INICIAR SESIÓNO ar dentro do meu quarto parecia ter se transformado em chumbo. A penumbra da noite, cortada apenas pelo brilho azulado e frio da tela do meu computador, tornava o silêncio da casa pesado, quase sufocante. Eu conseguia ouvir o som pausado e descompassado da minha própria respiração, um lembrete constante de que o pânico tinha acabado de se instalar no meu peito. A tela do meu celular ainda brilhava sobre a escrivaninha de madeira, exibindo uma sequência de números desconhecidos que pareciam zombar de mim.
A ligação durou pouco menos de um minuto, mas foi o suficiente para estilhaçar a frágil ilusão de segurança que levei meses para construir. — Olá, Rand. Eu sei que foi você quem assassinou o meu marido. Eu sei que pediu para alguém jogar o corpo dele em uma vala qualquer. Eu sei onde você mora, sei onde você estuda e eu juro que irei me vingar de você. O Richard era um bom homem, jamais iria querer uma garota sonsa e insignificante como você. Seus pais e as outras pessoas ao seu redor podem até se enganar com essa sua pose de garota perfeita e indefesa, mas saiba que eu não me engano. Pode se preparar, Rand. Eu vou mostrar para o mundo inteiro a assassina e a pessoa podre que você realmente é! Antes que a minha garganta conseguisse articular um único ruído, antes que o ar voltasse para os meus pulmões para que eu pudesse formular uma defesa ou uma negação, o estalo seco do desligamento ecoou no meu ouvido. A linha ficou muda. Minhas mãos tremiam tanto que deixei o aparelho escorregar entre os dedos, colidindo contra o tampo da mesa com um baque surdo. Um suor frio e viscoso brotou na minha nuca, descendo lentamente pela minha espinha. A voz de Letícia ainda ecoava no meu cérebro, afiada como uma lâmina de barbear. Richard era um bom homem? Um bom homem? A bile subiu pela minha garganta com um gosto amargo de puro repulsa. Ela não sabia de nada. Não sabia da podridão que habitava a mente daquele sujeito, das coisas abjetas e abomináveis que ele tentou fazer comigo nas sombras do meu quarto. Ela preferia me transformar em um monstro para não encarar o demônio com quem dividia a cama. Mas a pergunta visceral que fazia minhas sêmoras tremerem era apenas uma: como ela tinha me encontrado? Como aquela mulher havia rastreado meus passos até este novo condomínio, nesta nova rotina onde eu tentava desesperadamente esquecer o cheiro de terra molhada e sangue? Eu precisava de respostas. Precisava de certeza, e precisava agora. O medo impotente é uma prisão, mas a informação é munição. Puxei o notebook para mais perto de mim, ajustando a tela. A luz clara refletiu nas minhas pupilas dilatadas. Minhas mãos, embora ainda instáveis, moveram-se com precisão mecânica sobre o teclado. Durante anos, a tecnologia e a área de Tecnologia da Informação foram meu refúgio secreto, o único lugar onde eu tinha controle absoluto sobre o ambiente. Passei meses estudando arquitetura de redes, invasão de sistemas e protocolos de segurança. O sistema de monitoramento de CFTV deste condomínio fechado de alto padrão era moderno, mas repleto de brechas na autenticação de IP local. Meus dedos voavam pelas teclas em um ritmo frenético, produzindo um estalido contínuo que preenchia o quarto escuro. sudo nmap -sS -O 192.168.1.1/24 executing exploit_bypass_auth.py... Bingo. Um bipe discreto soou nos meus fones de ouvido. A barreira do firewall ruiu. Em menos de dez minutos, criei um acesso fantasma com privilégios de administrador e contornei os servidores de gravação. Subitamente, dezenas de miniaturas de vídeo se desdobraram na minha tela, mostrando os portões de entrada, as alamedas arborizadas, as garagens e as guaritas de segurança sob a luz fraca dos postes de iluminação pública. Eu tinha as chaves dos olhos eletrônicos do condomínio. Ajustei os filtros de busca para puxar o histórico de gravações dos últimos sete dias. O relógio no canto inferior da tela marcava 01:47 da manhã. Sabia que passar a madrugada inteira revisando centenas de horas de filmagem desgastaria minha visão, mas a adrenalina me mantinha em um estado de alerta quase animalesco. Arrastei os arquivos, acelerando o tempo de reprodução em quatro vezes, pausando a cada movimento suspeito perto das grades periféricas. Uma hora se passou. Duas horas. Meus olhos ardiam, secos e vermelhos pela exposição contínua à luz da tela. Então, às 03:12 da manhã nas filmagens da última terça-feira, eu a vi. Deselei o zoom digital para aproximar a imagem da guarita secundária. A figura feminina estava parada do lado de fora do portão de visitantes, gesticulando suavemente enquanto conversava com um dos porteiros da noite. Quase não a reconheci de início. O cabelo longo e castanho-escuro que eu lembrava das poucas fotos que vi no passado tinha dado lugar a um corte chanel chamativo, tingido de um vermelho-sangue intenso. Seu corpo parecia nitidamente mais magro, quase esquelético, sustentado por uma postura rígida e obsessiva. Ela vestia um casaco escuro e segurava uma pasta sob o braço. Fiquei paralisada, observando o vídeo. Letícia gesticulava, apontava para o interior do condomínio e parecia fazer perguntas casuais, extraindo informações do segurança, que sorria sem imaginar o perigo que alimentava. O sangue gelou nas minhas veias. Ela realmente estava ali. Ela estava me rondando, farejando meus passos, cercando a minha vida. Fechei a tampa do notebook com força, mergulhando o quarto novamente na escuridão quase total. Sentei-me na borda da cama e passei as mãos pelo rosto, sentindo minha pele arder. A ilusão de paz havia terminado. Se Letícia continuasse investigando, se continuasse pressionando os funcionários do condomínio ou se decidisse ir à polícia com os fragmentos de suspeitas que tinha, o Castelo de Cartas desmoronaria. A minha mente começou a resgatar as memórias daquela noite fatídica no nosso antigo bairro. Um calafrio violento percorreu o meu corpo. Na época, eu só queria que aquele pesadelo parasse. O Richard vinha me cercando há semanas. Ele aproveitava as sombras dos becos, os horários em que eu voltava sozinha, para lançar olhares repulsivos, comentários obscenos e insinuações que me faziam querer arrancar a própria pele. Mas naquela última noite, ele foi longe demais. Ele me encurralou contra o muro de uma casa abandonada, segurou meus pulsos com uma força brutal e sussurrou no meu ouvido palavras que ainda queimam na minha memória como ferro em brasa: disse que adorava garotinhas indefesas, que já tinha dado fim a outras como eu e que eu seria apenas mais uma na conta dele. O pânico me paralisou, mas o instinto de sobrevivência falou mais alto. Eu consegui me soltar por um segundo e gritar. Guto, Alicia e Amélia estavam por perto. Nós éramos amigos de infância, criados praticamente no mesmo quintal. Nossos pais eram vizinhos e amigos de longa data. Embora na escola estudássemos em salas e horários diferentes por causa das nossas idades, nossa ligação era inquebrável. Eu sabia que podia contar com eles para qualquer coisa. Quando contei a eles sobre as ameaças, eles ficaram enfurecidos. O plano era simples: dar apenas um susto naquele desgraçado. Atraí-lo até uma área isolada, onde os três apareceriam para dar uma surra nele e mostrar que eu não estava sozinha. Mas o destino é imprevisível e cruel. Naquela noite, sob o luar pálido da estrada de terra, o plano fugiu completamente do controle. Richard não se intimidou. Ele riu da nossa cara, avançou sobre o Guto com uma violência descomunal e empurrou Alicia no chão. Quando vi aquele homem gigantesco prestes a esmagar o rosto do meu amigo no cascalho, algo dentro do meu cérebro simplesmente ruiu. Um estalo cego de fúria e autodefesa tomou conta de mim. Peguei um pedaço pesado de madeira que estava jogado no chão e avancei. Eu não pensei. Não raciocinei. Só ouvia o som da minha própria respiração descontrolada e o eco das ameaças dele na minha cabeça. O primeiro golpe atingiu a lateral do seu crânio. Ele caiu de joelhos. O segundo golpe foi no topo da cabeça. O som de osso quebrando ecoou pela clareira como um galho seco se partindo. Quando recobrei a consciência dos meus atos, o corpo de Richard já estava inerte na terra, com o sangue escuro se espalhando pela poeira. Ele não resistiu. Não sinto orgulho do que fiz, mas também não carrego o fardo do arrependimento puro. Se eu não tivesse agido, se não tivesse atingido aquele homem com toda a força que me restava, ele teria tirado a minha vida e, provavelmente, destruído a dos meus amigos. Era a minha vida ou a dele. O pânico daquele momento nos uniu em um pacto de silêncio aterrador. Guto, desesperado, usou o carro do pai para movermos o cadáver. Dirigimos durante vinte minutos até as margens da rodovia abandonada, onde jogamos o corpo de Richard no fundo de uma vala coberta por mato alto e entulho. Depois disso, implorei a eles, de joelhos, chorando sobre a poeira da estrada, que nunca, sob hipótese alguma, falassem sobre aquela noite. Se alguém descobrisse, todos nós seríamos destruídos. Minha família mudou de bairro pouco tempo depois, tentando me afastar dos traumas, mas o passado é um fantasma que recusa a permanecer enterrado. E agora, Letícia estava aqui. Ela era a ponta solta que ameaçava nos arrastar todos para o fundo do abismo. Se ela não parasse, nós passaríamos o resto de nossas vidas atrás das grades. O mal precisava ser cortado pela raiz. Eu precisava agir, e precisava dos meus amigos ao meu lado mais uma vez. Peguei o celular com a mão firme. A hesitação tinha desaparecido, substituída por uma determinação fria e calculada. Disparei uma mensagem em grupo para Guto, Alicia e Amélia: "Código Vermelho. Preciso de vocês amanhã, às 8h, na praça perto do meu condomínio. É urgente. Não faltem." A resposta deles foi quase imediata. Breve e apreensiva. Todos concordaram. Deitei a cabeça no travesseiro, mas não consegui fechar os olhos por mais do que alguns minutos espalhados. A mente rodava em cenários, possibilidades e estratégias. Quando os primeiros raios de sol começaram a cortar as frestas da persiana, levantei-me. Tomei um banho frio para despertar o corpo exausto, vesti um casaco escuro, guardei o notebook na mochila e saí. A manhã estava gelada e nebulosa. Ao cruzar os portões do condomínio, vi Dhehanks, ele ergueu a mão em uma saudação silenciosa e distante. Apenas acenei de volta com a cabeça, mantendo o passo rápido em direção à praça pública que ficava a duas quadras dali. À medida que me aproximava, avistei o sedã prata do pai de Guto estacionado sob a sombra de uma grande árvore. Através dos vidros filmados, vi as figuras familiares. Aproximei-me e abri a porta traseira, entrando rapidamente. O abraço que trocamos foi intenso, um aperto desesperado de pessoas que compartilham um segredo sombrio. Alicia e Amélia pareciam pálidas, com olheiras profundas marcando seus rostos. Guto estava no banco do motorista, com as mãos firmes no volante e o olhar fixo no painel. — O que aconteceu, Rand? — perguntou Guto, virando-se para mim. Sua voz estava carregada de uma tensão palpável. — Você parecia surtada na mensagem. — A Letícia me ligou ontem à noite — soltei as palavras sem rodeios, sentindo o ar do carro congelar instantaneamente. — Ela sabe. Disse que sabe que nós fomos os responsáveis pelo sombrio fim do Richard. Ameaçou me destruir, disse que vai provar pra todo mundo o que aconteceu. E tem mais: eu invadi o sistema de segurança do meu condomínio de madrugada. Ela esteve lá na terça-feira. Mudou o cabelo para vermelho, está mais magra, sondando os porteiros, rondando a minha casa. Ela vai vir atrás de mim, Guto. É questão de tempo. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Alicia levou as mãos à boca, sufocando um pequeno grito, enquanto Amélia começou a roer as unhas de forma compulsiva, olhando fixamente pela janela. — Não... Não, não, não! — Guto esmurrou o volante com força, fazendo o buzina emitir um som curto. — Nós não podemos fazer isso de novo, Rand! Eu não sou um assassino! Nós já carregamos aquela desgraça nas costas todos os dias! — Guto, escuta o que você está dizendo! — rebati, me inclinando para a frente, a voz baixa, mas afiada como uma navalha. — Você já tem dezoito anos, vai fazer dezanove! As meninas têm dezoito! Se ela for à polícia com qualquer prova, por menor que seja, nós seremos presos! Vamos passar dez, vinte anos em uma cela mofada! Você quer ver a sua vida acabar por causa daquela mulher? Guto saiu do carro abruptamente, pisando no asfalto e passando as mãos pelo cabelo, andando de um lado para o outro ao lado do veículo. Saí logo em seguida, acompanhada pelas meninas. — A gente precisa se acalmar! — disse Alicia, a voz trêmula. — Vamos bolar um plano para dar um susto na Letícia, mostrar que ela não deve se meter com a gente, sem precisar chegar ao extremo de matá-la! — Eu concordo com a Alicia! — interveio Amélia, com os olhos marejados. — Não podemos tirar a vida de mais ninguém, Rand. Isso vai destruir o que resta da nossa mente. — Vocês realmente acham que um 'susto' vai parar uma mulher que está cega de ódio há meses? — encarei as duas, sentindo uma lágrima quente escorrer pelo meu rosto, embora meu tom permanecesse duro. — Vocês acham que ela vai simplesmente ir embora para casa e esquecer tudo? Ela vai nos denunciar ou vai tentar nos matar primeiro! Não temos escolha. O mal precisa ser cortado pela raiz! Minha voz embargou por um segundo. A lembrança daquele momento abominável com Richard voltou como uma onda de repulsa. — Eu estou com medo! Eu odeio o fato de estarmos aqui discutindo isso! Eu não sou um monstro, mas vocês não sabem o que é sentir a mão daquele homem no meu corpo, sentir o hálito podre dele no meu pescoço sabendo que ele queria me matar! O trauma daquela noite se impregnou na minha alma! Eu agi para salvar a minha vida! Guto parou de andar e me olhou. O olhar dele era uma mistura dolorosa de pena, medo e uma ponta de pavor. Era como se ele estivesse olhando para uma estranha. — Aquele dia virou uma tragédia porque tudo deu errado, Rand — disse ele, com a voz falhada. — Era só para dar uma surra nele. Mas você... você começou a bater na cabeça dele sem parar com aquele pedaço de madeira. Você nem parecia você. Ficou cega. — Ele estava prestes a matar você, Guto! — gritei em um sussurro furioso, dando um passo na direção dele. — Ele riu na nossa cara e disse que matava garotinhas por diversão! Se fosse a sua irmã ali, ou a sua mãe, o que você teria feito?! Guto baixou os olhos, incapaz de sustentar o meu olhar. O peso da verdade desabou sobre ele. O ar entre nós ficou denso, quase irrespirável. Todos nós sab tínhamos que, por mais horrível que fosse a perspectiva, a nossa liberdade dependia de silenciarmos aquela ameaça de uma vez por todas. — Eu agi pela emoção... eu me sinto péssima todos os dias da minha vida por ter arrastado vocês para isso — murmurei, deixando o choro finalmente fluir. Alicia e Amélia se aproximaram, me envolvendo em um abraço apertado. Guto suspirou profundamente, um som carregado de resignação e derrota, e se juntou ao abraço. O pacto estava renovado, selado pelo medo compartilhado. — Vamos dar um jeito nisso — disse Guto, afastando-se e limpando o rosto. — Hoje mesmo nós vamos ficar de longe, vigiando as imediações do seu condomínio. Se a Letícia aparecer, nós vamos pegá-la. Vamos levá-la para o mesmo lugar isolado onde deixamos o Richard... e lá nós decidimos o que fazer. Puxei o celular do bolso e mostrei a eles o frame congelado da gravação de segurança, exibindo o novo visual de Letícia, o cabelo vermelho e a estrutura física mais magra. Todos memorizaram os detalhes. — Assim que a gente interceptar ela, eu te aviso — continuou Guto, o olhar agora frio e focado. — Mas precisamos agir sem fazer barulho na rua. Ela precisa ficar desacordada rapidamente. Você ainda tem aquele substância manipulada? Aquele pozinho? Concordei com a cabeça imediatamente, enfiando a mão no bolso interno do meu casaco e retirando um pequeno frasco de vidro escuro, perfeitamente vedado. — Sim — respondi, segurando o frasco contra a luz. — Eu nunca saio de casa sem ele desde aquele dia. É um sedativo poderoso, age em segundos se inalado ou misturado em algo. — Me dá isso aqui — pediu Guto, pegando o frasco da minha mão com cuidado e guardando no bolso da jaqueta. — Eu e as meninas vamos ser o mais rápidos e discretos possível. Vamos circular pelo bairro até encontrá-la. Assim que capturarmos a Letícia, eu te ligo na hora. Fica com o celular colado na mão e fica atenta. — Por favor, tomem cuidado — sussurrei, vendo-os se acomodarem de volta no carro. Guto deu a partida no motor. O som abafado do escapamento pareceu marcar o início da contagem regressiva. Assisti ao veículo se afastar lentamente pela avenida, desaparecendo na neblina matutina.O cheiro de fumaça e carne queimada nunca abandonou totalmente as minhas narinas. Durante doze longos meses, esse odor impregnou minha pele, disfarçado sob os perfumes importados mais caros e o álcool forte com que tentei anestesiar o inferno que minha vida se tornara. Mas a minha dor nunca foi de luto. Nunca foi de saudade. A dor que queimava minhas entranhas era feita do mais puro, gélido e concentrado ódio.Eu passei um ano inteiro vivendo no rescaldo da destruição causada por um monstro. Quando o jatinho particular explodiu no ar e caiu no interior de São Paulo, virando uma bola de fogo que reduziu tudo a cinzas e detritos carbonizados, o mundo inteiro achou que eu era o viúvo devastado. A perícia médica foi categórica: a arcada dentária encontrada entre os destroços, queimada pela fumaça de combustível, batia com precisão cirúrgica com os relatórios odontológicos de Rand. A ciência oficial assinou o atestado, fecharam o caixão lacrado, e todos choraram a morte da jovem e bela esp
O que o público e a perícia médica jamais desconfiariam era de um detalhe macabro que planejei com meses de antecedência. Antes mesmo de colocar o pé no jatinho, eu havia providenciado a morte perfeita. Um dentista clandestino no subúrbio havia moldado e implantado estrategicamente alguns dentes falsos com arcada modificada em fragmentos ósseos sintéticos e biológicos — obtidos no mercado negro de necrotérios —, os quais deixei escondidos no compartimento de bagagem da aeronave. Quando os peritos fossem escavar as cinzas e os detritos carbonizados, encontrariam exatamente o que precisavam para fechar o caso sem sombra de dúvidas: amostras odonto-legais forjadas que confirmariam, com precisão cirúrgica, que os restos mortais pertenciam à jovem esposa de Dhehanks. Ninguém desconfiou de nada. A ciência oficial foi a minha maior aliada.Seis meses se passaram. A Suíça me acolheu com seu ar gélido, suas montanhas cobertas de neve e sua discrição inabalável. Sob o nome de Valerie Vance, uma
O estalo metálico da câmara da Glock ecoando pelas paredes de madeira do escritório ainda ressoava nos meus ouvidos quando a porta da frente foi desferida com uma sequência de batidas violentas. Não eram batidas de um funcionário hesitation. Era o peso da autoridade. Ajustei o paletó sobre a arma velada na minha cintura, engoli o gosto amargo de fel e caminhei até o hall de entrada. Ao abrir, me deparei com o Delegado Barcellos, acompanhado de dois peritos da Polícia Civil vestindo jaquetas pretas com o brasão emborrachado e um promotor de justiça cujo rosto estampava aquela severidade burocrática de quem já havia tirado suas próprias conclusões antes de ouvir a primeira palavra. — Dhehanks — disse Barcellos, sem qualquer preâmbulo ou o mínimo decoro de pêsames. Seu olhar varreu meu rosto, demorando-se na barba por fazer de três dias e nos meus olhos injetados. — Precisamos conversar. O relatório preliminar da equipe de busca e salvamento dos destroços do jatinho acaba de chegar do I
O silêncio do meu escritório nunca pareceu tão pesado, tão sufocante, tão carregado de um fedor invisível de traição. A poeira dançava no feixe de luz que cortava as cortinas de veludo, e cada ponteiro do relógio de parede soava como uma martelada no meu esterno. Ela estava morta. Rand estava morta. Era o que o mundo dizia. Era o que os jornais gritavam nas manchetes sensacionalistas. Era o que a perícia da Polícia Civil e da Aeronáutica tentava me vender com seus relatórios frios, cheios de termos técnicos como "fadiga de material", "combustão instantânea" e "ausência de sobreviventes". Uma tempestade de fogo a cinco mil pés de altitude. Um caixão lacrado contendo cinzas, pedaços de metal derretido e um punhado de matéria orgânica irreconhecível que os legistas diziam, com uma margem estatística fria, pertencer a uma jovem de dezoito anos. Mas a minha intuição não funciona com estatísticas. Ela funciona com o estômago. E o meu estômago estava se retorcendo em nós secos, em uma n
O eco das palavras que ouvi no pátio daquela prisão ainda vibrava no meu crânio, mas não como uma ameaça; vibrava como uma piada de mau gosto. Eles me chamavam de serpente, de monstro, de ceifadora. Miguel, com sua cara de derrotado vestindo laranja, chorando pelo passado; Alicia e Amélia, tremendo nas sombras do próprio pânico; e Dhehanks, ah, o meu frágil e patético Dhehanks, soluçando como uma criança desmamada porque perdeu a chave do cofre e o status de grande homem. Eles achavam que compreendiam a extensão da minha escuridão. Achavam que me conheciam. Coitados. Eles não sabiam absolutamente nada sobre o que significa renascer das cinzas quando o mundo inteiro exige o seu fim.Eu ouvi cada palavra do que eles conversavam através das minhas escutas. A ingenuidade daquele conselho me fazia querer rir bem alto. Eles achavam que eu iria atrás do irmão dele, Degudenh, ou dos velhos Zamath e Chukran? Que perda de tempo. Eu nunca precisei de mais sangue nas minhas mãos do que o estritam
O cheiro de desinfetante barato e mofo impregnava o ar do pátio de visitas daquele complexo penitenciário de segurança máxima. Cada passo que eu dava no concreto frio parecia um eco distante do meu próprio funeral. Eu, Dhehanks Dhabajhu, um homem que há poucas horas comandava um império de bilhões, agora me arrastava como um fantasma falido, carregando a carcaça de um orgulho destruído. A sala de visitas reservada era escura. Três pessoas me aguardavam do outro lado da mesa retangular. Miguel, trajando o uniforme alaranjado de presidiário; Alicia, com olheiras profundas e o olhar endurecido por anos de trauma; e Amélia, cujas mãos tremiam levemente sobre o colo. Três vítimas sobreviventes de uma mesma tempestade. Três pessoas que eu ignorei quando rotulei seus avisos como inveja ou loucura. — Você demorou para acordar, Dhehanks — disse Miguel, com a voz abafada pelo silêncio sepulcral do recinto. Caí sobre a cadeira de ferro. O choro, contido a custo durante o trajeto até ali, final







