LOGINMia Collins
A mudança repentina no comportamento deles deveria ter sido meu primeiro aviso.
Na manhã seguinte àquela discussão no banheiro, meu pai apareceu sozinho na minha porta. Não havia gritos, nem ameaças veladas. Ele trazia nos olhos uma expressão derrotada e nas mãos uma caixa de doces de uma padaria antiga perto da nossa antiga casa, um lugar que costumávamos frequentar quando minha mãe ainda era viva.
— Eu não dormi a noite inteira, Mia — ele disse, com a voz embargada e os ombros caídos. — Você tem razão. Eu fui um covarde. A Helena perdeu a cabeça com as dívidas, mas você é meu sangue. Eu jamais deixaria que fizessem mal ao meu neto.
Aquelas palavras foram como um bálsamo envenenado derramado sobre feridas abertas. Eu queria tanto acreditar nele. Queria tanto que o homem que segurou minha mão no enterro da minha mãe ainda existisse em algum lugar sob aquela carcaça covarde.
Ele me preparou um chá de camomila na cozinha enquanto eu sentava no sofá, exausta pelas noites sem dormir e pelos enjoos matinais. Ele colocou a xícara fumegante na minha frente com as mãos trêmulas e me pediu perdão.
Eu bebi.
Lembro que o chá tinha um resíduo amargo no fundo, que associei ao desespero que ainda travava minha garganta. Vinte minutos depois, o teto da minha sala começou a girar em círculos lentos e disformes. Meus braços pesavam como se tivessem sido feitos de chumbo fundido. Tentei falar, tentei perguntar o que estava acontecendo, mas a minha língua simplesmente não respondia aos comandos cerebrais.
A última imagem que tive daquele apartamento foi a porta se abrindo e Helena entrando com um sorriso satisfeito, seguida por Cecília e por dois homens corpulentos que eu nunca tinha visto na vida.
Depois, a escuridão me engoliu inteira.
O cheiro foi o primeiro sentido que despertou.
Um cheiro rançoso, nauseante, uma mistura de água sanitária barata, mofo de parede úmida e o odor ferroso inconfundível de sangue seco.
Tentei erguer os braços para afastar aquele cheiro do meu nariz, mas meus pulsos foram contidos por algo áspero e frio.
Abri os olhos com dificuldade. A visão estava turva, embaçada por uma névoa densa que fazia as luzes fracas do teto parecerem manchas amareladas dançando no escuro. Minha cabeça latejava como se estivessem cravando agulhas enferrujadas nas minhas têmporas.
Pisquei várias vezes até conseguir focar.
O teto acima de mim era de gesso descascado, manchado por infiltrações marrons. O ar estava gelado demais. Tentei me mexer e percebi que vestia apenas um avental cirúrgico fino de tecido verde, aberto nas costas.
Eu estava deitada sobre uma maca de metal estreita e oxidada. Meus tornozelos e pulsos estavam presos por tiras grossas de couro velho.
— Não... por favor, não... — tentei gritar, mas a minha voz não passou de um sussurro arranhado e patético.
A clínica clandestina.
O terror puro atingiu meu sangue como uma descarga de choque elétrico. O efeito da droga que Robert havia colocado no meu chá ainda deixava meus reflexos lentos, mas o instinto materno explodiu em adrenalina líquida, rasgando a névoa sedativa da minha mente.
Eles tinham me dopado. Meu próprio pai me entregou nas mãos daqueles monstros.
— Fica quieta aí, garota. O doutor já tá terminando o café e vem resolver o seu problema.
Virei o pescoço com esforço. Em um canto da sala, sentada em uma cadeira plástica ao lado de uma mesa cheia de frascos sem rótulo e gazes amareladas, estava uma mulher de meia-idade com cabelos descoloridos presos num coque frouxo e um jaleco manchado. Ela lixava as unhas com indiferença mecânica, como se o que estivesse prestes a acontecer naquele quarto fosse tão trivial quanto cortar o cabelo.
— Me solta... — murmurei, lutando contra as tiras nos meus pulsos, sentindo o couro rasgar a pele fina dos meus braços. — Você não pode fazer isso. É contra a lei... eu vou chamar a polícia!
A mulher soltou uma risada rouca de fumante sem tirar os olhos da lixa.
— Polícia? Filha, a família que te colocou aqui pagou muito bem adiantado. O seu velhote mesmo assinou a autorização e disse que você era louca e tentava cometer suicídio. Então poupa seu fôlego. Em dez minutos tá tudo limpo e você vai pra casa dormir.
Ouvir aquilo fez algo se quebrar irrevogavelmente dentro do meu peito. A última ponte que me ligava a Robert Collins virou cinzas naquele instante. Não havia mais pai. Não havia mais família. Havia apenas eu e a semente frágil que crescia dentro de mim, dependendo exclusivamente das minhas forças para continuar existindo.
Um barulho de passos pesados ecoou no corredor de piso de cimento. Um homem de avental plástico manchado entrou, segurando uma bandeja com pinças longas e tubos de sucção. Ele tinha o olhar morto de quem já havia feito aquilo centenas de vezes sem qualquer resquício de humanidade.
— Já calou a boca dela, Marta? — o homem perguntou com voz rouca, sem sequer olhar para o meu rosto. — Vamos logo com isso. Tenho outro procedimento marcado para às oito.
— Ela acabou de acordar. Tá meio mole ainda — a mulher respondeu, se levantando e guardando a lixa no bolso do jaleco.
O médico colocou a bandeja sobre um carrinho de metal ao lado da minha maca com um ruído estridente. O som do metal batendo me deu um choque de desespero.
— O sedativo extra tá preparado? — o homem perguntou, mexendo nas luvas cirúrgicas.
— Esqueci a ampola na sala de esterilização. Vou buscar — Marta respondeu, caminhando em passos arrastados em direção à porta aberta.
— Vai rápido. Não quero essa menina se debatendo quando eu começar a curetagem.
O homem se virou de costas para ligar a máquina de sucção que repousava em um canto. O motor velho deu um tranco alto, emitindo um zumbido grave que preencheu o quarto.
Era a minha única chance. Se eu não me libertasse antes que a mulher voltasse com o sedativo, eu perderia meu bebê para sempre.
Olhei para a tira do meu pulso direito. Ela não estava completamente apertada, o couro gasto havia cedido alguns milímetros. Contraí os músculos da mão, fechei o polegar contra a palma o máximo que pude, ignorando a dor lancinante dos ossos raspando contra a fivela enferrujada, e puxei com toda a força que meu corpo conseguia reunir.
A pele do dorso da minha mão rasgou, deixando um rastro de sangue quente, mas a mão passou.
O médico continuava de costas, ajustando as válvulas de sucção do aparelho barulhento.
Sem respirar, levei minha mão livre até a tira do pulso esquerdo e puxei a fivela. Ela se soltou com facilidade. Me sentei rapidamente na maca, as pernas bambas ameaçando me trair, e desatei os tornozelos em segundos.
Quando apoiei os pés descalços no piso imundo, o ranger do metal da maca ecoou acima do zumbido da máquina.
O homem se virou assustado.
— O que você pensa que tá fazen...
Eu não esperei ele terminar a frase. Peguei a primeira coisa que meus dedos alcançaram: uma bandeja pesada de aço inoxidável cheia de pinças pontiagudas. Com um grito gutural que rasgou a minha garganta, atirei o metal com força contra o rosto dele.
O impacto atingiu o nariz do médico em cheio. O homem soltou um urro de dor, cambaleando para trás com as mãos ensanguentadas no rosto enquanto os instrumentos cirúrgicos caíam pelo chão com um estrondo ensurdecedor.
Passei por ele como um furacão, ignorando a tontura que ainda nublava a periferia da minha visão.
No corredor, dei de cara com Marta voltando com uma seringa na mão. Os olhos dela se arregalaram em choque. Antes que ela pudesse erguer a voz para gritar por socorro, empurrei o carrinho de remédios com o peso do meu corpo inteiro contra as pernas dela. A mulher caiu de mau jeito contra a parede, soltando um palavrão enquanto a seringa se estilhaçava no concreto.
— Pega ela! Seguranças! Pega a garota! — o médico gritava de dentro da sala, com a voz abafada pelo sangue que jorrava do seu nariz quebrado.
Corri. Meus pés descalços batiam contra o piso áspero, escorregando na poeira. Eu não sabia onde ficava a saída da frente, mas sabia que se encontrasse os capangas que Helena havia contratado, eu nunca mais veria a luz do sol.
Vi uma porta entreaberta no final do corredor, que dava para uma espécie de depósito de materiais de limpeza. Entrei e tranquei a fechadura simples por dentro no mesmo segundo em que passos pesados começaram a ressoar no corredor principal.
O quarto era pequeno, escuro e cheirava a água parada. Mas na parede do fundo havia uma janela basculante alta, com vidros sujos que davam para um beco lateral.
Subi em cima de uma pilha de caixas de papelão úmidas. As caixas cederam sob meu peso, quase me fazendo cair, mas consegui me equilibrar e empurrar a tranca enferrujada da janela. O trinco emperrou. Forcei com o ombro, rasgando o tecido do avental, até que o ferro cedeu com um estalo seco.
A pancada contra a porta do depósito quase me derrubou.
— Abre isso aqui agora, sua desgraçada! — a voz grossa de um dos seguranças rugiu do outro lado, desferindo um chute violento contra a madeira que rangeu perigosamente.
Não hesitei. Apoiei as duas mãos no parapeito estreito e me espremi pela abertura da janela. O vidro quebrado da borda cortou a lateral da minha coxa, mas eu mal senti a dor. A urgência de viver era a única coisa que existia.
Olhei para baixo. Uma queda de quase três metros direto sobre um beco estreito de asfalto molhado.
Lá fora, uma chuva fina e gelada caía sobre Nova York, cortando a escuridão do fim de tarde.
Coloquei os dois braços sobre o meu ventre, protegi a barriga com o peito e me joguei.
O impacto com o chão fez meus joelhos estalarem e o ar fugir dos meus pulmões. Rolei pela poça de lama, a dor se espalhando pelas minhas articulações, mas o choque da água gelada serviu para dissipar o resto do torpor químico do meu sangue.
Olhei para a minha barriga. Nenhuma dor aguda no útero. Apenas arranhões e lama na pele.
Me levantei cambaleando, apoiando-me nas paredes de tijolos escuros do beco, e comecei a correr descalça sob a chuva torrencial. O avental cirúrgico ensopado colava ao meu corpo, a água gelada lavava o sangue dos meus braços e pulsos, mas pela primeira vez em dias eu sentia que estava respirando ar puro.
Eu estava viva. Meu bebê estava vivo.
Eles achavam que tinham me destruído, mas estavam enganados. Enquanto meus pés batiam contra o asfalto frio da cidade rumo à única pessoa no mundo em quem eu ainda podia confiar, fiz uma promessa silenciosa contra o vento gelado:
“Eu nunca mais deixaria ninguém decidir o meu destino.”
Capítulo 20 — O Rastro e o ConcretoEthan VanceQuando o aparelho vibrou contra a minha coxa, puxei a tela com uma curiosidade quase cínica. No visor, o identificador de chamadas não exibia nenhum dos nomes salvos. Em vez de um número de Manhattan, brilhava o código de discagem internacional: mais quatro quatro, seguido pelo prefixo metropolitano de Londres.Um meio sorriso involuntário puxou o canto da minha boca antes mesmo de eu deslizar o botão verde.Londres.A pequena estrategista de casaco amarelo não tinha perdido tempo. Ela não apenas gravou os dez dígitos na cabeça com a facilidade de quem pisca os olhos, como havia pegado o telefone da mãe e colocado a audácia em prática antes que o carro dobrasse a terceira esquina.Atendi rindo, preparando uma provocação à altura da insolência daquela garota. Mas o que recebi do outro lado não foi a dicção cantada da Chloe.Foi o pânico puro, doce e aveludado de uma mulher.— M-me... me perdoe, senhor! Foi... foi um engano terrível!A li
Capítulo 19 — EcoMia CollinsEu fiquei presa naquela voz mais do que deveria. Aquele timbre áspero, encorpado, com uma modulação arrastada de quem comanda o mundo com uma tranquilidade insolente... provocou uma vibração tão visceral e profunda no meu peito que minhas costelas pareceram comprimir meu coração. Não era apenas a voz de um executivo arrogante acostumado a flertar com a sorte. Havia algo de magnético, um peso invisível e perturbador naquela cadência que fez o sangue queimar sob a pele do meu pescoço, despertando uma memória corporal violenta, um eco adormecido no escuro que eu não conseguia identificar.Minha visão periférica oscilou. Minha boca secou instantaneamente.Ao meu lado na cama, Chloe apoiava as duas mãozinhas no queixo, com um sorriso de pura vitória rasgando seu rostinho corado. Ela me cutucava com o joelho sob o lençol, os olhinhos faiscando em êxtase.— Viu, mamãe? Eu disse que ele atendia! Fala com ele, fala!Do outro lado da linha, o homem percebeu o vác
Capítulo 18 — A voz… Mia CollinsA pasta de couro com as garantias financeiras internacionais pesava contra a lateral do meu corpo, mas o peso no meu peito havia diminuído pela metade.Depois de quase quarenta minutos na tesouraria do térreo assinando formulários em três vias, apresentando comprovantes bancários do Reino Unido e validando a apólice especial de transporte com o auditor do hospital, a estadia de Chloe estava formalmente blindada. Nenhum procedimento seria interrompido por burocracia.Comprei o copo de suco de maçã verde na cafeteria do saguão e subi pelo elevador privativo com passos rápidos, ansiosa para reencontrar minha garotinha.Ao cruzar a porta do quarto da semi-intensiva, no entanto, a cena que encontrei me fez parar no batente com um sorriso involuntário nos lábios.Chloe já estava de volta à cama, devidamente acomodada sob o lençol macio de nuvens, com a mantinha azul esticada sobre as pernas e a prancheta de acrílico apoiada no colo. Mas o que me chamou a a
Capítulo 17 — O Segredo na TelaEthan VanceDesbloqueei o aparelho com o leitor biométrico e abri a tela de informações do meu cartão de contato, onde o meu próprio número aparecia no topo: o código de área de Manhattan seguido por sete dígitos. Estendi o visor na direção dela, mantendo a distância exata de um braço.— Três segundos, senhorita Chloe — desafiei, arqueando uma sobrancelha com um ceticismo divertido. — Valendo.Chloe nem piscou.Seus olhos escuros fixaram-se no vidro iluminado com uma precisão que beirava o cirúrgico. As pupilas dela se dilataram ligeiramente, varrendo a sequência numérica de ponta a ponta em um movimento ágil da esquerda para a direita. Não houve murmúrio, nenhuma repetição labial dos algarismos para tentar decorar pelo som. Era como se a lente de uma máquina de altíssima resolução tivesse acabado de registrar o visor por dentro da mente daquela garota.— Um... dois... — contei em voz baixa, puxando o braço de volta e bloqueando a tela com o polegar. —
Capítulo 16 — O Encontro no Jardim de VidroEthan VanceA burocracia médica conseguia ser mais irritante do que uma assembleia de acionistas minoritários em dia de balanço negativo.Eu estava no mezanino do New York-Presbyterian há quase quarenta minutos, esperando que a secretária do doutor Henderson carimbasse e liberasse o laudo impresso do ecocardiograma de estresse e do Doppler carotídeo do meu avô. Arthur havia feito os exames na primeira hora da manhã e já estava de volta à mansão em Long Island, sob os cuidados do enfermeiro particular, reclamando por mensagem de texto que o chá de camomila tinha gosto de grama cortada.— Senhor Vance, o sistema da central de laudos caiu para uma atualização de segurança — a recepcionista da cardiologia explicou pela terceira vez, com um sorriso contido e constrangido. — O técnico garantiu que os arquivos serão impressos e assinados pelo doutor Henderson em cerca de quinze a vinte minutos. Se o senhor preferir aguardar no saguão...— O saguão
Capítulo 15 — O Fôlego e a FrestaMia CollinsQuarenta e oito horas.Dois giros completos do relógio na parede da unidade semi-intensiva pediátrica, onde os segundos não eram medidos por números, mas pelo som intermitente das bombas infusoras e pelo gotejar contínuo de bolsas de sangue filtrado.Eu não saí da poltrona reclinável de courvim azul nem para tomar um banho decente. Meus olhos ardiam pelo ar-condicionado filtrado e pela falta crônica de sono. Minhas roupas, a mesma calça de alfaiataria amassada e a camisa de seda com que embarquei em Londres, pareciam pesar toneladas sobre os meus ombros. Sophie insistiu várias vezes para que eu fosse descansar no hotel por algumas horas, mas meu corpo simplesmente se recusava a deixar o quarto.Se o coração da Chloe parasse de bater, eu precisava estar ali para segurar sua mão. Se a respiração dela vacilasse, eu precisava ser a primeira a gritar por socorro.Nesta manhã de quinta-feira, no entanto, o silêncio pesado da semi-intensiva foi







