LOGINAmélia respirou fundo e ergueu a tampa com cuidado excessivo, como se o mínimo movimento pudesse disparar algo invisível.As fotos estavam organizadas em camadas.A primeira mostrava Catherine jovem, sorrindo para a câmera em um dia comum demais para ser memorável. Amélia engoliu em seco. A segunda era dela ainda criança, no quintal da antiga casa, o vestido manchado de terra, o cabelo preso de qualquer jeito.Ela virou outra. E outra.Momentos que não estavam em redes sociais. Que não haviam sido compartilhados com ninguém. Fotografias que pertenciam a caixas guardadas no fundo de armários, a memórias que ela acreditava estarem enterradas junto com a própria infância.Então seus dedos pararam.A foto era antiga. O papel, amarelado pelo tempo. Catherine aparecia sentada, uma das mãos apoiada sobre o ventre ainda pequeno, o olhar distante, quase sério.Só existia uma única cópia daquela foto. Uma cópia guardada no cofre do seu pai que, por um acaso, ela descobriu quando tinha onze anos
Aquela sensação de estar sendo constantemente monitorada não foi embora.Nos dias seguintes, Amélia tentou se convencer de que era apenas ansiedade, um reflexo tardio de tudo o que vinha vivendo, o novo relacionamento, as provas da faculdade, cuidar do Noah. Mas o corpo não mentia. O arrepio na nuca vinha sem aviso, no meio da rua, na faculdade, até dentro de cafeterias ou mercados.Ela passou a mudar suas rotas. Entrava em lojas sem precisar comprar nada, evitava andar sozinha ou a pé.E, ainda assim, sentia a incômoda sensação de estar sendo seguida. Naquela manhã, ao sair do prédio, teve certeza.Não viu ninguém claramente. Nenhum rosto suspeito. Mas, ao atravessar a rua, percebeu o reflexo de alguém parado do outro lado, imóvel demais para ser coincidência.O coração bateu forte.Amélia entrou no primeiro café que encontrou, sentou-se perto da vitrine e fingiu olhar o celular. As mãos tremiam levemente enquanto digitava uma mensagem que apagou três vezes antes de enviar.Estou fic
O dia estava bonito demais para ser ignorado, o céu limpo, o sol morno e o vento leve carregando o cheiro de café fresco recém passado na cozinha.— Bom dia, flor do dia. — Tessa sorriu servindo uma xícara de café para Amélia.— Bom dia. — Sorriu dando um beijo na bochecha da amiga antes de procurar a geleia na geladeira.— Acordou de bom humor? — Tessa sentou-se na mesa.— O sol está muito bonito hoje, me deu ânimo. — Riu levemente ficando corada. — E também porque o Damian disse que iríamos sair a noite.— O sol uma pinoia. — Tessa gargalhou.Alguns minutos depois, Amélia saiu do prédio com sua bolsa em um dos ombros e os fones descansando no pescoço sem música. Queria ouvir a cidade.Decidira ir a pé para a faculdade naquela manhã. Não era longe e depois de tanto tempo andando de carro para onde quer que fosse, sentia falta de caminhar sozinha.O celular vibrou no bolso da calça.Damian: Bom dia, princesa. Dormiu bem?Amélia: Bom dia, amor. Dormi sim. O dia está lindo. Estou indo a
Eleanor caminhava com confiança, como quem sabia exatamente onde estava pisando. Não havia pressa, muito menos hesitação.O segurança sequer a deteve quando ela disse o seu nome. Apenas acenou com a cabeça e liberou sua entrada. A mulher sorriu ladino.Minutos depois, as portas se abriram para o vigésimo quinto andar, o andar executivo onde apenas Richard Bennet tinha acesso livre.Richard estava de costas observando Londres através das janelas amplas, um copo de whisky intacto sobre a mesa. Não ficou surpreso ao ouvir o som dos saltos atrás de si.— Chegou na hora. — Disse finalmente se virando para olhar a mulher que se sentava como se fosse dona do lugar.— Sou pontual, querido. — Ronronou sorrindo.— Vamos organizar o plano com calma. — Disse se aproximando da mesa. — Se vamos jogar com Damian Blake, não podemos ser impulsivos.Eleanor cruzou as pernas atenta.— Damian Blake não é um homem fácil de atacar, mas não é uma muralha impenetrável. — Antes de qualquer ataque, precisamos
A primeira coisa que Tessa sentiu ao acordar foi a dor de cabeça.Não era insuportável, mas era o suficiente para fazê-la franzir o cenho antes mesmo de abrir os olhos. O segundo detalhe veio logo depois: o silêncio. Um silêncio confortável, interrompido apenas pela respiração tranquila ao seu lado.Quando abriu os olhos, o teto não era o seu.Ela virou o rosto devagar e lá estava Aaron, ainda dormindo, de lado, com o lençol parcialmente jogado sobre o corpo nu. O rosto relaxado, o cabelo levemente bagunçado, como se ele não tivesse nenhuma preocupação no mundo naquele instante.A memória veio inteira. Crua. Sem falhas.O beijo. A conversa que foi ficando mais baixa. O riso nervoso que virou algo completamente diferente. O momento em que ela deixou de pensar demais.Tessa levou a mão ao rosto, sentando-se na cama com cuidado, sentindo o próprio coração acelerar.— Meu Deus… — murmurou para si mesma.Por alguns segundos, o choque veio acompanhado da velha vontade de se culpar. Question
A Hartlight Studios nunca dormia de verdade.Mesmo fora dos horários de gravação, o prédio mantinha aquele ar constante de poder em movimento: corredores silenciosos demais, funcionários caminhando com pressa contida, contratos sendo assinados atrás de portas de vidro fosco. Richard Bennett gostava daquele ambiente. Era ali que ele se sentia no controle. Onde pessoas entravam pequenas… e saíam devendo.Por isso, quando sua secretária anunciou que havia uma mulher exigindo vê-lo sem horário marcado, Richard franziu o cenho, incomodado.— Nome? — perguntou, seco.— Eleanor Ward.O nome não lhe dizia nada.— Diga que estou ocupado.— Ela disse… — a secretária hesitou — que envolve... Amélia Bennett, sua filha.O incômodo se transformou em interesse no mesmo instante.— Mande entrar.Eleanor entrou sem pedir licença.Era o tipo de mulher que sabia ocupar espaço. Vestia-se bem demais para alguém que dizia viver à margem, maquiagem impecável, postura ensaiada. Os olhos, porém, carregavam al







