FAZER LOGINPOV Liah O Salão das Mil Lanças cheirava a carne de porco tostada na gordura, alecrim esmagado e suor disfarçado sob perfumes caros de sândalo. O som das mandíbulas mastigando e das taças de prata batendo na madeira maciça formava um zumbido constante, uma colmeia de lordes e generais que me observavam por baixo dos cílios. A cadeira de espaldar alto cravava sua madeira esculpida na minha coluna. Eu mantinha a espinha tão reta que os músculos da minha lombar protestavam em fisgadas mudas. O ar no salão era pesado, quente demais, mas minhas mãos sobre a mesa estavam geladas. Eu sentia o olhar deles arrastando pelo meu rosto, descendo para a linha do meu pescoço, parando exatamente na marca de dentes escurecida que Magnus havia deixado ali. A marca do Alfa. Lorde Kaelen estava sentado a quatro cadeiras de distância, à minha direita. O gibão de veludo verde dele parecia apertado no pescoço grosso. Ele não parava de girar a haste da taça entr
POV: Magnus O pátio ainda estava dentro de mim. O som. O silêncio. O jeito que eles olharam para ela. Não como olhavam antes. Não como se olha para algo frágil. Nem como se olha para algo desejado. Mas como se olha para algo que… pode matar. E isso— Isso não deveria ter me incomodado. Mas incomodou. Caminhei pelo corredor sem direção. O som das minhas botas batendo na pedra ecoava alto demais, seco demais, como se o castelo inteiro estivesse vazio — mas não estava. Eu sentia. Atrás das portas. Nos cantos. Nos corredores cruzados. Eles estavam falando. Sobre ela. Sempre sobre ela. Minha mandíbula travou. O gosto de ferro voltou à boca. Eu queria sangue. Ainda queria. Mas não o deles. Não m
POV: Liah Eles vieram assistir. Eu senti antes de vê-los. O peso. Não de corpos — de olhos. O pátio respirava diferente naquela manhã. O ar estava mais denso, como se cada inspiração precisasse ser puxada à força para dentro dos pulmões. O cheiro de ferro ainda estava ali, grudado nas pedras, misturado com suor, couro e medo antigo. Não o medo de morrer. O medo de entender. Meus dedos tocaram a pedra fria da balaustrada por um segundo. Senti a textura irregular sob a pele — áspera, firme, real. Eu precisava disso. Precisava sentir algo que não fosse o que se movia dentro de mim. O ventre pulsou. Lento. Presente. Como se soubesse. — Tragam o primeiro. Minha voz não saiu alta. Mas atravessou o pátio como lâmina. O som das correntes veio antes da visão dele. Metal raspando metal. Um som arrastado, pesado, que parecia ecoar dentro dos ossos. Quando ele surgiu, o silêncio já tinha se espalhado completamente. O lorde do Oeste. Não parecia mais um lorde. Os ombros caídos
POV Magnus O castelo respirava errado. Eu senti antes de qualquer palavra ser dita. Não era o cheiro de sangue — esse eu conhecia bem demais. Era outra coisa. Mais sutil. Mais perigosa. Como carne deixada tempo demais ao ar livre. Como algo que apodrece por dentro antes de romper por fora. Traição. Quando encontrei Rhaziel, não precisei de explicações. Mas eu quis ouvir. — Fala. Ele não tentou suavizar. Nunca tentou. — O Oeste. Dois do Sul. Tentaram negociar com o Leste. Meu corpo ficou imóvel. Mas não calmo. — O quê. Uma palavra. Baixa. Pesada. — A criança. Não houve pensamento depois disso. O que veio foi instinto. Cru. Direto. Antigo. O lobo não pediu controle — ele tomou. Atravessei o corredor sem ouvir mais nada. Nem passos, nem vozes, nem ordens. Só o som do próprio sangue pulsando nos ouvidos, forte o suficiente para abafar o mundo inteiro. Os guardas na porta hesitaram. Eu não. — Saiam. Eles saíram. Quando a porta abriu, o medo deles me atingiu como c
POV Liah Eu soube antes de me contarem. Não foi intuição. Nem medo. Foi silêncio. O castelo nunca ficava em silêncio daquele jeito depois de uma noite de sangue. Sempre havia movimento, vozes, ordens sendo dadas, o eco de decisões sendo tomadas às pressas. Mas naquela manhã… Havia contenção. E contenção só existe quando algo precisa ser escondido. Caminhei pelos corredores sem chamar ninguém. Não precisei. As pessoas saíam do caminho rápido demais, os olhos baixos, os corpos tensos como se estivessem esperando uma explosão. Talvez estivessem. Quando virei o corredor da ala inferior, vi Rhaziel. Parado. Esperando. Aquilo confirmou. — Quem? — perguntei. Não precisei de contexto. Ele entendeu. Os olhos dele não desviaram dos meus. — Oeste — respondeu. — E dois do Sul. Respirei fundo. Não de surpresa. De confirmação. — Já agiram? — Sim. — Até onde? Um segundo de hesitação. Pequeno. Mas suficiente. — Negociação — disse ele. — Com o Leste. Minha mão foi ao ventre.
POV Rhaziel Traições não acontecem de repente. Elas são cultivadas em silêncio, regadas por medo, ambição e conveniência — até que, no momento certo, florescem como se sempre tivessem pertencido ali. Eu já esperava. Só não sabia qual deles teria coragem de ser o primeiro. A sala de guerra estava mais cheia do que deveria para aquele horário. Isso, por si só, já era um sinal. Homens que evitam decisões durante o dia não deveriam se reunir antes do amanhecer. Entrei sem anunciar. O silêncio caiu rápido demais. — Continuem — disse, fechando a porta atrás de mim. — Não interrompi nada importante, espero. Ninguém respondeu. Olhei para o mapa estendido sobre a mesa. Fronteiras marcadas. Rotas comerciais riscadas. Pontos estratégicos circulados com tinta fresca demais para terem sido discutidos comigo. Interessante. — Vejo que começaram sem mim — comentei, aproximando-me lentamente. — Ou talvez… decidiram que eu não era mais necessário. Um dos lordes do Oeste respirou fundo. —







