LOGINCAPÍTULO 4: Pistas Improváveis
A quinta-feira amanheceu envolta em uma neblina densa e gélida que parecia engolir os topos dos prédios de Silverlake. O vento soprava do norte, trazendo consigo o cheiro forte de água salgada e vegetação molhada vindo da baía de Eloria. Cheguei à 1ª Delegacia Central exatamente às sete horas. A rua arborizada em frente ao prédio estava quase vazia, pontilhada apenas pelos faróis amarelos dos táxis que cortavam a penumbra matutina. Subi a escadaria de pedra em passos rápidos, ajustando a gola do sobretudo escuro para me proteger do ar cortante. No segundo andar, a sala da Divisão de Homicídios e Investigações Especiais começava a despertar. Apenas o borbulhar da cafeteira no canto do corredor e o som ritmado dos passos de dois investigadores do plantão noturno que organizavam suas pastas quebravam o silêncio da sala. Caminhei até a minha mesa ao lado da janela, pendurei o casaco e liguei o computador. A vitória técnica da tarde anterior no Píer 4 — onde recuperamos todas as jóias roubadas e prendemos o receptador — nos dera um breve alívio, mas o dever de um detetive em uma metrópole como Silverlake nunca terminava. Puxei a gaveta da mesa, retirei uma pasta amarelada de bordas levemente gastas e a pousei sobre o tampo de madeira. Na capa, escrito à caneta preta por uma mão que já não trabalhava mais ali, lia-se: Inquérito nº 4082/2006 — Acidente Automobilístico Fatal (Erick Vance & Stella Vance). Senti um arrepio discreto subir pela minha espinha. Aquele arquivo me acompanhava há anos. Primeiro na forma de cópias ilegíveis conseguidas através de velhos conhecidos do orfanato, depois em sua versão digitalizada quando entrei para a academia. Mas ter a pasta física ali, sob a luz fraca da luminária da minha própria mesa de detetive na Central, trazia um peso quase palpável. Abri o arquivo devagar. As páginas continham fotos desbotadas da ribanceira encharcada, a perícia inicial do veículo capotado com os pneus carecas e a conclusão sumária assinada pelo investigador encarregado na época: Perda de controle do veículo por aquaplanagem seguida de colisão e capotamento. Sem indícios de intervenção de terceiros. — Ninguém procurou pela sombra — murmurei para mim mesma, a voz quase inaudível enquanto meus dedos passavam sobre o papel áspero. — Ninguém olhou para a borda do acostamento. Os relatórios policiais falavam de pistas molhadas, falha mecânica e visibilidade reduzida. Nenhuma linha. Nenhuma única palavra sobre a figura encapuzada que a garotinha de cinco anos vira parada na chuva, observando friamente o carro dos seus pais se transformar em uma armadilha de ferro e fumaça. Minha atenção foi interrompida pelo som da porta de madeira da sala se abrindo. Alex entrou trazendo duas pastas sob o braço e um copo de café fumegante na mão livre. Ele vestia uma jaqueta escura e trazia o distintivo pendurado de forma bem visível na cintura. — Bom dia, Maya — cumprimentou ele, puxando a cadeira e jogando as pastas sobre a própria mesa. — Vejo que alguém aqui não consegue desligar o motor nem depois de fechar um caso em tempo recorde. Fechei a pasta do inquérito dos meus pais com um movimento suave, quase mecânico, e a guardei na gaveta trancada antes que ele pudesse ler a etiqueta. — Bom dia, Alex — respondi, esboçando um sorriso discreto. — Só estava revisando algumas pendências administrativas antes da reunião com o Franco. — O Franco acabou de chegar — comentou Alex, tomando um gole do café. — E ele veio acompanhado. Parece que o pessoal da imprensa já conseguiu autorização para a tal matéria especial sobre a divisão. Antes que eu pudesse perguntar mais detalhes, a porta de vidro do corredor se abriu novamente. Acompanhado pelo Delegado Franco, um rapaz alto de jaqueta de couro marrom, cabelos castanhos levemente bagunçados e marcantes olhos verdes cruzou a sala com uma postura impecavelmente segura. Ele trazia uma máquina fotográfica pendurada no pescoço e uma pasta de couro na mão. Ao seu lado, Noah, o jovem fotógrafo de cabelos encaracolados do Diário de Silverlake, carregava uma bolsa com tripés e lentes. Senti um estalo involuntário no peito. Leonardo Holloway. Léo passou os olhos pela sala da Homicídios como se estivesse em sua própria casa. Quando seu olhar verde encontrou o meu, um sorriso confiante, charmoso e provocador surgiu nos cantos da sua boca. — Atenção, pessoal — disse Franco, batendo as palmas das mãos para atrair os olhares dos poucos investigadores presentes. — Como alguns de vocês já sabem, a chefia de polícia aprovou um projeto de transparência e cooperação com a imprensa local. Pelas próximas três semanas, o repórter Leonardo Holloway e sua equipe do Diário de Silverlake acompanharão a rotina interna e algumas diligências não sigilosas da nossa divisão. Quero cooperação e profissionalismo de todos. — Podem deixar, Delegado — disse Léo em tom alto e claro, com uma voz aveludada e cheia de presença. — Prometemos não pisar nos calcanhares de ninguém... a menos que haja uma boa história para contar. Alguns investigadores veteranos riram baixo, enquanto Alex deu um aceno de cabeça amigável para a dupla de jornalistas. Franco fez um gesto com a mão indicando a minha mesa e a de Alex. — Holloway, você pode usar a mesa de apoio perto da janela da equipe da detetive Vance e do detetive Alex. Eles fecharam o caso do Píer 4 ontem e vão assumir a redistribuição dos inquéritos não solucionados do mês. — Perfeito, Delegado. Exatamente o tipo de trabalho minucioso que eu estava procurando cobrir — respondeu Léo, caminhando na nossa direção com passos firmes. Ajustei a postura na cadeira e cruzei os braços sobre o peito, mantendo o olhar fixo nele enquanto ele se aproximava. Léo parou ao lado da minha mesa, pousando a pasta de couro sobre a bancada de apoio a menos de um metro de mim. Ele tirou a alça da câmera do pescoço e inclinou o corpo ligeiramente na minha direção, baixando o tom de voz para que apenas eu ouvisse. — Bom dia, detetive Vance — disse ele, os olhos verdes brilhando com aquela provocação sutil que me deixava em alerta. — Espero que não tenha planejado uma rotina muito tranquila para hoje. Eu trouxe meu bloco de anotações novinho em folha só para registrar suas deduções brilhantes. Encarei-o com uma expressão fria e serena, sem dar margem para que ele percebesse qualquer abalo na minha postura. — Bom dia, repórter Holloway — respondi com tom profissional. — Apenas certifique-se de que seu bloco de anotações e a sua presença fiquem do lado de fora da linha amarela quando estivermos em campo. Limites são essenciais para que o trabalho de verdade aconteça. Léo deu uma risadinha baixa, balançando a cabeça com uma falsa demonstração de surpresa. — Cautelosa e afiada como sempre de manhã cedo. Você não muda mesmo, Maya. — Não se trata de mudar, Leonardo — respondi de pronto, mantendo a voz baixa e firme enquanto organizava os relatórios sobre o tampo de madeira. — Trata-se de respeitar o ambiente de trabalho e o protocolo policial. Não estamos no pátio do colégio. — Justo, detetive — disse Léo, sorrindo de canto enquanto puxava a cadeira de apoio para se ajeitar a poucos passos da minha mesa. Ele apoiou os cotovelos no tampo e encarou a tela do meu monitor por um segundo antes de voltar os olhos verdes para mim. — Mas não custa nada manter a civilidade enquanto dividimos o mesmo teto pelas próximas semanas. Prometo não atrapalhar... a menos que você precise de um olhar clínico de fora. — O olhar pericial da polícia de Silverlake é mais do que suficiente, garanto — encerrei, pegando uma pasta azul de inquéritos antigos e abrindo-a sobre a bancada. Alex, que assistia à troca de farpas com um meio sorriso divertido, balançou a cabeça e estendeu a mão para cumprimentar Noah, o fotógrafo. — Sejam bem-vindos ao setor, pessoal — disse Alex. — Se prometerem não tirar fotos das nossas planilhas com dados sigilosos, a convivência vai ser pacífica. — O Noah só clica o que for autorizado pelo Franco, pode ficar tranquilo — garantiu Léo, ajeitando o bloco de anotações e a caneta sobre a mesa. Voltei minha atenção para os documentos à minha frente, tentando ignorar a presença incômoda de Leonardo tão perto de mim. A fragrância suave do seu perfume de amadeirado misturada ao aroma de couro da sua jaqueta preenchia o espaço ao redor, trazendo lembranças involuntárias de uma época em que sua presença trazia risos e leveza, e não o peso de uma mágoa antiga que eu ainda não conseguia esquecer. Passei os trinta minutos seguintes debruçada sobre uma série de inquéritos não solucionados da Divisão de Homicídios. Tratavam-se de casos arquivados temporariamente por falta de provas ou testemunhas: furtos qualificados em depósitos industriais, pequenos roubos sem autoria confirmada e desaparecimentos não solucionados no distrito norte de Silverlake. Entre os documentos de um caso de furto a uma joalheria ocorrido há seis meses na Avenida Central, algo chamou minha atenção. Puxei a folha amarelada da perícia de campo e aproximei da luz da luminária. — Alex, dê uma olhada nisto aqui — chamei, batendo com a ponta do indicador sobre o relatório técnico. Alex rodou sua cadeira e aproximou-se da minha mesa. Léo, instintivamente, esticou o pescoço, acompanhando o movimento com a atenção afiada de quem vive de procurar histórias. — O que você encontrou? — perguntou Alex. — O modus operandi do furto na joalheria da Avenida Central, em maio — expliquei, apontando para as fotografias da porta de serviço arrombada. — O invasor usou um pé de cabra com corte irregular na ponta esquerda, desativou o alarme cortando o fio azul da caixa secundária e deixou uma marca de sola com desgaste acentuado no calcanhar esquerdo. Alex franziu a testa, assimilando os detalhes. — É exatamente o mesmo padrão do sujeito que aprisionamos ontem no Píer 4. — Exatamente — confirmou. — O laudo do Otto daquele caso de maio ficou registrado como "autoria desconhecida" porque a câmera da rua sofreu uma pane elétrica dois minutos antes da invasão. Mas a ferramenta e a marcha do suspeito são idênticas. Ele não agiu sozinho ontem e nem agiu sozinho em maio. — Você acha que ele faz parte de uma quadrilha especializada em peças antigas e joias de valor histórico? — questionou Alex, cruzando os braços. — Acho que ele é apenas o executor de campo. Alguém fornece as plantas dos sistemas de segurança das lojas e indica exatamente quais peças levar — raciocinei, olhando para o mapa de Silverlake fixado no painel da sala. — Ele sabia exatamente onde ficava o cofre secundário na loja de anteontem e sabia cortar os cabos de alarme de maio. Isso exige informação privilegiada. Ao meu lado, Léo rabiscava rapidamente algumas linhas em seu bloco de anotações. Quando percebeu que eu o observava pelo canto do olho, ele parou a caneta e ergueu os olhos verdes com um brilho de admiração e curiosidade. — Informação privilegiada de quem? De uma empresa de segurança ou de quem avalia as joias para seguro? — perguntou Léo, a voz baixa e analítica, esquecendo a provocação habitual por um instante. Mantenho o tom sério, mas não ignorei a relevância da pergunta. — Essa é a pista que precisamos seguir — respondi, direcionando o olhar para Alex. — Vamos solicitar a lista de empresas de segurança privada e corretoras que atenderam ambas as joalherias nos últimos doze meses. — Vou emitir a requisição ao setor de licenças agora mesmo — disse Alex, levantando-se e caminhando até o computador. Léo encostou-se no encosto da cadeira, girando a caneta entre os dedos com um sorriso contido. — Impressionante, Maya. Um caso arquivado há seis meses foi reaberto em dez minutos de leitura. Você realmente tem o faro. — É apenas trabalho rigoroso, Léo — respondi, fechando a pasta azul. — Pistas improváveis só aparecem quando alguém se dá ao trabalho de procurar com atenção. — E você procura como ninguém — murmurou ele, e por um segundo a sinceridade no seu tom pareceu desarmar a minha guarda, antes que eu me recompusesse e voltasse a encarar a tela do meu monitor. A manhã avançou enquanto o ritmo da sala da Homicídios ganhava o ruído característico de um dia cheio. O som de teclas sendo pressionadas com rapidez, impressoras cuspindo relatórios e o murmúrio constante de chamadas telefônicas preenchiam o ar. Mantive meus olhos fixos no monitor, cruzando os CNPJs das empresas de vigilância privada de Silverlake com os cadastros das corretoras de seguros listados nos dois inquéritos. Ao meu lado, o silêncio de Leonardo durou pouco. Embora Noah permanecesse compenetrado no canto da sala checando o ângulo das lentes sem incomodar ninguém, Léo era incapaz de ficar em repouso por muito tempo. Ele girou a cadeira de apoio suavemente, apoiando o queixo na mão enquanto me observava analisar a planilha de dados. — Você sabe que está procurando no lugar errado se focar só nas empresas de vigilância, não sabe? — comentou ele em tom baixo, quase confidencial, sem que os outros investigadores ouvissem. Ergui os olhos do monitor e encarei-o com uma sobrancelha ligeiramente elevada. — E desde quando um repórter investigativo entende mais do protocolo de checagem de dados do que a própria polícia, Léo? — Desde que esse repórter passou os últimos três anos cobrindo o submundo do mercado de antiguidades para a editoria de metrópole do Diário de Silverlake — respondeu ele, abrindo um sorriso discreto e encostando as costas na cadeira. — Empresas de segurança trocam de funcionários o tempo todo e os contratos são genéricos. Mas os avaliadores de arte e antiguidades... esses formam um grupo bem pequeno em Eloria. Quase todos se conhecem, frequentam os mesmos leilões e sabem exatamente qual joalheria guarda peças históricas sem registro no catálogo público. Parei os dedos sobre o teclado, absorvendo a lógica daquela observação. Por mais irritante que fosse admitir, a colocação dele fazia sentido do ponto de vista do mercado informal. — Você está sugerindo que a informação sobre as joias vazou através do catálogo de avaliação para leilão? — perguntei, mantendo a voz baixa e o tom estritamente analítico. — Estou dizendo que, se eu estivesse planejando roubar joias antigas sem chamar a atenção dos grandes colecionadores, consultaria quem faz o inventário dessas peças antes de ir atrás da senha do alarme — pontuou Léo, ajeitando o corpo na cadeira e encarando meus olhos castanho-mel com uma seriedade rara. — A joalheria do porto que você cobriu ontem tinha um acervo de relógios de bolso do século passado. A da Avenida Central, que você puxou do arquivo, guardava broches de platina com pedras não lapidadas. Quem sabe o valor real disso não é o ladrão de pé torto com o pé de cabra. É quem mandou ele buscar. Permaneci em silêncio por alguns instantes, processando a linha de raciocínio. A mente de Léo sempre fora assim: rápida, intuitiva e capaz de enxergar ângulos oblíquos que a maioria das pessoas deixava passar. Era essa mesma esperteza provocadora que me irritava na época da escola, mas que agora, vestida de maturidade profissional, se mostrava uma ferramenta valiosa. — O que você ganha me dando essa pista, Léo? — perguntei, semicerrando os olhos com uma cautela instintiva. Léo soltou um risinho abafado, balançando a cabeça com uma leve expressão de desapontamento fictício. — Sempre desconfiada, Maya Vance. O que eu ganho é o que todo bom repórter busca: o direito de acompanhar a história de perto quando você descobrir quem está por trás disso. E talvez... quem sabe... conseguir que você pague um café para o seu velho colega de classe em vez de me expulsar com aquele seu olhar de poucos amigos. — Não alimente falsas esperanças quanto ao café — retruquei de pronto, embora o tom afiado da minha voz tenha saído sem a frieza de antes. — Mas a sua observação sobre os avaliadores tem fundamento técnico. Vou pedir ao Alex para cruzar os laudos de avaliação patrimonial das duas lojas. — Eu sabia que no fundo você ainda confiava no meu faro — provocou ele, piscando um olho com aquele charme audacioso que parecia ser sua marca registrada. Antes que eu pudesse responder àquela provocação, Alex aproximou-se da minha mesa trazendo uma folha recém-impressa. — Maya, acabei de receber a listagem das corretoras e das firmas de avaliação que prestaram serviço para as duas joalheiras nos últimos doze meses — disse meu parceiro, entregando-me o papel. — Curiosamente, a vistoria de acervo de ambas foi terceirizada para uma mesma consultoria de patrimônio no centro financeiro. Passei os olhos rapidamente pelo cabeçalho da folha e congelei por uma fração de segundo ao ler o nome da empresa timbrado no topo do documento: Sterling & Associates — Consultoria, Avaliação e Design Patrimonial. Senti um aperto repentino e gelado no peito. A firma de consultoria de Samantha Sterling. Meus olhos ficaram fixos por longos segundos naquele nome impresso em letras pretas e elegantes no topo da página. Sterling & Associates. A imagem de Samantha Sterling — impecável, carinhosa, envolvendo-me em um abraço perfumado no saguão da delegacia há poucas horas — veio à minha mente com uma clareza desconcertante. Ela veio até aqui apenas para me dar um abraço de apoio, para se preocupar com a minha segurança. Como o nome da consultoria dela podia estar vinculado ao laudo de avaliação patrimonial das duas joalherias assaltadas? — Maya? Tudo bem? — a voz de Alex me puxou de volta para a realidade. Pisquei rápido, disfarçando o sobressalto interno com a rapidez que anos de treino me ensinaram. Recompus a expressão facial, ajustando a postura na cadeira enquanto segurava o papel com firmeza. — Sim, tudo bem — respondi, mantendo a voz perfeitamente neutra e profissional. — Só estava examinando o nome da empresa. A Sterling & Associates é uma das maiores consultorias de avaliação e design de Eloria. Eles atendem dezenas de grandes estabelecimentos e colecionadores de alto padrão pela metrópole. Léo, que não tirava os olhos verdes de mim a um metro de distância, franziu levemente a testa. Ele notou a brevíssima hesitação no meu olhar, aquela fração de segundo em que minha guarda vacilara, embora não soubesse o motivo. — É a firma da Samantha Sterling, não é? — perguntou Léo, em um tom de voz surpreendentemente baixo e ponderado. — A executiva que veio te visitar na recepção mais cedo? Olhei para ele com seriedade, sem confirmar nem negar o peso pessoal que aquela informação trazia. — Sim, é a empresa dela — admite, voltando meu olhar para Alex. — Mas uma consultoria do porte da Sterling tem dezenas de peritos e avaliadores associados em contrato. É perfeitamente provável que algum funcionário do setor de inventário ou um prestador de serviço terceirizado tenha tido acesso aos catálogos e repassado as especificações das peças antigas para terceiros sem o conhecimento da diretoria. — Faz total sentido — concordou Alex, pegando a caneta para fazer uma anotação na margem do documento. — Uma empresa desse tamanho auditando acervos gera dezenas de relatórios por semana. Um avaliador desonesto na ponta da cadeia é o suficiente para vazar a lista de jóias sem rastreabilidade para receptadores do porto. — Exatamente — prossegui, sentindo a lógica profissional acalmar a inquietude involuntária no meu peito. — Não há qualquer indício de irregularidade na empresa em si, mas sim na cadeia de acesso aos laudos de avaliação dessas duas lojas específicas. Léo inclinou o corpo para a frente, apoiando os antebraços na mesa de apoio. O brilho jornalístico em seus olhos era inegável, mas a provocação habitual deu lugar a uma postura analítica e atenta. — Se o vulto das informações saiu de dentro do setor de inventários da consultoria, a pessoa que repassava os dados precisava ter acesso tanto às fichas técnicas quanto às datas em que as joias seriam transportadas para os cofres secundários — ponderou Léo. — Isso reduz a lista de suspeitos a quem assinou os laudos periciais de avaliação daquelas duas joalherias. — Pela primeira vez no dia, tenho que concordar plenamente com você, repórter Holloway — admiti, olhando para Alex. — Alex, solicite formalmente à assessoria jurídica da Sterling & Associates a cópia dos laudos técnicos e o nome dos avaliadores responsáveis pelos inventários dessas duas joalherias nos últimos doze meses. Vamos fazer uma checagem de antecedentes de cada perito que assinou os laudos. — Faço o requerimento oficial agora mesmo — disse Alex, já digitando as credenciais no sistema da delegacia para emitir a solicitação policial. Léo encostou-se novamente na cadeira, soltando uma respiração calma e observando o movimento da sala. Um pequeno sorriso de satisfação surgiu em seus lábios ao ver a teoria que ele sugeriu se transformar em uma linha de investigação oficial. — Viu só, detetive Vance? — murmurou ele, piscando para mim com aquela audácia natural que parecia inesgotável. — A imprensa livre e a polícia de Homicídios fazem uma boa dupla quando você resolve não me expulsar com um chute. — Não se empolgue, Léo — avisei de pronto, ajeitando a pasta de documentos sobre a bancada. — Você continua aqui como observador autorizado pelo Franco. Se tentar usar qualquer dado sigiloso desta linha de apuração para publicar uma nota antes da hora no Diário de Silverlake, eu mesma confisco a sua câmera e o seu bloco de anotações. — Ameaça anotada com sucesso no meu bloco — brincou ele, levantando as mãos em rendição cômica, embora o olhar verde continuasse fixo em mim com um calor e uma atenção que me faziam querer erguer cada vez mais alto as minhas barreiras. Voltei meus olhos para a janela da sala. Lá fora, a névoa de Silverlake começava a ser cortada por finos feixes de luz do fim de tarde. O caso do roubo das joias, que parecia um simples assalto de rua com uma pegada torta na lama, acabara de abrir um caminho inesperado que tocava o universo corporativo de Eloria — e a rotina da mulher que fora meu único porto seguro nos últimos anos. Eu investigaria cada detalhe daquele inventário com o rigor implacável que a lei exigia, convencida de que encontraria o avaliador desonesto infiltrado na empresa de Tia Samantha. Nem por um segundo passa pela minha mente que a teia de segredos de Silverlake era muito mais profunda, escura e perigosa do que qualquer laudo pericial podia revelar.CAPÍTULO 30: Um Novo Amanhecer Seis meses se passaram desde que o martelo bateu naquele tribunal.A primavera trazia um ar leve para Silverlake, com o sol iluminando as copas das árvores no parque central da cidade. A cidade parecia ter virado uma página, e eu também.Estava de pé no alto da colina do memorial municipal, onde um pequeno jardim fora projetado em homenagem às vítimas do escândalo do Novo Cais. No centro, uma placa de bronze trazia os nomes gravados daqueles que lutaram pela verdade, incluindo os de Erick Vance e Stella Vance.Depositei um buquê de flores brancas ao pé do monumento e toquei a superfície fria do metal. Durante doze anos, carreguei o peso da ausência dos meus pais como uma ferida aberta. Hoje, porém, o que sentia no peito não era a dor sufocante do luto, mas uma saudade tranquila e a gratidão por ter honrado a história deles.— O lugar ficou bonito, não ficou? — a voz suave do Léo surgiu atrás de mim.Me virei e o vi caminhando devagar pela grama, v
CAPÍTULO 29: O Veredito de SilverlakeO tribunal central de Silverlake amanheceu cercado por uma multidão. Dezenas de equipes de rádio e televisão ocupavam as escadarias do prédio, enquanto cidadãos com cartazes pedindo justiça para a família Vance e pelas vítimas do Novo Cais se aglomeravam na calçada.Entrei no edifício acompanhada por Léo, Alex e Chloe. Eu vestia um terno preto ajustado, com o distintivo da Polícia Civil preso com firmeza ao cinto. Não havia sinal de incerteza nos meus passos.No grande salão do júri, o ar era denso. A mesa da acusação estava organizada com o promotor Denver e Alex ajustando os últimos relatórios. Do outro lado, na mesa da defesa, três advogados de terno impecável conversavam em voz baixa.Poucos minutos depois, as portas laterais abriram-se e Samantha Sterling entrou escoltada por dois guardas prisionais.Ela vestia o uniforme cinza do sistema penitenciário, sem as jóias, a maquilhagem refinada ou os trajes de grife que costumavam marcar a su
CAPÍTULO 28: A Teia da Justiça A luz da manhã que entrava pela janela da minha sala parecia diferente. Não era mais a claridade opaca de quem vivia sob a sombra de uma mentira ou de um luto mal resolvido; era a luz suave de quem finalmente podia respirar em paz.Depois de receber alta e passar os últimos dois dias sob os cuidados rigorosos (e exageradamente carinhosos) do Léo — que tentou me fazer comer sopa de todas as formas possíveis e organizou cada detalhe da rotina para eu não fazer esforço —, eu finalmente decidi que precisava me arrumar para encarar os compromissos do dia.Estava sentada no sofá da sala, vestindo uma calça confortável e um casaco leve de mangas longas, repassando mentalmente os acontecimentos enquanto o aroma de café recém-passado tomava conta do apartamento. Na mesinha de centro, a pasta de couro com os relatórios da Polícia Civil, o laudo pericial do Novo Cais e a cópia da fita de áudio entregue por Léo formavam o dossiê que soterraria de vez a Lumina Ho
CAPÍTULO 27: As Marcas do Amanhã O pisca-pisca vermelho e azul das viaturas e das ambulâncias transformava a fumaça do pátio do galpão de Ravena em um cenário quase irreal. O cheiro de queimado e pólvora aos poucos ia se dissipando no ar frio da madrugada.Dois paramédicos me ajudavam a sentar na borda da maca retrátil, higienizando os cortes no meu rosto e enfaixando os meus pulsos esfolados pelas abraçadeiras de náilon. Eu estava exausta, com cada osso do corpo doendo, mas pela primeira vez em doze anos, o peso no meu peito parecia mais leve.Léo estava em pé logo ao meu lado, segurando uma manta térmica sobre os meus ombros. Ele não tinha soltado a minha mão nem por um segundo desde que saímos de dentro do galpão, mas a sua fisionomia ainda era uma mistura engraçada de alívio com um choque pós-traumático bem evidente.— Senhorita Vance, a sua pressão está estabilizada, mas precisamos levá-la ao pronto-socorro para examinar as costelas e fazer um raio-X — avisou o paramédico, a
CAPÍTULO 26: Contra o Tempo O som de sirene ecoava distorcido no meu ouvido enquanto o carro descaracterizado de Alex rasgava o asfalto molhado em direção ao porto de Silverlake. Ao meu lado, Alex falava ao rádio com a central de rastreamento, mantendo o olhar fixo na estrada escura.— O sinal do celular descartável interceptado bateu com o ERB do píer abandonado de Ravena — disse Alex, desligando o rádio e me encarando. — Léo, à polícia civil já está cercando o perímetro, mas o promotor deu a ordem: invasão tática só com confirmação visual do cativeiro, para evitar um confronto armado de risco antes de sabermos onde a Maya está posicionada.Apertei o distintivo da Maya no meu bolso, sentindo o contorno metálico do brasão. A sensação de impotência me corroía por dentro, mas o faro investigativo e a adrenalina me mantinham focado.— A Samantha não levou a Maya para negociar — comentei, ajustando a alça da minha câmera profissional, que eu trouxera do apartamento. — Ela levou a May
CAPÍTULO 25: A Brecha da Lei A luz dos giroflex vermelhos e azuis cortava o crepúsculo na frente do imponente prédio da Lumina Patrimonial. Repórteres e fotógrafos se acumulavam atrás da fita zebrada da polícia, com os flashes disparando sem parar enquanto os oficiais escoltavam Samantha Sterling pelas escadas de mármore. A minha tia vestia um conjunto impecável de alfaiataria preta, mas a sua expressão era de puro veneno. Ao passar por mim e pelo Léo, que observavamos tudo a poucos metros de distância, ela desacelerou o passo. Os olhos frios de Samantha cravaram nos meus. — Você acha que venceu, Maya? — murmurou ela, com a voz carregada de desdém, enquanto um policial a guiava para o banco traseiro da viatura. — Você não passa de uma garota ingênua jogando num tabuleiro que não entende. Não respondi. Apenas mantive a cabeça erguida, vendo a porta da viatura bater e o carro arrancar em direção ao centro de detenção provisória. A noite seguinte e o dia posterior trouxeram um







