INICIAR SESIÓNCapítulo 6
Manuela Rossi Entrei pé por pé. Parecia estar cometendo um pecado ao atravessar aquela porta. A casa era simplesmente gigante. Facilmente eu me perderia ali. Apressei os passos sem poder reparar em nada direito para acompanhar as passadas largas do tal Marcos. Logo ele abriu duas portas gigantes que davam para uma sala com várias pessoas. Com certeza era um escritório. Devia ser ali a leitura do testamento. O homem à mesa devia ser Vicente. Os outros eu não fazia ideia de quem eram. — Seja bem-vinda, Manuela. Pode sentar, fique à vontade. Vamos começar. — Você não vai nem apresentar a bastarda? A senhora loira, que estava próxima a Vicente, falou, me fazendo corar. Minha mãe estava certa. Esse povo é maluco. Essa já me atacando sem eu ter feito nada. Vou mostrar que da minha mãe só tenho a aparência. Se eu não fizer isso agora, eles vão montar em cima de mim, e eu não vou permitir. — A senhora enrola a língua. Eu não sou bastarda, e nem fui eu quem procurou por nada disso. Então, se não é do seu agrado, a culpa não é minha. Todos olharam para ela e para mim, esperando uma resposta dela, mas ela apenas fechou a boca e voltou a se sentar. — Acho que podemos começar. Alguma objeção? O silêncio foi a resposta. Testamento de Augusto Montenegro Eu, Augusto Montenegro, em pleno gozo das minhas faculdades mentais, declaro que este é o meu último testamento e que todas as minhas vontades aqui expressas deverão ser respeitadas. Durante toda a minha vida, construí um império. Mas hoje entendo que terras, dinheiro e propriedades só possuem valor quando permanecem nas mãos de pessoas capazes de honrar sua história. Antes de qualquer divisão de bens, faço uma declaração que jamais imaginei precisar fazer tão tarde. Reconheço oficialmente Manuela Rossi como minha filha biológica, concedendo-lhe todos os direitos inerentes a essa condição. Também reafirmo aquilo que meu coração decidiu há muitos anos. Marcos nunca precisou do meu sangue para ser meu filho. Eu o vi crescer, o ensinei, o corrigi, me orgulhei de cada conquista e o amei como um pai ama um filho. Nada, nem mesmo a verdade descoberta no fim da minha vida, diminuirá esse vínculo. Por essa razão, determino que a Fazenda Montenegro, suas terras, rebanhos, maquinários e toda a produção rural permaneçam indivisíveis. A administração e os cuidados da fazenda serão exercidos obrigatoriamente em conjunto por Marcos e Manuela. Nenhum dos dois poderá vender sua parte das terras sem a anuência do outro, pois desejo que aprendam a caminhar lado a lado e compreendam que esta terra jamais pertenceu apenas a mim. Ela pertence àqueles que a respeitam. Determino ainda que Manuela resida na Fazenda Montenegro pelo período mínimo de um ano. Não faço esse pedido como imposição, mas como um pai que deseja que sua filha conheça cada pedaço da terra que sempre foi parte de sua história. Quero que sinta o cheiro da chuva sobre o pasto, veja o nascer do sol sobre os campos e descubra que um lar não nasce do sangue, mas das lembranças construídas nele. Todas as demais propriedades, participações empresariais, investimentos, imóveis localizados no Brasil e no exterior e os demais bens que compõem meu patrimônio deverão ser divididos em partes iguais entre Marcos, Manuela e minha esposa, Ísis Goulart Montenegro. À minha esposa, Ísis, deixo também meu eterno agradecimento por ter permanecido ao meu lado nos dias fáceis e difíceis, mesmo sabendo que eu sempre fui incompleto. Ao jovem Gael García, filho do nosso fiel capataz, que acompanhei desde menino e aprendi a amar, deixo integralmente minha clínica veterinária localizada no centro da cidade, onde ele exerce sua função não só por obrigação, mas por amor a cada animal que cuida. Tenho plena confiança de que ele transformará aquele lugar em um espaço de excelência e cuidado, honrando tudo aquilo em que sempre acreditei sobre respeito aos animais. À minha mãe, que dedicou tantos anos de sua vida a mim e à fazenda, asseguro uma pensão mensal suficiente para que viva com dignidade e conforto até o último dos seus dias, tendo tudo de que precisar aqui, até o fim da sua vida. Apesar de todas as brigas, Dona Cecília foi parte fundamental de tudo o que construí. Ao meu amigo Vicente, companheiro de tantos anos, deixo integralmente minha participação no escritório de advocacia que construímos juntos. Sei que ninguém melhor do que ele poderá preservar o trabalho que realizamos ali. Por fim, deixo ao meu advogado uma carta lacrada destinada exclusivamente à minha filha, Manuela Rossi. Essa carta deverá ser entregue somente após a leitura completa deste testamento. Seu conteúdo é pessoal e representa minhas últimas palavras como pai. Peço apenas que todos compreendam que algumas conversas pertencem apenas ao coração de quem as escreveu e de quem as receberá. Se existe algo que desejo deixar como herança maior que qualquer fortuna, é a união. Famílias são destruídas pela ganância todos os dias, assim como laços que podem ter sido quebrados por causa dela. Espero que a minha morte não seja em vão. Espero que seja marcada pelo início da união de vocês. Que Deus proteja cada um daqueles que fizeram parte da minha história. Augusto Montenegro. Mal percebi, mas as lágrimas tinham encharcado o meu rosto ao fim da leitura do testamento. — Aqui está a carta que ele pediu para lhe entregar, Manuela. Dona Santa vai levá-la ao quarto que está preparado para você. Imagino que precise de um momento sozinha antes de mais nada. Vicente realmente parecia um homem bom e um grande amigo de Augusto. Apenas assenti e segui a empregada, sentindo os olhos de todos sobre minhas costas. Assim que as portas se fecharam, escutei uma discussão começar, mas não conseguia prestar atenção. Aquela carta em minhas mãos parecia fogo, queimando em brasa. Segui a senhora em total silêncio pelas escadas e por um corredor, até que ela abriu uma porta branca. — Aqui é o quarto de hóspedes, senhorita. Fique à vontade. — Obrigada, Dona Santa. Agradecida. Ela apenas sorriu e seguiu pelo corredor, enquanto eu entrava no quarto, que era do tamanho da minha casa inteira. Mas isso não importava. O que realmente importava estava em minhas mãos. Abri a carta com a respiração falhando. Era hora da verdade...Capítulo 107Manuela Rossi MontenegroQuero um vestido que eu bata o olho e diga: é ele. Não quero ter dúvidas. Por isso está sendo tão difícil...Depois de deixar tudo no hotel, saímos eu, Ellen e minha mãe.Aqui tinha bastante loja desse gênero, exatamente por causa dos casamentos relâmpagos.Minha mãe estava melhor, mas ficava reclamando que estava com fome o tempo todo.O que nos fazia rir, porque, por cada lugar de comida que passávamos, ela comia alguma coisa.— Essa é a última loja. Estou cansada já. Depois daqui vamos jantar.Falei resmungando, já estava triste por não gostar de nada, quando vi o vestido mais perfeito que eu poderia usar no meu grande dia.Era modelo sereia, com decote coração, feito de cetim com um leve brilho.Eu queria um chapéu branco e botas texanas.Assim que o vesti, já fiquei emocionada.Ele caiu como uma luva. Parecia que tinha sido desenhado especialmente para o meu corpo.Minha mãe chorou muito quando me viu vestida. E olha que eu nem estava pronta
Capítulo 106Manuela Rossi MontenegroAcordei naquela manhã ao lado de Marcos e, por alguns segundos, fiquei apenas olhando para ele.Era estranho pensar que, depois de tudo o que havíamos vivido, finalmente estávamos ali.Miami.E, naquela noite, Las Vegas.Amanhã eu me casaria com o homem que amo.Depois de tomarmos banho e nos arrumarmos, descemos para o café da manhã.Ellen e Gael já estavam à mesa com meus pais. Assim que me aproximei, percebi que os dois trocavam olhares cúmplices. Eles estavam prontos para contar aos meus pais.Nós sentamos e logo minha mãe olhou pra eles com estranheza, Ellen quieta sempre era estranho.— O que foi? Aconteceu alguma coisa?Ellen olhou para Gael e sorriu.— Temos uma coisa para contar.— Que cara é essa? Agora fiquei preocupada.Gael segurou a mão dela.— Ontem, no jantar, eu fiz uma pergunta para a Ellen.Ellen levantou a mão, mostrando o anel.— E eu aceitei.Minha mãe ficou alguns segundos olhando para o anel antes de abrir um sorriso enorme
Capítulo 105Manuela Rossi MontenegroFizemos conexão em São Paulo e agora estamos na última, em Miami. Vamos ficar aqui hoje e embarcamos para Las Vegas somente amanhã à noite.Já era nosso plano inicial. Eu queria muito conhecer Miami, mas minha mãe está estranha. Mesmo dizendo que é apenas cansaço, estou preocupada.— O hotel que reservamos é aqui perto. Vamos tomar um banho e depois sair para dar uma explorada.— Acho que vou descansar um pouco, mas vocês podem aproveitar. Amanhã eu prometo que acompanho vocês.Minha mãe falou aquilo, me deixando ainda mais preocupada.— E para com essa carinha. Não é nada, só estou cansada.— Não seria melhor levar ela ao hospital, pai?— Não, nem começa. Só preciso descansar. Vocês são jovens, vão aproveitar.Depois que chegamos ao hotel, descobrimos que os três quartos ficavam no mesmo andar.Eu e Marcos tomamos banho e descemos para esperar Ellen e Gael no bar do hotel.— O que você acha que está acontecendo com a minha mãe?— Acho que ela est
Capítulo 104Marcos GoulartFiquei com Manuela nos meus braços durante a noite, como se, a qualquer segundo, ela pudesse escapar entre os meus dedos. A sensação de impotência era horrível demais.Eu sabia, entendia que a culpa era de Olívia, que ela havia feito aquilo, mas eu não consegui impedir. E, por mais coisas erradas que ela tivesse feito, ainda era um ser humano. Perturbado, perdido, capaz de tomar decisões terríveis, mas ainda assim um ser humano.Aquilo também me fez perceber ainda mais o quanto a vida era um sopro. Que não podíamos passar a existência inteira esperando pelo momento certo para viver nossos sonhos.O dia estava quase amanhecendo quando tirei Manuela devagar dos meus braços e fui até o meu quarto. Ajustei as últimas coisas que faltavam para a nossa viagem e desci atrás do cheiro de café que já havia tomado conta da casa.— Bom dia, pai. Bom dia, Helena.— Bom dia, meu filho. Como está? Conseguiu dormir?— Quase nada. Minha cabeça não desliga.— Foi muito trist
Capítulo 103Manuela Rossi MontenegroMeus pais assinaram os papéis do casamento na sala de casa.Os comes e bebes que haviam sido preparados para a festa agora pareciam apenas objetos perdidos no contexto daquele dia. Ninguém tinha cabeça para comemorar.A polícia estava ali, colhendo depoimentos e tentando entender exatamente o que havia acontecido.Marcos permanecia ao meu lado, ainda em choque. Pedi que Ellen e Gael fossem até o hospital para buscar notícias e nos manter informados.Enquanto isso, ficamos esperando que o local fosse periciado e que tudo fosse esclarecido.O delegado terminou de fazer algumas anotações e nos encarou.— Eu imagino que estejam todos muito abalados, mas vocês não tiveram culpa de nada. Ela estava em surto. Vocês souberam o que ela fez com o pai?— Não. Não tínhamos contato há muito tempo. Ela esteve aqui alguns dias atrás, mas mal passou do portão.O delegado assentiu.— Antes de vir para cá, ela brigou com o pai porque ele estava controlando o pouco
Capítulo 102Manuela Rossi MontenegroNo alto da cachoeira, Olívia apareceu vestida de noiva, gritando o nome do meu pai.— Augusto! Era eu quem tinha que estar aí, mas agora você vai levar a minha morte como culpa pelo resto da vida, manchando o dia do seu casamento!Meu pai olhou apavorado, e gritou enquanto segurava as mãos da minha mãe, que estava completamente nervosa.— Olívia, desça daí! Você tem a vida toda pela frente. Pode mudar, recomeçar onde quiser.— Eu vou lá. Fica aqui e não deixa ela perceber que estou indo.Marcos cochichou para mim, saindo de fininho.Os convidados começaram a balbuciar, assustados. Alguns se afastaram, outros tentavam entender o que estava acontecendo.— Não! Eu fiz de tudo! Mesmo depois que meu pai faliu, eu lutei para continuar com o meu status. Você me prometeu o mundo e agora está casando com outra!Olívia chorava, completamente transtornada.— Eu sofri o luto em meio ao caos. E você vai levar essa culpa para o túmulo!— Olívia, para com isso!







