INICIAR SESIÓNCapítulo 8
Manuela Rossi Olhei para ela por alguns segundos, esperando que dissesse alguma coisa. Eu sabia quem ela era por dedução. O enorme quadro na sala não deixava dúvidas. Dona Cecília Montenegro. Minha avó. E agora eu sabia que ela também era a razão de toda a minha dor, ou boa parte dela. Marcos surgiu logo atrás dela. Óbvio. Foi ele quem a trouxe até aqui. Ela se apoiava em uma bengala de madeira trabalhada. Até o pijama que usava parecia mais fino do que as roupas de show que eu possuía, as peças mais caras do meu guarda-roupa. Ela me encarou por alguns segundos antes de falar. — Então você é a filha da Helena... Sua voz, apesar de fraca, ainda carregava ódio. Isso só deixava mais claro tudo o que meu pai havia contado, por alto, na carta. Marcos lançou um olhar discreto para a avó e falou, num tom que deixava evidente seu receio. — Vó... — Não só da Helena, vó. Do pai também. Olhei diretamente para ela. — Sim, sou Manuela Rossi, filha de Helena Rossi. E é muito bom, enfim, saber que um homem tão bom foi meu pai. Ela sorriu de canto. — E tão rico, não é mesmo? Respirei fundo antes de responder. — Não. Eu não me importo com isso. Preferia ter todos esses anos de volta do que qualquer dinheiro que ele tenha me deixado, Dona Cecília. Ela me olhou de cima a baixo. Senti meu rosto esquentar, mas não baixei a guarda. Não vou deixar ninguém passar por cima de mim. — Vó, você já a conheceu. Agora vamos? — Ela é tão petulante quanto a mãe... Ela fez uma pausa, continuando a me observar. — Mas... ela lembra ele. Por um breve instante, vi uma sombra atravessar seus olhos. Remorso? Talvez. Mas, no segundo seguinte, ela virou as costas. Marcos a amparou, lançou um último olhar para mim, como se tentasse me decifrar em poucos segundos, e saiu ao lado dela pelo corredor. Fui até a porta e observei os dois se afastando. Antes de desaparecer no corredor, ele olhou para trás mais uma vez. Fechei a porta rapidamente. Uma coisa eu tinha certeza. Ficar aqui seria uma guerra de cão e gato todos os dias. Mas eu só sairia daqui com a verdade. Doesse a quem doesse. Olhei ao meu redor, observando cada canto daquele quarto digno de uma princesa. A princesa que eu poderia ter sido... se não tivessem roubado isso de mim. Mas isso já não importava. O que realmente importava era o tempo que perdi. O pai que nunca pude ter por culpa de alguém daquela casa. Comecei a guardar minhas roupas no enorme closet e nem percebi o tempo passar. Alguém bateu à porta. — Pode entrar. — Senhorita Manuela, o jantar será servido em uma hora. O senhor Marcos pediu que eu viesse avisá-la. — Obrigada, Dona Santa. Estou sem fome. — A senhorita precisa comer. Não comeu nada o dia inteiro. Sorri sem graça. — Nem vi as horas passarem, Dona Santa. Minha cabeça está uma bagunça tão grande... Ela me olhou com carinho. — Posso imaginar, senhorita. Mas, se me permite dizer... seu pai a amava muito. Procurou por vocês durante anos, mesmo com muita gente lutando para impedir. Meu coração acelerou. — A senhora... conheceu minha mãe também? — Sim. Estou nesta casa desde a adolescência do seu pai. Conheci cada namorada dele e posso afirmar, com toda certeza, que ele nunca amou ninguém como amou sua mãe. Engoli em seco. — E a esposa dele? Dona Santa suspirou pesado. — Foi mais um acordo entre famílias. Ela era viúva de um grande amigo dele. Seu pai prometeu cuidar do menino e, com o tempo, acabaram ficando juntos. Mas foi mais comodismo do que amor. — Por tantos anos? — Ela até podia amá-lo... ou gostar muito dele. Mas seu pai nunca esqueceu sua mãe. Isso é um fato. Até hoje existe uma fotografia dela escondida na gaveta do escritório. Uma gaveta trancada a sete chaves para que ninguém a tire de lá. Fiquei ainda mais pensativa. Eu realmente poderia ter tido uma família. Uma lágrima solitária escorreu pelo meu rosto. Sequei-a rapidamente com as costas da mão. Dona Santa segurou minha mão com delicadeza. — Pode contar comigo para o que precisar. Mesmo sendo apenas uma empregada, vou ajudá-la. Sei que é muita coisa para processar, mas vai dar tudo certo. Você tem muito mais direito de estar nesta casa do que muita gente sentada naquela mesa. As palavras dela me fizeram levantar da cama. Ela tinha razão. Eu não podia me curvar. Cabeça erguida. — Obrigada, Dona Santa. Vou tomar um banho, me trocar e desço em um instante. Ela sorriu. — Assim que se fala, menina. Seu pai deve estar muito feliz, onde quer que esteja. Aquela frase atravessou meu peito. Imaginar meu pai feliz era bonito... Mas doía. Porque eu nunca saberia como era vê-lo sorrir. Tomei um banho rápido, coloquei um vestido leve e uma bota. Eu não fazia ideia do que me esperava. Se duvidasse, estariam todos de terno, gravata e vestidos de grife. Desci a escadaria observando, com mais calma, cada detalhe da mansão. Era realmente tudo muito bonito. Luxuoso. Elegante. Mas havia algo estranho. A casa inteira tinha um toque feminino. Não existia um único detalhe que me dissesse quem meu pai realmente tinha sido. Era como se alguém tivesse apagado todos os vestígios dele dali. Ao chegar à enorme sala de jantar, todos já estavam sentados. Conversavam em voz baixa. Assim que meus passos ecoaram pelo ambiente, o silêncio caiu sobre a mesa. Todos os olhares se voltaram para mim. No lado esquerdo de Marcos havia um lugar cuidadosamente posto. Vazio. Esperando por mim. Ele ergueu os olhos e quebrou o silêncio. — Achamos que você não fosse descer... Sustentei o olhar dele, caminhei até a cadeira sem desviar os olhos de ninguém e respondi, com um pequeno sorriso que escondia toda a tempestade dentro de mim: — Eu não perderia o meu primeiro jantar... em família. O silêncio que veio depois falou muito mais alto do que qualquer resposta. E, acredito que agora, todos naquela mesa entenderam uma coisa. Eu tinha chegado. E não pretendia ir embora, não sem todas as minhas respostas...Capítulo 107Manuela Rossi MontenegroQuero um vestido que eu bata o olho e diga: é ele. Não quero ter dúvidas. Por isso está sendo tão difícil...Depois de deixar tudo no hotel, saímos eu, Ellen e minha mãe.Aqui tinha bastante loja desse gênero, exatamente por causa dos casamentos relâmpagos.Minha mãe estava melhor, mas ficava reclamando que estava com fome o tempo todo.O que nos fazia rir, porque, por cada lugar de comida que passávamos, ela comia alguma coisa.— Essa é a última loja. Estou cansada já. Depois daqui vamos jantar.Falei resmungando, já estava triste por não gostar de nada, quando vi o vestido mais perfeito que eu poderia usar no meu grande dia.Era modelo sereia, com decote coração, feito de cetim com um leve brilho.Eu queria um chapéu branco e botas texanas.Assim que o vesti, já fiquei emocionada.Ele caiu como uma luva. Parecia que tinha sido desenhado especialmente para o meu corpo.Minha mãe chorou muito quando me viu vestida. E olha que eu nem estava pronta
Capítulo 106Manuela Rossi MontenegroAcordei naquela manhã ao lado de Marcos e, por alguns segundos, fiquei apenas olhando para ele.Era estranho pensar que, depois de tudo o que havíamos vivido, finalmente estávamos ali.Miami.E, naquela noite, Las Vegas.Amanhã eu me casaria com o homem que amo.Depois de tomarmos banho e nos arrumarmos, descemos para o café da manhã.Ellen e Gael já estavam à mesa com meus pais. Assim que me aproximei, percebi que os dois trocavam olhares cúmplices. Eles estavam prontos para contar aos meus pais.Nós sentamos e logo minha mãe olhou pra eles com estranheza, Ellen quieta sempre era estranho.— O que foi? Aconteceu alguma coisa?Ellen olhou para Gael e sorriu.— Temos uma coisa para contar.— Que cara é essa? Agora fiquei preocupada.Gael segurou a mão dela.— Ontem, no jantar, eu fiz uma pergunta para a Ellen.Ellen levantou a mão, mostrando o anel.— E eu aceitei.Minha mãe ficou alguns segundos olhando para o anel antes de abrir um sorriso enorme
Capítulo 105Manuela Rossi MontenegroFizemos conexão em São Paulo e agora estamos na última, em Miami. Vamos ficar aqui hoje e embarcamos para Las Vegas somente amanhã à noite.Já era nosso plano inicial. Eu queria muito conhecer Miami, mas minha mãe está estranha. Mesmo dizendo que é apenas cansaço, estou preocupada.— O hotel que reservamos é aqui perto. Vamos tomar um banho e depois sair para dar uma explorada.— Acho que vou descansar um pouco, mas vocês podem aproveitar. Amanhã eu prometo que acompanho vocês.Minha mãe falou aquilo, me deixando ainda mais preocupada.— E para com essa carinha. Não é nada, só estou cansada.— Não seria melhor levar ela ao hospital, pai?— Não, nem começa. Só preciso descansar. Vocês são jovens, vão aproveitar.Depois que chegamos ao hotel, descobrimos que os três quartos ficavam no mesmo andar.Eu e Marcos tomamos banho e descemos para esperar Ellen e Gael no bar do hotel.— O que você acha que está acontecendo com a minha mãe?— Acho que ela est
Capítulo 104Marcos GoulartFiquei com Manuela nos meus braços durante a noite, como se, a qualquer segundo, ela pudesse escapar entre os meus dedos. A sensação de impotência era horrível demais.Eu sabia, entendia que a culpa era de Olívia, que ela havia feito aquilo, mas eu não consegui impedir. E, por mais coisas erradas que ela tivesse feito, ainda era um ser humano. Perturbado, perdido, capaz de tomar decisões terríveis, mas ainda assim um ser humano.Aquilo também me fez perceber ainda mais o quanto a vida era um sopro. Que não podíamos passar a existência inteira esperando pelo momento certo para viver nossos sonhos.O dia estava quase amanhecendo quando tirei Manuela devagar dos meus braços e fui até o meu quarto. Ajustei as últimas coisas que faltavam para a nossa viagem e desci atrás do cheiro de café que já havia tomado conta da casa.— Bom dia, pai. Bom dia, Helena.— Bom dia, meu filho. Como está? Conseguiu dormir?— Quase nada. Minha cabeça não desliga.— Foi muito trist
Capítulo 103Manuela Rossi MontenegroMeus pais assinaram os papéis do casamento na sala de casa.Os comes e bebes que haviam sido preparados para a festa agora pareciam apenas objetos perdidos no contexto daquele dia. Ninguém tinha cabeça para comemorar.A polícia estava ali, colhendo depoimentos e tentando entender exatamente o que havia acontecido.Marcos permanecia ao meu lado, ainda em choque. Pedi que Ellen e Gael fossem até o hospital para buscar notícias e nos manter informados.Enquanto isso, ficamos esperando que o local fosse periciado e que tudo fosse esclarecido.O delegado terminou de fazer algumas anotações e nos encarou.— Eu imagino que estejam todos muito abalados, mas vocês não tiveram culpa de nada. Ela estava em surto. Vocês souberam o que ela fez com o pai?— Não. Não tínhamos contato há muito tempo. Ela esteve aqui alguns dias atrás, mas mal passou do portão.O delegado assentiu.— Antes de vir para cá, ela brigou com o pai porque ele estava controlando o pouco
Capítulo 102Manuela Rossi MontenegroNo alto da cachoeira, Olívia apareceu vestida de noiva, gritando o nome do meu pai.— Augusto! Era eu quem tinha que estar aí, mas agora você vai levar a minha morte como culpa pelo resto da vida, manchando o dia do seu casamento!Meu pai olhou apavorado, e gritou enquanto segurava as mãos da minha mãe, que estava completamente nervosa.— Olívia, desça daí! Você tem a vida toda pela frente. Pode mudar, recomeçar onde quiser.— Eu vou lá. Fica aqui e não deixa ela perceber que estou indo.Marcos cochichou para mim, saindo de fininho.Os convidados começaram a balbuciar, assustados. Alguns se afastaram, outros tentavam entender o que estava acontecendo.— Não! Eu fiz de tudo! Mesmo depois que meu pai faliu, eu lutei para continuar com o meu status. Você me prometeu o mundo e agora está casando com outra!Olívia chorava, completamente transtornada.— Eu sofri o luto em meio ao caos. E você vai levar essa culpa para o túmulo!— Olívia, para com isso!







