ログインCapítulo 2
Manuela Rossi — Augusto Montenegro é seu pai. Aquelas palavras malucas, continuaram ecoando na minha cabeça mesmo depois que a ligação terminou. Meu pai, pai como assim? Augusto Montenegro. Agora eu lembro de onde eu já ouvi esse nome, é o homem da exposição. O homem dos olhos verdes que perguntou sobre minha mãe. E esse homem agora estava morto, e era meu pai? Fiquei sentada na cama por vários minutos sem conseguir me mexer. Talvez foram horas. Eu realmente não sabia diferenciar. O tempo parecia ter parado. Como assim meu pai, eu tenho pai? A vida inteira eu havia acreditado que não tinha um pai. Não sabia se estava morto, ou apenas desaparecido, não sabia nada Porque minha mãe nunca falava sobre ele. Quando eu era criança, perguntava sempre. E aí virei adolescente, insistia mais. E por fim, quando me tornei adulta, simplesmente desisti. Dona Helena, sempre foi turrona, sempre mudava de assunto, se fazia de doida... Sempre encontrava uma maldita desculpa pra não me falar nada dele. Sempre fugia do assunto. E agora um advogado desconhecido apareceu dizendo que aquele homem que vi por alguns minutos, era meu pai. Não fazia sentido. Nada mais fazia sentido. Levantei tão rápido que quase derrubei a cadeira do quarto. Precisava falar com minha mãe. E tem que ser agora. Abri a porta e atravessei o corredor praticamente correndo. Encontrei ela na cozinha. Ela preparava nosso café. Como fazia todas as manhãs. Como se o nosso mundo estivesse exatamente no mesmo lugar. Mas o meu tinha acabado de virar de cabeça para baixo. — Mãe. Ela levantou os olhos. Sorriu. — Bom dia, minha princesa. — Precisamos conversar. O sorriso dela desapareceu instantaneamente. Como se ela já soubesse. Como se estivesse esperando aquele momento há anos. — O que aconteceu Manuela? Me aproximei mais dela. Meu coração estava disparado. — Quem é Augusto Montenegro? E não minta mãe. A xícara escapou dos dedos dela. O chão branco, foi tomado pelo som da louça se quebrando, e o café esparramando para todo lado, junto com os cacos. Pela primeira vez na vida vi o rosto da minha mãe perder completamente a cor. Ela ficou branca. Branca como papel. — Quem falou esse nome para você, Manuela? Minha respiração falhou. Ela sabia quem era meu pai, não foi um caso de uma noite, como uma das minhas muitas teorias. Meu Deus. Ela sabia, ela sempre soube. — Então é verdade? Os olhos dela se encheram de lágrimas. — Manuela... — Responda mãe, é verdade? Minha voz saiu mais alta do que eu pretendia. — Augusto Montenegro é meu pai? Helena segurou na bancada. Como se precisasse dela para continuar em pé. — Quem contou isso? — Um advogado. — Vicente Albuquerque? Aquilo me deixou ainda mais assustada. — Você conhece ele? Ela fechou os olhos. E ali naquele pequeno gesto eu percebi, eu tive certeza. Não era um golpe. Não era engano. Minha mãe conhecia Augusto. Conhecia o advogado. Conhecia toda aquela maldita história que eu nunca soube. A única pessoa que não sabia de nada era eu. — Mais quanto tempo você pretendia esconder isso de mim? Ela começou a chorar. Silenciosamente. E aquilo me destruiu. Porque ela não era uma mulher fraca, nunca foi. Eu podia contar nos dedos as vezes em que a vi chorar. — Mãe... — Eu só tentei proteger você. — Proteger de quê? — De tudo. Balancei a cabeça. — Não faz sentido. — Faz. — Então me explica mãe! Ela me encarou. Os olhos vermelhos. Cheios de culpa e de dor. — Eu amei Augusto com toda minha alma, meu primeiro e único amor. A frase atingiu meu peito como um soco. — O quê? — Eu amei aquele homem mais do que deveria, ou poderia sendo quem era... As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto dela. — E ele me amou também, eu sei, eu sentia. Meu mundo balançou novamente. Porque aquela não era a história que eu havia imaginado. Não era uma aventura, nem um relacionamento passageiro. Não era um homem irresponsável. Minha mãe estava falando de amor. Um amor que estranhamente, ainda parecia vivo dentro dela. Mesmo depois de vinte e quatro anos. — Então por que ele nunca me procurou? Helena desviou o olhar. E foi naquele momento que percebi que havia algo mais que ela não estava falando. — Mãe... — Não. — O que aconteceu? — Não. — Eu tenho o direito de saber, droga, é a minha vida, minha existência. Ela começou a balançar a cabeça. Desesperadamente. — Você não entende. — Então me faça entender! O silêncio tomou conta da cozinha. Um silêncio longo, pesado e sufocante. Até que ela finalmente falou. — Você não pode ir até lá, não pode Manuela. Franzi a testa. — O quê? — Não vá para a Fazenda Montenegro, por favor minha filha. — Como assim mãe? — Não vá, por favor, eu te imploro. — Eu preciso ir mãe. — Não, você não precisa. — Preciso sim! Ela segurou meus braços. Com força. Mais força do que eu imaginava que tivesse. — Escuta o que estou dizendo. — Mãe... — Fique longe daquela família Manuela, longe daqueles malditos. Um arrepio percorreu minha espinha. Porque aquilo não parecia um simples pedido, ela estava com medo. Medo de verdade. — O que aconteceu naquela fazenda que você tem tanto medo mãe? Helena começou a chorar novamente. Mas não respondeu. Como sempre ela simplesmente não respondeu nada. Minha única certeza nesse momento é que a história que ela passou vinte e quatro anos escondendo era muito pior do que eu imaginava. Muito pior. Mas minha decisão está tomada... Eu decidi que descobriria a verdade, custe o que custar. Mesmo que minha mãe tentasse me impedir. Mesmo que isso significasse entrar na Fazenda Montenegro, mesmo que lá fosse o inferno que ela está pintando. Mesmo que isso mudasse tudo que eu já vivi, eu precisava ir, eu precisava saber realmente quem sou... E vou.Capítulo 150Manuela Rossi Montenegro GoulartAlgumas histórias terminam.Outras simplesmente mudam de capítulo.A minha tinha mudado tantas vezes que eu já tinha perdido a conta.Quando eu olhava para trás, ainda conseguia enxergar a mulher que eu fui.A mulher que teve medo.Que perdeu.Que recomeçou.Que amou.Que se tornou mãe.Que achou que nunca conseguiria ter mais filhos e, depois, segurou dois bebês nos braços ao mesmo tempo.Léo e Luiza.Meus gêmeos.Meus dois furacõezinhos.Agora eles já tinham crescido.E, naquele fim de tarde, os dois estavam comigo na fazenda.Cada um montado em seu cavalo, com Marcos um pouco à frente.Eu vinha logo atrás.O sol começava a desaparecer no horizonte, pintando o céu de laranja e dourado.O vento mexia meus cabelos.E eu pensei em como a vida tinha passado rápido.– Mãe!Olhei para Luiza.– O que foi filha?– Olha!Ela levantou os braços, toda orgulhosa.– Estou conseguindo sozinha!– Eu estou vendo!Léo olhou para a irmã.– Eu também consi
Capítulo 149Manuela Rossi Montenegro GoulartAlguns anos podem passar em um piscar de olhos.Quando eu olhava para trás, às vezes parecia que tinha sido ontem que eu estava sentada naquela cama, com Léo e Luiza recém-nascidos nos braços, tentando entender como duas pessoas tão pequenas conseguiam mudar completamente a minha vida.Agora, os dois corriam pela fazenda como se fossem donos de tudo.E, sinceramente, eles são mesmo.– Léo! Luiza! Não corram dentro de casa!– Foi ele! – Luiza gritou.– Foi ela! – Léo respondeu no mesmo segundo.Marcos apareceu na sala carregando uma caixa de enfeites de Natal.– Eu não sei para que vocês perguntam quem foi. São dois contra um.– Você está do lado deles?– Sempre.Revirei os olhos.– Claro. Eu sou a única adulta responsável nessa casa.– Discordo – Marcos respondeu, colocando a caixa no chão. – Eu sou muito responsável.Olhei para ele.Depois para os dois meninos que acabavam de passar correndo atrás do sofá.– Quer repetir?Ele começou a ri
Capítulo 148Manuela Rossi Montenegro GoulartEu sabia que aquele dia chegaria.Sabia desde o momento em que Gael entrou naquela sala e contou que tinha conseguido a bolsa.Sabia que, depois do aniversário dos meus filhos, chegaria a hora de ver Ellen, Gael e Aurora partirem.Eu só não sabia que doeria tanto.A casa estava silenciosa naquela manhã.Silenciosa demais.Havia algumas malas perto da porta.Caixas menores espalhadas pelo corredor.Brinquedos de Aurora separados.Documentos.Passaportes.Tudo organizado.Tudo pronto.Menos eu.Eu estava parada no quarto de Léo e Luiza, olhando para os dois brincando no tapete.Eles tinham acabado de completar um ano.E eu ainda conseguia lembrar do dia em que Ellen chegou naquela mesma casa com Aurora recém-nascida nos braços.Agora era minha vez de olhar para aquela menina e pensar que ela estava indo embora.Aurora entrou no quarto segurando um brinquedo.Quando me viu, abriu um sorriso e veio andando até mim.Abaixei-me.– Vem cá, minha
Capítulo 147Manuela Rossi Montenegro GoulartEu acordei antes do despertador.Na verdade, nem sei se consegui dormir direito.Era ansiedade.A casa estava diferente.Desde cedo, dava para ouvir gente andando de um lado para o outro, portas abrindo, caixas sendo arrastadas, vozes vindo da cozinha e Marcos reclamando que alguém tinha colocado alguma coisa em cima dos documentos que ele precisava.O detalhe era que ninguém tinha pedido para ele cuidar dos documentos.Mas era o Marcos.Se deixassem, ele organizaria até o clima da festa.Levantei da cama e fui direto para o quarto dos aniversariantes.Léo e Luiza estavam acordados.Os dois sentados nos berços, brincando com um bichinho de pelúcia que eu nem lembrava de ter colocado ali.Quando me viram, começaram a sorrir.– Bom dia, meus amores.Luiza bateu as mãozinhas.Léo soltou um gritinho.Entrei no quarto e peguei os dois.Um em cada braço.Ainda era estranho pensar que aqueles dois bebês já tinham um ano.Um ano.Parecia que tinha
Capítulo 146Manuela Rossi Montenegro GoulartEle respirou e soltou de uma vez.– Eu ganhei uma bolsa.Foi isso que Gael disse.Uma frase simples.Mas ninguém naquela sala pareceu entender imediatamente.Marcos foi o primeiro a perguntar:– Bolsa para quê?Gael respirou fundo.– Para uma pós-graduação.Ellen levou a mão à boca.– O quê?Ele sorriu.Dessa vez, aquele sorriso nervoso desapareceu e deu lugar a uma expressão de pura felicidade.– Uma universidade dos Estados Unidos me ofereceu uma bolsa para fazer minha pós-graduação lá, por causa do estudo das células do cavalo com uma doença rara, que eu tratei ano passado aqui na fazenda.Fiquei alguns segundos em silêncio.– Nos Estados Unidos?– Nos Estados Unidos.Ellen olhou para ele.Depois para Aurora.Depois novamente para ele.– Você está falando sério?– Estou.Ela levantou do sofá tão rápido que quase derrubou a bolsa.– Meu Deus!Foi até ele e o abraçou.Gael a apertou contra o peito, rindo.Marcos foi o primeiro a chegar pe
Capítulo 145Manuela Rossi Montenegro GoulartNove meses.Quando dei por mim, Léo e Luiza já tinham nove meses.Eu ainda conseguia lembrar perfeitamente do dia em que cheguei em casa com os dois nos braços, morrendo de medo de não dar conta.Agora, eles não paravam quietos.Engatinhavam pela casa, puxavam tudo que encontravam pela frente, tentavam se levantar apoiados nos móveis e tinham descoberto que existia uma coisa muito mais interessante do que qualquer brinquedo.A nossa comida.– Não, Léo.Ele parou.Olhou para mim.E colocou a mão novamente no prato de Marcos.– Eu falei não.Ele abriu um sorriso.Aquele sorriso banguela que acabava com qualquer autoridade que eu tentasse ter.Marcos, sentado à mesa, começou a rir.– Ele não respeita você.– E você acha bonito?– Acho.– Marcos.– O menino só está com fome.– Ele acabou de comer.– Então está com fome de novo.Olhei para os dois.– Vocês são iguais.Marcos abriu um sorriso orgulhoso.– Obrigado.– Não foi elogio.Luiza, que e







