Se connecterCapítulo 4
Manuela Rossi — Manuela? Levantei os olhos do celular assim que a ouvi. Minha mãe estava parada na porta da sala. Os braços cruzados, o rosto ainda pálido. Ela havia chorado durante a madrugada toda. Eu também. Mas nenhuma das duas parecia disposta a recuar. — O que está fazendo? Continuei olhando para a tela. — Comprando uma passagem. O silêncio que veio depois foi assustador. — Não, eu já disse que não, você não vai para aquele inferno Manuela Rossi! Suspirei. Fechei os olhos por alguns segundos. — Mãe, não vou desistir... — Não. — Você precisa me ouvir. — Não, é você que precisa me ouvir. Levantei do sofá. A raiva que eu vinha tentando controlar desde a ligação de Vicente começou a crescer novamente. — Eu passei vinte e quatro anos ouvindo. Ela engoliu em seco. — Manuela... — Vinte e quatro anos ouvindo mentiras. — Eu nunca menti. Aquilo me fez rir. Uma risada amarga. Dolorida. — Não? Você tem certeza? Ela permaneceu em silêncio. — Então Augusto Montenegro é meu pai Nenhuma resposta. — Você sabia disso, sabia onde encontrar ele. Esperei e o silêncio continuou — Você sabia a vida inteira, e me deixou criar inúmeras teorias aleatórias, mesmo você sabendo o tempo todo quem era meu pai, e onde ele estava. As lágrimas voltaram aos olhos dela. — Eu tentei proteger você. — Para de dizer isso! Mentir, esconder não é proteção! Minha voz ecoou alta demais pela casa. Pela primeira vez em toda minha vida eu estava gritando com minha mãe. — Então vai me fala, proteger de quê? — Você não entende. — Porque você não me explica nada! Bati a mão na mesa. O barulho fez nós duas tremermos — Vinte e quatro anos! Minha voz falhou. — Vinte e quatro anos perguntando quem era meu pai. — Filha... — Vinte e quatro anos ouvindo desculpas. — Eu tinha motivos. — Quais? Ela desviou o olhar. E aquilo me machucou mais do que qualquer resposta. — Está vendo? Apontei para ela. — É isso. — O quê? — Você sempre foge. — Não é verdade. — É exatamente a verdade. Ela começou a chorar. Mas eu já não conseguia parar. Toda a dor, confusão e revolta. Toda a revolta. Tudo explodiu de uma vez. — Você decidiu a minha vida sem me perguntar. — Eu era sua mãe. — Não! Você foi egoísta! O choque tomou conta do rosto dela. Como se eu tivesse atravessado uma linha proibida. Mas eu também estava ferida, profundamente ferida. — Não diga isso. — Por quê? — Porque você não sabe o que aconteceu. — Então me conta! O grito saiu mais alto do que eu pretendia. — Me conta, mãe! Helena levou as mãos ao rosto. Tentando controlar o choro. Mas não conseguiu. — Você não sabe quem são aquelas pessoas. — Então me explica pelo amor de Deus... — Não posso. — Claro que não pode. Balancei a cabeça. — Porque você nunca consegue dizer a verdade. — Manuela! — O quê? As lágrimas agora escorriam pelo meu rosto também. — Passei a vida inteira me perguntando por que meu pai nunca me procurou. Ela fechou os olhos. — Filha... — Passei a vida inteira achando que não era desejada. O rosto dela desabou. — Não. — Sim! Minha voz falhou. — E agora descubro que ele mal sabia que eu existia, e que isso é culpa sua. Helena começou a soluçar. E aquilo destruiu uma parte de mim. Porque eu amava minha mãe. Mais do que qualquer pessoa no mundo. Mas naquele momento eu estava machucada demais para perdoar. — Você roubou isso de mim, roubou a chance de ter um pai. Ela levou a mão ao peito. Como se estivesse sentindo dor física. — Eu fiz o que achei certo. — E quem te deu esse direito? O silêncio caiu entre nós. Pesado. Sufocante. Até que ela finalmente falou. — Augusto me amava, e te amava também. Meu coração apertou. — Então por que não ficaram juntos? Ela respirou fundo. Demorou vários segundos para responder. — Porque algumas pessoas não permitiram eu já disse. — Quem? — Não importa. — Importa sim! — Não! Foi a vez dela gritar. — Você não entende! — Então me faça entender! Helena passou as mãos pelos cabelos. Desesperada. — Eu tinha vinte e dois anos. — E daí? — Eu estava apaixonada. — Eu sei. — E acreditava que nada poderia nos separar. A voz dela começou a tremer. — Até descobrir que estava errada. Meu coração acelerou. Porque aquilo era mais do que ela havia contado até agora. Muito mais. — O que aconteceu? Ela me encarou. Os olhos vermelhos. Cheios de medo. — Algumas pessoas são capazes de tudo quando querem proteger poder. Um arrepio percorreu minha espinha. — Está falando da família dele? Ela não respondeu. Mas não precisava. A resposta estava em seu olhar. — Eles ameaçaram você? — Não importa. — Mãe! — Não importa! O desespero na voz dela me fez congelar. — Eu fui embora. — Por quê? — Porque precisava. — Isso não é resposta. — É a única que você vai ter. Fechei os olhos. Respirei fundo. Uma. Duas. Três vezes. Mas não adiantou. Eu continuava furiosa. Machucada. Confusa. — Eu vou para a Fazenda Montenegro. Helena ficou imóvel. Completamente imóvel. — Não. — Vou. — Não vai. — Não estou pedindo permissão, já passamos dessa fase. Ela caminhou até mim. Segurou meus braços. Com força mais uma vez. Mais força do que eu imaginava que tivesse. — Escuta o que estou dizendo. — Solta. — Não. — Mãe... — Fique longe daquela família. Um arrepio percorreu meu corpo. Porque aquilo não parecia um conselho. Parecia medo. Medo de verdade. — O que aconteceu naquela fazenda? Ela começou a chorar novamente. Mas não respondeu. Não respondeu nada. E ali eu soube. A história que ela passou vinte e quatro anos escondendo era muito pior do que eu imaginava. Muito pior. Peguei minha bolsa. As chaves. E caminhei em direção à porta. — Manuela! Parei. Mas não me virei. — Se você atravessar os portões daquela fazenda... A voz dela quebrou. — Sua vida nunca mais será a mesma. Fechei os olhos. Meu coração apertou. Porque eu acreditava nela. Acreditava em cada palavra. Mas também sabia que era tarde demais. Eu precisava descobrir a verdade. Precisava entender quem era Augusto Montenegro. Precisava entender quem eu era. Abri a porta. E fui embora. Sem perceber que, naquele momento, estava caminhando diretamente para o centro de uma guerra que começou muito antes do meu nascimento, e não sei se vai acabar com a minha chegada ou começar a segunda guerra.Capítulo 150Manuela Rossi Montenegro GoulartAlgumas histórias terminam.Outras simplesmente mudam de capítulo.A minha tinha mudado tantas vezes que eu já tinha perdido a conta.Quando eu olhava para trás, ainda conseguia enxergar a mulher que eu fui.A mulher que teve medo.Que perdeu.Que recomeçou.Que amou.Que se tornou mãe.Que achou que nunca conseguiria ter mais filhos e, depois, segurou dois bebês nos braços ao mesmo tempo.Léo e Luiza.Meus gêmeos.Meus dois furacõezinhos.Agora eles já tinham crescido.E, naquele fim de tarde, os dois estavam comigo na fazenda.Cada um montado em seu cavalo, com Marcos um pouco à frente.Eu vinha logo atrás.O sol começava a desaparecer no horizonte, pintando o céu de laranja e dourado.O vento mexia meus cabelos.E eu pensei em como a vida tinha passado rápido.– Mãe!Olhei para Luiza.– O que foi filha?– Olha!Ela levantou os braços, toda orgulhosa.– Estou conseguindo sozinha!– Eu estou vendo!Léo olhou para a irmã.– Eu também consi
Capítulo 149Manuela Rossi Montenegro GoulartAlguns anos podem passar em um piscar de olhos.Quando eu olhava para trás, às vezes parecia que tinha sido ontem que eu estava sentada naquela cama, com Léo e Luiza recém-nascidos nos braços, tentando entender como duas pessoas tão pequenas conseguiam mudar completamente a minha vida.Agora, os dois corriam pela fazenda como se fossem donos de tudo.E, sinceramente, eles são mesmo.– Léo! Luiza! Não corram dentro de casa!– Foi ele! – Luiza gritou.– Foi ela! – Léo respondeu no mesmo segundo.Marcos apareceu na sala carregando uma caixa de enfeites de Natal.– Eu não sei para que vocês perguntam quem foi. São dois contra um.– Você está do lado deles?– Sempre.Revirei os olhos.– Claro. Eu sou a única adulta responsável nessa casa.– Discordo – Marcos respondeu, colocando a caixa no chão. – Eu sou muito responsável.Olhei para ele.Depois para os dois meninos que acabavam de passar correndo atrás do sofá.– Quer repetir?Ele começou a ri
Capítulo 148Manuela Rossi Montenegro GoulartEu sabia que aquele dia chegaria.Sabia desde o momento em que Gael entrou naquela sala e contou que tinha conseguido a bolsa.Sabia que, depois do aniversário dos meus filhos, chegaria a hora de ver Ellen, Gael e Aurora partirem.Eu só não sabia que doeria tanto.A casa estava silenciosa naquela manhã.Silenciosa demais.Havia algumas malas perto da porta.Caixas menores espalhadas pelo corredor.Brinquedos de Aurora separados.Documentos.Passaportes.Tudo organizado.Tudo pronto.Menos eu.Eu estava parada no quarto de Léo e Luiza, olhando para os dois brincando no tapete.Eles tinham acabado de completar um ano.E eu ainda conseguia lembrar do dia em que Ellen chegou naquela mesma casa com Aurora recém-nascida nos braços.Agora era minha vez de olhar para aquela menina e pensar que ela estava indo embora.Aurora entrou no quarto segurando um brinquedo.Quando me viu, abriu um sorriso e veio andando até mim.Abaixei-me.– Vem cá, minha
Capítulo 147Manuela Rossi Montenegro GoulartEu acordei antes do despertador.Na verdade, nem sei se consegui dormir direito.Era ansiedade.A casa estava diferente.Desde cedo, dava para ouvir gente andando de um lado para o outro, portas abrindo, caixas sendo arrastadas, vozes vindo da cozinha e Marcos reclamando que alguém tinha colocado alguma coisa em cima dos documentos que ele precisava.O detalhe era que ninguém tinha pedido para ele cuidar dos documentos.Mas era o Marcos.Se deixassem, ele organizaria até o clima da festa.Levantei da cama e fui direto para o quarto dos aniversariantes.Léo e Luiza estavam acordados.Os dois sentados nos berços, brincando com um bichinho de pelúcia que eu nem lembrava de ter colocado ali.Quando me viram, começaram a sorrir.– Bom dia, meus amores.Luiza bateu as mãozinhas.Léo soltou um gritinho.Entrei no quarto e peguei os dois.Um em cada braço.Ainda era estranho pensar que aqueles dois bebês já tinham um ano.Um ano.Parecia que tinha
Capítulo 146Manuela Rossi Montenegro GoulartEle respirou e soltou de uma vez.– Eu ganhei uma bolsa.Foi isso que Gael disse.Uma frase simples.Mas ninguém naquela sala pareceu entender imediatamente.Marcos foi o primeiro a perguntar:– Bolsa para quê?Gael respirou fundo.– Para uma pós-graduação.Ellen levou a mão à boca.– O quê?Ele sorriu.Dessa vez, aquele sorriso nervoso desapareceu e deu lugar a uma expressão de pura felicidade.– Uma universidade dos Estados Unidos me ofereceu uma bolsa para fazer minha pós-graduação lá, por causa do estudo das células do cavalo com uma doença rara, que eu tratei ano passado aqui na fazenda.Fiquei alguns segundos em silêncio.– Nos Estados Unidos?– Nos Estados Unidos.Ellen olhou para ele.Depois para Aurora.Depois novamente para ele.– Você está falando sério?– Estou.Ela levantou do sofá tão rápido que quase derrubou a bolsa.– Meu Deus!Foi até ele e o abraçou.Gael a apertou contra o peito, rindo.Marcos foi o primeiro a chegar pe
Capítulo 145Manuela Rossi Montenegro GoulartNove meses.Quando dei por mim, Léo e Luiza já tinham nove meses.Eu ainda conseguia lembrar perfeitamente do dia em que cheguei em casa com os dois nos braços, morrendo de medo de não dar conta.Agora, eles não paravam quietos.Engatinhavam pela casa, puxavam tudo que encontravam pela frente, tentavam se levantar apoiados nos móveis e tinham descoberto que existia uma coisa muito mais interessante do que qualquer brinquedo.A nossa comida.– Não, Léo.Ele parou.Olhou para mim.E colocou a mão novamente no prato de Marcos.– Eu falei não.Ele abriu um sorriso.Aquele sorriso banguela que acabava com qualquer autoridade que eu tentasse ter.Marcos, sentado à mesa, começou a rir.– Ele não respeita você.– E você acha bonito?– Acho.– Marcos.– O menino só está com fome.– Ele acabou de comer.– Então está com fome de novo.Olhei para os dois.– Vocês são iguais.Marcos abriu um sorriso orgulhoso.– Obrigado.– Não foi elogio.Luiza, que e







