FAZER LOGINJanaína
Após o sermão do padre, é chegada a hora dos votos. Minha irmã exibe um sorriso feliz. Meu cunhado parece nervoso. Segura o microfone com força, e meio sem jeito, inicia sua fala. — Boa tarde, queridos convidados! Como estou feliz por esse tão esperado dia! Ele segura a mão da esposa e os dois se encaram por um momento. A voz dele sai trêmula: — Quero dizer a todos... que minha Jane foi... — Ele pigarreia, engolindo em seco — Foi FORÇADA a casar comigo! — Oooooh! O espanto se espalha e, em seguida, um silêncio incômodo se faz no evento. Fecho os olhos por um segundo não acreditando que o meu cunhado acabou de dizer a maior merda de todos os tempos! O sorriso de Jane morre na hora. Ela puxa a mão, zangada. Fico tensa. Doida do jeito que é, o divórcio pode vir antes do bolo. Minha mãe, metida a sargentona e sempre desconfiada das intenções de Miguel, se levanta num pulo e grita: — Eu sabia! Nunca me enganou, esse bandido, safado, moleque! Cubro o rosto com as mãos. Eita vergonha da peste! Os murmúrios crescem entre os convidados. A fofoca, se duvidar, vai parar no jornal local. Deixo de cobrir o rosto e volto a olhar para o casal. Bem... Se Miguel foi forçado a se casar ou não, não há mais o que questionar. Depois de dez anos juntos ponho minha mão no fogo se há fingimento entre os dois. Eles se amam e qualquer um ali pode comprovar isso. O padre rapidamente cochicha no ouvido de Miguel, que, vermelho de vergonha, percebe a mancada. — Oh, meu Deus, desculpem-me minha distração. Perdoe-me, amor! — Ele suplica a Jane e uma microfonia aguda domina o lugar, quase acabando com os tímpanos de todo mundo. Ele volta a pedir desculpas: — Gente, estou nervoso, é isso! Não tenho o hábito de falar assim, mas consertando o meu erro quero dizer a todos que... — ele olha para a esposa apaixonado — você, Jane, a dez anos atrás, foi DESTINADA a casar comigo! O alívio é geral. Jane volta a se desmanchar num lindo sorriso. E tudo volta ao normal... ou quase! O hilariante discurso do cunhado, rendeu boas risadas entre os presentes e pelo canto do olho, noto o quanto Diego se diverte com toda aquela situação embaraçosa. Para completar o mico, Miguel desmaia, após Jane revelar uma surpresa: uma gravidez de gêmeos para encerrar a fábrica com cinco filhos. Apesar de toda a maluquice, no final, a declaração de amor entre eles emociona, o que confirma o óbvio: o amor dos dois é inspirador. Com o término da cerimônia, a festa fica bem animada. O casal tira fotos sob um arco decorado com flores silvestres, brindando a década de amor, o aroma delicioso do banquete campestre enche o ambiente e os convidados se deleitam com as iguarias saborosas. A festa agora continua sob as estrelas da noite de lua cheia. Lene e Jackson sumiram de novo, mas dessa vez não vou atrás. Meus olhos têm outra prioridade. Continuam furtivos, sem perder nenhum lance da "tentação em pessoa". Diego se afasta do amigo, troca duas palavras com um funcionário da fazenda e vai em direção ao casarão. Pela urgência, imagino para onde foi. Sem nem pensar duas vezes, me levanto e vou atrás dele. Lembro do aviso de Lene sobre a conduta libertina dele. O cara é perigoso. Afastar-me é ser prudente. Nem sou de prestar atenção em homens bonitos. Meu foco é o ENEM e não é bom misturar as coisas, mas aquele homem tem um charme tão especial! "Cuidado, Janaína!" Tento me frear, mas meus pés continuam me levando para o casarão. Escuto movimentação no banheiro de visitas. Sim, ele está lá. Fico por ali, na sala de estar, atenta a qualquer ruído a mais. Quando ouço o estalo da porta se abrindo, de imediato, forço um encontro casual. O rapaz, achando estar sozinho, ainda está terminando de fechar o zíper da calça e eu dessa vez me supero na maior mancada de todos os tempos. Ele levanta a cabeça, e ao se deparar comigo, resmunga algo, dando um passo para trás, surpreso. Institivamente meus olhos descem para a região pélvica dele. Corada de vergonha, olhos assustados. Fico paralisada, feito uma estátua. Refeito do susto, ele mostra um sorriso zombeteiro e sem continuar a fechar o zíper, contina com" a mão lá" só para me provocar. — Oi, princesinha, está me seguindo? Sem saber o que dizer, percebe a fala com segundas intenções, ao mesmo tempo que fecha a calça sem pressa. O sorriso é debochado e de perto... Mais irresistível. — Vamos, não seja tímida... O gato comeu sua língua? Sem alternativa. vasculho na mente alguma desculpa, e recuo até sentir a parede fria nas minhas costas. — Não sabia que... Havia alguém no banheiro... Com ar de descrédito, Diego diminui a distância. Uma das mãos, ele apoia na parede, me encurralando e a outra, levanta meu rosto, acariciando de leve com o polegar. Um tremor percorre meu corpo. Meus olhos são atraídos para a tatuagem posicionada bem na lateral do pescoço, subindo em direção à mandíbula: uma rosa dos ventos desenhada em traços finos. Engulo em seco. — Mentir é feio... Sua mãe não ensinou isso, não? Desde que cheguei aqui, não tira os olhos de mim. Começo a arfar. Fui pega no flagra. Ouço o grito da consciência me dizer para correr dali, mas meu corpo, inexplicavelmente, não me obedece. Tentando uma defesa sem pé nem cabeça, falo baixinho: — Tem olhos nas costas, por acaso? Não sou de mentir. Ele dá um risinho, entortando a boca. — Hum... pelo sotaque não é daqui... Você vem de onde? Tento me esquivar para o lado. Ele não deixa. Diminui mais ainda o espaço e sussurra bem perto do meu ouvido: — Tem quantos anos, criança? Vê se cresce e me aparece, tá? CRIANÇA? A sensação é de levar um soco no estômago. Ele escorregou feio com esse comentário sem noção. Toda a minha atração por esse garanhão dos infernos morre aqui!"— O que você vê aqui hoje — Lili começa, apontando para o casarão —, o povo de Soure chama de cabaré. Mas para o Diego e o Bil, isso aqui sempre foi abrigo e amizade. Quando o Diego era um rapaz novo, teimoso, querendo largar tudo, fui eu quem puxou a orelha dele nesta mesma varanda para não abandonar os estudos. Fui eu quem deu conselho quando ele achava que o mundo devia servir a ele.Enxugo uma lágrima com as costas da mão, escutando cada palavra em silêncio.— E quando veio a pandemia... E o mundo fechou as portas e o meu pessoal aqui não tinha o que comer, não foram os "santos" da cidade que estenderam a mão. Foram esse garoto e o Bil. Eles bancaram esta casa sem pedir nada em troca. O Diego e o Bil sempre respeitaram cada mulher que pisou aqui dentro. A nossa amizade não é firmada por favores sexuais, e sim por mútuo respeito. Ele só tem olhos para você. Essa é a verdade.Ao ouvir aquelas palavras, eu me desarmei. Lágrimas continuam caindo, agora de alívio. A tensão no meu c
Amanheceu. Espreguiço-me na cama, ainda com aquele sorriso bobo no rosto de quem vive um sonho.Pego o celular, curiosa. Será que há alguma mensagem de bom-dia do Diego? Confirmo que não, mas a tela está cheia de notificações de um número desconhecido.Uno as sobrancelhas e abro o aplicativo. Meus olhos crescem de espanto. São várias fotos, todas com data e hora registradas. Meu mundo cai em segundos.Do dia em que assumimos o namoro até ontem, a Hilux do Diego aparece entrando no estacionamento privativo do cabaré da Lili. Sempre à tarde, algumas vezes com o Bil. Junto das imagens, uma mensagem de texto seca e direta:"Todo fim de tarde ele bate ponto no cabaré antes de ver você. Abre o olho, inocente. kkkkkkkk"Sinto o sangue fugir do meu rosto. Minhas mãos começam a tremer violentamente e a respiração fica curta. É uma dor incalculável, que mistura decepção e mágoa. As lágrimas deslizam quentes, embaçando a tela. Como ele pôde ser tão cruel?Sem pensar em mais nada, ligo par
DiegoNo cantar do galo, converso com o Fred na área dos cavalos sobre o avanço das obras do hotel. Caso dê tudo certo, a inauguração acontecerá em um mês.Ficamos bastante tempo montando estratégias para a inauguração, até que meu celular vibra no bolso. Peço licença ao vaqueiro, imaginando que seja a Janaína respondendo ao meu bom-dia, mas é o Bil." Será que caiu da cama, esse doido?"— Alô! Diga aí, mano!Bil, no seu jeito despojado, fala:— Rapaz, tenho uma notícia maravilhosa pra te dar! Estou feliz da vida!Alargo o sorriso:— Não acredito! Conseguiu?— Consegui, cara! — a vibração na voz dele é tocante. — Vou participar do concurso de DJs! Viajo amanhã de manhã.— Sério?! Isso é o máximo! Vai ser em São Paulo, né?— Sim! Mas não se preocupe, chego a tempo para a inauguração do hotel, beleza?Suspiro forte. Apesar da saudade, Bill merece realizar seus sonhos. — Ah, amigo, vou sentir tua falta, mas fico na torcida. Fique o tempo que for necessário... Já falou com a
O sol está se pondo e o clima na praça tá diferente hoje. Nem começou junho direito, mas o cheiro de milho assado já impregna nossas narinas, num claro convite para uma movimentação mais maciça dos apreciadores.Bandeirolas coloridas balançam ao movimento do vento que vem do rio, amarradas de uma amendoeira a outra na praça. Alguns vendedores aguardam os visitantes e um carimbó de fundo é ouvido ao longe.É neste clima que eu e Janaína passeamos pelo centro de Soure. Com uma semana de namoro, por onde a gente passa, deixamos um rastro de curiosidade. Vejo de canto de olho o povo se cotovelando e sei exatamente o que se perguntam: "Como aquela mocinha foi fisgada tão rápido pelo maior garanhão da cidade?"Aff! Eles jamais vão entender e não sou eu quem vai dar explicação. Que tirem suas próprias conclusões; o importante é a minha felicidade. Tô apaixonado de tal forma que nada neste mundo me incomoda.Andamos pelas ruas de mãos dadas, olhos nos olhos, trocando sorrisos faceiros no
Léa(Uma cidade sem fuxico é só uma cidade-fantasma. H.S.)Lene está na recepção do hotel fazendo o check-in de um casal de turistas, e eu aproveito para pegar um ar fresco na noite tranquila do centro de Soure.Me acomodo no meu banco preferido e consulto o relógio. Não demora cinco segundos e lá vai a Hilux do Diego cortando a rua no sentido da fazenda Monteiro. Curvo meus lábios num sorriso de "Aí tem!". Finalmente Soure renasceu das cinzas! O amor e a fofoca estão no ar!Há três dias, mesmo sem confirmação oficial, Diego e Janaína se tornaram o assunto número um de Soure. Das mesas de dominó nos botecos às lavadeiras na beira do rio, não se fala em outra coisa.Um gavião que se preze não perde o alvo, e o Diego nem deu tempo de a moça ser fisgada por outro. Mas a dúvida que paira em cada esquina é uma só: até quando esse namoro vai durar?Para tirar a prova, saí hoje fazendo a minha ronda como quem não quer nada, atrás de quem pudesse me soltar uma fofoca quentinha.De
Após o jantar, caminhamos sem pressa pela orla. A brisa da praia do Pesqueiro traz o cheiro da maré e bagunça os fios que escapam do coque de Janaína, além de deixar o vestido esvoaçante, deixando-a mais tentadora. Seguro a mão dela assim, com os dedos entrelaçados, é uma sensação quase inacreditável.Até outro dia, embora a atração estava a cada dia me derrubando, não pensei que estaria mais perto este dia tão único.De repente, ela para. Volta-se para mim com uma expressão misteriosa, levando a mão para trás da orelha para prender uma mecha rebelde:— Diego... Eu também preciso confessar uma coisa a você.Olho bem para o rosto dela, atento a cada detalhe sob a luz suave da lua.— Eu nunca esqueci o meu primeiro beijo — ela murmura.Retenho a respiração por um segundo e vou soltando o ar aos poucos. Uma emoção quente se espalha pelo meu peito. Sorrio, deixando escapar o alívio que tento disfarçar:— Eu sei que foi o seu primeiro beijo... E saber que fui o único a deixar essa







