INICIAR SESIÓNRand Viena
Meu nome é Rand Viena, tenho 17 anos e, para todos os efeitos, sou uma ótima filha. Amo estudar e tenho uma queda especial por perturbar a vida de pessoas desocupadas — ou daqueles que simplesmente cruzam o meu caminho de forma errada. Sou extremamente persuasiva. Minha conduta impecável e o meu rosto de anjo não condizem em nada com a minha verdadeira essência: eu posso colocar fogo em um lugar inteiro e ainda convencer a todos de que foi apenas um trágico acidente. — Precisamos nos mudar. Seu pai conseguiu aquela promoção e a oportunidade que estávamos esperando! Mais uma vez, lá estava eu tendo que me despedir dos meus "amigos" Amélia, Guto e Alicia, me forçando a encarar uma nova rotina. Esse tipo de instabilidade me irrita profundamente. — Essa é a terceira vez no ano que eu mudo de escola, mãe! É o meu último ano! Vocês não têm ideia do que estão fazendo com a minha vida. Depois não digam que eu não avisei... Nossa última parada foi em Brasília. Os dias lá até que eram tranquilos, e por um momento me senti em paz. Já rodamos por tantas cidades do Brasil que, às vezes, tenho a impressão de que meu pai é algum tipo de chefão da máfia. Mas a verdade é outra: geralmente nos mudamos porque algo muito grave acontece com as pessoas que chegam perto demais de nós. Com o tempo, prometo que vou relatar tudo. Caminhei até o meu quarto, deitei na cama e fiquei encarando o teto branco e sem graça. O clima abafado me dava enjoo. A simples notícia de encarar um novo ambiente e ter que me adaptar a novas pessoas me deixava inquieta. Eu não sou alguém fácil de lidar; costumo dar às pessoas más exatamente o que elas merecem. Isso assusta meus pais. É por isso que eles preferem que eu não faça muitas amizades. O Acontecimento... 27/07/2023 Eu estava no meu quarto, sozinha. Meus pais tinham saído para trabalhar e, como de costume, pagavam nossos vizinhos para ficarem de olho em mim — afinal, mesmo aos 15 anos, eles me tratavam como uma garotinha indefesa. A vizinha e o marido dela costumavam passar lá para levar algo para eu comer e ver se estava tudo bem. O marido, Richard, sempre me olhou de uma forma estranha. Uma olhada faminta, como se me desejasse. No início, tentei convencer a mim mesma de que era coisa da minha imaginação — até porque eu era menor de idade, e ele, um homem casado, 20 anos mais velho. Mas as investidas dele começaram a se tornar escancaradas, me provocando uma repugnância profunda. Naquele dia, ouvi batidas na porta do meu quarto. Presumi que fosse a esposa dele, mas me deparei com Richard. Eu vestia apenas roupas de dormir: um short curto e uma blusa de alça sem sutiã, que deixava o formato do meu corpo marcado. Seus olhos me devoraram com tamanha vulgaridade que instintivamente cruzei os braços sobre o peito. — A Letícia pediu para ver como você está. Por isso bati — disse ele. A voz soava calma, mas o olhar devasso percorria minha pele, me deixando enjoada. — Estou bem. Meus pais já estão chegando, obrigada. Em vez de sair, ele deu um passo para dentro, me acuando contra a parede. — O que você está fazendo? — perguntei, sentindo o pânico subir enquanto ele passava a mão pelo meu rosto e segurava o meu pescoço. — Eu sei o que você quer — ele sussurrou. — Fica me provocando... Faz questão de usar essas roupas justas quando estamos a sós só para eu te olhar. Com um golpe rápido, arranquei as mãos dele do meu pescoço e tentei me esquivar, mas aquele corpo enorme se pressionou contra o meu. Não pensei duas vezes: desferi um chute firme no meio das pernas dele e saí correndo. Éramos moradores de condomínio. Corri pelo corredor gritando por socorro, mas ninguém saiu para me ajudar. Ninguém moveria um dedo. A minha sorte foi que ele se assustou e se trancou na própria casa. Contudo, o pesadelo não acabou ali. Nos dias seguintes, meu celular não parava de receber mensagens dele. Eram ameaças pesadas, dizendo que faria coisas horríveis comigo caso eu contasse algo para a esposa dele ou para os meus pais. Passei dias sufocada pelo medo. Mas, exatamente um mês depois... ele desapareceu. Pouco tempo mais tarde, recebi a notícia de que Richard havia sido encontrado morto. Pelo visto, alguém a quem ele fez o mesmo mal decidiu fazê-lo pagar na mesma moeda. Só depois da morte dele é que criei coragem para contar aos meus pais o que havia acontecido, e nós nos mudamos imediatamente. A esposa dele ainda tentou vir atrás de mim; ela soube do que ele fez e, de forma doentia, continuou ao lado do memória do marido. Depois da mudança, nunca mais ouvi falar dela. Bem... por enquanto, ainda não darei todos os detalhes sobre o que realmente aconteceu naquele mês. Com o tempo, prometo contar a história real.O cheiro de fumaça e carne queimada nunca abandonou totalmente as minhas narinas. Durante doze longos meses, esse odor impregnou minha pele, disfarçado sob os perfumes importados mais caros e o álcool forte com que tentei anestesiar o inferno que minha vida se tornara. Mas a minha dor nunca foi de luto. Nunca foi de saudade. A dor que queimava minhas entranhas era feita do mais puro, gélido e concentrado ódio.Eu passei um ano inteiro vivendo no rescaldo da destruição causada por um monstro. Quando o jatinho particular explodiu no ar e caiu no interior de São Paulo, virando uma bola de fogo que reduziu tudo a cinzas e detritos carbonizados, o mundo inteiro achou que eu era o viúvo devastado. A perícia médica foi categórica: a arcada dentária encontrada entre os destroços, queimada pela fumaça de combustível, batia com precisão cirúrgica com os relatórios odontológicos de Rand. A ciência oficial assinou o atestado, fecharam o caixão lacrado, e todos choraram a morte da jovem e bela esp
O que o público e a perícia médica jamais desconfiariam era de um detalhe macabro que planejei com meses de antecedência. Antes mesmo de colocar o pé no jatinho, eu havia providenciado a morte perfeita. Um dentista clandestino no subúrbio havia moldado e implantado estrategicamente alguns dentes falsos com arcada modificada em fragmentos ósseos sintéticos e biológicos — obtidos no mercado negro de necrotérios —, os quais deixei escondidos no compartimento de bagagem da aeronave. Quando os peritos fossem escavar as cinzas e os detritos carbonizados, encontrariam exatamente o que precisavam para fechar o caso sem sombra de dúvidas: amostras odonto-legais forjadas que confirmariam, com precisão cirúrgica, que os restos mortais pertenciam à jovem esposa de Dhehanks. Ninguém desconfiou de nada. A ciência oficial foi a minha maior aliada.Seis meses se passaram. A Suíça me acolheu com seu ar gélido, suas montanhas cobertas de neve e sua discrição inabalável. Sob o nome de Valerie Vance, uma
O estalo metálico da câmara da Glock ecoando pelas paredes de madeira do escritório ainda ressoava nos meus ouvidos quando a porta da frente foi desferida com uma sequência de batidas violentas. Não eram batidas de um funcionário hesitation. Era o peso da autoridade. Ajustei o paletó sobre a arma velada na minha cintura, engoli o gosto amargo de fel e caminhei até o hall de entrada. Ao abrir, me deparei com o Delegado Barcellos, acompanhado de dois peritos da Polícia Civil vestindo jaquetas pretas com o brasão emborrachado e um promotor de justiça cujo rosto estampava aquela severidade burocrática de quem já havia tirado suas próprias conclusões antes de ouvir a primeira palavra. — Dhehanks — disse Barcellos, sem qualquer preâmbulo ou o mínimo decoro de pêsames. Seu olhar varreu meu rosto, demorando-se na barba por fazer de três dias e nos meus olhos injetados. — Precisamos conversar. O relatório preliminar da equipe de busca e salvamento dos destroços do jatinho acaba de chegar do I
O silêncio do meu escritório nunca pareceu tão pesado, tão sufocante, tão carregado de um fedor invisível de traição. A poeira dançava no feixe de luz que cortava as cortinas de veludo, e cada ponteiro do relógio de parede soava como uma martelada no meu esterno. Ela estava morta. Rand estava morta. Era o que o mundo dizia. Era o que os jornais gritavam nas manchetes sensacionalistas. Era o que a perícia da Polícia Civil e da Aeronáutica tentava me vender com seus relatórios frios, cheios de termos técnicos como "fadiga de material", "combustão instantânea" e "ausência de sobreviventes". Uma tempestade de fogo a cinco mil pés de altitude. Um caixão lacrado contendo cinzas, pedaços de metal derretido e um punhado de matéria orgânica irreconhecível que os legistas diziam, com uma margem estatística fria, pertencer a uma jovem de dezoito anos. Mas a minha intuição não funciona com estatísticas. Ela funciona com o estômago. E o meu estômago estava se retorcendo em nós secos, em uma n
O eco das palavras que ouvi no pátio daquela prisão ainda vibrava no meu crânio, mas não como uma ameaça; vibrava como uma piada de mau gosto. Eles me chamavam de serpente, de monstro, de ceifadora. Miguel, com sua cara de derrotado vestindo laranja, chorando pelo passado; Alicia e Amélia, tremendo nas sombras do próprio pânico; e Dhehanks, ah, o meu frágil e patético Dhehanks, soluçando como uma criança desmamada porque perdeu a chave do cofre e o status de grande homem. Eles achavam que compreendiam a extensão da minha escuridão. Achavam que me conheciam. Coitados. Eles não sabiam absolutamente nada sobre o que significa renascer das cinzas quando o mundo inteiro exige o seu fim.Eu ouvi cada palavra do que eles conversavam através das minhas escutas. A ingenuidade daquele conselho me fazia querer rir bem alto. Eles achavam que eu iria atrás do irmão dele, Degudenh, ou dos velhos Zamath e Chukran? Que perda de tempo. Eu nunca precisei de mais sangue nas minhas mãos do que o estritam
O cheiro de desinfetante barato e mofo impregnava o ar do pátio de visitas daquele complexo penitenciário de segurança máxima. Cada passo que eu dava no concreto frio parecia um eco distante do meu próprio funeral. Eu, Dhehanks Dhabajhu, um homem que há poucas horas comandava um império de bilhões, agora me arrastava como um fantasma falido, carregando a carcaça de um orgulho destruído. A sala de visitas reservada era escura. Três pessoas me aguardavam do outro lado da mesa retangular. Miguel, trajando o uniforme alaranjado de presidiário; Alicia, com olheiras profundas e o olhar endurecido por anos de trauma; e Amélia, cujas mãos tremiam levemente sobre o colo. Três vítimas sobreviventes de uma mesma tempestade. Três pessoas que eu ignorei quando rotulei seus avisos como inveja ou loucura. — Você demorou para acordar, Dhehanks — disse Miguel, com a voz abafada pelo silêncio sepulcral do recinto. Caí sobre a cadeira de ferro. O choro, contido a custo durante o trajeto até ali, final







