INICIAR SESIÓNCapítulo 3
Manuela Rossi Minha mãe se trancou no quarto. E eu fiquei parada no meio da cozinha, olhando os cacos da xícara espalhados pelo chão. O café escorria lentamente pelos azulejos. Assim como a minha vida escorria pelos meus pensamentos conturbados nesse momento. Porque nada mais fazia sentido. Eu tinha passado vinte e quatro anos acreditando que era apenas Manuela Rossi. Filha de Helena Rossi. Uma garota comum. Uma universitária tentando sobreviver aos boletos. Uma cantora de fim de semana. Agora em uma pesquisa rápida descobria que meu pai era um dos homens mais ricos do estado. E pior. Ele estava morto, não terei chance alguma de conhecer ele. Passei as duas horas seguintes andando pela casa. Sem conseguir me concentrar em nada. Tentei estudar. Não consegui. Tentei assistir televisão. Não consegui. Tentei ignorar o que estava acontecendo. Falhei miseravelmente. A imagem daquele homem na exposição não saía da minha cabeça. Os olhos verdes. O sorriso triste. A forma como ele me observou. Como se me conhecesse. Como se estivesse tentando guardar cada detalhe do meu rosto. Fechei os olhos. Meu Deus, ele provavelmente sabia que eu era filha dele quando me encontrou naquela exposição, ele com certeza já sabia quem eu era. A constatação fez meu coração apertar ainda mais. E se ele realmente é meu pai? E aquele foi o único encontro que tivemos na vida, sem um abraço, sem nada, além de palavras vazias. Uma lágrima escorreu pelo meu rosto. Nem percebi quando aconteceu. Limpei rapidamente. Eu nem conhecia aquele homem. Então por que aquilo estava doendo tanto? Talvez porque, pela primeira vez na vida, meu pai tinha um rosto. Uma voz, e um nome. E eu o havia perdido antes mesmo de realmente encontrar. Respirei fundo. Levantei do sofá. Caminhei até o quarto da minha mãe. Bati na porta. Nenhuma resposta. Bati novamente. — Mãe? Silêncio. — Por favor. Alguns segundos se passaram. Então a porta se abriu. Minha mãe parecia anos mais velha em poucas horas. Os olhos inchados. O rosto abatido. Meu coração apertou. — Posso entrar? Ela apenas assentiu. Entrei devagar. Sentei na ponta da cama. Durante alguns segundos nenhuma das duas falou nada. Até que ela quebrou o silêncio. — Você está com raiva de mim. Não era uma pergunta. Era uma constatação. Suspirei. — Não sei exatamente o que estou sentindo. Ela baixou os olhos. — Eu queria ter contado. — Então por que não contou? As lágrimas voltaram imediatamente. — Porque eu tinha medo. — De quê? Ela demorou alguns segundos para responder. — De perder você. Franzi a testa. — Isso não faz sentido. — Faz para mim, por tudo que passei. O silêncio voltou a tomar conta do quarto. Pesado, incômodo. Até que finalmente ela respirou fundo. Como alguém que estava prestes a abrir uma ferida antiga. — Eu conheci Augusto quando tinha vinte e dois anos. Meu coração acelerou. Finalmente. Uma resposta. — Onde? — Em uma exposição agropecuária. Sorri sem humor. O destino realmente tinha um senso de ironia cruel. — Igual a mim. Ela assentiu. — Igual a você. Pela primeira vez um sorriso triste surgiu em seus lábios. — Eu era Miss Goiás naquela época. — O quê? Ela riu entre lágrimas. — Surpresa? — Um pouco. Na verdade estava muito. Porque era difícil imaginar minha mãe participando de concursos de beleza. — Eu era jovem. Tinha sonhos. Achava que o mundo era simples. — E então conheceu Augusto? Ela fechou os olhos. Como se estivesse assistindo às lembranças. — Ele entrou na minha vida como uma tempestade. Sorri. Aquilo parecia exatamente algo que ela diria. — Foi amor à primeira vista? — Não. Ela riu. — Eu não suportava aquele homem. — Mentira. — Estou falando sério. Ri pela primeira vez naquele dia. — E o que aconteceu? — Augusto era arrogante, mandão. Achava que podia resolver tudo com dinheiro. — Parece alguém que eu gostaria de evitar. Ela sorriu. — Foi exatamente o que tentei fazer. — E falhou. — Miseravelmente. Acabamos rindo. Mas a felicidade durou pouco. Porque a tristeza voltou ao rosto dela. — Nós nos apaixonamos. A frase saiu baixa. Quase um sussurro. — Muito? Ela me encarou. E naquele momento eu vi uma dor que parecia ter atravessado décadas. — Mais do que deveria ser permitido... Meu peito apertou. Porque ela ainda o amava, mesmo depois de 24 anos. Ela ainda amava aquele homem, eu podia ver. — Então por que terminou? O brilho nos olhos dela desapareceu. Instantaneamente. — Porque algumas pessoas não queriam que ficássemos juntos. — Quem? — Não importa. — Importa sim. — Não. Ela levantou da cama. Claramente encerrando o assunto. — Mãe... — Não vou falar mais sobre isso. — Você tem que falar. — Não. — Por quê? Ela virou de costas. E respondeu: — Porque algumas verdades machucam demais. Fazenda Montenegro. Marcos Goulart observava os peões conduzindo o gado pelo curral principal. O sol estava forte. O calor era sufocante. Mas ele mal percebia. Sua mente estava em outro lugar. Fazia apenas três dias que Augusto tinha morrido. Três dias. E a ausência dele já parecia impossível de suportar. — Você está pensando demais. Marcos nem precisou se virar. Reconheceria aquela voz em qualquer lugar. — E você está falando demais. Gael Garcia surgiu ao seu lado. — Que delicadeza. — Não estou com paciência hoje. — Nem ontem. — Nem anteontem. Gael suspirou. — Você precisa descansar meu amigo. — Não posso, e não preciso. — Precisa sim. — A fazenda não para. — E nem vai parar porque você dormiu algumas horas. Marcos cruzou os braços. — Meu pai morreu. O sorriso de Gael desapareceu. — Eu sei. — Então não me peça para descansar, é impossível. Os dois permaneceram em silêncio. Observando os animais. Até que Gael colocou a mão em seu ombro. — Você não precisa carregar tudo sozinho. Marcos não respondeu. Porque sabia que o amigo estava certo. Mas não conseguia admitir. Desde a morte de Augusto, parecia que todo o peso do mundo havia caído sobre suas costas. E ele estava cansado. Muito cansado. — Senhor Marcos. Os dois se viraram. Era um funcionário. — Doutor Vicente chegou. Marcos franziu a testa. — Agora? — Sim. — Disse o que queria? — Apenas pediu para falar com o senhor. Gael arqueou uma sobrancelha. — Parece importante. Marcos suspirou. — Com esse advogado, tudo é importante. Vicente Albuquerque estava esperando no escritório de Augusto. Sentado atrás da enorme mesa de madeira. A visão fez Marcos sentir um aperto no peito. Porque aquele era o lugar do pai. E ninguém deveria estar ocupando aquela cadeira. — Doutor Vicente. O advogado levantou. — Marcos. — O que aconteceu? Vicente permaneceu em silêncio por alguns segundos. Algo raro. — Precisamos conversar. — Sobre o testamento? — Entre outras coisas. Uma sensação estranha percorreu o corpo de Marcos. — O senhor está me assustando. Vicente abriu uma pasta. Retirou uma fotografia. E a colocou sobre a mesa. — Veja. Marcos pegou a imagem distraidamente. Mas no segundo seguinte congelou. Porque conhecia aquele rosto. Conhecia aqueles olhos, não era possível. Aquilo não podia estar acontecendo. A cantora. A garota da exposição. A mesma jovem que chamou a atenção de Augusto. A mesma que ele observou durante tanto tempo. Marcos levantou os olhos lentamente. — Quem é ela? — Manuela Rossi. O nome não significava nada. Mas o rosto sim. — E por que está me mostrando isso? Vicente respirou fundo. Como se estivesse se preparando para uma explosão. — Porque ela virá para a Fazenda Montenegro. O silêncio tomou conta da sala. — O quê? — Ela foi convocada para a leitura do testamento. Marcos apertou a fotografia entre os dedos. — Não estou entendendo. Vicente sustentou seu olhar. Sem desviar. Sem hesitar. Então pronunciou as palavras que mudariam tudo. — Manuela Rossi é filha biológica de Augusto Montenegro. O mundo parou. Marcos sentiu que uma tempestade estava prestes a atravessar os portões da Fazenda Montenegro, e ele se sentiu como um para raio.Capítulo 150Manuela Rossi Montenegro GoulartAlgumas histórias terminam.Outras simplesmente mudam de capítulo.A minha tinha mudado tantas vezes que eu já tinha perdido a conta.Quando eu olhava para trás, ainda conseguia enxergar a mulher que eu fui.A mulher que teve medo.Que perdeu.Que recomeçou.Que amou.Que se tornou mãe.Que achou que nunca conseguiria ter mais filhos e, depois, segurou dois bebês nos braços ao mesmo tempo.Léo e Luiza.Meus gêmeos.Meus dois furacõezinhos.Agora eles já tinham crescido.E, naquele fim de tarde, os dois estavam comigo na fazenda.Cada um montado em seu cavalo, com Marcos um pouco à frente.Eu vinha logo atrás.O sol começava a desaparecer no horizonte, pintando o céu de laranja e dourado.O vento mexia meus cabelos.E eu pensei em como a vida tinha passado rápido.– Mãe!Olhei para Luiza.– O que foi filha?– Olha!Ela levantou os braços, toda orgulhosa.– Estou conseguindo sozinha!– Eu estou vendo!Léo olhou para a irmã.– Eu também consi
Capítulo 149Manuela Rossi Montenegro GoulartAlguns anos podem passar em um piscar de olhos.Quando eu olhava para trás, às vezes parecia que tinha sido ontem que eu estava sentada naquela cama, com Léo e Luiza recém-nascidos nos braços, tentando entender como duas pessoas tão pequenas conseguiam mudar completamente a minha vida.Agora, os dois corriam pela fazenda como se fossem donos de tudo.E, sinceramente, eles são mesmo.– Léo! Luiza! Não corram dentro de casa!– Foi ele! – Luiza gritou.– Foi ela! – Léo respondeu no mesmo segundo.Marcos apareceu na sala carregando uma caixa de enfeites de Natal.– Eu não sei para que vocês perguntam quem foi. São dois contra um.– Você está do lado deles?– Sempre.Revirei os olhos.– Claro. Eu sou a única adulta responsável nessa casa.– Discordo – Marcos respondeu, colocando a caixa no chão. – Eu sou muito responsável.Olhei para ele.Depois para os dois meninos que acabavam de passar correndo atrás do sofá.– Quer repetir?Ele começou a ri
Capítulo 148Manuela Rossi Montenegro GoulartEu sabia que aquele dia chegaria.Sabia desde o momento em que Gael entrou naquela sala e contou que tinha conseguido a bolsa.Sabia que, depois do aniversário dos meus filhos, chegaria a hora de ver Ellen, Gael e Aurora partirem.Eu só não sabia que doeria tanto.A casa estava silenciosa naquela manhã.Silenciosa demais.Havia algumas malas perto da porta.Caixas menores espalhadas pelo corredor.Brinquedos de Aurora separados.Documentos.Passaportes.Tudo organizado.Tudo pronto.Menos eu.Eu estava parada no quarto de Léo e Luiza, olhando para os dois brincando no tapete.Eles tinham acabado de completar um ano.E eu ainda conseguia lembrar do dia em que Ellen chegou naquela mesma casa com Aurora recém-nascida nos braços.Agora era minha vez de olhar para aquela menina e pensar que ela estava indo embora.Aurora entrou no quarto segurando um brinquedo.Quando me viu, abriu um sorriso e veio andando até mim.Abaixei-me.– Vem cá, minha
Capítulo 147Manuela Rossi Montenegro GoulartEu acordei antes do despertador.Na verdade, nem sei se consegui dormir direito.Era ansiedade.A casa estava diferente.Desde cedo, dava para ouvir gente andando de um lado para o outro, portas abrindo, caixas sendo arrastadas, vozes vindo da cozinha e Marcos reclamando que alguém tinha colocado alguma coisa em cima dos documentos que ele precisava.O detalhe era que ninguém tinha pedido para ele cuidar dos documentos.Mas era o Marcos.Se deixassem, ele organizaria até o clima da festa.Levantei da cama e fui direto para o quarto dos aniversariantes.Léo e Luiza estavam acordados.Os dois sentados nos berços, brincando com um bichinho de pelúcia que eu nem lembrava de ter colocado ali.Quando me viram, começaram a sorrir.– Bom dia, meus amores.Luiza bateu as mãozinhas.Léo soltou um gritinho.Entrei no quarto e peguei os dois.Um em cada braço.Ainda era estranho pensar que aqueles dois bebês já tinham um ano.Um ano.Parecia que tinha
Capítulo 146Manuela Rossi Montenegro GoulartEle respirou e soltou de uma vez.– Eu ganhei uma bolsa.Foi isso que Gael disse.Uma frase simples.Mas ninguém naquela sala pareceu entender imediatamente.Marcos foi o primeiro a perguntar:– Bolsa para quê?Gael respirou fundo.– Para uma pós-graduação.Ellen levou a mão à boca.– O quê?Ele sorriu.Dessa vez, aquele sorriso nervoso desapareceu e deu lugar a uma expressão de pura felicidade.– Uma universidade dos Estados Unidos me ofereceu uma bolsa para fazer minha pós-graduação lá, por causa do estudo das células do cavalo com uma doença rara, que eu tratei ano passado aqui na fazenda.Fiquei alguns segundos em silêncio.– Nos Estados Unidos?– Nos Estados Unidos.Ellen olhou para ele.Depois para Aurora.Depois novamente para ele.– Você está falando sério?– Estou.Ela levantou do sofá tão rápido que quase derrubou a bolsa.– Meu Deus!Foi até ele e o abraçou.Gael a apertou contra o peito, rindo.Marcos foi o primeiro a chegar pe
Capítulo 145Manuela Rossi Montenegro GoulartNove meses.Quando dei por mim, Léo e Luiza já tinham nove meses.Eu ainda conseguia lembrar perfeitamente do dia em que cheguei em casa com os dois nos braços, morrendo de medo de não dar conta.Agora, eles não paravam quietos.Engatinhavam pela casa, puxavam tudo que encontravam pela frente, tentavam se levantar apoiados nos móveis e tinham descoberto que existia uma coisa muito mais interessante do que qualquer brinquedo.A nossa comida.– Não, Léo.Ele parou.Olhou para mim.E colocou a mão novamente no prato de Marcos.– Eu falei não.Ele abriu um sorriso.Aquele sorriso banguela que acabava com qualquer autoridade que eu tentasse ter.Marcos, sentado à mesa, começou a rir.– Ele não respeita você.– E você acha bonito?– Acho.– Marcos.– O menino só está com fome.– Ele acabou de comer.– Então está com fome de novo.Olhei para os dois.– Vocês são iguais.Marcos abriu um sorriso orgulhoso.– Obrigado.– Não foi elogio.Luiza, que e







