INICIAR SESIÓNCapítulo 7
Manuela Rossi Com muita dificuldade, a respiração falhando, abri aquele envelope. Minhas mãos tremiam, suavam frio, e meu estômago parecia dar cambalhotas. Comecei a ler com as lágrimas ameaçando escapar dos meus olhos. Minha filha, Por anos enfrentei minha mente e o meu coração sem saber por onde começar a te procurar. Quando sua mãe saiu daqui, grávida de seis meses, abandonando nossa vida, nosso noivado e tudo o que havíamos construído, meu coração se partiu. Os boatos correram. As más línguas fizeram questão de me convencer de que ela havia me traído. Durante anos, carreguei essa dor e esse ressentimento, até que minha mãe adoeceu. Achando que estava perto da morte, ela decidiu me contar a verdade. Tudo não passou de uma invenção dela. Na tentativa de nos separar, ela criou mentiras, alimentou fofocas e destruiu a única família que eu sonhava em construir. Naquele instante, percebi que não havia perdido apenas a mulher que amava. Também havia perdido a infância da minha filha. Essa foi a maior dor que já senti. Coloquei detetives para procurar vocês por todos os lugares. Quando finalmente encontrei o paradeiro de vocês, tentei entrar em contato com sua mãe. Eu precisava ouvir a versão dela, pedir perdão por não ter ido atrás da verdade antes e tentar consertar, mesmo que fosse tarde. Não sei se, quando você estiver lendo esta carta, eu já terei conseguido essa conversa. Mas quero que saiba de uma coisa. Eu sempre amei vocês duas. Foi meu o desejo de colocar em você o nome Manuela. Quando descobri que sua mãe havia mantido o nome que escolhemos juntos, tive a certeza de que o amor dela por mim era tão verdadeiro quanto o meu por ela. Algo muito maior do que o nosso amor nos impediu de viver a vida que sonhamos. Escrevo esta carta depois de te ver cantar, de te ver pessoalmente pela primeira vez. Você estava iluminada, exatamente como eu imaginei que seria desde o dia em que soube que seria pai. Tive a oportunidade de trocar poucas palavras com você, mas foram suficientes para eu sentir um orgulho impossível de explicar. Espero, do fundo da minha alma, que aquele tenha sido apenas o primeiro encontro de muitos. Quem sabe, a cada novo encontro, eu escreva uma nova carta. Talvez um dia você tenha uma caixa cheia delas, contando tudo o que eu não consegui dizer olhando nos seus olhos. Quero que você nunca duvide de uma verdade. Você foi desejada desde o instante em que descobri que existia. Foi amada antes mesmo de nascer. E, mesmo sem poder te criar, nunca deixou de ocupar um espaço no meu coração, até mesmo quando as mentiras pairavam na minha mente. Sua mãe foi o grande amor da minha vida. Nunca existiu outra mulher que ocupasse o lugar dela. Aprendi a seguir em frente, reconstruí minha vida e encontrei pessoas que caminharam ao meu lado, mas amar como amei Helena... isso aconteceu apenas uma vez. Se algum dia você sentiu, ou sente, raiva de mim, eu vou entender. Você tem esse direito. Mas peço que nunca pense que a abandonei por escolha. Todos os dias em que estive longe de você foram dias roubados de nós. Há apenas um pedido que faço. Permita-se conhecer a Fazenda Montenegro. Não porque ela vale dinheiro, mas porque ela guarda quem eu fui. Cada árvore que plantei, cada cerca que consertei, cada animal de que cuidei, cada nascer do sol que admirei daquele alpendre... tudo isso também faz parte da sua história, da história que eu sonhei que você teria aqui. Talvez, caminhando por essas terras, você consiga encontrar um pouco do pai que a vida nos impediu de te apresentar, de viver ao seu lado. E, se depois de conhecer tudo isso você ainda decidir ir embora, vá em paz. Meu amor por você nunca dependerá do lugar onde escolher viver. Por fim, quero lhe pedir perdão. Perdão pelos aniversários que perdi. Pelos abraços que nunca dei. Pelas lágrimas que você chorou sem que eu pudesse enxugar. Perdão por não ter sido o pai que você merecia. Se Deus me conceder a chance de vê-la novamente, farei de tudo para recuperar o tempo que nos foi roubado. Mas, se esta carta chegar às suas mãos porque eu não consegui permanecer tempo suficiente... Saiba que partirei em paz apenas por ter tido a oportunidade de descobrir que você existe. Eu amo você. Com todo o amor que um pai pode sentir por uma filha. Com amor, Seu pai, Augusto Montenegro. As lágrimas agora molhavam a folha em minhas mãos. Nos tiraram tudo. E ficar aqui vai além de fazer jus ao último pedido dele. Eu vou até o fim para descobrir quem fez tudo isso e, mais ainda, limpar o nome da minha mãe, que foi impedida de ter a vida e a família que sonhou, que planejou. Eu vou até o fim atrás dessa verdade. Da minha verdade. Duas batidas na porta me trouxeram de volta à realidade. Estou longe de casa e, pelo pouco que já vi, preciso seguir os conselhos da minha mãe. Aqui todo mundo é vilão... — Pode entrar... Limpei as lágrimas com as costas das mãos enquanto a porta se abria. Mas eu não esperava ver quem estava ali...Capítulo 107Manuela Rossi MontenegroQuero um vestido que eu bata o olho e diga: é ele. Não quero ter dúvidas. Por isso está sendo tão difícil...Depois de deixar tudo no hotel, saímos eu, Ellen e minha mãe.Aqui tinha bastante loja desse gênero, exatamente por causa dos casamentos relâmpagos.Minha mãe estava melhor, mas ficava reclamando que estava com fome o tempo todo.O que nos fazia rir, porque, por cada lugar de comida que passávamos, ela comia alguma coisa.— Essa é a última loja. Estou cansada já. Depois daqui vamos jantar.Falei resmungando, já estava triste por não gostar de nada, quando vi o vestido mais perfeito que eu poderia usar no meu grande dia.Era modelo sereia, com decote coração, feito de cetim com um leve brilho.Eu queria um chapéu branco e botas texanas.Assim que o vesti, já fiquei emocionada.Ele caiu como uma luva. Parecia que tinha sido desenhado especialmente para o meu corpo.Minha mãe chorou muito quando me viu vestida. E olha que eu nem estava pronta
Capítulo 106Manuela Rossi MontenegroAcordei naquela manhã ao lado de Marcos e, por alguns segundos, fiquei apenas olhando para ele.Era estranho pensar que, depois de tudo o que havíamos vivido, finalmente estávamos ali.Miami.E, naquela noite, Las Vegas.Amanhã eu me casaria com o homem que amo.Depois de tomarmos banho e nos arrumarmos, descemos para o café da manhã.Ellen e Gael já estavam à mesa com meus pais. Assim que me aproximei, percebi que os dois trocavam olhares cúmplices. Eles estavam prontos para contar aos meus pais.Nós sentamos e logo minha mãe olhou pra eles com estranheza, Ellen quieta sempre era estranho.— O que foi? Aconteceu alguma coisa?Ellen olhou para Gael e sorriu.— Temos uma coisa para contar.— Que cara é essa? Agora fiquei preocupada.Gael segurou a mão dela.— Ontem, no jantar, eu fiz uma pergunta para a Ellen.Ellen levantou a mão, mostrando o anel.— E eu aceitei.Minha mãe ficou alguns segundos olhando para o anel antes de abrir um sorriso enorme
Capítulo 105Manuela Rossi MontenegroFizemos conexão em São Paulo e agora estamos na última, em Miami. Vamos ficar aqui hoje e embarcamos para Las Vegas somente amanhã à noite.Já era nosso plano inicial. Eu queria muito conhecer Miami, mas minha mãe está estranha. Mesmo dizendo que é apenas cansaço, estou preocupada.— O hotel que reservamos é aqui perto. Vamos tomar um banho e depois sair para dar uma explorada.— Acho que vou descansar um pouco, mas vocês podem aproveitar. Amanhã eu prometo que acompanho vocês.Minha mãe falou aquilo, me deixando ainda mais preocupada.— E para com essa carinha. Não é nada, só estou cansada.— Não seria melhor levar ela ao hospital, pai?— Não, nem começa. Só preciso descansar. Vocês são jovens, vão aproveitar.Depois que chegamos ao hotel, descobrimos que os três quartos ficavam no mesmo andar.Eu e Marcos tomamos banho e descemos para esperar Ellen e Gael no bar do hotel.— O que você acha que está acontecendo com a minha mãe?— Acho que ela est
Capítulo 104Marcos GoulartFiquei com Manuela nos meus braços durante a noite, como se, a qualquer segundo, ela pudesse escapar entre os meus dedos. A sensação de impotência era horrível demais.Eu sabia, entendia que a culpa era de Olívia, que ela havia feito aquilo, mas eu não consegui impedir. E, por mais coisas erradas que ela tivesse feito, ainda era um ser humano. Perturbado, perdido, capaz de tomar decisões terríveis, mas ainda assim um ser humano.Aquilo também me fez perceber ainda mais o quanto a vida era um sopro. Que não podíamos passar a existência inteira esperando pelo momento certo para viver nossos sonhos.O dia estava quase amanhecendo quando tirei Manuela devagar dos meus braços e fui até o meu quarto. Ajustei as últimas coisas que faltavam para a nossa viagem e desci atrás do cheiro de café que já havia tomado conta da casa.— Bom dia, pai. Bom dia, Helena.— Bom dia, meu filho. Como está? Conseguiu dormir?— Quase nada. Minha cabeça não desliga.— Foi muito trist
Capítulo 103Manuela Rossi MontenegroMeus pais assinaram os papéis do casamento na sala de casa.Os comes e bebes que haviam sido preparados para a festa agora pareciam apenas objetos perdidos no contexto daquele dia. Ninguém tinha cabeça para comemorar.A polícia estava ali, colhendo depoimentos e tentando entender exatamente o que havia acontecido.Marcos permanecia ao meu lado, ainda em choque. Pedi que Ellen e Gael fossem até o hospital para buscar notícias e nos manter informados.Enquanto isso, ficamos esperando que o local fosse periciado e que tudo fosse esclarecido.O delegado terminou de fazer algumas anotações e nos encarou.— Eu imagino que estejam todos muito abalados, mas vocês não tiveram culpa de nada. Ela estava em surto. Vocês souberam o que ela fez com o pai?— Não. Não tínhamos contato há muito tempo. Ela esteve aqui alguns dias atrás, mas mal passou do portão.O delegado assentiu.— Antes de vir para cá, ela brigou com o pai porque ele estava controlando o pouco
Capítulo 102Manuela Rossi MontenegroNo alto da cachoeira, Olívia apareceu vestida de noiva, gritando o nome do meu pai.— Augusto! Era eu quem tinha que estar aí, mas agora você vai levar a minha morte como culpa pelo resto da vida, manchando o dia do seu casamento!Meu pai olhou apavorado, e gritou enquanto segurava as mãos da minha mãe, que estava completamente nervosa.— Olívia, desça daí! Você tem a vida toda pela frente. Pode mudar, recomeçar onde quiser.— Eu vou lá. Fica aqui e não deixa ela perceber que estou indo.Marcos cochichou para mim, saindo de fininho.Os convidados começaram a balbuciar, assustados. Alguns se afastaram, outros tentavam entender o que estava acontecendo.— Não! Eu fiz de tudo! Mesmo depois que meu pai faliu, eu lutei para continuar com o meu status. Você me prometeu o mundo e agora está casando com outra!Olívia chorava, completamente transtornada.— Eu sofri o luto em meio ao caos. E você vai levar essa culpa para o túmulo!— Olívia, para com isso!







