na parede da unidade semi-intensiva pediátrica, onde os segundos não eram medidos por números, mas pelo som intermitente das bombas infusoras e pelo gotejar contínuo de bolsas de sangue filtrado.Eu não saí da poltrona reclinável de courvim azul nem para tomar um banho decente. Meus olhos ardiam pelo ar-condicionado filtrado e pela falta crônica de sono. Minhas roupas, a mesma calça de alfaiataria amassada e a camisa de seda com que embarquei em Londres, pareciam pesar toneladas sobre os meus ombros. Sophie insistiu várias vezes para que eu fosse descansar no hotel por algumas horas, mas meu corpo simplesmente se recusava a deixar o quarto.Se o coração da Chloe parasse de bater, eu precisava estar ali para segurar sua mão. Se a respiração dela vacilasse, eu precisava ser a primeira a gritar por socorro.Nesta manhã de quinta-feira, no entanto, o silêncio pesado da semi-intensiva foi







