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Sombras na Consultoria 

Author: G.A.Maia
last update publish date: 2026-10-25 04:15:20

CAPÍTULO 5: Sombras na Consultoria 

​A sexta-feira amanheceu com um tom cinzento de chumbo sobre o distrito financeiro de Silverlake. A névoa densa que vinha da baía se agarrava aos andares superiores dos arranha-céus, e o vento frio de outono soprava com força pelas avenidas largas, fazendo os pedestres apressados se encolherem dentro de seus casacos pesados.

​Cheguei à delegacia antes das sete e meia. Depois de uma noite de sono agitado, marcada por fragmentos desconexos de memórias da infância e o eco distante de uma chuva torrencial, meu foco estava totalmente voltado para a nova pista.

​A requisição oficial que Alex enviou no final da tarde anterior para o departamento jurídico da Sterling & Associates já havia sido respondida com uma presteza exemplar. Antes mesmo que o primeiro café da manhã da delegacia terminasse de passar na cafeteira, um envelope pardo lacrado com o selo dourado da consultoria repousava sobre a minha mesa.

​Ajeitei meu sobretudo no encosto da cadeira, liguei a luminária e cortei o lacre de cera com o abridor de cartas.

​Dentro do envelope, acompanhado por uma nota cortês e formal assinada pela secretária da diretoria, estavam as cópias integrais dos laudos de avaliação patrimonial das duas joalherias assaltadas, acompanhadas das fichas cadastrais dos peritos responsáveis pelos inventários.

​Corri os olhos rapidamente pelas páginas. Dois nomes constavam nas assinaturas dos relatórios técnicos: Edgar Cole, um avaliador sênior de gemas e metais preciosos com mais de quinze anos de casa, e Julien Rossi, um perito assistente contratado há pouco mais de dois anos.

​— O pessoal da Sterling foi rápido — comentou Alex, aproximando-se da minha mesa com seu copo de café fumegante e puxando a cadeira ao lado. — A assessoria jurídica deles nem tentou criar embaraços burocráticos. Enviaram tudo sem precisar de ordem judicial.

​— A empresa tem um nome a zelar no mercado corporativo de Eloria — respondi, separando a ficha de Julien Rossi e aproximando-a da luz da luminária. — Um vazamento de dados de acervo pode destruir a reputação de uma consultoria de alto padrão em questão de dias. Eles têm todo o interesse em identificar a ovelha negra antes que o escândalo vaze para os jornais.

​— Ou melhor... antes que o nosso amigo repórter publique uma nota na primeira página — brincou Alex, apontando discretamente com o queixo em direção à porta da sala.

​Olhei para a entrada bem no momento em que Leonardo Holloway cruzava o batente.

​Léo vestia uma camiseta cinza-escura sob a clássica jaqueta de couro marrom, trazendo a câmera fotográfica tiracolo e um copo descartável de café numa das mãos. Ele parecia perfeitamente descansado, com aquele sorriso confiante e descontraído que parecia imune ao ar gélido das manhãs de Silverlake. Ao seu lado, Noah vinha carregando sua bolsa de equipamentos de fotografia.

​— Bom dia para os melhores detetives da Central — cumprimentou Léo em tom alto e caloroso, parando ao lado da minha mesa e depositando o copo de café descartável com o logotipo da cafeteria da esquina bem na frente do meu bloco de anotações. — Café preto, sem açúcar e bem quente. Pela sua cara de quem passou a noite analisando relatórios, achei que você estaria precisando, Maya.

​Encarei o copo sobre a mesa e depois ergui os olhos para ele, mantendo a expressão perfeitamente serena e neutra.

​— Não me lembro de ter feito nenhum pedido ao serviço de bordo, repórter Holloway.

​Léo soltou uma risadinha baixa, puxando a cadeira de apoio perto da janela e sentando-se com a descontração habitual.

​— Considere um investimento da imprensa na nossa cooperação profissional — disse ele, piscando os olhos verdes com uma audácia divertida. — E então? O envelope da Sterling & Associates já chegou? Pelo selo dourado no lixo da sua mesa, vejo que a resposta é sim.

​— Chegou — confirmou Alex antes que eu pudesse dar uma resposta afiada. — A consultoria enviou o dossiê completo dos dois avaliadores que assinaram os laudos das joalherias. Edgar Cole e Julien Rossi.

​— Edgar Cole? — repetiu Léo, franzindo levemente a testa enquanto puxava seu bloco de anotações e a caneta. — Eu conheço o Cole de nome. Ele é um dos avaliadores mais respeitados de Eloria, trabalha em leilões de obras de arte há mais de vinte anos e tem uma reputação impecável. Seria uma surpresa gigante se ele estivesse envolvido com receptadores do porto.

​— Pessoas com reputações impecáveis e dívidas acumuladas em jogos ou investimentos fracassados são as mais fáceis de serem chantageadas ou cooptadas — pontuei, puxando a ficha de Julien Rossi. — Mas este outro aqui, Julien Rossi... três trocas de emprego nos últimos quatro anos, passagens por casas de penhor no distrito sul e uma demissão por "divergência de conduta" em uma leiloeira menor antes de ser contratado pela Sterling.

​Léo inclinou o corpo para a frente, com os olhos verdes brilhando com o faro jornalístico afiado.

​— O perfil do Rossi encaixa muito melhor como o elo fraco da corrente — observou ele, esquecendo a brincadeira e adotando um tom puramente analítico. — Alguém com acesso direto aos catálogos de avaliação e que precisa de dinheiro rápido.

​— Exatamente o que vamos checar agora — declarei, levantando-me da cadeira e pegando meu sobretudo. — Alex, vamos ao setor de finanças e registros da polícia para puxar os extratos bancários recentes e a movimentação patrimonial desses dois nomes.

​— Vamos nessa — concordou Alex, pegando a pasta.

​Léo levantou-se num pulo, ajeitando a alça da câmera no ombro.

​— Eu vou com vocês.

​Parei o passo e virei-me para ele com o olhar severo, cruzando os braços sobre o peito.

​— O setor de registros bancários e sigilo fiscal é restrito a policiais em serviço, Léo. Você e o Noah vão ficar aqui na sala aguardando a nossa volta.

​Léo ergueu as mãos em um gesto cômico de rendição, abrindo um sorriso de canto que tornava impossível manter a raiva por muito tempo.

​— Sem problemas, detetive Vance. Eu espero aqui comportado... mas exijo o relatório das descobertas na volta em troca do café que você nem me agradeceu por ter trazido.

​— Não alimente expectativas — retruquei, embora não tenha conseguido evitar que o tom da minha voz saísse um pouco menos rígido enquanto eu me virava e caminhava em direção ao corredor.

​Descemos pelo corredor interno até a sala de Inteligência e Registros Financeiros, no subsolo do prédio da Central. O ambiente ali era frio, iluminado por lâmpadas fluorescentes brancas que zumbiam baixinho, cercado por servidores ruidosos e arquivos de aço.

​O inspetor de plantão, um homem calvo de meia-idade que mal tirava os olhos da tela do computador, recebeu o número dos documentos de Edgar Cole e Julien Rossi com uma mútua troca de cumprimentos formais.

​— Quinze minutos — avisou o inspetor, digitando as credenciais no sistema integrado de investigação patrimonial. — Se houver alguma conta secundária ou movimentação atípica em nome deles nos últimos doze meses, o relatório puxa automaticamente.

​Aproveitei aqueles minutos para encostar na mesa de apoio de metal e cruzar os braços, observando o piscar ritmado das luzes dos servidores. Minha mente insistia em voltar para a figura de Samantha. Embora a razão técnica me mostrasse que uma grande empresa era composta por dezenas de elos independentes, havia algo desconfortável na ideia de que a consultoria dela estivesse indiretamente ligada aos roubos. Samantha sempre foi impecável, ética e dedicada. A ideia de que um funcionário desonesto usava o nome da empresa para alimentar receptadores de rua parecia uma mancha injusta na reputação que ela construíra com tanto esforço.

​— Aqui está — o estalo da impressora matricial cortou meus pensamentos. O inspetor puxou três folhas contínuas e nos entregou. — O histórico do Cole é perfeitamente limpo. Salário compatível, aplicações em renda fixa, imposto de renda sem qualquer inconsistência nos últimos dez anos.

​— E o Julien Rossi? — perguntou Alex, inclinando-se sobre o balcão.

​— O Rossi é outra história — respondeu o inspetor, ajustando os óculos. — O salário base dele na Sterling é de nível assistente, mas nos últimos seis meses a conta bancária dele recebeu quatro depósitos em dinheiro vivo, realizados em caixas eletrônicos da zona portuária. Valores fracionados, sempre abaixo do limite de alerta do Banco Central. Além disso, o histórico de endereço mostra que ele alugou um pequeno galpão comercial em nome de um parente distante perto da Estação Oeste.

​Olhei para Alex, e um aceno silencioso confirmou o que nós dois tínhamos acabado de deduzir.

​— O mesmo galpão onde o receptador que aprisionamos no Píer 4 disse que guardava os moldes e as ferramentas de arrombamento — pontuei, sentindo a peça final do quebra-cabeça se encaixar. — Rossi era quem vazava as plantas das joalherias e as rotas dos alarmes.

​— Temos causa provável suficiente para emitir um mandado de busca e apreensão no armário dele na consultoria e no galpão da Estação Oeste — declarou Alex.

​— Vamos subir e passar os dados para o Franco assinar a requisição — respondi, guardando as folhas impressas na minha pasta.

​Quando voltamos para a sala da Homicídios no segundo andar, encontramos Léo sentado na cadeira de apoio perto da minha mesa, folheando uma revista antiga da polícia com uma calma fingida. Assim que nos viu cruzar a porta, ele fechou a revista e se levantou de pronto, ajeitando a jaqueta.

​— Pela expressão compenetrada dos dois, o Julien Rossi acabou de virar o suspeito número um — deduziu Léo, caminhando na nossa direção com as mãos nos bolsos da calça.

​— O sigilo bancário do suspeito é matéria de inquérito, Léo — avisei, passando direto por ele para colocar a pasta sobre a bancada.

​— Não preciso ler o extrato dele para saber que vocês acharam o elo fraco — retrucou ele, dando um sorriso de canto e apoiando a mão na borda da minha mesa. — O Rossi recebia em dinheiro vivo do receptador do porto, não é? É o padrão clássico desses vazamentos de inventário.

​Suspirei devagar, encarando-o com os olhos levemente semicerrados.

​— Você tem um palpite para tudo, não tem, Leonardo?

​— Não é palpite, Maya. É apenas lógica e convivência com a realidade das ruas de Silverlake — disse ele, baixando a voz para um tom mais brando e sincero. — Eu conheço o estilo desse tipo de investigação. Vocês vão pedir um mandado de busca no local de trabalho dele na Sterling & Associates?

​— O Delegado Franco vai analisar o relatório agora — explicou Alex, já saindo em direção à sala da chefia com o documento impresso nas mãos.

​Léo olhou para mim, notando a ligeira tensão nos meus ombros. Ele deu meio passo à frente, aproximando-se o suficiente para que apenas eu pudesse ouvi-lo sobre o barulho das impressoras ao fundo.

​— Como você está com isso? — perguntou ele suavemente. — Eu sei que a Samantha Sterling é importante para você. Ver o nome da empresa dela arrastado para o meio de uma investigação de receptação não deve ser algo simples de absorver.

​Encarei-o, surpresa com a sensibilidade sutil que ele demonstrava por trás daquela fachada de repórter provocador. Por um segundo, a barreira fria que eu mantivera erguida contra ele pareceu vacilar.

​— Eu sou uma profissional, Léo — respondi em tom baixo, mantendo o olhar firme no dele. — A investigação busca a verdade sobre o funcionário que cometeu o crime. A Tia Samantha é uma vítima da má-fé desse sujeito, assim como os donos das joalherias.

​— Eu sei — concordou Léo, acenando com a cabeça com respeito genuíno. — Mas você não precisa fingir que é de pedra o tempo todo, Maya. Pelo menos não comigo.

​Antes que eu pudesse formular uma resposta para aquela afirmação que mexeu no fundo das minhas defesas, a porta da sala do Delegado Franco se abriu. Alex saiu de lá com o papel carimbado na mão e um olhar decidido.

​— Mandado expedido — anunciou Alex. — O Franco autorizou a diligência de busca e apreensão no armário de trabalho do Julien Rossi na sede da consultoria. Vamos fazer o cumprimento discreto para evitar constrangimento desnecessário à diretoria da empresa.

​— Estou pronta — declarei, vestindo meu sobretudo e ajustando o distintivo de forma visível na cintura.

​Léo olhou para mim e depois para a câmera pendurada no seu pescoço.

​— O Franco autorizou a imprensa a acompanhar do lado de fora do prédio corporativo? — perguntou ele.

​— Do lado de fora da calçada, como manda o protocolo — respondi, pegando as chaves e o meu bloco de anotações. — Vamos.

​A sede da Sterling & Associates ocupava os três últimos andares de uma imponente torre espelhada no coração do distrito financeiro de Silverlake. A arquitetura do edifício era moderna, com estruturas de aço escovado, vidros fumê que refletiam o céu cinzento de Eloria e uma recepção majestosa com piso de mármore branco e pé-direito duplo.

​Alex e eu passamos pelas catracas de segurança após apresentarmos os distintivos e o mandado judicial. Léo e Noah permaneceram do lado de fora, cumprindo a promessa de aguardar na calçada oposta, embora os olhos verdes de Leonardo tenham acompanhado meus passos até que as portas do elevador panorâmico se fechassem.

​O elevador subiu silencioso até o trigésimo andar.

​Quando as portas se abriram, fomos recepcionados pelo ambiente sofisticado e controlado da consultoria. Carpetes espessos abafavam o som dos passos, luminárias embutidas lançavam uma luz fria sobre telas de arte contemporânea e os funcionários transitavam com pastas sob o braço vestindo trajes formais impecáveis.

​A secretária da presidência nos encaminhou de imediato para a sala da diretoria.

​Assim que empurrei a porta de madeira nobre, encontrei Samantha Sterling em pé ao lado de uma mesa de vidro temperado. Ela vestia um terno feminino azul-marinho de corte impecável e postura ereta. Ouvia atentamente o relatório de um de seus diretores enquanto assinava papéis com uma caneta de tique metálico seco.

​Ao notar a nossa presença, ela dispensou o diretor com um aceno rígido de cabeça. Não havia o sorriso doce da visita à delegacia; ali, no topo do seu império, a mulher à minha frente era a imagem viva da autoridade e do poder corporativo.

​— Maya. Detetive Alex — disse Samantha, a voz firme, pausada e estritamente profissional. Ela deu um passo à frente, ajustando a lapela do terno. — O departamento jurídico me avisou que vocês subiram com uma ordem judicial. Aconteceu algo grave envolvendo o nome da minha consultoria?

​— Boa tarde, senhora Sterling — mantive o tom institucional, apresentando a ordem de busca e apreensão assinada pelo Delegado Franco. — Nós viemos em missão oficial. Trata-se do cumprimento de mandado na estação de trabalho de um dos seus peritos assistentes.

​Samantha pegou o documento com gestos calculados. Ela leu as linhas com atenção fria, a expressão tornando-se austera a cada segundo.

​— Julien Rossi... — murmurou ela, o tom baixando em uma irritação contida. Ela ergueu os olhos castanho-escuro para nós, o olhar duro de uma executiva que odiava ter seu domínio questionado. — As movimentações suspeitas dele foram confirmadas no inquérito das joalherias?

​— Confirmamos a ligação do Rossi com o receptador da zona portuária e depósitos não declarados — explicou Alex com firmeza cortês. — Precisamos periciar a estação de trabalho e os arquivos sob a responsabilidade dele.

​Samantha fechou o documento e o devolveu para a minha mão com um movimento preciso.

​— Isso é inaceitável — declarou ela, o tom cortante demonstrando a contrariedade de uma gestora que não tolerava falhas no próprio terreno. — A Sterling & Associates preza pela transparência e pela integridade de cada contrato. Se um funcionário do meu quadro usou a estrutura da empresa para facilitar crimes, ele será demitido por justa causa e responderá com todo o peso da lei.

​Ela caminhou até o interfone na parede e acionou a gerência de segurança interna.

​— Fiquem à vontade para realizar a perícia, detetives. A minha equipe de segurança dará acesso irrestrito a todos os armários e computadores do setor de inventário. Quero que esse assunto seja resolvido e limpo o mais rápido possível.

​— Agradecemos a colaboração, senhora Sterling — respondi, mantendo a distância formal que o ambiente corporativo exigia.

​Caminhamos pelo corredor lateral sob a escolta do chefe de segurança da empresa. Julien Rossi não estava na sua mesa; o setor de RH informou que o perito assistente solicitou uma licença médica repentina duas horas antes.

​— Ele percebeu que a polícia estava cercando as informações e fugiu — comentei baixinho para Alex, aproximando-me da mesa de trabalho de Rossi.

​Com luvas de procedimento já calçadas, comecei a vistoriar as gavetas e a CPU do computador do suspeito, enquanto Alex usava a chave mestra do prédio para abrir o armário de aço individual de Rossi.

​Enquanto trabalhávamos, Samantha surgiu no portal da sala de inventários. Ela mantinha os braços cruzados sobre o terno azul-marinho, observando a varredura com um olhar sério, distante e calculista — a perfeita postura de uma presidente acompanhando a remoção de uma peça podre da sua engrenagem.

​— Encontrei algo — anunciou Alex, puxando de dentro do armário uma pasta plástica preta.

​Aproximei-me da bancada. Alex abriu a pasta, revelando cópias não autorizadas das plantas dos circuitos internos de TV de três grandes estabelecimentos comerciais de Silverlake — incluindo as duas joalherias assaltadas — e um bloco de anotações com datas e horários de transporte de acervos valiosos.

​— Prova material irrefutável — declarei, fotografando cada documento com a câmera pericial. — Ele realmente era o informante interno que repassava os detalhes para o receptador do Píer 4.

​Samantha deu dois passos à frente, observando o material apreendido com uma rigidez impecável no rosto.

​— Lamentável que alguém tenha burlado nossos filtros de contratação para uma canalhice desse nível — comentou ela, a voz fria e sem qualquer traço de vulnerabilidade. Em seguida, olhou para mim, suavizando o tom apenas uma fração, sem perder a compostura de CEO: — Levem tudo o que for necessário para o inquérito, Maya. Se a polícia precisar de auditorias adicionais, meus advogados entregaram a documentação sem problemas.

​— O procedimento foi concluído com sucesso, senhora Sterling — respondi, lacrando o envelope de provas.

​Recolhemos o material apreendido e assinamos o auto de arrecadação na presença do jurídico da empresa.

​Quando Alex e eu deixamos o andar da presidência e descemos pelo elevador panorâmico, a sensação de dever cumprido era nítida. O caso do roubo das joias estava praticamente selado, restando apenas capturar Julien Rossi, que agora figurava como foragido.

​Ao cruzarmos as portas de vidro da entrada principal do edifício corporativo, o ar gélido do fim de tarde nos atingiu.

​Do outro lado da calçada, encostado no poste sob a luz amarela que recém se acendera, Leonardo Holloway aguardava. Ele trazia as mãos nos bolsos da jaqueta de couro e, ao nos ver sair com a pasta de evidências lacrada, separou-se da parede e veio na nossa direção com passos firmes.

​A névoa do final de tarde em Silverlake começava a se adensar sobre as calçadas da zona financeira, transformando os faróis dos carros em grandes manchas amarelas borradas no asfalto molhado. O ar cortante soprava com mais intensidade entre os vãos dos edifícios espelhados.

​Léo atravessou a rua com passos largos e parou diante de nós, ajustando a alça da câmera fotográfica sobre o ombro. Seus olhos verdes alternavam rapidamente entre o saco de evidências lacrado nas mãos de Alex e a minha expressão compenetrada.

​— Pela rapidez do cumprimento do mandado e pelo envelope selado que você está segurando, detetive Vance, presumo que o Julien Rossi deixou um rastro bem evidente na estação de trabalho dele — disse Léo, com um tom de voz que misturava a curiosidade jornalística a um respeito profissional genuíno.

​— A apreensão foi limpa e dentro do protocolo — respondi, mantendo as mãos nos bolsos do meu sobretudo para me proteger do vento frio. — Encontramos plantas de segurança e cronogramas de transporte de acervos que não deveriam estar em posse de um perito assistente. A autoria do vazamento de informações para a quadrilha de receptadores está devidamente documentada.

​Léo soltou um assobio baixo, acenando com a cabeça enquanto analisava o cenário.

​— Um vazamento direto no coração de uma das maiores consultorias da metrópole. E como a diretoria da empresa reagiu à ação da Polícia Civil?

​— A senhora Sterling agiu com o rigor esperado de uma presidente de corporação — interveio Alex, ajustando o colarinho da jaqueta. — Colocou a equipe de segurança interna à disposição da divisão e autorizou o bloqueio imediato dos acessos do Rossi. Ela deixou claro que a empresa quer a punição do responsável para preservar a integridade do nome da firma.

​Léo olhou para mim, notando o silêncio sereno em que eu permanecia. Ele deu um passo discreto para o meu lado, baixando o tom de voz para que a conversa mantivesse o tom reservado no meio do vaivém de pedestres na calçada.

​— A atitude firme da diretoria faz sentido. Nenhuma corporação desse porte sobrevive se permitir que um assistente use a marca para alimentar roubos no porto — pontuou Léo, os olhos verdes fixos nos meus. — E você, Maya? O caso do roubo das joias está praticamente fechado. Rossi virou foragido da justiça e o receptador do Píer 4 já está na cadeia. O Franco vai considerar o inquérito encerrado assim que o mandado de prisão do assistente for cumprido.

​— É a nossa obrigação — comentei, olhando para a imponente fachada de vidro do prédio da Sterling & Associates antes de voltar minha atenção para ele. — Resolvemos a ocorrência, recuperamos o patrimônio das vítimas e identificamos o criminoso infiltrado. A Divisão de Homicídios e Investigações Especiais cumpriu seu papel.

​— Cumpriu seu papel no caso do roubo — corrigiu Léo em tom brando, girando a caneta entre os dedos com aquele olhar perspicaz. — Mas e quanto ao resto? E quanto ao que te faz olhar para esses arquivos antigos de acidentes com tanto rigor quando ninguém está prestando atenção?

​Senti uma pontada de alerta congelar minha postura por uma fração de segundo. Sustentei o olhar dele sem deixar transparecer qualquer vacilo.

​— Não misture as coisas, repórter Holloway. O trabalho de um detetive se baseia em fatos e provas documentadas no papel, não em especulações ou curiosidades pessoais de imprensa.

​Léo abriu um sorriso contido, sem qualquer traço de deboche. Havia algo de genuíno e protetor no tom com que ele me respondeu:

​— Fatos e provas... Eu sei, Maya. Mas a diferença entre um policial comum e você é que você não para até encontrar a verdade inteira, por mais fundo que ela esteja enterrada. É por isso que eu estou cobrindo essa divisão. E é por isso que continuo aqui.

​— Guarde suas deduções poéticas para as suas matérias no Diário de Silverlake — rebati, embora o tom afiado da minha voz não carregasse mais a frieza dos nossos primeiros encontros. — Alex, vamos voltar para a Central para digitar o auto de apreensão e colocar o nome de Julien Rossi no sistema de procurados.

​— Perfeito. O carro está no estacionamento lateral — concordou Alex.

​Nos despedimos dos jornalistas na calçada. Noah acenou de forma cortês com a cabeça antes de guardar as lentes na bolsa, enquanto Léo permaneceu parado perto do poste de luz, acompanhando meus passos até a viatura descaracterizada com aquele seu olhar atento que teimava em desarmar as minhas barreiras.

​Entrei no banco do passageiro e pousei a pasta de documentos no colo. O motor do carro roncou, e Alex manobrou pelas ruas movimentadas do centro financeiro, onde as luzes de neon dos edifícios começavam a se acender contra o céu escuro de outono.

​Ao olhar pelo retrovisor e ver a imponente torre da consultoria se distanciar no horizonte da metrópole, senti a satisfação profissional de mais uma etapa concluída. O mistério do roubo das jóias chegou ao fim de forma limpa, técnica e irrefutável. Julien Rossi responderia pelos seus crimes, a reputação da empresa de Tia Samantha permaneceu protegida e a equipe de Franco consolidou uma vitória expressiva.

​Tudo parecia assentado e resolvido.

​Eu não fazia ideia de que a fuga de Julien Rossi e os relatórios apreendidos naquela sala de inventário eram apenas as primeiras peças de um jogo muito maior, arquitetado nas sombras mais profundas de Silverlake — um jogo cujas regras eu começaria a descobrir muito em breve.

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