A Herdeira virou a babá do meu filho

A Herdeira virou a babá do meu filho

last updateÚltima atualização : 2026-02-03
Por:  RafaEm andamento
Idioma: Portuguese
goodnovel16goodnovel
10
1 classificação. 1 avaliação
45Capítulos
715visualizações
Ler
Adicionar à biblioteca

Compartilhar:  

Denunciar
Visão geral
Catálogo
ESCANEIE O CÓDIGO PARA LER NO APP

Amélia nasceu cercada por luxo, fama e expectativas. Filha da maior estrela do cinema britânico e de um magnata do entretenimento, sua vida sempre esteve sob os holofotes, palcos, entrevistas, recitais… Até que tudo desabou. A morte precoce de sua mãe e um acidente que feriu gravemente suas mãos a afastaram do piano, da arte e do futuro brilhante que o mundo esperava dela. Sem coragem para revelar a verdade ao pai, Amélia viveu anos presa a uma imagem que já não conseguia sustentar. E quando ele a força a tocar em um baile, ignorando sua dor, ela finalmente decide fugir. Fugir do sobrenome. Fugir das expectativas. Dois anos depois, longe dos flashes e vivendo sob identidade simples, Amélia encontra refúgio em um emprego inesperado: babá do filho de Damian Blake, o magnata da tecnologia e do entretenimento digital mais poderoso da Inglaterra. Damian é reservado, brilhante, controlador… e completamente quebrado por um passado que mantém enterrado a qualquer custo. Ele construiu um império, mas não consegue tocar nas próprias cicatrizes. E Amélia é tudo o que ele não deveria querer: jovem, doce, sonhadora, e dona de uma luz que atravessa as defesas dele com facilidade perigosa. O que começa como convivência se transforma em tensão. A tensão vira desejo. E o desejo, inevitavelmente, ameaça despertar fantasmas que nenhum dos dois está pronto para enfrentar. Enquanto Amélia luta com as lembranças dolorosas do que perdeu, Damian enfrenta o trauma que o tornou o homem que ele é. Mas o passado não fica enterrado por muito tempo, e quando alguém que deveria permanecer distante reaparece, tudo que eles construíram começa a ruir. Entre segredos, medo e um amor que nasce onde não deveria, Amélia e Damian descobrem que algumas cicatrizes só podem ser curadas quando duas almas despedaçadas escolhem se encontrar.

Ver mais

Capítulo 1

Londres, 21 de junho de 2021

O verão já havia chegado a Londres e, com ele, a temporada de festas de gala.

Amélia encarava a arara repleta de vestidos dos mais variados tons enquanto respirava fundo, tentando convencer o próprio corpo de que não havia motivo para surtar antes mesmo de chegar ao evento.

Mas havia. Ela sabia que havia.

Deveria ter ouvido aquela pequena voz em sua cabeça quando Richard a convidara para acompanhá-lo naquela noite. Deveria ter inventado uma desculpa. Qualquer uma.

Mas aceitara.

E agora estava ali, diante de dezenas de vestidos, tentando escolher qual deles esconderia melhor o desconforto que carregava por dentro. Se pudesse, escolheria qualquer coisa que a tornasse invisível.

Acabou optando por um vestido verde-menta, confeccionado em um tecido leve e elegante. O drapeado suave sobre o busto e as alças finas faziam a peça parecer quase um tomara que caia delicado. O decote reto deixava os ombros à mostra, enquanto o tecido acompanhava sua silhueta sem apertá-la.

Era lindo. Amélia, porém, não conseguia sentir-se bonita. Sentia-se cansada. Completamente vazia.

Parou diante das luvas de cetim no mesmo tom do vestido e, por alguns segundos, apenas as encarou. Então soltou uma risada baixa e amarga. Era quase irônico que seu pai acreditava que ela havia desenvolvido misofobia. Todos acreditavam.

Ninguém imaginava que aquelas luvas não escondiam um medo de germes. Escondiam as cicatrizes e a dor. Escondiam o que restara de um sonho que um dia havia sido tudo para ela.

Amélia vestiu as luvas lentamente e depois ergueu os olhos para o espelho. Apesar do lindo vestido e das joias que adornavam o seu pescoço, ela não conseguia desviar o olhar do seu próprio reflexo. Seus olhos carregavam uma tristeza que nenhum vestido, maquiagem ou máscara seria capaz de esconder.

A porta se abriu.

— Lia.  — Richard entrou no camarim e parou diante da filha enquanto seus olhos percorriam Amélia de cima a baixo. — Essa cor não combina muito com você.

Ela abaixou os olhos segurando uma risada irônica. Claro que não combinava. Nada ali combinava com ela.

— Mas tudo bem — ele continuou e fez um movimento para que algumas pessoas da equipe entrassem no camarim. — Não temos tempo para você se trocar. Deixe que os profissionais façam uma boa maquiagem. Quero que esteja impecável. — Hoje você irá brilhar de outra forma.

Amélia sentiu um arrepio percorrer sua espinha.

Brilhar de outra forma.

Não sabia por quê, mas aquelas palavras fizeram seu estômago se revirar.

Richard murmurou algumas instruções para o maquiador e saiu para terminar de se arrumar.

Amélia ficou em silêncio enquanto profissionais mexiam em seus cabelos, aplicavam maquiagem em seu rosto e ajustavam cada detalhe do vestido.

E durante quase três horas, ninguém perguntou se ela queria estar ali. Ninguém perguntou se estava bem.

E talvez fosse melhor assim. Porque ela não sabia responder.

Após a equipe de cabelo e maquiagem irem embora, Richard apareceu no camarim e sorriu estendendo uma máscara branca e delicada para a filha.

— Vamos? — Amélia ergueu os olhos e sentiu o coração acelerar novamente, seu pai estava diante dela, impecável em seu terno e com um sorriso que dizia estar preparando algo. — O baile começa em breve. Temos convidados para recepcionar.

Amélia pegou a máscara e a colocou. Seu rosto ficou parcialmente escondido e talvez fosse melhor assim. Talvez aquela fosse a única forma de ninguém perceber que ela não queria estar ali.

Amélia odiava tudo relacionado à empresa do pai. Tudo naquela empresa, fossem os corredores, os eventos, as reuniões, os filmes ou as festas, tudo aquilo carregava lembranças de sua mãe. Inclusive o nome da empresa que carregava o sobrenome da sua mãe. 

E, desde que Catherine morrera, parecia que cada pedaço daquela empresa havia se tornado uma lembrança de tudo o que ela havia perdido.

— Evite falar com os investidores — Richard disse enquanto caminhava ao lado da filha. — Quero que passe despercebida até o momento em que eu chamar você. — Amélia assentiu sem questionar, aquilo era exatamente o que ela queria. Passar despercebida. — O CEO da NovaCore Group estará lá. Quero conseguir um investimento dele, e eu tenho uma carta na manga para isso.

— NovaCore Group? — Ela franziu a testa. — Essa não é aquela empresa de tecnologia que começou em uma garagem?

— Começou em uma garagem. Hoje é a maior empresa de streaming e inteligência artificial do país. — Richard sorriu e então parou diante das portas do salão. — Se eu conseguir que o senhor Blake invista na HartLight, nossa empresa poderá se tornar a maior indústria de entretenimento do mundo.

— E por que não trouxe Miranda ou as gêmeas? — Havia um amargor evidente em sua voz.

— Porque as gêmeas não são minhas filhas de sangue. — Amélia sentiu o maxilar endurecer. — E Miranda não possui tanta classe quanto você. Catherine ensinou você muito bem a se portar em festas desse nível.

E aquilo doeu mais do que deveria. Sempre Catherine. Até quando seu pai queria alguma coisa dela, usava a memória de sua mãe para conseguir.

— Além disso, tenho um anúncio esta noite. — Richard ajeitou a máscara. — E envolve você.

— Me envolve? — Amélia franziu o cenho.

— Você é a minha carta na manga.

— O quê? — Seu coração vacilou.

Richard não respondeu, ele já havia aberto as portas para o grande salão que parecia ter saído de um conto de fadas.

Lustres de cristal derramavam reflexos dourados sobre os convidados mascarados, fazendo o salão parecer ainda mais grandioso do que realmente era. Flores brancas ocupavam o centro das mesas impecavelmente arrumadas, enquanto garçons circulavam entre os convidados com taças de champanhe nas mãos. No centro de tudo, como se fosse o verdadeiro coração daquela celebração, um piano de cauda negro permanecia sob a luz dos lustres, esperando pelas mãos de alguém que soubesse fazê-lo cantar.

Amélia parou assim que o viu.

O coração apertou dentro do peito, e por um instante todo o restante pareceu perder importância. O pianista começou a tocar, deixando que uma melodia suave se espalhasse pelo salão, preenchendo os espaços entre as conversas e as risadas. Amélia deveria ter continuado andando. Deveria ter acompanhado o pai e fingido interesse pelas pessoas que ele fazia questão de impressionar, mas seus olhos permaneceram presos às mãos do músico.

Aos dedos que deslizavam pelas teclas com uma precisão delicada, quase natural. À maneira como se moviam sem hesitação, livres para transformar cada toque em música.

Ela conhecia a sensação de posicionar os dedos sobre as teclas, de pressionar uma delas e sentir o som nascer sob suas próprias mãos. Conhecia a liberdade que encontrava diante de um piano, quando o mundo inteiro parecia desaparecer e tudo o que existia era a música. Por alguns segundos, conseguiu até imaginar como seria voltar a se sentar diante de um instrumento e tocar novamente, como fazia antes de tudo ser destruído.

Mas a lembrança veio acompanhada de uma pontada de inveja ao observar aquelas mãos se movendo com tanta facilidade. Depois veio a saudade, uma saudade quase física da garota que costumava passar horas diante do piano, acreditando que aquele seria o seu futuro. E, por fim, veio aquilo que sempre vinha quando se permitia lembrar: a dor de saber que o sonho que dividira com a mãe havia sido arrancado dela.

Amélia desviou o olhar, sentindo a garganta apertar. Precisava respirar.

Sem dizer nada ao pai, afastou-se alguns passos e procurou um canto mais reservado do salão, onde pudesse recuperar o controle antes que alguém percebesse o que estava acontecendo. Naquela noite, queria ser invisível. Queria desaparecer por alguns minutos e não precisar representar o papel de filha perfeita que Richard esperava dela.

O baile inteiro, com suas máscaras, vestidos luxuosos e sorrisos cuidadosamente ensaiados, pareceu ainda mais ridículo naquele momento. Era apenas um grande espetáculo, uma vitrine disfarçada de celebração, e Amélia não queria fazer parte dele.

Uma enorme vitrine criada para que homens ricos fingissem celebrar cinema enquanto, nos bastidores, caçavam investidores.

Foi então que uma voz surgiu atrás dela.

— Está fugindo de alguém?

Amélia se virou, encontrando um homem que parecia tão pouco interessado naquela festa quanto ela. A primeira coisa que notou foi a altura; ele era alguns centímetros mais alto que ela, com os ombros largos sob o terno escuro que vestia com uma elegância discreta, sem o menor esforço para chamar atenção. A máscara cobria parte de seu rosto, deixando apenas os olhos completamente expostos, e foram eles que fizeram Amélia hesitar por um instante. Eram azuis, profundos e atentos, mas havia algo difícil de decifrar naquele olhar, uma espécie de calma que contrastava com o movimento constante do salão ao redor. Por um breve segundo, ela simplesmente se esqueceu de respirar.

— Talvez. — Um sorriso pequeno surgiu em seus lábios. — Ou de todos.

Ele sustentou o olhar dela por alguns segundos, como se estivesse considerando aquela resposta, antes de deixar escapar uma risada baixa. Não parecia uma risada ensaiada para impressioná-la, tampouco havia qualquer traço daquela confiança exagerada que Amélia estava acostumada a encontrar nos homens que frequentavam os eventos de seu pai. Era apenas um som discreto, quase íntimo, que fez seus ombros relaxarem um pouco.

— Compartilho do mesmo sentimento.

Ele estendeu a mão para ela, e Amélia baixou os olhos por um instante, observando os dedos que aguardavam sua decisão.

— Aceita dançar comigo?

— Por quê? — A pergunta escapou antes que pudesse pensar melhor.

— Porque, se você está tentando fugir de todos eles, talvez seja mais fácil fazermos isso juntos. — O canto da boca dele se ergueu.

Amélia não conseguiu evitar a risada. Foi baixa e breve, mas genuína, e ela própria pareceu surpresa por ainda ser capaz de rir naquela noite. O desconhecido continuava com a mão estendida, esperando sem pressioná-la, e havia alguma coisa naquela atitude que lhe pareceu estranhamente confortável. Ele não perguntava seu nome, não queria saber quem era seu pai, não parecia interessado em descobrir quanto dinheiro havia por trás daquele vestido ou por que uma garota como ela estava sozinha em um canto daquele salão. Apenas esperava.

Por alguns segundos, Amélia quase esqueceu o aviso de Richard.

Passe despercebida.

Mas aquele homem não sabia quem ela era. Não sabia que ela era filha de Richard Bennett, não conhecia sua família e, aparentemente, não esperava absolutamente nada dela. Naquela noite, talvez aquela fosse a primeira vez em que alguém se aproximava sem enxergar antes o sobrenome que carregava.

— Uma dança — concordou por fim.

Quando colocou a mão enluvada sobre a dele, sentiu um arrepio discreto percorrer o braço. O toque durou apenas o necessário para que ele a conduzisse até a pista, mas alguma coisa naquela proximidade fez seu corpo reagir antes que sua mente pudesse encontrar uma explicação. Talvez fosse apenas o cansaço. Talvez a atmosfera daquele lugar. Ou talvez fosse o simples fato de que, pela primeira vez naquela noite, ela não estava pensando no que deveria fazer.

A música os envolveu assim que chegaram à pista, e ele pousou uma das mãos em sua cintura com uma delicadeza que a surpreendeu. Não havia pressa em seus movimentos; ele parecia conhecer a música e, ainda assim, conduzia sem transformar a dança em uma demonstração de habilidade. Amélia acompanhou seus passos quase por instinto.

— Você não costuma dançar com estranhos? — perguntou ele depois de algum tempo.

— Costumo não dançar.

— Com ninguém? — Ele baixou os olhos para ela, aparentemente divertido.

— Com ninguém.

— Então devo me sentir especialmente privilegiado. — Uma sobrancelha se ergueu por baixo da máscara.

— E você? Costuma convidar desconhecidas para dançar? — Amélia sorriu.

— Costumo não vir a eventos.

— Então por que veio?

Dessa vez, ele demorou um pouco mais para responder.

— Uma obrigação. — A resposta foi simples, mas não pareceu completa.

Havia alguma coisa naquele homem que despertava sua curiosidade, embora ela não soubesse dizer exatamente o quê. Talvez fosse a maneira como ele conseguia permanecer tranquilo em meio àquele salão cheio de pessoas tentando impressionar umas às outras. Talvez fosse o silêncio que não parecia constrangedor quando vinha dele. Ou talvez fosse simplesmente a sensação incomum de estar conversando com alguém que não parecia querer arrancar nada dela.

— Principalmente quando é um baile de máscaras em pleno século vinte e um — acrescentou ele, depois de alguns segundos.

A observação arrancou outra risada dela e, por alguns minutos, Amélia se permitiu esquecer.

Esqueceu Richard, esqueceu Miranda, esqueceu as gêmeas e todas as coisas que a esperavam quando aquela noite terminasse. Até mesmo o piano, que continuava no centro do salão, desapareceu de seus pensamentos. Havia apenas a música, o movimento lento dos dois pela pista e a estranha tranquilidade que aquele desconhecido lhe proporcionava.

Ela não sabia seu nome e ele não sabia o dela. E talvez fosse justamente isso que tornava aqueles minutos tão fáceis. O olhar dele acabou se desviando para o piano, antes de voltar para ela.

— Você parece gostar de música. Passou bastante tempo olhando para o pianista.

— O piano e as mãos dele, na verdade. — Ela sorriu de leve, mas havia algo diferente naquele sorriso.

A resposta fez com que ele a observasse por um instante mais demorado e Amélia desviou os olhos para as próprias mãos, escondidas sob as luvas de cetim.

— Eu gosto de piano. — Sua voz perdeu um pouco de leveza. — Gostava, na verdade.

Ele percebeu e dessa vez, não tentou preencher o silêncio com outra pergunta. Apenas continuou dançando, como se entendesse que havia coisas que não deveriam ser arrancadas de alguém à força.

— Gostava de tocar — acrescentou depois de alguns segundos, quase num sussurro. — Até alguns anos atrás.

O olhar dele permaneceu sobre ela por um momento. Não havia pena em seus olhos, e isso a surpreendeu. Apenas uma atenção silenciosa, como se tivesse percebido que aquela pequena frase escondia muito mais do que ela pretendia revelar.

Talvez por isso tenha se permitido olhá-lo novamente e Amélia se perguntou quem ele era. Pela primeira vez naquela noite, teve vontade de descobrir.

A música começou a desacelerar, anunciando o fim da dança, e ele diminuiu os passos até que ambos parassem.

— Seu nome... — perguntou, mantendo os olhos nela. — Posso saber?

Amélia abriu a boca para responder, mas não teve tempo. A voz de um dos responsáveis pelo evento ecoou pelo salão, pedindo a atenção dos convidados, e logo o nome de Richard Bennett foi anunciado. Fazendo Amélia ficar imóvel.

O homem percebeu a mudança antes mesmo de compreender o que havia acontecido. O corpo dela enrijeceu sob sua mão e, de repente, toda a tranquilidade que havia surgido durante aqueles poucos minutos desapareceu de seu rosto. Seus olhos percorreram o salão até encontrarem Richard.

Foi como se ela tivesse sido arrancada de um lugar onde finalmente conseguira respirar.

— Preciso ir. — Ela se afastou, mas ele ainda demorou um segundo para soltá-la.

— Espere…

Amélia balançou a cabeça.

— Foi uma boa dança. — Havia um sorriso em seus lábios, mas ele não alcançou seus olhos. — Obrigada.

Ela se afastou antes que ele pudesse dizer qualquer outra coisa.

O homem permaneceu parado no meio da pista, observando-a atravessar o salão. Não sabia seu nome, não sabia quem ela era e, ainda assim, havia alguma coisa naquela despedida que lhe deixou uma sensação estranha, como se a dança tivesse terminado cedo demais.

Seus olhos acompanharam cada passo dela até que Amélia parasse diante de Richard.

O sorriso que surgiu no rosto do homem mais velho não combinava com a expressão da mulher ao seu lado. Richard colocou as mãos sobre os ombros dela e se voltou para os convidados, apresentando-a com a naturalidade de quem exibia algo de que se orgulhava.

— Queridos companheiros de profissão. — Richard começou. Encarando cada um dos rostos mascarados, procurando algum que pudesse ser o dono da NovaCore Group. — Estamos aqui hoje para celebrar o lançamento do filme “Ecos do Passado”, um lindo filme que se passa no século vinte, o baile de máscaras hoje é inspirado no filme.

Amélia estava se perguntando o que seu pai estava tramando e o que ela tinha a ver com aquilo. Qual era o motivo do pai dela a colocar no palco a poucos passos dele?

— Mas além do lançamento do filme, quero que deem as boas-vindas a uma excelente pianista. — Richard apontou para Amélia e a luz focou nela, fazendo seu coração acelerar. — Amélia Bennett, minha filha e de Catherine. A minha nova estrela. A nova pianista da HartLight Studios.

Amélia sentiu o sangue desaparecer de seu rosto e por alguns segundos, foi como se não tivesse entendido o que Richard acabara de dizer. As palavras pareciam ter chegado até ela distorcidas pelo eco das conversas, pela música que ainda tocava ao fundo e pelo próprio coração, que batia tão forte que quase abafava todo o resto. Ela olhou para o piano de cauda negro no centro do salão e, depois, para o pai, tentando encontrar em sua expressão qualquer sinal de que aquilo fosse apenas uma brincadeira de mau gosto.

Não havia. Richard realmente pretendia colocá-la diante daquele piano.

— E agora, para aqueles que ainda não tiveram a oportunidade de conhecer o talento da minha filha... — ele continuou, sorrindo para os convidados como se estivesse anunciando a maior conquista de sua vida. — Amélia fará uma pequena demonstração.

Algumas pessoas começaram a aplaudir, mas Amélia permaneceu imóvel, sentindo os dedos se fecharem dentro das luvas de cetim. As cicatrizes escondidas sob o tecido começaram a latejar, como se o próprio corpo tivesse entendido antes dela o que Richard estava tentando fazer. Não era apenas uma apresentação. Ele queria obrigá-la a tocar diante de dezenas de pessoas, depois de anos sem sequer se aproximar de um piano.

E ele sabia.

Talvez não soubesse a verdadeira razão, talvez nunca tivesse imaginado o que haviam feito com suas mãos, mas sabia que ela não tocava. Sabia que aquele assunto era doloroso. Sabia que Amélia evitava qualquer coisa relacionada à música e, ainda assim, decidira colocá-la no centro daquele salão sem sequer perguntar.

Richard estendeu a mão em sua direção.

— Venha, Lia.

Ela não se moveu.

O sorriso dele permaneceu no rosto por alguns segundos, sustentado apenas para que os convidados não percebessem o que estava acontecendo. Então Richard se aproximou e segurou o braço da filha, mantendo a expressão cordial enquanto seus dedos se fechavam com força sobre a pele.

— Papai… — Amélia sentiu uma pontada de dor e conteve um gemido.

— Não me faça passar vergonha. — A voz dele saiu baixa, quase inaudível para os outros.

— Eu não posso tocar. — Amélia ergueu os olhos para ele.

— Você vai tocar. — Richard apertou seu braço ainda mais.

— Está me machucando.

— Então pare de resistir.

Ela sentiu os olhos se encherem de lágrimas.

Ao redor deles, ninguém parecia perceber. Os convidados continuavam conversando, alguns ainda olhavam na direção do palco, esperando pela apresentação que Richard havia prometido. Para aquelas pessoas, ele era apenas um pai orgulhoso apresentando a filha. Um homem elegante, sorridente, aparentemente amoroso.

Ninguém via a maneira como seus dedos estavam enterrados no braço dela. Ninguém via Amélia tentando não tremer.

— Se você não tocar aquele piano — Richard murmurou, aproximando o rosto do dela —, pode esquecer que tem uma casa para voltar.

— O quê? — Amélia piscou lentamente.

— Você ouviu. — A ameaça atingiu algum lugar dentro dela que já estava cansado demais para sentir medo. — Eu vou deserdar você se for necessário. E, quando chegar em casa, quero que coloque suas coisas para fora.

Por um instante, Amélia apenas o encarou.

Aquele deveria ser o momento em que ela cederia. Durante toda a sua vida, fora isso que aprendera a fazer. Ceder. Silenciar. Engolir as lágrimas. Fazer o que Richard queria para evitar uma discussão, uma ameaça, uma punição ou simplesmente aquele olhar decepcionado que ele sabia usar tão bem.

Mas alguma coisa dentro dela havia chegado ao limite. Talvez tivesse sido a forma como ele a exibira diante de todos como se ela fosse apenas mais um recurso para conseguir o investimento que desejava. Ou talvez Amélia simplesmente estivesse cansada.

Cansada de tentar ser a filha que ele queria. Cansada de carregar uma culpa que nunca deveria ter sido sua. Cansada de esconder as mãos, as cicatrizes, a dor e todas as coisas que havia sido obrigada a guardar em silêncio durante tanto tempo.

Ela respirou fundo e, pela primeira vez, não abaixou os olhos diante do pai.

— Eu não vou tocar. 

— O quê? — Richard ficou imóvel.

— Eu disse que não vou tocar.

A voz ainda tremia, mas havia alguma coisa diferente nela. Não era mais apenas medo. Era exaustão. Era a coragem desesperada de alguém que já não tinha forças para continuar suportando.

— Amélia…

— Não. — Ela puxou o braço, mas Richard tentou segurá-la novamente.

— Você vai fazer o que eu estou mandando.

— Não vou. — Amélia olhou para a mão dele em seu braço e depois voltou os olhos para seu rosto.

— Você tem ideia do que está fazendo?

— Tenho. — As lágrimas finalmente escorreram por seu rosto. — E estou dizendo não.

— Você quer mesmo que eu faça isso? — Richard estreitou os olhos.

Amélia sentiu o coração apertar. Durante alguns segundos, tudo o que conseguiu pensar foi na palavra casa.

Aquela casa enorme onde passara tantos anos tentando encontrar algum vestígio do pai que conhecera antes de Miranda. A mesma casa onde aprendera a esconder as lágrimas, onde descobrira que algumas pessoas podiam sorrir enquanto machucavam outras e onde, durante tanto tempo, acreditara que precisava permanecer para ter algum lugar no mundo.

Mas, naquele instante, percebeu uma coisa. Talvez aquela nunca tivesse sido uma casa. Talvez fosse apenas o lugar onde Richard a mantinha após a morte de sua mãe.

Amélia soltou lentamente o braço que ele segurava e enxugou as lágrimas com a ponta dos dedos enluvados.

— Você não precisa me expulsar. — Ela respirou fundo, sentindo o peito doer.

— O quê? — Richard franziu o cenho.

— Eu vou embora sozinha. 

— Amélia… — O silêncio entre os dois pareceu mais alto do que toda a música do salão.

— Eu não vou tocar piano para você. Não vou sorrir para os seus investidores. Não vou fingir que estou feliz porque você decidiu me colocar diante de todo mundo sem sequer perguntar o que eu queria. — Sua voz falhou no final, mas ela continuou. — E não vou deixar que use a memória da minha mãe para me obrigar a fazer qualquer coisa.

O rosto de Richard endureceu e Amélia percebeu que havia cruzado uma linha. Talvez uma linha que nunca deveria ter cruzado, segundo tudo o que aprendera sobre ele.

— Se quer me deserdar, faça isso. Se quer me mandar embora, não precisa. Eu mesma vou sair daquela maldita casa.

Ela deu um passo para trás e Richard tentou segurá-la novamente, mas Amélia recuou antes que ele pudesse alcançá-la.

Então virou as costas. Não olhou para o piano. Não olhou para os convidados. Não olhou para o homem mascarado que ainda estava em algum lugar daquele salão. E, principalmente, não olhou para Richard.

Porque sabia que, se olhasse, talvez enxergasse novamente o pai que um dia amara e encontrasse alguma razão para voltar, mas dessa vez Amélia não queria voltar.

Expandir
Próximo capítulo
Baixar

Último capítulo

Mais capítulos

Para os leitores

Bem-vindo ao Goodnovel mundo de ficção. Se você gosta desta novela, ou você é um idealista que espera explorar um mundo perfeito, e também quer se tornar um autor de novela original online para aumentar a renda, você pode se juntar à nossa família para ler ou criar vários tipos de livros, como romance, leitura épica, novela de lobisomem, novela de fantasia, história e assim por diante. Se você é um leitor, novelas de alta qualidade podem ser selecionados aqui. Se você é um autor, pode obter mais inspiração de outras pessoas para criar obras mais brilhantes, além disso, suas obras em nossa plataforma chamarão mais atenção e conquistarão mais admiração dos leitores.


avaliações

Andrômeda Starmeadow
Andrômeda Starmeadow
Nossa que história profunda e envolvente amei os personagens amei a protagonista da pra sentir a dor dela , a história tem sentimento , tem profundidade te prende e é madura e cheia de reviravoltas uma leitura fluida amei ...️
2025-12-02 21:46:45
1
0
45 Capítulos
Explore e leia bons romances gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de bons romances no app GoodNovel. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no app
ESCANEIE O CÓDIGO PARA LER NO APP
DMCA.com Protection Status